O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia

Jostein Gaarder

Traduo de: Catarina Belo

EDITORIAL PRESENA

Quem no sabe prestar contas
De trs milnios
Permanece nas trevas ignorante,
E vive o dia que passa

JOHANN WOLFGANG GOETHE

9

O JARDIM DO DEN

...algo teria de surgir a certa altura do nada...

Sofia Amundsen regressava da escola. Percorrera com Jorunn o primeiro 
troo do caminho. Tinham conversado sobre robs. Para Jorunn, o crebro 
humano era um computador complexo. Sofia no estava de acordo. Um homem 
deveria ser algo mais do que uma mquina.
No supermercado, despediram-se. Sofia morava no extremo de um extenso 
bairro de vivendas e o caminho que tinha de percorrer para a escola era 
quase o dobro do de Jorunn. A sua casa parecia ficar no fim do mundo, 
porque atrs do jardim j no havia casas, apenas floresta.
Meteu para Kveveien. No fim da rua, havia uma curva estreita, a que
chamavam a
"Curva do Capito", e onde quase s ao fim-de-semana se viam pessoas.
Era o comeo de Maio.
Nalguns jardins, os narcisos
formavam coroas de flores sob
as rvores de fruto. As btulas tinham uma fina penugem
verde.
No era estranho que nessa
estao do ano tudo comeasse
a crescer e a desenvolver-se?
Porque  que essa massa de
plantas verdes podia nascer
da terra inanimada logo que o
tempo ficava mais quente e os
ltimos vestgios de neve tinham desaparecido?
Sofia espreitou para a
caixa do correio antes de
abrir o porto do jardim.
Geralmente havia muita publicidade e alguns envelopes
grandes para a sua me. Sofia
colocava sempre um monte
de cartas na mesa da cozinha,
indo depois para o quarto fazer os trabalhos de casa.
Para o seu pai chegavam
por vezes cartas do banco,
mas ele tambm no era um pai
comum. O pai de Sofia era
capito num petroleiro e estava fora quase todo o ano.
Quando regressava a casa
por poucas semanas, deambulava de chinelos pela casa, e
cuidava de Sofia e da me de
uma forma enternecedora. No
entanto, quando estava em
viagem, podia parecer muito
distante.

10
Nesse dia havia apenas uma
pequena carta na grande caixa
do correio, e era para Sofia.
"Sofia Amundsen", estava
escrito no pequeno envelope.
"Klverveien 3". Era tudo,
sem remetente. A carta nem
sequer tinha selo.
Imediatamente aps ter fechado o porto, Sofia abriu
o envelope. Encontrou uma
pequena folha, que no era
maior do que o respectivo envelope. Na folha estava escrito: quem s 
tu?
Mais nada. No havia assinatura, apenas estas trs
palavras escritas  mo, seguidas de um grande ponto de
interrogao.
Observou uma vez mais o
envelope. Sim, a carta era
de facto para si, mas quem 
que a tinha posto na caixa do
correio?
Sofia apressou-se a abrir
a porta da casa vermelha.

Como de costume, o gato
Sherekan saiu furtivamente
dos arbustos, saltou para o
patamar e enfiou-se em casa,
antes de Sofia fechar a porta.
- Bichano, bichano, bichano!

Se, por algum motivo, a
me de Sofia estava zangada,
dizia que a sua casa parecia
uma feira de animais. Uma
feira de animais era uma coleco de animais diversos e,
na realidade, Sofia estava
bastante satisfeita com a sua
coleco. No incio, tinha
recebido um aqurio com os
peixes dourados Caracolinho
Dourado, Capuchinho Vermelho e Diabrete. Mais tarde,
foi a vez dos periquitos Tom
e Jerry, a tartaruga Govinda e finalmente o gato amarelo Sherekan. Todos 
aqueles
animais eram uma espcie de
compensao pelo facto de a
sua me chegar tarde a casa e
de o seu pai estar quase sempre a viajar.
Sofia atirou a mala da escola para um canto e ps um
prato com comida de gato para
Sherekan. Depois, foi sentar-se num banco da cozinha,
com a misteriosa carta na
mo.
Quem s tu?
Se ela soubesse! Era obviamente Sofia Amundsen,
mas quem era Sofia Amundsen? Ainda no tinha descoberto totalmente.
E se tivesse outro nome?
Anne Knutsen, por exemplo.
Seria ento uma outra pessoa?
Subitamente, lembrou-se de
que o seu pai inicialmente
lhe gostaria de ter dado o
nome Synnve. Sofia procurava imaginar como seria se
cumprimentasse algum e se se
apresentasse como Synnve
Amundsen - mas no, no
conseguia. Imaginava sempre
uma outra pessoa.

11
Saltou do banco e, com a
estranha carta na mo, dirigiu-se para o quarto de banho. Colocou-se em 
frente do
espelho, e olhou-se fixamente
nos olhos.
- Eu sou Sofia Amundsen - disse.
A rapariga do espelho nem
sequer respondeu com uma careta. Aquilo que Sofia fizesse, ela f-lo-ia 
exactamente da mesma forma. Sofia
procurava adiantar-se em relao ao espelho com um movimento muito 
rpido, mas a outra era igualmente rpida.
- Quem s tu? - perguntou Sofia.
De novo no recebeu nenhuma resposta, mas por um breve
momento no soube se tinha
sido ela ou o seu reflexo no
espelho a fazer a pergunta.
Sofia tocou com o indicador no nariz reflectido no
espelho e disse:
- Tu s eu.
No recebendo resposta alguma, inverteu a frase:
- Eu sou tu.
Sofia Amundsen nunca estivera particularmente satisfeita com a sua 
figura. Ouvia frequentemente dizer que
tinha uns belos olhos de
amndoa, mas as pessoas diziam-no, sem dvida, porque o
seu nariz era demasiado pequeno e a boca um pouco grande. Alm disso, as 
orelhas
estavam demasiado junto aos
olhos. Mas o mais grave eram
os cabelos lisos, difceis de
tratar. Por vezes, o pai
passava a mo pelos seus cabelos e chamava-lhe "a rapariga dos cabelos de 
linho",
referindo-se a uma composio
de Claude Debussy. Para
ele era fcil diz-lo, visto
que no estava condenado para
toda vida a ter cabelos compridos e negros, completamente lisos. Nos 
cabelos de
Sofia nem o gel nem os
sprays faziam efeito.
Por vezes, achava-se to
estranha que se perguntava se
no seria disforme de nascena. A sua me tinha-lhe falado num parto 
difcil. Mas
seria possvel o nascimento
determinar, de facto, a figura de cada um?
No era estranho que ela
no soubesse quem era? No
era absurdo no poder decidir
nada quanto  sua figura?
Tinha simplesmente nascido
consigo. Podia escolher os
seus amigos, mas no se escolhera a si mesma. Nunca tinha decidido que 
queria ser
um ser humano.

O que era um ser humano?
Sofia observou de novo a
rapariga do espelho.
- Vou mas  fazer os meus
trabalhos de biologia - disse, como que desculpando-se.
Em seguida, estava  entrada
da casa.
- No, prefiro ir para o
jardim - pensou.
- Bichano, bichano, bichano!
Sofia enxotou o gato para
a escada e fechou a porta.

12
Quando ia pelo caminho de
saibro com a misteriosa carta
na mo, teve uma estranha
sensao. Imaginava-se como
um boneco que, por artes mgicas, se tivesse tornado vivo.
No era estranho que estivesse no mundo e pudesse tomar parte naquela 
aventura?
Sherekan saltou elegantemente pelo caminho de saibro
e desapareceu por entre os
espessos arbustos. Um gato
vivo, desde a ponta dos bigodes brancos at  cauda ondulante na 
extremidade do corpo. Tambm ele estava no
jardim, mas certamente no
estava to consciente disso
como Sofia.
Depois de ter pensado um
pouco acerca do facto de
existir, comeou tambm a
pensar que no estaria ali
sempre.
"Neste momento estou no
mundo", pensou, "mas um dia
terei desaparecido".
Haveria uma vida aps a
morte? O gato tambm no tinha a mnima conscincia deste problema.
A av paterna de Sofia
tinha morrido recentemente.
Quase todos os dias, h mais
de meio ano, Sofia pensava
no quanto sentia a sua falta.
No era injusto que a vida
tivesse sempre um fim?
Sofia parou no caminho de
saibro, cismando. Procurou
concentrar-se no facto de
existir, procurando assim esquecer que no existiria sempre. Mas isso era 
de todo impossvel. Quando se concentrava no pensamento da sua
existncia, emergia imediatamente a ideia do fim da vida.
O contrrio era igualmente
verdadeiro: s quando se
apercebia que um dia teria
desaparecido, compreendia
claramente que a vida era infinitamente valiosa. Era como as duas faces 
da mesma
moeda, uma moeda que ela virava constantemente. E quanto maior e mais 
clara era uma
face da moeda, maior e mais
clara se tornava tambm a outra. A vida e a morte eram
duas faces do mesmo problema.
No podemos imaginar que
vivemos sem pensar que temos
de morrer, dizia para consigo. Do mesmo modo,  impossvel reflectir 
sobre o facto
que temos de morrer sem sentirmos simultaneamente que
viver  algo maravilhoso.
Sofia lembrou-se que a
av, no dia em que soubera da
sua doena, dissera algo semelhante. - S agora tomo
conscincia de como a vida 
rica - dissera ela.
No era triste que a maior
parte das pessoas tivesse que
ficar doente para reconhecer
que a vida era bela? Talvez
tivesse bastado receber uma
carta misteriosa!
Decidiu verificar se teria
chegado algo mais. Sofia
correu para o porto e espreitou para dentro da caixa
do correio. Ficou espantada quando

13
encontrou um envelope totalmente idntico. Mas, ser
que verificara, quando retirou a primeira carta, se a
caixa estava, de facto, vazia?
Naquele envelope tambm
estava escrito o seu nome.
Abriu-o e retirou uma folha
branca, igual  primeira.
De onde vem o mundo? -
estava escrito.
No fazia ideia. Ningum
sabe tal coisa! E, no entanto, Sofia achou esta pergunta legtima. Pela 
primeira
vez na sua vida pensou que
era quase impossvel viver
num mundo sem perguntar pela
sua origem.
Sofia tinha ficado to
perturbada com a misteriosa
carta que decidiu ir para a
sua toca. A toca de Sofia
era um esconderijo. S ia
para l quando estava muito
irritada, muito triste ou
muito contente. Nesse dia
estava confusa.

A casa vermelha ficava no
meio de um extenso jardim.
Havia a muitos canteiros,
groselheiras e diversas rvores de fruto, um grande relvado com um 
baloio e inclusivamente um pequeno caramancho que o av construra
para a av, quando a sua primeira filha morreu, poucas
semanas aps o nascimento. A
pobre criana chamava-se Marie. Na lpide do seu tmulo
estava escrito: "A pequena
Marie veio ao nosso encontro, acenou-nos e foi-se embora".
Num canto do jardim, por
detrs das framboeseiras, havia uma espessa moita que no
produzia nem flores nem bagas. Na realidade, tratava-se de uma velha 
sebe, que
fazia fronteira com o bosque,
e que tinha crescido at se
transformar numa moita impenetrvel porque, nos ltimos
vinte anos, ningum cuidara
dela. A av contara que durante a guerra, altura em que
as galinhas corriam livremente pelo jardim, a sebe tinha
tornado um pouco mais difcil
a caa s galinhas, levada a
cabo pelas raposas.
Para os outros, a velha
sebe era to intil como as
coelheiras antigas, que ficavam um pouco mais  frente no
jardim. Mas ningum conhecia
o segredo de Sofia. Tanto
quanto Sofia se conseguia
lembrar, tinha descoberto uma
estreita passagem atravs da
sebe. Quando a atravessava
de gatas, atingia rapidamente
um grande espao, que era o
seu esconderijo. A, podia
estar completamente segura de
que ningum a encontraria.
Com os envelopes na mo,
Sofia atravessou o jardim
correndo e rastejou com o
apoio dos braos atravs da
sebe. A toca era to grande,
que quase podia ficar de p,
mas decidiu sentar-se numas
razes grossas. De dentro
conseguia ver para o exterior, atravs de dois orifcios minsculos, por 
entre
ramos e folhas. Apesar de
nenhuma destas aberturas ser
maior do que uma moeda, ela
tinha o panorama

14
de todo o jardim. Quando era
mais pequena, observava divertida a me ou o pai  sua
procura, no meio das rvores.
Para Sofia, o jardim tinha sido sempre um mundo 
parte. Sempre que ouvira falar do jardim do den na
histria da Criao, lembrava-se da sua toca e de como
era estar l sentada e observar o seu prprio pequeno paraso.
"De onde vem o mundo?"
No, ela no o sabia.
Sofia sabia obviamente que a
Terra era apenas um pequeno
planeta no universo imenso.
Mas de onde vinha o universo?
Era possvel pensar que o
universo tivesse existido
sempre; sendo assim, no precisava de procurar a resposta
para a pergunta sobre a sua
origem. Mas poderia alguma
coisa ser eterna? Qualquer
coisa nela recusava esta
ideia. Tudo o que existe tem
que ter um comeo. Por isso,
o universo tinha de ter surgido de outra coisa.
Mas se o universo tivesse
surgido subitamente de uma
outra coisa, ento tambm
esta outra coisa teria de ter
surgido, a dada altura, de
uma outra. Sofia compreendeu
que apenas diferia o problema. Afinal, alguma coisa teria de ter surgido 
do nada a
certa altura. Mas seria isso
possvel? Este pensamento
no seria to impossvel como
o de o mundo ter sempre existido?
Na aula de religio,
aprendiam que Deus tinha
criado o mundo, e Sofia procurou ento tranquilizar-se
com a ideia de que essa era,
no fundo, a melhor soluo
para o problema. No entanto,
comeou de novo a pensar.
Podia facilmente aceitar que
Deus tivesse criado o universo, mas o que se passava
pensando em Deus? Ser que
se tinha criado a si mesmo do
nada? De novo, algo nela
discordava deste pensamento.
Apesar de Deus poder criar
todas as coisas, dificilmente
se poderia criar a si mesmo,
antes de ter um "ele mesmo",
com o qual pudesse criar.
Restava apenas uma possibilidade: Deus existira sempre. Mas ela j pusera 
de
parte essa possibilidade.
Tudo o que existia tinha de
ter um comeo.
- Que diabo!
Abriu de novo os envelopes.
- Quem s tu?
- De onde vem o mundo?
Que perguntas terrveis!
E de onde vinham ambas as
cartas? Isso era igualmente
misterioso.
Quem  que arrancara Sofia  realidade quotidiana e
a confrontara subitamente com
os grandes enigmas do universo?
Pela terceira vez, Sofia
foi  caixa do correio. S
nesta altura  que o carteiro
tinha trazido a correspondncia diria. Sofia retirou um

15
monte de correio com publicidade, jornais e duas cartas
para a me. Havia tambm um
postal, com a fotografia de
uma praia do Sul. Voltou o
postal. Tinha selos noruegueses e o carimbo "Contingente ONU". Seria do 
seu
pai? Mas ele no estava noutro stio? De resto, no era
a sua letra.
Sofia sentiu o pulso bater
com mais fora  medida que
lia a direco no postal.
"Hilde Mller Knag, a/c
Sofia Amundsen, Klverveien 3..." O resto da morada estava correcto. No
postal estava escrito:

Querida Hilde! Parabns
pelos teus 15 anos! Como
compreendes, quero dar-te um
presente, que te ajudar a
crescer. Peo desculpa por
mandar o postal pela Sofia.
Era mais fcil deste modo.

Saudades, do pai

Sofia correu para casa e
precipitou-se para a cozinha.
Sentia uma tempestade dentro
de si.
Quem era esta "Hilde" que
completava 15 anos um ms
antes do seu aniversrio?
Foi buscar a lista telefnica  entrada. Havia muitas
pessoas com o nome Mller, e
algumas com o nome Knag, mas
em toda a lista telefnica
no havia ningum com o nome
Mller Knag.
Examinou de novo o misterioso postal. Sim, era autntico, com selo e 
carimbo.
Porque  que um pai enviaria um postal de aniversrio
para a morada de Sofia, se
era bvio que devia ser enviado para outro local? Que
tipo de pai enviaria um postal de aniversrio para o endereo errado, 
impedindo que
a filha o recebesse? Como 
que poderia ser "mais fcil"
deste modo? E sobretudo, como poderia ela encontrar essa
tal Hilde?
Sofia tinha ento mais um
problema que se tornava um
quebra-cabeas. Procurou de
novo organizar as ideias na
sua mente.
No decorrer de poucas horas, tinha sido confrontada
com trs enigmas. O primeiro
enigma dizia respeito  identidade da pessoa que tinha
posto ambos os envelopes
brancos na sua caixa do correio. O segundo eram as
questes difceis que estas
cartas colocavam. O terceiro
enigma era quem era Hilde
Mller Knag e por que motivo Sofia tinha recebido um
postal de aniversrio endereado a esta rapariga desconhecida?
Ela tinha a certeza de que
estes trs enigmas estavam de
algum modo relacionados, visto que, at ento, vivera uma
existncia normal.

16

A Cartola

... para nos tornarmos
bons filsofos precisamos
unicamente da capacidade de
nos surpreendermos...

Sofia calculou que o autor
das cartas annimas daria de
novo notcias. Decidiu no
contar nada a ningum acerca
das cartas.
Na escola, tornava-se-lhe
difcil concentrar-se no que
o professor dizia. Achou que
ele falava apenas de coisas
sem importncia. Porque 
que ele no falava antes
acerca do que  um ser humano
- ou do que  o mundo, e
qual fora a sua origem?
Experimentava uma sensao
que nunca experimentara antes: na escola e por toda a
parte as pessoas ocupavam-se
apenas com coisas fteis.
Mas havia questes importantes e difceis, cuja resposta
era mais importante do que as
disciplinas normais da escola.
Teria algum respostas
para estes problemas? De
qualquer modo, Sofia achava
mais importante reflectir sobre eles do que aprender de
cor os verbos irregulares.
Quando, aps a ltima
aula, a campainha tocou, ela
saiu to depressa do ptio da
escola que Jorunn teve de
correr para a alcanar.
Passado um pouco, Jorunn
perguntou:
- Que tal se jogssemos
s cartas hoje  tarde?
Sofia encolheu os ombros.
- Acho que j no estou
muito interessada em jogos de
cartas.
Jorunn pareceu cair das nuvens.
- No? Jogamos ento
badminton?
Sofia olhou fixamente para
o asfalto - e depois para a
amiga.
- Acho que j nem o badminton me interessa.
- Est bem!
Sofia sentiu na voz de
Jorunn um tom de azedume.
- Podes ento dizer-me o
que  que passou a ser mais
importante?
Sofia abanou a cabea.
- Isso...  um segredo.

17
- J percebi. Ests
apaixonada.
Caminharam juntas algum
tempo em silncio. Quando
chegaram ao campo desportivo,
Jorunn disse:
- Eu vou pelo campo.
"Pelo campo". Esse era o
caminho mais curto para
Jorunn, mas ela s o fazia
quando tinha que chegar cedo
a casa, porque esperava visitas, ou porque tinha consulta
no dentista.
Sofia teve pena de ter magoado Jorunn. Mas o que deveria ter respondido? 
Que
estava subitamente muito ocupada em saber quem era e de
onde vinha o mundo e que j
no tinha tempo para jogar
badminton? Ser que a sua
amiga teria entendido?
Por que motivo era to difcil tratar das questes
mais importantes e simultaneamente mais naturais?
Sentiu o corao bater
mais depressa  medida que
abria a caixa do correio.
Primeiro viu apenas uma carta do banco e alguns envelopes amarelos e 
grandes, para
a sua me. Que aborrecimento. Sofia tinha esperado
tanto receber uma nova carta
do remetente desconhecido!
Quando estava a fechar o
porto, encontrou escrito num
dos envelopes grandes o seu
nome. No verso, lia-se:
Curso de Filosofia. No
dobrar.
Sofia percorreu o caminho
de saibro e deixou a mala da
escola na escada. Empurrou
as restantes cartas para debaixo do capacho, correu para
o jardim atrs da casa e refugiou-se na toca. A carta
grande tinha de ser aberta
ali.
Sherekan correra atrs
dela, mas contra isso nada
podia fazer. Sofia tinha a
certeza de que o gato no daria  lngua.
O envelope continha trs
grandes folhas escritas  mquina, unidas com um clipe.
Sofia comeou a ler.

O que  a filosofia?

Cara Sofia! H muitas
pessoas que tm diversos
hobbys. Algumas coleccionam moedas antigas ou selos,
outras fazem trabalhos manuais, outras ainda dedicam
quase todo o tempo livre a
uma modalidade desportiva.
Muitos gostam de ler. Mas
aquilo que lemos pode variar
muito. H quem leia apenas
jornais ou banda desenhada,
outros gostam de romances,
outros ainda preferem livros
sobre os mais variados temas
como a astronomia, a vida
selvagem ou as descobertas
tcnicas.

18
Se estou interessado em
cavalos ou pedras preciosas,
no posso exigir que todos os
outros partilhem deste interesse. Se me sento em frente
 televiso encantado com todos os programas desportivos,
tenho de aceitar que outros
possam achar o desporto aborrecido.
Haver alguma coisa que
interesse a toda a gente?
Haver alguma coisa que diga
respeito a todas as pessoas,
independentemente do que so
e do stio do mundo onde vivem? Sim, cara Sofia, h
questes que dizem respeito a
todos os homens. E neste
curso trata-se precisamente
dessas questes.
Qual a coisa mais importante na vida? Se o perguntarmos a algum num pas 
com
o problema da fome, a resposta : a comida. Se pusermos
esta questo a algum que esteja com frio, nesse caso a
resposta : o calor. E se
perguntarmos a uma pessoa que
se sinta muito sozinha a resposta ser certamente: a companhia de outras 
pessoas.
Mas admitindo que todas
estas necessidades esto satisfeitas - ser que resta
alguma coisa de que todos os
homens precisam? Os filsofos acham que sim. Segundo
eles, o homem no vive apenas
do po.  evidente que todos
os homens precisam de comer.
Todos precisam de amor e de
ateno, mas h algo mais de
que todos os homens precisam.
Precisamos de descobrir quem
somos e porque  que vivemos.
Interessarmo-nos pela razo da nossa existncia no 
um interesse ocasional, como
o interesse em coleccionar
selos. Quem se interessa por
tais problemas, preocupa-se
com tudo aquilo que os homens
discutem desde que apareceram
neste planeta. A questo
acerca da origem do universo,
do globo terrestre e da vida
 mais vasta e mais importante do que saber quem ganhou
mais medalhas de ouro nos ltimos Jogos Olmpicos.

A melhor maneira de nos
iniciarmos na filosofia  colocar perguntas filosficas:
Como se formou o mundo?
Haver uma vontade ou um
sentido por detrs daquilo
que acontece? Haver vida
depois da morte? Como podemos encontrar resposta para
estas perguntas? E, acima de
tudo, como deveramos viver?
Estas perguntas foram colocadas desde sempre pelos
homens. No conhecemos nenhuma cultura que no tenha
perguntado quem so os homens
e de onde vem o mundo.
As perguntas filosficas
que podemos colocar no so
muitas mais. J colocmos
algumas das mais importantes.
A histria oferece-nos muitas respostas diferentes para
cada uma destas perguntas.

19
Por isso,  mais fcil
formular perguntas filosficas do que encontrar a sua
resposta.
Mesmo hoje, cada um deve
encontrar as suas respostas
para estas perguntas. No
podemos saber se Deus existe
ou se h vida depois da morte, consultando a enciclopdia. A enciclopdia 
no nos diz como devemos viver. Mas
ler o que outros homens pensaram pode no entanto ser uma
ajuda, se quisermos formar a
nossa prpria concepo da
vida e do mundo.
A busca da verdade pelos
filsofos pode ser talvez
comparada a um romance policial. Alguns pensam que
Andersen  o assassino, outros pensam que  Nielsen ou
Jepsen. Talvez o verdadeiro
mistrio deste crime possa
ser um dia esclarecido subitamente pela polcia. Podemos tambm pensar 
que a polcia nunca conseguir resolver o enigma. Mas este
tem, no entanto, uma soluo.
Mesmo quando  difcil
responder a uma pergunta, 
possvel imaginar que a pergunta possa ter uma - e apenas uma - resposta 
correcta.
Ou h uma forma de vida aps
a morte ou no.
Muitos enigmas antigos foram entretanto resolvidos
pela cincia. Outrora, o aspecto da face oculta da Lua
era um grande mistrio. No
se podia descobrir a resposta
atravs da discusso, e assim
era deixada  imaginao de
cada um. Mas hoje em dia sabemos exactamente qual  o
aspecto da face oculta da
Lua. J no podemos acreditar que haja um homem a viver
na lua, ou que ela seja um
queijo.

Segundo um filsofo grego
que viveu h mais de dois mil
anos, a filosofia surgiu da
capacidade que os homens tm
de se surpreender. O homem
acha to estranho viver, que
as perguntas filosficas surgem por si mesmas.
Pensa no que sucede quando
observamos um truque de magia: no conseguimos perceber
como  possvel aquilo que
estamos a ver. E perguntamo-nos: como  que o ilusionista conseguiu 
transformar
dois lenos brancos de seda
num coelho vivo?
Para muitos homens, o mundo parece to inexplicvel
como o coelho que um ilusionista retira subitamente de
uma cartola at ento vazia.
No que diz respeito ao
coelho, percebemos claramente
que o ilusionista nos enganou. O que pretendemos descobrir  como nos 
enganou.
Quando falamos sobre o mundo, a situao  diferente.
Sabemos que o mundo no 
pura mentira, uma vez que ns
estamos na Terra e somos uma
parte do universo. Na verdade, somos o coelho branco que
 retirado da cartola. A diferena entre ns e o coelho
branco  apenas

20
o facto de o coelho no saber
que participa num truque de
magia. Connosco passa-se de
modo diferente. Sentimos que
tomamos parte em algo misterioso, e gostaramos de esclarecer de que modo 
tudo
est relacionado.

P.S. No que diz respeito
ao coelho branco, o melhor 
talvez compar-lo com o conjunto do universo. Ns, que
vivemos aqui, somos parasitas
minsculos que vivem na pele
do coelho. Mas os filsofos
procuram trepar pelos plos
finos, de modo a poderem fixar nos olhos o grande ilusionista.

Ests a seguir-me, Sofia?
Recebers a continuao.

Sofia estava exausta. Se
estava a seguir? J nem sabia se tinha respirado durante a leitura.
Quem tinha trazido a carta? Quem? Quem?
Era impossvel que fosse a
mesma pessoa que enviara o
postal de aniversrio a
Hilde Mller Knag, visto
que o postal tinha selo e carimbo, e o envelope amarelo
fora colocado directamente na
caixa do correio exactamente
como os envelopes brancos.
Sofia olhou para o relgio. Eram apenas trs menos
um quarto. S da a duas horas  que a sua me chegaria
do trabalho.
Sofia foi de novo para o
jardim, e correu para a caixa
do correio. Haveria mais alguma coisa?
Encontrou um outro envelope amarelo, no qual estava
escrito o seu nome. Olhou 
sua volta, mas no conseguiu
descobrir ningum. Correu
para a orla do bosque e olhou
em redor, mas no encontrou
ali vivalma. De repente, pareceu-lhe ouvir ramos a estalar mais  frente 
no bosque.
Mas no tinha a certeza ab 20-21
soluta, e no faria sentido
ir no encalo de algum que
tentava fugir-lhe.
Sofia abriu a porta de
casa com a chave e colocou a
mala da escola e a correspondncia para a me no cho.
Foi para o quarto, pegou na
grande caixa de biscoitos onde guardava a sua coleco de
pedras, ps as pedras no cho
e colocou os dois envelopes
grandes na caixa. Foi de novo para o jardim com a caixa
nas mos, depois de ter dado
de comer a Sherekan.
- Bichano, bichano, bichano!
Sentada de novo dentro da
toca, abriu o envelope e retirou vrias folhas escritas
 mquina. Comeou a ler.

21
Um ser estranho

C estamos de novo. Com
certeza j percebeste que
este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas.
Eis mais algumas observaes
introdutrias.
Eu j disse que a capacidade de nos surpreendermos 
a nica coisa de que precisamos para nos tornarmos bons
filsofos? Se no o disse,
digo-o agora: A CAPACIDADE
DE NOS SURPREENDERMOS  A
NICA COISA DE QUE PRECISAMOS
PARA NOS TORNARMOS BONS FILSOFOS.
Todas as crianas pequenas
possuem essa capacidade, isso
 lvio. Com poucos meses de
vida, comeam a aperceber-se
de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem,
esta capacidade parece diminuir. Qual ser o motivo?
Poder Sofia Amundsen responder a esta pergunta?
Se um recm-nascido pudesse falar, diria certamente
muitas coisas sobre o estranho mundo a que chegou. Porque ainda que a 
criana no
possa falar, vemos como aponta  sua volta e agarra com
curiosidade os objectos no
quarto.
Quando comea a falar, a
criana fica parada cada vez
que v um co e chama:
- o, o! Comea a agitar-se
no carrinho, e move freneticamente os braos: - \o,
o! Ns, que temos mais idade, sentimo-nos talvez pouco
 vontade com o entusiasmo da
criana. - Sim, sim, isso 
um o o! - dizemos muito sabedores. - Mas agora senta-te. No estamos 
assim to
entusiasmados. J tnhamos
visto ces antes.
Provavelmente, esta cena
repete-se algumas cem vezes
at que a criana possa passar por um co sem ficar fora
de si. Ou por um elefante,
ou por um hipoptamo. Mas
muito antes que a criana
aprenda a falar correctamente
- ou antes que aprenda a
pensar filosoficamente - o
mundo tornou-se para ela algo
habitual.
 pena.
Ser a minha tarefa impedir que tu, cara Sofia, te
tornes uma daquelas pessoas
para quem o mundo  evidente.
Para termos a certeza, vamos
fazer duas experincias mentais, antes de comearmos com
o curso de filosofia propriamente dito.
Imagina que ds um passeio
pelo bosque. De repente,
descobres  tua frente uma
pequena nave espacial. Da
nave espacial, um marciano
desce e olha fixamente para
ti...
O que pensarias numa situao dessas? Bom, isso, no
fundo,  indiferente. Mas j
pensaste que tu mesma s tambm um marciano?

22
Obviamente, no  particularmente provvel que alguma
vez ds com uma criatura de
outro planeta. Nem sequer
sabemos se h vida nos outros
planetas. Mas  possvel que
tu ds contigo mesma. Pode
acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas
de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num 
passeio
pelo bosque.
Eu sou um ser estranho,
pensas tu. Sou um animal
misterioso...
Pareces acordar de um sono
de muitos anos como a Bela
Adormecida. Quem sou eu?
perguntas. Sabes que ests
num planeta do universo. Mas
o que  o universo?
Se te descobrires desta
maneira, descobriste algo to
misterioso como o marciano
que mencionmos anteriormente. No s descobriste um
extraterrestre mas sentes interiormente que tu prpria s
um ser desses.
Ainda me ests a seguir,
Sofia? Vamos fazer mais uma
experincia:
Certa manh, o pai, a me
e o pequeno Toms, que tem
dois ou trs anos, esto sentados na cozinha durante o
pequeno-almoo. De repente,
a me levanta-se e vira-se
para o lava-loua: nesse preciso momento, o pai comea a
voar em direco ao tecto,
enquanto Toms observa.
O que te parece que Toms
diz? Provavelmente, aponta
para o pai e diz: - O pai
voa!
Certamente que Toms ficaria admirado. Mas o pai
faz coisas to estranhas que
um pequeno voo acima da mesa
j no tem importncia aos
seus olhos. Todos os dias
faz a barba com uma mquina
engraada, por vezes trepa ao
telhado para orientar a antena da televiso - ou enfia a
cabea junto ao motor do carro e aparece depois todo negro.
Depois,  a vez da me.
Ela ouviu o que Toms disse
e volta-se rapidamente. Como
achas que reagir vendo o marido a esvoaar sobre a mesa
da cozinha?
O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mo,
comear a gritar de medo.
Talvez tenha de ir ao mdico, mesmo depois de o pai se
ter sentado de novo na cadei 22-23
ra. (Ele j devia ter
aprendido h muito tempo como
se comportar  mesa!).
Porque  que Toms e a
me reagem de forma to diferente?
 uma questo de hbito.
(Toma nota disto!). A me
aprendeu que os homens no
podem voar. Toms no. Ainda no distingue o que  possvel do que no .
Mas o que dizer do mundo,
Sofia? Achas que o mundo 
possvel? Tambm est suspenso no espao.
O mais triste  que ao
crescermos no nos habituamos
apenas  lei da gravidade,
habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.

23
Aparentemente, perdemos
durante a nossa infncia a
capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com
isso, perdemos algo essencial
- algo que os filsofos querem reavivar. Porque em ns
algo nos diz que a vida  um
grande mistrio. J tivemos
essa sensao muito antes de
termos aprendido a pensar
nisso.

Vou ser mais preciso: apesar de todas as questes filosficas dizerem 
respeito a
todos os homens, nem todos os
homens se tornam filsofos.
Por diversos motivos, a
maior parte est presa de tal
forma ao quotidiano que o espanto perante a vida  muito
escasso. (Descem para a pele do coelho, acomodam-se e
permanecem l em baixo para o
resto da vida).
Para as crianas, o mundo
- e tudo o que existe nele
-  uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefaco.
Os adultos no o vem assim.
A maior parte dos adultos v
o mundo como qualquer coisa
completamente normal.
Os filsofos constituem
uma excepo notvel. Um filsofo nunca se conseguiu habituar 
completamente ao mundo. Para um filsofo ou para
uma filsofa o mundo  ainda
incompreensvel, inclusivamente enigmtico e misterioso. Os filsofos e 
as crianas pequenas possuem uma importante qualidade em comum.
Podes dizer que um filsofo
permanece durante toda a sua
vida to capaz de se surpreender como uma criana pequena.
E agora tens que te decidir, cara Sofia: s uma criana que ainda no se 
habituou ao mundo? Ou s uma filsofa que pode jurar que isso
nunca lhe acontecer?
Se simplesmente abanas a
cabea e no te sentes nem
como criana nem como filsofa,  porque te acostumaste
to bem ao mundo que este j
no te surpreende. Nesse caso, o perigo est eminente.
E por isso te ofereo este
curso de filosofia, para prevenir. No quero que tu pertenas  categoria 
dos apticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de
modo consciente.
Este curso  completamente
grtis. Por isso, tambm no
te ser restitudo dinheiro
se no o fizeres. Se a determinada altura quiseres interromper o curso, 
no h
prollema. Basta deixares-me
uma mensagem na caixa do correio, por exemplo, uma r viva. De qualquer 
modo, tem de
ser algo verde, pois no queremos assustar o carteiro.
Breve sumrio: um coelho
branco  retirado de uma cartola vazia. Dado que  um
coelho muito grande, este
truque leva muitos bilies de
anos. Na extremidade dos plos finos nascem todas as
crianas humanas.

24
Por isso, podem surpreender-se com a inacreditvel
arte da magia. Mas  medida
que envelhecem, deslizam cada
vez mais para o fundo da pelagem do coelho. E permanecem ali. L em baixo 
esto
to confortveis que nunca
mais ousam trepar novamente
pelos plos finos. S os filsofos se atrevem a fazer a
perigosa viagem  procura das
fronteiras extremas da linguagem e da existncia. Alguns deles perdem-se 
pelo caminho, mas outros agarram-se
bem ao plo do coelho e chamam os homens que, bem acomodados em baixo, na 
pele do
coelho, comem e bebem tranquilamente.
- Senhoras e senhores -
gritam - estamos suspensos
no espao.
Mas nenhum dos homens em
baixo, na pele, se interessa
pelo rudo que os filsofos
fazem.
- Meu Deus, que barulhentos! - dizem.
E continuam a falar como
at ento: - Podes passar-me a manteiga? Como esto as aces hoje? Qual 
 o
preo do tomate? J sabes
que Lady Di deve estar de
novo grvida?

Quando, nessa tarde, a me
chegou a casa, Sofia estava
quase em estado de choque. A
caixa com as cartas do filsofo misterioso estava bem
escondida na toca. Depois de
ter tentado estudar um pouco,
Sofia ficara a pensar no que
tinha lido.
Tantas coisas sobre as
quais nunca tinha reflectido
antes! J no era nenhuma
criana - mas tambm no era
ainda verdadeiramente adulta.
Sofia reconheceu que j tinha comeado a penetrar profundamente na 
pelagem do coelho retirado da cartola negra
do universo. Mas o filsofo
impedira-a. Ele - ou ela?
- agarrara-a firmemente pela
nuca e trouxera-a de novo para o plo, no qual brincara
quando era criana. Ali fora, na extremidade do plo
fino, tinha visto de novo o
mundo como se fosse pela primeira vez. O filsofo salvara-a da 
indiferena quotidiana.
Ouvindo a me entrar, Sofia puxou-a para o quarto, e
f-la sentar numa cadeira.
- Me, no achas que 
estranho viver? - comeou.
A me ficou de tal modo
perplexa que no lhe ocorreu
nenhuma resposta. Normalmente, Sofia estava sempre
sentada a fazer os trabalhos
da escola quando ela chegava a
casa.
- Bom, por vezes  -
disse.
- Por vezes? Quero dizer - no achas estranho que
haja um mundo?
- Mas Sofia, de que 
que ests a falar?

25
- Estou a fazer-te uma
pergunta. Mas provavelmente
achas o mundo completamente
normal?
- Sim. Mas o mundo 
normal. A maior parte das
vezes.
Sofia compreendeu que o
filsofo tinha razo. Para
os adultos, o mundo era evidente. Tinham adormecido no
sono eterno da vida quotidiana.
- Tu apenas te habituaste tanto ao mundo, que j
no te surpreendes - disse
ela.
- Desculpa, mas eu no
estou a perceber nada.
- Estou a dizer que te
habituaste demasiado ao mundo. Por outras palavras: ests completamente 
embrutecida.
- No podes falar comigo
desse modo, Sofia.
- Ento, vou diz-lo
doutra maneira. J te acomodaste na pele do coelho que
neste momento  tirado da
cartola negra do universo. E
agora, vais pr as batatas a
cozer. Depois, ls o jornal,
e depois de uma soneca de
meia hora vais ver o noticirio na televiso.
No rosto da me, esboou-se uma expresso preocupada.
De facto, foi  cozinha e
ps as batatas a cozer. Em
seguida, voltou  sala de estar, e a fez Sofia sentar-se.
- Tenho que falar contigo - comeou. Sofia apercebeu-se pelo tom de que 
se
tratava de algo srio.
- No tomaste nenhuma
droga, pois no, mida?
Sofia no pde deixar de
se rir, mas compreendeu o motivo dessa pergunta.
- Ests a brincar? perguntou. Com isso ainda se
fica mais aptico.
Nessa tarde no se falou
mais em droga nem em coelhos
brancos.

26

OS MITOS

... um equilbrio precrio
de poderes entre as foras do
bem e as do mal...

Na manh seguinte, no havia nenhuma carta na caixa do
correio. Sofia ficou aborrecida durante todo o tempo de
aulas. Preocupou-se em ser
particularmente simptica com
Jorunn durante os intervalos. Durante o regresso a
casa, fizeram planos para
irem acampar, logo que, na
floresta, o terreno ficasse
menos hmido.
Em seguida, estava de novo
em frente  caixa do correio.
Primeiro, abriu um pequeno
envelope com um carimbo do
Mxico e que continha um
postal do pai. Falava das
saudades e de ter ganho pela
primeira vez ao primeiro oficial no xadrez. De resto, j
quase tinha lido os vinte
quilos de livros que levara
consigo aps as frias de
Inverno.
Havia ainda um envelope
amarelo com o seu nome! Sofia trouxe a pasta da escola
e a correspondncia para casa
e correu para a toca. Retirou do envelope vrias folhas
escritas  mo e comeou a
ler.

A concepo mtica do mundo

Ol, Sofia! H muito para dizer, por isso o melhor 
comearmos imediatamente.
Vemos a filosofia como uma
forma completamente diferente
de pensar, que nasceu aproximadamente em 600 a.C. na
Grcia. Antes disso, as diversas religies tinham respondido a todas as 
perguntas
do homem. Essas explicaes
religiosas eram transmitidas
de gerao para gerao por
meio dos mitos.
Um mito  uma narrao sobre os deuses que procura explicar a vida nas 
suas diversas manifestaes. As explicaes mticas floresceram
durante milnios em todo o
mundo. Os filsofos gregos
procuraram provar que os homens no podiam confiar nelas.

27
Para compreendermos o pensamento dos primeiros filsofos, temos de 
compreender
igualmente o que significa
ter uma concepo mtica do
mundo. Tomaremos como exemplo algumas concepes mticas da Europa do 
Norte.
No  de modo algum necessrio irmos muito longe.
Certamente j ouviste falar de Thor e do seu martelo. Antes de o 
cristianismo
chegar  Noruega, os homens,
aqui no Norte, acreditavam
que Thor viajava pelo cu
num carro puxado por dois bodes. Quando ele brandia o
seu martelo, seguiam-se raios
e troves. A palavra "trovo" significa originalmente
"retumbar de Thor". Em sueco, "trovo" diz-se "aska" -
originalmente "as-aka" - que
significa a "viagem do deus
pelo cu".
Quando troveja e relampeja, tambm chove. Isso podia
ser indispensvel  vida para
os camponeses da poca dos
Vikings. Por isso, Thor
era venerado como deus da
fertilidade.
A resposta mtica  pergunta porque  que chove,
era: Thor brandiu o seu martelo. E quando a chuva vinha, as sementes 
germinavam e
cresciam nos campos.
Era incompreensvel para
os camponeses que as plantas
crescessem e produzissem frutos. Mas em todo o caso, os
camponeses sabiam que isso
estava de alguma forma relacionado com a chuva. Alm
disso, todos acreditavam que
a chuva tinha algo a ver com
Thor. Por isso, ele tornou-se um dos deuses mais importantes na Europa do 
Norte.
Thor era ainda importante
por outro motivo, que estava
relacionado com toda a ordem
universal.
Os Vikings imaginavam o
mundo habitado como uma ilha
que est sempre ameaada por
perigos exteriores. Eles
chamavam a esta parte do mundo Midgard, que significa:
o reino que fica no centro.
Em Midgard ficava tambm
Asgard, a residncia dos
deuses. Em frente a Midgard
ficava Utgard, ou seja, o
reino do exterior, tambm
chamado Jotunheimen. Aqui
moravam os perigosos gigantes, que procuravam sempre
destruir o mundo por meio de
truques maldosos. Tambm podemos definir esses monstros
malignos como "foras do caos". Na religio nrdica e
na maior parte das outras
culturas, os homens tinham a
sensao de que existia um
equilbrio precrio de poderes entre as foras do bem e
as foras do mal.
Uma das possibilidades que
os gigantes tinham para destruir Midgard era raptando
Freyja, a deusa da fertilidade. Quando o conseguiam,
nada crescia nos campos, e as
mulheres j no tinham filhos. Por isso era to importante que os deuses 
bons
dominassem os gigantes.
Thor desempenhava tambm
a um papel importante: o seu
martelo no produzia apenas
chuva, mas constitua tambm
uma arma na luta

28
contra as perigosas foras do
caos. O martelo conferia-lhe
um poder quase ilimitado.
Ele podia, por exemplo, lan-lo contra os gigantes e
mat-los. Tambm no tinha
que ter medo algum de o perder, porque o martelo era como um boomerang 
e voltava
sempre para ele.
Esta era a explicao mtica para o funcionamento da
natureza, e para o facto de
haver uma luta constante entre o bem e o mal. Os filsofos pretendiam 
refutar essas crenas.
Mas no se tratava apenas
de explicaes.
Os homens no podiam ficar
de braos cruzados  espera
que os deuses interviessem
quando certas catstrofes -
como as secas ou as epidemias
- os ameaavam. Os homens
tinham que participar na luta
contra o mal. Faziam-no
atravs de todo o tipo de
prticas religiosas ou ritos.
A prtica religiosa mais
importante na antiguidade
nrdica era o sacrifcio.
Fazer um sacrifcio a um
deus significava aumentar o
seu poder. Os homens tinham,
por exemplo, de oferecer vtimas aos deuses para que estes ficassem 
suficientemente
fortes para vencerem as foras do mal. Nessa altura,
sacrificava-se ao deus um
animal. Pensa-se que a Thor
se ofereciam geralmente bodes. A Odin eram sacrificados tambm homens.
Conhecemos o mito mais famoso na Noruega atravs do
poema Trymskvida. Lemos
nele que Thor estava a dormir e que, quando acordou, o
seu martelo tinha desaparecido. Thor ficou to furioso
que as suas mos e a sua barba tremiam. Juntamente com o
seu companheiro Loki foi
ter com Freyja e pediu-lhe
emprestadas as suas asas, para que Loki pudesse voar at
Jotunheimen e descobrir se
os gigantes tinham roubdo o
martelo de Thor. A, Loki
encontra Thrym, o rei dos
gigantes, que se gaba imediatamente de ter enterrado o
martelo a oitenta quilmetros
abaixo do solo. E acrescenta
que os deuses s poderiam receber de volta o martelo se
Freyja se casasse com ele.
Ests a seguir-me, Sofia?
Os deuses bons so subitamente confrontados com um
crime montruoso. Os gigantes
tm ento em seu poder a mais
importante arma de defesa dos
deuses, e essa situao  absolutamente intolervel. Enquanto os gigantes 
tivessem o
martelo, possuam o poder sobre o mundo dos deuses e o
mundo dos homens. Em troca
do martelo, exigem Freyja.
Mas esta troca no  possvel: se os deuses entregarem
a deusa da fertilidade - que
protege todo o tipo de vida
- a relva murcha nos campos
e os homens e os deuses tm
de morrer. No h uma soluo para esta situao. Imagina um grupo de 
terroristas
que ameaa fazer explodir uma
bomba atmica no centro de
Londres ou de Paris se as
suas exigncias no forem
atendidas; percebes com certeza o que quero dizer.

29
O mito narra ainda que
Loki regressa a Asgard.
A, exorta Freyja a vestir-se e a enfeitar-se como
uma noiva, porque tem de se
casar com o gigante (infelizmente!). Freyja fica furibunda e afirma que 
as pessoas pensariam que ela estava
louca por homens se se casasse com um gigante.
Ento, o deus Heimdall
tem uma ideia brilhante.
Prope que Thor se disfarce
de noiva. Podem prender-lhe
o cabelo e colocar-lhe duas
pedras no peito, para que ele
parea uma mulher. Thor no
fica muito entusiasmado com a
ideia, mas admite, por fim,
que s dessa forma os deuses
tm a possibilidade de recuperar o martelo. Por fim,
Thor  mascarado de noiva e
Loki acompanha-o como dama
de honor.
- Desta forma, levamos
duas mulheres para os gigantes - afirma Loki.
Se nos quisermos exprimir
de uma forma mais moderna,
podemos caracterizar Thor e
Loki como uma "brigada antiterrorista" dos deuses. Disfarados de 
mulheres, tm de
entrar furtivamente no quartel general dos gigantes e
apoderar-se do martelo de
Thor.
Quando se encontram em
Jotunheimen, os gigantes
preparam tudo para as bodas.
Mas durante a festa, a noiva
- ou seja, Thor - come um
boi inteiro e oito salmes.
Bebe tambm trs barris de
cerveja, e Thrym fica atnito. Por pouco, o comando antiterrorista teria 
sido desmascarado. Mas Loki conseguiu livr-los desse perigo.
Ele conta que Freyja no
comia h seis noites, por ter
ficado to entusiasmada com a
ideia de se fixar em Jotunheimen.
Nessa altura, Thrym levanta o vu da noiva para a
beijar, mas recua sobressaltado ao enfrentar o olhar duro
de Thor. Tambm aqui Loki
salva a situao. Ele conta
que a noiva, devido  alegria
do casamento, no pregara
olho durante oito noites.
Ordena ento Thrym que, durante a cerimnia, vo buscar
o martelo para o colocar no
regao da noiva.
Quando Thor se viu com o
martelo no colo, soltou uma
risada sonora. Primeiro, matou Thrym com o martelo, e,
em seguida, o resto dos gigantes de Jotunheimen. Desta
forma, o horrvel drama teve
um fim feliz. Mais uma vez,
Thor - uma espcie de Batman ou James Bond dos deuses - vencera as foras 
do
mal.
Isto  um mito, Sofia.
Mas o que  que quer dizer
exactamente? No foi imaginado s por brincadeira, pretende explicar 
algo. Esta 
uma interpretao possvel:
Quando a seca atingia uma
terra, os homens precisavam
de uma explicao para o facto de no chover. Talvez os
gigantes tivessem roubado o
martelo de Thor.
 tambm possvel que este
mito procure compreender a
mudana das estaes do ano:
no Inverno, a natureza est
morta porque o martelo

30
de Thor est em Jotunheimen. Mas na Primavera, recupera-o. E assim, os 
mitos
procuram explicar aos homens
algo incompreensvel.
Mas os homens no se deixavam ficar pelas explicaes, como vimos. 
Procuravam
igualmente intervir num acontecimento to importante para
eles atravs dos diversos ritos religiosos que estavam
relacionados com os mitos.
Podemos supor que os homens
representassem um drama sobre
o contedo do mito, no caso
de uma seca, ou de uma m colheita. Talvez um homem da
aldeia se disfarasse de noiva - com pedras como seios
- para roubar de novo o martelo aos gigantes. Os homens
podiam, assim, fazer alguma
coisa para que a chuva viesse
e as sementes germinassem nos
campos.
Temos muitos exemplos semelhantes provenientes de outros lugares do 
mundo: os homens encenavam um "mito das
estaes", para acelerar os
processos da natureza.

Passmos o olhar sobre a
mitologia nrdica. Havia
inumerveis outros mitos sobre Thor e Odin, Freyr
e Freyja, Hoder e Balder e sobre muitas outras
divindades. Havia representaes mticas como estas em
todo o mundo, antes de os filsofos comearem a critic-las. Tambm os 
Gregos tinham uma concepo mtica do
mundo, quando surgiram os
primeiros filsofos. Durante
sculos, uma gerao transmitia  seguinte as histrias
dos deuses. Na Grcia, as
divindades chamavam-se
Zeus e Apolo, Hera e
Atena, Dioniso e Asclpio, Hrcules e Hefesto,
para citar apenas alguns.
Cerca do ano 700 a.C.,
Homero e Hesodo escreveram grande parte dos mitos
gregos. Esse facto criou uma
situao completamente nova.
Uma vez que os mitos estavam
escritos, era possvel falar
acerca deles.
Os primeiros filsofos
gregos criticaram a mitologia
homrica porque, para eles,
os deuses eram demasiado semelhantes aos homens. Na
verdade, eram to egostas e
de to pouca confiana como
ns. Pela primeira vez na
histria da humanidade se
afirmou que os mitos eram
apenas fruto da imaginao do
homem.
Encontramos um exemplo
desta crtica aos mitos no
filsofo Xenfanes, que
nasceu em aproximadamente
570 a.C. Segundo ele, os
homens tinham criado os deuses  sua prpria imagem:
"Mas os mortais julgam que
os deuses nasceram e tm aspecto exterior, voz e figura
igual  sua... Os Etopes
imaginam os seus deuses negros e com o nariz chato, os
Trcios, por sua vez, imaginam-nos ruivos e de olhos
azuis... Se as vacas, os cavalos ou os lees tivessem
mos e pudessem pintar e
criar obras como os homens,
os cavalos pintariam os seus
dolos semelhantes a cavalos,
as vacas semelhantes a vacas
e criariam as figuras iguais
a si."

31
Nesta poca, os Gregos
fundaram muitas cidades-estado na Grcia e nas suas colnias da Itlia 
meridional
e da sia Menor. A, os
escravos executavam todo o
trabalho fsico, e os cidados livres podiam dedicar-se
 politica e  cultura. Com
estas condies de vida, a
maneira de pensar dos homens
mudou: cada indivduo podia
colocar a questo de como a
sociedade devia ser organizada. Do mesmo modo, podia
tambm colocar perguntas filosficas, sem ter de recorrer aos mitos 
tradicionais.
Dizemos que se deu um desenvolvimento de um modo de
pensar mtico para um gnero
de reflexo baseada na experincia e na razo. O objectivo dos primeiros 
filsofos
gregos era encontrar explicaes naturais para os fenmenos da natureza.
Sofia passeava pelo grande
jardim. Procurava esquecer
tudo o que aprendera na escola. O mais importante era
esquecer o que tinha lido nos
livros de cincias da natureza.
Se tivesse crescido naquele jardim, sem saber mais nada sobre a natureza, 
como 
que veria a Primavera?
Imaginaria uma explicao
para o facto de, num certo
dia, comear a chover? Inventaria uma explicao para
compreender o facto de a neve
desaparecer e o Sol despontar no cu?
Sim, tinha a certeza disso, e comeou a imaginar:
O Inverno envolvera a
terra com um palmo de gelo
porque o malvado Muriat mantinha presa num crcere frio
a bela princesa Sikita. Mas
certa manh, chegou o valente
prncipe Bravato e libertou-a. Sikita ficou to contente que comeou a 
danar nos
prados, enquanto cantava uma
cano que inventara no crcere frio. Nessa altura, a
terra e as rvores ficaram
to comovidas que toda a neve
se transformou em lgrimas.
O Sol surgiu no cu e secou
todas as lgrimas. As aves
imitaram a cano de Sikita
e,  medida que a bela princesa desprendia os seus cabelos dourados, 
alguns caracis
caram no solo, transformando-se em lrios do campo...
Sofia achou que tinha inventado uma bela histria.
Se no tivesse nenhuma outra
explicao para a alternncia
das estaes do ano, teria
com certeza acreditado na sua
histria.
Percebeu que os homens tinham tido sempre necessidade
de encontrar explicaes para
os fenmenos naturais. Talvez os homens no pudessem
viver sem essas explicaes.
Por isso tinham imaginado os
mitos, quando ainda no havia
a cincia.

32
Os Filsofos Da Natureza

... do nada, nada pode
nascer...

Quando, nessa tarde, a me
chegou a casa do trabalho,
Sofia estava sentada no baloio e meditava sobre que
relao poderia existir entre
o curso de filosofia e Hilde
Mller Knag, que no receberia nenhum postal de aniversrio do seu pai.
- Sofia! - chamou a me
de longe - H aqui uma carta para ti!
Sofia assustou-se. Ela
tinha recolhido o correio,
por isso a carta tinha de ser
do filsofo. O que havia de
dizer  me?
Ergueu-se lentamente do
baloio e foi ter com a me.
- No tem selo. Provavelmente  uma carta de amor.
Sofia pegou nela.
- No a queres abrir?
O que  que havia de dizer?
- J ouviste falar de
pessoas que abrem cartas de
amor quando a me, por detrs, espreita de soslaio?
Era prefervel que a me
acreditasse que se tratava de
uma carta de amor. Era uma
situao extremamente penosa,
visto que Sofia era ainda
bastante nova para receber
cartas de amor; mas seria
ainda mais desagradvel se se
viesse a saber que ela recebia, por correspondncia, um
curso de um filsofo inteiramente desconhecido que brincava ao gato e ao 
rato com
ela.
Era um envelope branco,
pequeno. J no quarto,
Sofia leu as trs perguntas
que o envelope continha:
Haver um elemento primordial a partir do qual tudo
 gerado?
Ser que a gua se pode
transformar em vinho?
Como  que a terra e a
gua se podem transformar
numa r viva?

Sofia achou estas perguntas absurdas, mas andou com
elas na cabea durante toda a
tarde. Na manh seguinte, na
escola, reflectiu nas trs
perguntas pela ordem apresentada.

33
Haveria um "elemento primordial", a partir do qual
tudo fosse gerado? Mas se
houvesse um elemento a partir
do qual tudo o que est no
mundo fosse produzido, como 
que este elemento poderia
transformar-se de repente num
dente-de-leo ou num elefante?
Passava-se o mesmo com a
pergunta sobre a gua: poder-se-ia transformar em vinho? Sofia j tinha 
ouvido
dizer que Jesus tinha transformado gua em vinho, mas
no interpretara esta histria literalmente. E se Jesus tinha de facto 
transformado gua em vinho, era um
milagre, algo que normalmente
no era possvel. Sofia no
tinha dvidas sobre o facto
de haver uma grande percentagem de gua no vinho e em
muitas plantas e animais.
Mas mesmo que um pepino fosse constitudo por noventa e
cinco por cento de gua, teria de haver algo mais que
fizesse com que um pepino
fosse um pepino e no apenas
gua.
E havia ainda a questo da
r. O seu professor de filosofia tinha um fraco por rs.
Sofia poderia eventualmente
aceitar que uma r fosse feita de terra e gua, mas nesse
caso a terra no podia ser
feita de um s elemento. Se
a terra fosse composta de
muitos elementos diversos,
era possvel pensar que a
terra juntamente com a gua
produzisse uma r. Se a terra e a gua fizessem um desvio pelos ovos da 
r e pelos
girinos, bem entendido. 
que uma r no podia simplesmente crescer numa horta,
mesmo que fosse regada muito
escrupulosamente.
Quando, nessa tarde, regressou a casa da escola, havia uma carta grossa 
dirigida
a ela na caixa do correio.
Sofia foi para a toca, como
j fizera nos dias anteriores.

O projecto dos filsofos

Eis-nos de novo!  prefervel comearmos imediatamente com a lio de 
hoje, deixando de parte os coelhos
brancos e coisas parecidas.
Vou contar-te em linhas
gerais como  que os homens,
desde a Antiguidade at
hoje, pensaram sobre as questes filosficas. Tudo por
ordem cronolgica.
Visto que a maior parte
dos filsofos viveram numa
outra poca - e possivelmente tambm numa cultura completamente diferente 
da nossa
- vale a pena interessarmo-nos pelo projecto de cada
filsofo. Quero com isso dizer que temos de tentar compreender os 
aspectos a que o
filsofo quis dar resposta.
Um filsofo pode perguntar-se como  que as plantas e
os animais surgiram. Um outro pode querer descobrir se
Deus existe, ou se os homens
possuem uma alma imortal.

34
A partir do momento em que
determinmos qual  o projecto de um determinado filsofo, podemos mais 
facilmente
seguir o seu pensamento. Com
efeito, dificilmente um filsofo se ocupa de todas as
questes filosficas.
Falei sobre o pensamento
"dele", porque a histria da
filosofia foi escrita sobretudo por homens. Isso deve-se  condio de 
inferioridade frequentemente atribuda
 mulher, tanto no plano fsico como no plano intelectual.  grave, na 
medida em
que, dessa forma, se perderam
muitas experincias. As mulheres s surgem verdadeiramente na histria da 
filosofia neste sculo.
No te vou dar trabalhos
de casa - nem trabalhos complicados de matemtica. As
flexes dos verbos ingleses
no me interessam. Mas, de
vez em quando, pedir-te-ei
que faas um pequeno exerccio. Se aceitares estas condies, 
continuamos.

Os filsofos da natureza

Os primeiros filsofos
gregos so designados por
"filsofos da natureza", porque se interessaram sobretudo
pela natureza e pelos processos fsicos.
J nos interrogmos sobre
a origem de tudo. Hoje em
dia, muitos homens acreditam
que tudo nasceu do nada em
determinada altura. Este
pensamento no estava muito
difundido entre os Gregos.
Eles acreditavam que "algo"
teria existido sempre.
A questo fundamental no
era, portanto, como  que
tudo poderia surgir do nada.
Em lugar disso, os Gregos
admiravam-se que a gua se
pudesse transformar em peixes
vivos, e a terra morta em rvores altas ou flores de cores vistosas. Para 
no falar
de como um beb pode nascer
no corpo da me!
Os filsofos viam com os
seus prprios olhos que havia
na natureza transformaes
constantes. Mas como  que
essas transformaes eram
possveis? Como  que algo
feito de uma substncia se
poderia transformar numa coisa completamente diferente?
Era comum entre os primeiros filsofos acreditarem que
havia um elemento primordial
responsvel por todas as
transformaes. De que forma
teriam chegado a este pensamento no  claro. Sabemos
apenas que ele surgiu da concepo, segundo a qual, teria
de haver um elemento primordial, que daria origem a todas as 
transformaes da natureza.
O mais interessante para
ns no so as respostas que
estes primeiros filsofos encontraram. O mais interessante so as 
questes que punham e

35
que tipo de respostas procuravam. Para ns,  mais importante saber como 
 que
eles pensaram do que o que
pensaram.
Podemos constatar que se
questionavam sobre a forma
como aconteciam certas transformaes na natureza. Procuravam descobrir 
algumas
leis naturais eternas. Desejavam compreender os fenmenos da natureza, 
sem recorrer
aos mitos tradicionais. Acima de tudo, procuravam compreender os 
processos da natureza atravs da observao
da prpria natureza. Isso 
completamente diferente da
explicao do relmpago e do
trovo, do Inverno e da
Primavera, por meio da referncia aos acontecimentos no
mundo dos deuses.
Desta forma, a filosofia
libertou-se da religio. Podemos afirmar que os filsofos da natureza 
deram os primeiros passos em direco a
um modo de pensar cientfico. Assim, abriram caminho
a toda a posterior cincia da
natureza.
Quase tudo o que os filsofos da natureza disseram e
escreveram perdeu-se para a
posteridade. O pouco que sabemos encontramo-lo nos escritos de 
Aristteles, que
viveu duzentos anos aps os
primeiros filsofos. Mas
Aristteles resume apenas os
resultados a que os filsofos
anteriores tinham chegado. O
que significa que no podemos
saber sempre de que forma 
que chegaram s suas concluses. Mas sabemos o suficiente para podermos 
afirmar
que o projecto dos filsofos
gregos consista nas questes
que estavam relacionadas com
o elemento primordial nas
transformaes da natureza.

Trs filsofos de Mileto

O primeiro filsofo de que
temos notcia  Tales, da
colnia grega de Mileto, na
sia Menor. Ele viajava
frequentemente. Diz-se que,
certa vez, teria medido a altura de uma pirmide no
Egipto, medindo a sombra da
pirmide no momento em que a
sua prpria sombra estava to
alta como ele. Alm disso,
conseguiu prever um eclipse
do Sol no ano 585 a.C.
Para Tales, a gua era a
origem de todas as coisas.
No sabemos exactamente o
que ele queria dizer com
isto. Talvez quisesse dizer
que toda a vida comea na
gua - e que toda a vida se
torna de novo gua quando se
inicia a degradao.
Quando esteve no Egipto,
viu certamente como os campos
ficavam frteis quando o Nilo abandonava as terras que
constituam o seu delta.
Talvez tenha visto tambm
como as rs e os vermes surgiam  luz do sol depois de
ter chovido.

36
Alm disso,  provvel que
Tales se tenha questionado
quanto ao modo como a gua se
pode tornar gelo e vapor - e
de novo gua.
Afirma-se que Tales disse
que "tudo est cheio de deuses". Apenas podemos avanar
hipteses sobre a interpretao desta frase. Talvez tivesse pensado que a 
terra era
a origem de tudo, desde as
flores e as sementes, at s
abelhas e baratas. Tinha
chegado  concluso de que a
terra estava cheia de pequenos "grmenes da vida" invisveis. O que  
certo  que
no estava a pensar nos deuses homricos.
O filsofo seguinte de que
temos conhecimento  Anaximandro, que viveu igualmente
em Mileto. Para ele, o nosso mundo  apenas um dos muitos que nascem de 
algo e perecem em algo que ele denominou o infinito.  difcil
dizer o que queria significar
com o termo infinito, mas sabemos que no pensava, ao
contrrio de Tales, numa
substncia totalmente determinada. Talvez quisesse dizer que aquilo, a 
partir do
qual tudo  criado, tem de
ser completamente diferente
de tudo o que  criado. E
visto que tudo o que  criado
 finito, tudo o que lhe 
anterior ou posterior tem de
ser infinito.  claro que o
elemento primordial no podia
ser, assim, simples gua.
Um terceiro filsofo de
Mileto era Anaxmenes
(cerca de 570-526 a.
C.). Para ele, o ar era o
elemento primordial de todas
as coisas. Anaxmenes conhecia, naturalmente, a teoria
de Tales sobre a gua. Mas
de onde surge a gua? Para
Anaxmenes, a gua era ar
condensado. Ns sabemos que,
ao chover, a gua  condensada a partir do ar. Quando a
gua  ainda mais condensada,
torna-se terra, segundo Anaxmenes. Talvez tivesse visto que, quando o 
gelo se derrete, "expele" terra e areia.
De modo anlogo, pensava que
o fogo era ar rarefeito. Segundo Anaxmenes, a terra, a
gua e o fogo tinham origem
no ar.
A passagem da terra e da
gua s plantas no campo no
era demorada. Talvez Anaxmenes pensasse que a terra, o
ar, o fogo e a gua tivessem
de existir para que pudesse
nascer vida. Mas o verdadeiro ponto de partida era o
ar. Ele partilhava, portanto, a concepo de Tales,
segundo a qual um elemento
primordial estava na origem
de todas as transformaes na
natureza.

Do nada, nada pode nascer

Os trs filsofos de Mileto acreditavam num - e
apenas num elemento primordial, a partir do qual todas
as outras coisas eram criadas. Mas como poderia uma
substncia transformar-se de
repente e

37
tornar-se uma coisa completamente diferente? Podemos designar este 
problema pelo
problema do devir.
A partir de aproximadamente 500 a.C. viveram na colnia grega de Eleia, 
na
Itlia meridional, alguns
filsofos, e estes "eleatas"
tratavam destes problemas. O
mais conhecido de entre eles
era Parmnides (aproximadamente 540-480 a.C.).
Parmnides acreditava que
tudo o que existe, existiu
sempre. Esta ideia estava
bastante difundida entre os
Gregos. Tinham como evidente que tudo o que h no mundo
existiu desde sempre. Do
nada, nada pode nascer, pensava Parmnides. E nada do
que existe pode tornar-se
nada.
Mas Parmnides foi mais
longe que a maior parte dos
outros. Para ele, no era
possvel nenhuma verdadeira
transformao. Uma coisa s
se pode transformar naquilo
que j .
Parmnides no tinha dvidas de que na natureza se do
constantemente transformaes. Os seus sentidos apercebiam-se do devir 
das coisas. Mas no conseguia fazer
coincidir o que os seus sentidos registavam, com o que a
razo lhe dizia. Quando foi
obrigado a decidir se devia
confiar nos sentidos ou na
razo, decidiu-se pela razo.
Conhecemos a frase: "S
acredito naquilo que vejo."
Mas Parmnides nem sequer
acreditava no que via. Pensava que os sentidos nos forneciam uma imagem 
falsa do
mundo, uma imagem que no
coincidia com o que a razo
diz aos homens. Enquanto filsofo, encarava a sua tarefa
como o desmascarar de todas
as formas de "iluses sensoriais".
Esta forte confiana na
razo humana  designada racionalismo. Um racionalista
 uma pessoa que tem uma
grande confiana na razo humana, como fonte do nosso conhecimento sobre 
o mundo.

Tudo flui

Heraclito, contemporneo
de Parmnides, era originrio de feso na sia Menor
(aproximadamente 540-480
a.C.). Segundo ele, as
transformaes constantes
eram a verdadeira caracterstica da natureza. Podemos
dizer que Heraclito confiava
mais nas impresses dos sentidos do que Parmnides.
"Tudo flui", segundo Heraclito. Tudo est em movimento, e nada dura 
eternamente. Por isso, no podemos
"entrar duas vezes no mesmo
rio". Porque quando entro no
rio pela segunda vez, tanto
eu como o rio estamos mudados.
Heraclito explicou, tambm, que o mundo  caracterizado por contrrios 
constantes. Se nunca estivssemos
doentes, no compreenderamos

38
o que  a sade. Se nunca
tivssemos fome, no gostaramos de comer. Se nunca
houvesse guerra, no saberamos apreciar a paz, e se nunca fosse Inverno, 
no saberamos quando chega a Primavera.
Tanto o bem como o mal
ocupam um lugar necessrio no
todo, dizia Heraclito. Sem
o jogo permanente entre contrrios, o mundo terminaria.
"Deus  o dia e a noite, o
Inverno e o Vero, a guerra
e a paz, a saciedade e a fome", dizia. Ele utiliza aqui
a palavra "Deus", mas no se
refere aos deuses de que falam os mitos. Segundo Heraclito, Deus - ou o 
divino
-  algo que abrange tudo.
Sim, Deus est patente justamente na natureza, que 
contraditria e est em
transformao constante.
Em vez do termo "Deus",
Heraclito usa frequentemente
a palavra grega logos, que
significa razo. Mesmo que
ns, homens, no pensemos
sempre de modo igual ou no
tenhamos o mesmo bom-senso,
tem de haver uma espcie de
"razo universal", que governe tudo o que acontece na natureza. Esta 
razo universal
- ou "lei universal" - 
comum a todos, e todos os homens se devem orientar por
ela. No entanto, a maior
parte deles vive segundo a
sua prpria razo particular,
segundo Heraclito. Com
efeito, ele no tinha uma
ideia muito positiva do seu
prximo. As opinies da
maior parte dos homens eram,
para ele, "jogos de crianas".
Em todas as transformaes
e contradies da natureza,
Heraclito via uma unidade ou
totalidade. Aquilo que est
na origem de tudo, era designado por ele "Deus", ou logos.

Quatro elementos principais

Parmnides e Heraclito
tinham, sob um certo ponto de
vista, concepes opostas. A
razo de Parmnides defendia
que nada se pode alterar.
Mas as experincias dos sentidos de Heraclito defendiam
que, na natureza, se do
constantemente transformaes. Qual dos dois tinha
razo? Devemos confiar na
razo, ou nos sentidos?
Tanto Parmnides como
Heraclito fazem duas afirmaes respectivamente:

Parmnides afirma que:
a) nada se pode transformar
e que:
b) consequentemente as impresses dos sentidos no podem ser dignas de 
confiana.

39
Heraclito, por seu lado,
afirma que:
a) tudo se transforma
("tudo flui")
e que:
b) as impresses dos sentidos so dignas de confiana.

Dificilmente pode haver um
desacordo maior entre filsofos! Mas qual dos dois tinha
razo? Por fim, Empdocles
(aproximadamente 494-434
a.C.), de Agrigento, haveria de encontrar o caminho
para sair do novelo no qual a
filosofia se tinha emaranhado. Pensava que tanto Parmnides como 
Heraclito tinham razo numa das suas
afirmaes, mas que ambos se
enganavam num ponto.
Segundo Empdocles, a
grande discrdia baseava-se
no facto de os filsofos terem pressuposto que apenas
havia um elemento. Se isso
fosse verdade, ento o abismo
entre o que a razo diz e o
que recebemos dos sentidos
seria intransponvel.
A gua no se pode transformar em peixe ou em borboleta. A gua no se 
pode
transformar de todo. A gua
pura permanece gua pura para
toda a eternidade. Parmnides tinha razo em afirmar
que nada se transforma. Simultaneamente, Empdocles
estava de acordo com Heraclito, dizendo que devemos
confiar nas impresses dos
sentidos. Temos que acreditar no que vemos, e vemos
transformaes permanentes na
natureza.
Empdocles reconheceu que
a ideia de um nico elemento
primordial tinha de ser rejeitada. Nem a gua, nem o
ar se podiam transformar numa
roseira ou numa borboleta. A
natureza no podia ter apenas
um elemento constituinte.
Segundo Empdocles a natureza  constituda por quatro elementos 
primordiais ou
"razes", que identifica com
a terra, o ar, o fogo e a
gua.
Todas as transformaes da
natureza resultam do facto de
os quatro elementos se misturarem e se separarem. Tudo 
constitudo por terra, ar,
fogo e gua, misturados em
propores variveis. Quando
uma flor ou um animal morrem,
os quatro elementos separam-se novamente uns dos outros.
Podemos apercebermo-nos destas transformaes a olho nu.
Mas a terra, o ar, o fogo e
a gua permanecem totalmente
inalterados ou intactos, apesar de todas as misturas em
que esto presentes. Tambm
no  verdade que "tudo" se
altera. Basicamente, nada se
altera. O que sucede  que
quatro elementos diferentes
se misturam e se voltam a separar - para se misturarem
novamente no futuro.
Podemos fazer uma comparao com um pintor. Se ele
tem apenas uma cor - por
exemplo, o vermelho - no
pode pintar rvores verdes.

40
Mas se tem amarelo, vermelho, azul e preto, pode pintar centenas de cores 
diferentes, porque mistura as cores em propores diferentes.
Um exemplo da cozinha mostra-nos o mesmo. Se eu tivesse apenas farinha, 
tinha
de ser um ilusionista para
fazer um bolo com ela. Mas
se tenho ovos e farinha, leite e acar, posso criar variados bolos com 
os quatro
elementos de base.
No foi por acaso que para
Empdocles as razes da natureza eram precisamente a
terra, o ar, o fogo e a gua.
Antes dele, outros filsofos
tinham procurado mostrar que
o elemento primordial era a
terra ou a gua ou o ar ou o
fogo. Tales e Anaxmenes
tinham insistido em que a
gua e o ar eram elementos
importantes na natureza.
Para os Gregos, o fogo tambm era importante. Por
exemplo, viam a importncia
do Sol em toda a vida da natureza e, obviamente, tinham
conhecimento do calor do corpo nos homens e nos animais.
Talvez Empdocles tenha
visto arder um pedao de madeira. Neste caso, h algo
que se desagrega. Ouvimo-lo
no crepitar da madeira.  a
gua. Algo se torna fumo. 
o fogo. E vemos claramente o
fogo. Quando as chamas se
apagam, algo permanece.  a
cinza, ou a terra.
Depois de Empdocles ter
indicado que as transformaes da natureza so produzidas atravs da 
mistura e separao das quatro razes, h
ainda uma questo em aberto:
qual  a causa pela qual os
elementos se unem para que
nasa uma nova vida? E o que
 que contribui para que a
"mistura", uma flor, por
exemplo, se desagregue de
novo?
Segundo Empdocles, h na
natureza duas foras diferentes que nela agem. Designava
estas foras por amor e
discrdia. Aquilo que une
as coisas  o amor, o que as
desagrega  a discrdia.
Empdocles faz uma distino importante entre elemento
e fora.  importante notar
isto. Ainda hoje, a cincia
distingue elementos e foras
da natureza. A cincia moderna acredita que todos os
processos da natureza se podem explicar como resultado
dos vrios elementos e algumas foras da natureza.
Empdocles tambm se dedicou  questo do que acontece
quando sentimos algo. Como 
que eu posso, por exemplo,
"ver" uma flor? O que sucede
ento? J alguma vez reflectiste sobre isto, Sofia?
Caso no o tenhas feito,
tens a oportunidade de o fazer agora.
Empdocles pensava que os
nossos olhos, tal como todas
as outras coisas na natureza,
so constitudos por terra,
ar, fogo e gua. Por isso, a
terra do meu olho apreende o
que  feito de terra no que 
visto, o ar apreende o que 
feito de ar, o fogo dos olhos
apreende o que  feito de
fogo, e a gua o que  feito
de gua. Se faltasse no olho
um destes elementos, eu no
poderia ver toda a natureza.

41
Algo de tudo em tudo

Um outro filsofo, Anaxgoras (500-428 a.C.>),
no estava satisfeito com a
concluso a que se tinha chegado: que um determinado elemento primordial 
- gua, por
exemplo - se pudesse transformar em tudo o que vemos na
natureza. Tambm no aceitava a concepo segundo a qual
a terra, o ar, o fogo e a
gua se transformavam em sangue ou ossos, pele ou cabelo.
Anaxgoras achava que a
natureza era composta por nfimas partculas que no podiam ser 
apreendidas pelos
olhos. Segundo ele, tudo se
pode dividir em partes ainda
mais pequenas, havendo nessas
partculas um pouco de tudo.
Se a pele e o cabelo no podem nascer de uma outra coisa, ento tem de 
haver tambm, segundo ele, pele e cabelo no leite que bebemos e
nos alimentos que comemos.
Dois exemplos modernos
apontam para aquilo em que
Anaxgoras pensou. Com a
tcnica laser podemos fabricar os chamados "hologramas". Se um 
holograma representa, por exemplo, um carro
e este holograma  em seguida
fragmentado, veremos ainda a
imagem de todo o carro, mesmo
que j s tenhamos a parte do
holograma que mostrava o pra-choques. Isto sucede porque todo o motivo 
est presente em cada parte, mesmo a
mais reduzida.
O nosso corpo tambm  basicamente formado desta maneira. Se eu raspar 
uma clula da pele do meu dedo, o
ncleo da clula no contm
apenas a descrio da minha
pele. Na mesma clula, h
igualmente a descrio dos
meus olhos, da minha cor de
cabelo, do nmero e aspecto
dos meus dedos, etc. Em cada
clula do corpo h uma detalhada descrio da constituio de todas as 
outras clulas do meu corpo. Em cada
clula h, portanto, "algo de
tudo". A totalidade encontra-se na partcula mais reduzida.
Anaxgoras chamou "sementes" a estes elementos infinitamente divisveis a 
partir
dos quais se formam os vrios
corpos. Vimos que segundo
Empdocles o amor unia entre
si as vrias partes que formavam os corpos na sua globalidade. Tambm 
Anaxgoras
imaginava uma espcie de fora que, por assim dizer, produzia a ordem e 
criava homens, animais, flores e rvores. Designava esta fora
por esprito ou razo.
Anaxgoras  tambm digno
de nota por ser o primeiro
filsofo em Atenas de que
temos notcia. Era oriundo
da sia Menor, mas foi viver para Atenas com cerca de
quarenta anos. A, foi acusado de impiedade e teve que
deixar novamente a cidade.
Afirmara, entre outras coisas, que o Sol no era nenhum Deus, mas uma 
massa incandescente, maior que a pennsula do Peloponeso.

42
Anaxgoras interessava-se
muito por astronomia. Acreditava que todos os corpos
celestes eram feitos da mesma
substncia que a terra. Ficou convencido disto aps ter
examinado um meteorito. Por
isso, era lcito pensar, segundo ele, que existissem homens noutros 
planetas. Alm
disso, esclareceu que a Lua
no brilhava por si mesma,
mas era iluminada pela terra.
Por fim, explicou a formao
dos eclipses solares.

PS. Obrigado pela ateno, Sofia. Talvez tenhas
que ler este captulo duas ou
trs vezes at compreenderes
tudo. Mas a compreenso implica um pequeno esforo pessoal. Dificilmente 
admirarias uma amiga que soubesse
tudo se isso no lhe tivesse
custado nada.
A melhor resposta para a
questo do elemento primordial e das transformaes na
natureza tem de esperar at
amanh. Conhecers ento
Demcrito. No revelo mais
nada!

Sofia estava na toca e espreitava para o jardim. Tinha que tentar ordenar 
os
seus pensamentos depois de
tudo o que tinha lido.
Era bvio que a gua se
podia tornar gelo ou vapor.
Mas a gua no podia transformar-se numa melancia, visto que mesmo uma 
melancia era
constituda por algo mais que
gua. Mas se estava to certa disso, era porque o tinha
aprendido. Poderia saber que
o gelo era constitudo apenas
por gua se no o tivesse
aprendido? Nesse caso, teria
que ter observado muito bem
de que modo a gua passava a
gelo e como o gelo se derretia.
De novo, Sofia procurava
pensar por si mesma sem aplicar o que tinha aprendido de
outros.
Parmnides recusara-se a
aceitar qualquer forma de devir. E quanto mais ela reflectia sobre isso, 
mais se
convencia de que, de um certo
ponto de vista, ele tinha razo. A sua razo no podia
aceitar que "algo" se transformasse subitamente em "algo" completamente 
diferente.
Tinha sido muito corajoso da
parte dele dizer isto, porque
tivera de negar todas as alteraes na natureza, que todo o homem podia 
observar.
De certeza que muita gente
se tinha rido dele.
Tambm Empdocles se tinha mostrado genial ao explicar que o mundo tinha 
necessariamente de ser constitudo
por mais do que um s elemento. Desta forma, todas as
alteraes na natureza eram
possveis, sem que alguma
coisa se transformasse de
facto.
O antigo filsofo grego
tinha descoberto isto com o
simples uso da razo. Naturalmente, tinha observado a
natureza, mas no tivera nenhuma possibilidade de efectuar anlises 
qumicas, ao
contrrio da cincia moderna.

43
Sofia no sabia se estava
particularmente convencida de
que tudo era constitudo por
terra, ar, fogo e gua. Mas
o que  que isso importava?
Em princpio, Empdocles
tinha razo. A nossa nica
possibilidade de aceitarmos
todas as alteraes que os
nossos olhos vem sem perdermos o juzo,  admitirmos
mais do que uma substncia.
Sofia achava a filosofia
particularmente cativante
porque podia seguir todas as
reflexes com o seu prprio
entendimento - sem ter de
recordar tudo o que aprendera
na escola. Verificou que, na
verdade, no se pode aprender
filosofia, mas talvez se pudesse aprender a pensar filosoficamente.

44
DEMCRITO

... o brinquedo mais genial
do mundo...

Sofia fechou a caixa dos
biscoitos que continha todas
as folhas escritas  mquina
do filsofo desconhecido.
Deslizou para fora da toca e
ficou parada durante algum
tempo a observar o jardim.
De repente, lembrou-se do
que acontecera no dia anterior. A me fizera troa dela durante o 
pequeno-almoo
devido  "carta de amor" que
recebera. Sofia correu em
direco  caixa do correio
para que isso no se repetisse. Receber duas cartas de
amor em dois dias seguidos
equivalia a sentir-se embaraada duas vezes.
Havia de novo um envelope
branco pequeno! Sofia compreendeu ento o sistema de
correspondncia: todas as
tardes, encontrara na caixa
do correio um envelope grande
e amarelo. E, enquanto o
lia, o filsofo ia l s escondidas com uma pequena carta branca.
Isso significava que Sofia podia desmascar-lo facilmente. Ou seria uma 
filsofa? Se se pusesse  janela
do seu quarto, tinha uma boa
vista para a caixa do correio. Nessa altura, de certeza que descobriria o 
misterioso filsofo, visto que os
envelopes brancos no podiam
nascer por si mesmos.
Sofia decidiu tomar muita
ateno no dia seguinte. Era
sexta-feira, e teria todo o
fim-de-semana  sua frente.
Foi ento para o seu quarto
e abriu o envelope. Nesse
dia, havia apenas uma pergunta na folha, mas em compensao esta pergunta 
era ainda
mais absurda do que as trs
contidas na "carta de amor":

Porque  que as peas do
Lego so o brinquedo mais
genial do mundo?

Sofia no estava muito
convencida de que achava as
peas do Lego o brinquedo
mais genial do mundo; de
qualquer modo, j no brincava com elas h muitos anos.
Alm disso, no conseguia
compreender o que  que as
peas do Lego teriam a ver
com filosofia.

45
Mas era uma aluna obediente. Remexeu na prateleira
mais alta do seu armrio e
encontrou por fim um saco de
plstico com peas de Lego
de variadssimos tamanhos e
formas.
H muito tempo que no
construa nada com as pequenas peas de plstico. Comeou, ento, a faz-
lo.  medida que o fazia, comeou a
pensar acerca das peas do
Lego.
 fcil construir com o
Lego, pensou. Apesar de as
peas serem de tamanho e forma diferentes, todas podem
ser montadas umas sobre as
outras. Alm disso, no se
estragam facilmente. Sofia
no se conseguia lembrar de
ter alguma vez visto uma pea
partida. Todas pareciam estar ainda to novas e frescas
como quando as recebera h
muitos anos. E, alm disso,
com as peas do Lego podia
construir tudo. Depois, podia desencaixar as peas e
construir algo completamente
diferente.
Que mais se podia exigir?
Sofia verificou que as peas
do Lego podiam, realmente,
ser consideradas o brinquedo
mais genial do mundo.
Mas ainda no percebia o
que  que isso tinha a ver
com filosofia. Em pouco tempo, construiu uma grande casa
de bonecas. Quase no queria
admitir que h muito tempo
no se divertia tanto. Porque  que as pessoas deixavam
de brincar?
Quando a sua me chegou a
casa e viu a casa de bonecas
de Sofia, disse de imediato:
- Que bom ver que ainda
consegues brincar como uma
criana!
- Bah! Eu estou a trabalhar em investigaes filosficas complexas.
A me suspirou profundamente. Estava certamente a
pensar no coelho e na cartola.
Quando Sofia regressou da
escola no dia seguinte, encontrou um grande envelope
amarelo com muitas folhas.
Foi para o seu quarto. Queria ler tudo imediatamente,
mas nesse dia tambm queria
ter a caixa do correio debaixo de olho.

A teoria atomista

Aqui estou de novo, Sofia. Hoje vou falar sobre o
ltimo grande filsofo da natureza. Chamava-se Demcrito (aproximadamente 
460-370 a.C.>) e vinha da cidade porturia de Abdera, a
norte do Mar Egeu. Se conseguiste responder  pergunta
acerca das peas do Lego,
no te ser difcil compreender o projecto deste filsofo.

46
Demcrito concordava com
os seus predecessores ao
afirmar que as transformaes
observveis na natureza no
significavam que algo se alterasse realmente. Admitiu,
portanto, que tudo tinha de
ser composto de elementos pequenos e invisveis, eternos
e imutveis. Demcrito designava estas pequenas partculas por tomos.
O termo "tomo" significa
"indivisvel". Para Demcrito, era fundamental afirmar que aquilo a 
partir do
qual tudo  formado no pode
ser dividido em partes cada
vez mais pequenas. Se os
tomos pudessem ser constantemente divididos em partes
cada vez mais pequenas, a natureza teria comeado a fluir
como uma sopa cada vez mais
lquida.
Os elementos constitutivos
da natureza tinham ainda de
se conservar eternamente -
porque nada pode nascer do
nada. Nisto, Demcrito estava de acordo com Parmnides e os eleatas. Alm 
disso, os tomos eram slidos e
compactos. Mas no podiam
ser iguais. Porque se os
tomos fossem iguais, no teramos uma explicao vlida
para o facto de poderem ser
combinados de modo a formarem
tudo, desde papoilas e oliveiras a pele de cabra e cabelo humano.
Existe uma quantidade infinita de tomos diferentes
na natureza segundo Demcrito. Alguns so redondos e
lisos, outros so irregulares
e curvos. E precisamente
porque tm formas to diversas, podem ser combinados
para formarem corpos completamente diversos. Mesmo sendo numerosos e 
diferentes,
todos so eternos, imutveis
e indivisveis.
Quando um corpo - por
exemplo, uma rvore ou um
animal - morre e entra em
decomposio, os seus tomos
dispersam-se e podem ser utilizados de novo em novos corpos. Os tomos 
movem-se no
espao vazio e agregam-se
para formar as coisas que vemos  nossa volta.
E agora j percebes o que
eu queria dizer com as peas
do Lego? Elas possuem mais
ou menos as propriedades que
Demcrito atribuiu aos tomos, e precisamente por isso
se pode construir to bem com
elas. Em primeiro lugar, so
indivisveis. So diferentes
em forma e em tamanho, so
slidas e impenetrveis.
Alm disso, as peas do Lego tm "ganchos", com os
quais podem ser encaixadas
umas nas outras; por isso podem ser transformadas em todas as figuras 
possveis.
Esta combinao pode ser
mais tarde desfeita e depois
construrem-se novos objectos
a partir das mesmas peas.
E foi justamente o facto
de poderem ser sempre usadas
de novo que tornou o Lego
to popular. Uma e a mesma
pea de Lego pode fazer hoje
parte de um carro, e amanh
de um palcio. Alm disso, 
possvel dizer que as peas
do Lego so "imortais". As
crianas de hoje podem brincar com as mesmas peas com
que os seus pais brincaram
quando ainda eram pequenos.

47
Com a plasticina damos
forma a variadssimas coisas,
mas esta no deve ser usada
constantemente, pois pode
desfazer-se em partes cada
vez mais pequenas, no podendo esses pequenos pedaos serem de novo 
encaixados para
formarem novos objectos.
Hoje, podemos quase afirmar que a teoria de Demcrito estava certa. A 
natureza
 de facto formada por diversos tomos, que se combinam
uns com os outros e se separam de novo. Um tomo de hidrognio que est 
numa clula
na extremidade do meu nariz
pertenceu, outrora,  tromba
de um elefante. Um tomo de
carbono do meu miocrdio esteve j na cauda de um dinossauro.
Hoje em dia, a cincia
descobriu que os tomos se
dividiam em "partculas elementares" ainda mais pequenas. A essas 
partculas elementares chamamos protes,
neutres e electres. E talvez estas se deixem fraccionar em partculas 
ainda mais
pequenas. Mas os fsicos
concordam em afirmar que tem
de haver um limite. Tm de
existir as partculas mais
pequenas a partir das quais a
natureza  formada.
Demcrito no tinha acesso
aos aparelhos electrnicos do
nosso tempo. O seu nico
instrumento era a razo. Mas
a razo no lhe deixava nenhuma alternativa. Se aceitarmos que nada se 
pode alterar, que nada surge do nada e
que nada desaparece, nesse
caso a natureza tem de ser
formada por elementos constitutivos minsculos que se
combinam e se separam uns dos
outros.
Demcrito no tinha em
conta uma "fora" ou um "esprito" que interviesse nos
processos naturais. As nicas coisas que existem, segundo ele, so os 
tomos e o
espao vazio. Dado que ele
s acreditava no que  "material", denominamo-lo materialista.
Nos movimentos dos tomos
no h uma finalidade consciente. Isso no significa
que tudo o que acontece seja
ao "acaso", porque tudo segue
as leis constantes da natureza. Demcrito achava que tudo o que acontece 
tem uma
causa natural, uma causa que
reside nas prprias coisas.
Teria dito um dia que preferia descobrir uma lei da natureza a tornar-se 
rei da
Prsia.
Segundo Demcrito, a teoria atomista esclarecia tambm as nossas 
sensaes. A
percepo que temos de alguma
coisa deve-se ao movimento
dos tomos no vazio. Quando
vejo a lua, o que acontece 
que os "tomos lunares" atingem o meu olho.
E a alma? No pode ser
constituda por tomos, por
"coisas" materiais? Para
Demcrito a alma era constituda por "tomos de alma"
redondos e lisos. Quando um
homem morre, os tomos da
alma dispersam-se em todas as
direces e podem dar vida a
outra alma.

48
Isto significa que o homem
no possui uma alma imortal.
Este  um pensamento partilhado hoje por muitas pessoas. Acreditam, como 
Demcrito, que a alma est ligada
ao crebro, e que no podemos
ter nenhuma forma de conscincia quando o crebro se
decompe.
Com a sua teoria atomista,
Demcrito ps um ponto final
provisrio na filosofia da
natureza grega. Estava de
acordo com Heraclito quando
pensava que, na natureza,
tudo flui; porque as formas
vm e vo. Mas por detrs de
tudo o que flui, h algo
eterno e imutvel que no
flui: os tomos, segundo
Demcrito.

Durante a leitura, Sofia
espreitava frequentemente pela janela para verificar se o
misterioso autor das cartas
aparecia junto  caixa do
correio. Nesse momento,
olhava fixamente para a rua,
enquanto reflectia no que tinha lido.
Segundo Sofia, Demcrito
pensara de um modo simples e
genial. Ele encontrara a soluo para os problemas do
"elemento primordial" e do
"devir". Esta questo era
to complicada que os filsofos tinham trabalhado muito
nela durante vrias geraes.
Por fim, Demcrito resolvera todo o problema, tendo
usado simplesmente a sua razo.
Sofia quase se riu. Tinha
de ser verdade que a natureza
era formada por partculas
minsculas que nunca se alteravam. Ao mesmo tempo, Heraclito tinha razo 
em afirmar que todas as formas na
natureza "fluem", porque todos os homens e animais morrem, e mesmo uma 
montanha se
desagrega lentamente. No entanto essa montanha  constituda por 
partculas pequenas
e indivisveis que nunca se
quebram.
Demcrito colocara novas
questes. Por exemplo, afirmara que tudo acontece de uma
forma mecnica. No aceitava
a ideia de foras espirituais
na existncia - ao contrrio
de Empdocles e Anaxgoras.
Alm disso, Demcrito no
acreditava que o homem tivesse uma alma imortal.
Poderia ela ter a certeza
de que ele tinha razo nesse
aspecto?
No estava to segura disso. Mas ela tambm estava
apenas no incio do seu curso
de filosofia.

49

O Destino

... o adivinho procura interpretar algo que, na realidade,  obscuro...

Sofia tinha mantido o porto da casa debaixo de olho
enquanto lia sobre Demcrito. Decidiu sair em direco
 caixa do correio, para ter
a certeza.
Quando abriu a porta da
casa, descobriu l fora, sobre a escada, um pequeno envelope com o seu 
nome: Sofia
Amundsen.
Era evidente que ele a tinha enganado! Precisamente
nesse dia, em que ela observara atentamente a caixa do
correio, o misterioso filsofo tinha entrado furtivamente
em casa e colocado a carta
nas escadas, antes de se ter
escondido novamente no bosque. Que diabo!
Como  que ele poderia saber que, precisamente nesse
dia, Sofia estava com a caixa do correio debaixo de
olho? Talvez ele (ou ela>)
a tivesse visto  janela. De
qualquer modo, estava contente por ter encontrado o envelope antes de a 
me ter chegado a casa.
Sofia voltou para o seu
quarto e abriu a carta. O
envelope branco estava um
pouco hmido nos bordos e
apresentava tambm alguns
cortes. Mas porqu? No
chovia h vrios dias.
Na folha estava escrito:

Acreditas no destino?
Ser a doena um castigo
dos deuses?
Quais so as foras que
governam o curso da histria?
Se ela acreditava no destino? No, na verdade no.
Mas conhecia muitas pessoas
que acreditavam. Por exemplo, muitas das suas colegas
liam o horscopo nas revistas. E se acreditavam na astrologia, com 
certeza acreditavam tambm no destino, porque os astrlogos afirmam que
a posio das estrelas no cu
pode dizer algo sobre a vida
dos homens na terra.

50
Se se acredita que um gato
preto que se atravessa no
nosso caminho significa azar
- sim, nesse caso tambm se
acredita no destino. Quanto
mais reflectia nisto, mais
exemplos descobria da crena
no destino. Porque  que se
dizia, por exemplo, "bate na
madeira"? E porque  que a
sexta-feira 13  um dia de
azar? Sofia tinha ouvido dizer que muitos hotis no tinham nenhum quarto 
com o nmero 13. Certamente porque
havia muitas pessoas supersticiosas.
"Superstio" - no era
uma palavra estranha? Quando
se acredita somente em Deus,
isso chama-se apenas "f".
Mas quando se acredita na
astrologia ou na sexta-feira
13, trata-se imediatamente
de superstio!
Quem tinha o direito de
designar a crena de outras
pessoas como superstio?
Sofia tinha a certeza de
uma coisa: Demcrito no
acreditava no destino. Ele
era materialista. Acreditava
apenas nos tomos e no vazio.
Sofia procurava reflectir
sobre as outras perguntas escritas na folha.
"Ser a doena um castigo
dos deuses?" Hoje em dia j
ningum acreditava numa coisa
dessas. Mas depois lembrou-se que muitas pessoas rezavam a Deus para 
ficarem
boas, e nesse caso tinham de
acreditar que Deus tambm
determinava quem devia estar
doente e quem devia estar de
boa sade.
A ltima pergunta era a
mais difcil. Sofia nunca
tinha pensado no que  que
governaria o curso da histria. Deviam ser os homens.
Se fosse Deus ou o destino,
os homens no podiam ter
realmente livre arbtrio.
A questo do livre arbtrio levou Sofia a um pensamento completamente 
diferente. Porque  que haveria de
aceitar que o misterioso filsofo brincasse com ela ao
gato e ao rato? Porque  que
no lhe escrevia tambm ela
uma carta? Ele ou ela colocaria seguramente uma nova
carta no correio no decorrer
da noite ou na manh seguinte. E por isso, ela iria
deixar, no mesmo lugar, uma
carta para o seu professor de
filosofia.
Sofia ps mos  obra.
Achou muito difcil escrever
a uma pessoa que nunca tinha
visto. Nem sequer sabia se
estava a escrever a um homem
ou a uma mulher. Tambm no
sabia se esta pessoa era velha ou nova. E, no fim de
contas, essa pessoa podia inclusivamente ser algum que
Sofia conhecia.
Em pouco tempo, formulara
uma pequena carta:

Caro filsofo: aqui em
casa temos em grande apreo o
seu generoso curso de filosofia. Mas tambm nos preocupa
no saber quem voc . Por
isso lhe

51
pedimos que se apresente com
o nome completo. Em compensao,  convidado para um
caf aqui em casa, mas de
preferncia quando a me no
estiver c. Ela trabalha de
segunda a sexta das 7.30 s
17.00 horas. Eu prpria estou na escola de manh, mas
estou sempre em casa da parte
de tarde, excepto s quintas-feiras, s 14.15. Alm
disso, fao um caf muito
bom. Desde j agradeo.

Muitos cumprimentos da sua
atenta aluna, Sofia Amundsen, 14 anos

No fundo da folha, escreveu: "Solicita-se resposta".
Pareceu-lhe uma carta demasiado cerimoniosa. Mas no
era fcil decidir com que palavras havia de escrever a
uma pessoa sem rosto.
Colocou a carta num envelope cor-de-rosa e fechou-o.
No envelope, escreveu: "Para o filsofo!"
O problema era como colocaria a carta na caixa do
correio sem que a sua me a
descobrisse. Tinha que a pr
l antes de a me chegar a
casa, e no se podia esquecer
de revistar cedo a caixa do
correio, na manh seguinte,
antes que o jornal chegasse.
Se durante a tarde ou a noite no chegasse mais nenhuma
carta para ela, tinha que ficar de novo com o envelope
rosa.
Porque  que tudo tinha de
ser to complicado?
Nessa tarde, Sofia foi
cedo para o quarto apesar de
ser sexta-feira. A me tentou que ela ficasse, aliciando-a com pizza e 
com um filme
policial, mas Sofia disse
que estava cansada e que queria ler na cama. Enquanto a
me olhava fixamente o ecr,
Sofia foi sorrateiramente 
caixa do correio.
A me estava claramente
preocupada. Falava com Sofia num tom completamente diferente desde a 
conversa sobre o coelho e a cartola.
Sofia no queria que ela se
preocupasse, mas nesse momento tinha de ir para o quarto
para poder observar a caixa
do correio.
Quando a me foi ter com
ela cerca das onze horas,
Sofia estava sentada  janela e olhava fixamente para a
rua.
- No ests a observar a
caixa do correio, pois no?
- perguntou a me.
- E porque no?
- Vejo que ests mesmo
apaixonada, Sofia. Mas se
ele trouxer uma nova carta,
certamente no ser a meio da
noite.
Que coisa! Sofia no podia suportar observaes sobre a sua suposta 
paixo.
Mas tinha de deixar a me
acreditar nisso.

52
A me continuou:
- Foi ele que falou no
coelho e na cartola?
Sofia acenou afirmativamente.
- Ele... ele no se droga, pois no?
Desta vez, Sofia teve
pena dela. No podia causar-lhe tanta angstia. De
qualquer modo, era uma idiotice completa julgar que pensamentos estranhos 
tinham
forosamente algo a ver com
estupefacientes. Por vezes,
os adultos eram mesmo parvos.
Voltou-se e disse:
- Mam, eu prometo-te que
nunca vou experimentar isso... e "ele" tambm no toma
drogas. Mas interessa-se
muito por filosofia.
-  mais velho que tu?
Sofia abanou a cabea.
-  da mesma idade?
Sofia acenou afirmativamente.
- Parece-me um rapaz fantstico. E agora acho que
devias tentar dormir.
Mas Sofia ficou ainda
sentada um bom bocado a observar a rua. Por volta da
uma hora estava to cansada
que os seus olhos se fechavam
constantemente. Por pouco
no se deitava, mas descobriu
subitamente uma sombra que
vinha do bosque.
L fora estava quase totalmente escuro, mas havia
claridade suficiente para que
ela reconhecesse uma silhueta
humana. Era um homem, e pareceu a Sofia bastante velho. Pelo menos, no 
estava
de forma alguma na sua faixa
etria. Trazia na cabea uma
bina, ou algo semelhante.
A certa altura, pareceu
que olhava para cima, para a
casa, mas Sofia no tinha
nenhuma luz acesa. O homem
foi  caixa do correio e introduziu um envelope grande.
Precisamente no momento em
que introduziu o seu envelope, descobriu o envelope de
Sofia. Enfiou a mo na caixa do correio e retirou a
carta. No tardou muito para
se pr de novo a caminho do
bosque. Correu e desapareceu
entre as rvores.
Sofia sentiu o corao a
bater. Desejava ter corrido
atrs dele em camisa de noite. Mas no, no arriscava;
no se atrevia a ir no encalo de um homem completamente
estranho a meio da noite.
Mas tinha de ir buscar a
carta, isso era certo.
Passado um pouco, desceu
silenciosamente as escadas,
abriu a porta com cuidado e
foi  caixa do correio. Voltou ao seu quarto com o grande envelope na 
mo. Sentou-se na cama e reteve a respirao. Passados poucos minutos, 
nada se movia na casa,
abriu a carta e comeou a
ler.

53
Evidentemente, no podia
esperar uma resposta  sua
carta. Essa chegaria de manh, na melhor das hipteses.

53

O destino

Mais uma vez, bom dia, cara Sofia! Deixa-me apenas
dizer-te que nunca deves tentar espiar-me. Um dia havemos de nos 
conhecer, mas serei eu a decidir o momento e
o local.
Agora j sabes: no vais
querer ser desobediente, pois
no?
Regressando aos filsofos.
Vimos de que modo eles tentaram encontrar explicaes
naturais para as transformaes da natureza. Antes disto, essas 
transformaes eram
explicadas atravs dos mitos.
Mas noutros campos a superstio antiga tambm tinha
de ser posta de parte. Vemo-lo no s em relao  sade
e doena como tambm na poltica. Nestes domnios, os
gregos acreditavam no destino.
"Fatalismo" significa a
convico de que est estabelecido a priori aquilo que
ir acontecer. Encontramos
esta ideia em todo o mundo -
tanto hoje como em qualquer
outro momento da histria.
Aqui na Europa setentrional
encontramo-la nas antigas sagas islandesas.
Tanto entre os gregos como
noutros povos acreditava-se
que os homens, atravs de diversos orculos, podiam estar
ao corrente do seu destino.
Isso significa que o destino
de uma pessoa ou de um Estado se pode prever de diversas
maneiras e que se pode interpretar a partir de determinados "indcios".
Ainda h muitas pessoas
que acham ser possvel ler o
destino nas cartas, na palma
da mo ou interpretando as
estrelas.
Uma prtica muito difundida na Noruega  tambm ler
os restos do caf. Depois de
se tomar um caf fica geralmente no fundo da chvena um
pouco da borra. Talvez a
borra forme uma determinada
imagem ou um desenho - sobretudo se recorrermos um
pouco  imaginao. Quando a
borra se parece com um carro,
isso significa talvez que a
pessoa que bebeu o caf ir
em breve fazer uma longa viagem de carro.
Vemos que o "adivinho"
procura interpretar algo que,
na realidade,  obscuro. Isso  tpico da arte divinatria.  
precisamente porque
aquilo a partir do qual ns
"predizemos"  to pouco claro que, na maior parte das
vezes, no  fcil de todo
contradizer o adivinho.
Quando erguemos os olhos
para o cu estrelado vemos um
verdadeiro caos de pontinhos
brilhantes. No entanto, muitos homens acreditaram ao
longo da histria que as estrelas poderiam dizer-nos
algo acerca da

54
nossa vida na terra. Ainda
hoje h polticos que pedem
conselho aos astrlogos antes
de tomarem decises importantes.

O orculo de Delfos

Os gregos acreditavam que
o orculo de Delfos poderia
dar aos homens informao sobre o seu destino. A, o
deus Apolo era a divindade
do orculo, que falava atravs da sacerdotisa, a Ptia
ou Pitonisa que estava sentada numa trpode sobre uma
fenda aberta no solo. Desta
fenda subiam gases entorpecedores, por meio dos quais a
Ptia ficava em estado de
transe. S assim podia tornar-se porta-voz de Apolo.
Quem chegava a Delfos tinha primeiro de colocar aos
sacerdotes locais a sua pergunta. Estes iam ter com a
Ptia. Ela dava uma resposta que era to incompreensvel ou to ambgua 
que os sacerdotes tinham de "explicar"
essa resposta quele que a
solicitara.
Desta forma, os gregos podiam servir-se da sabedoria
de Apolo, visto que acreditavam que Apolo sabia tudo
- passado e futuro.
Muitos soberanos no ousavam partir para a guerra ou
tomar decises importantes
antes de consultarem o orculo de Delfos. Assim, os sacerdotes de Apolo 
tornaram-se quase uma espcie de diplomatas e conselheiros que
possuam um vasto conhecimento do povo e do pas.
No templo de Delfos, havia uma inscrio famosa:
CONHECE-TE A TI MESMO!
Isso porque os homens nunca
deviam julgar que eram mais
do que homens - e nenhum homem podia escapar ao seu destino.
Entre os gregos contavam-se muitas histrias acerca
de pessoas que tinham sido
vtimas do seu destino. Com
o decorrer do tempo, foram
escritos vrios dramas -
tragdias - acerca destas
personagens "trgicas". O
exemplo mais famoso  a histria do Rei dipo que,
querendo fugir ao seu destino, acabou mesmo por cair nas
suas garras.

Histria e medicina

No era apenas a vida de
pessoas individuais a ser determinada pelo destino, segundo a opinio dos 
gregos na
Antiga Grcia. Eles pensavam tambm que o curso do
mundo era governado pelo destino. Acreditavam, por exemplo, que o 
desenlace de uma
guerra podia ser atribudo 
interveno divina. Ainda
hoje, muitos acreditam que
Deus ou outras foras msticas governam os acontecimentos histricos.
Mas enquanto os filsofos
gregos procuravam encontrar
explicaes naturais para os
processos da natureza, tambm
se formava pouco a

55
pouco uma cincia da histria, cujo objectivo era encontrar causas 
naturais para
o curso da histria. J no
se atribua aos desejos de
vingana dos deuses o facto
de um Estado perder uma
guerra. Os historiadores
gregos mais conhecidos foram
Herdoto (484-424 a.
C.>) e Tucdides (460-400 a.C.>).
Os gregos acreditavam que
os deuses eram responsveis
pelas doenas. Assim, as
doenas contagiosas eram frequentemente vistas como castigo dos deuses. 
Em contrapartida, os deuses podiam
tornar os homens saudveis se
lhes fossem oferecidos os sacrifcios devidos.
Esta ideia no  tipicamente grega. Antes de se
desenvolver, em tempos mais
recentes, a cincia mdica
moderna, predominava a opinio segundo a qual cada doena tinha uma causa 
sobrenatural. A palavra "influenza", que ainda hoje  utilizada, 
significava originalmente que algum estava sob a
"influncia" nefasta dos astros.
Muitas pessoas em todo o
mundo ainda pensam que vrias
doenas - como, por exemplo,
a sida - so um castigo de
Deus. E muitos acreditam
que um doente pode ser curado
de maneira sobrenatural.
Enquanto os filsofos gregos reflectiam sobre a natureza, desenvolvia-se 
igualmente na Grcia uma cincia
mdica, que procurava encontrar explicaes naturais
para a sade e para a doena.
Esta cincia mdica grega
foi supostamente fundada por
Hipcrates, que nasceu
cerca do ano 460 a.C. na
ilha de Cs.
A proteco mais importante contra a doena residia,
segundo a tradio hipocrtica, na moderao e numa vida
saudvel. Para um ser humano
 natural estar bem; por
isso, se se adoece, deve-se
procurar o motivo num desequilbrio fsico ou psquico.
A vida saudvel reside na
moderao, na harmonia e em
"uma mente s num corpo so".
Hoje ainda se fala acerca
de "deontologia mdica".
Significa que um mdico tem
que exercer a sua profisso
seguindo determinadas normas
ticas. Por exemplo, um mdico no pode receitar drogas
a pessoas saudveis. Um mdico est tambm sujeito a um
segredo profissional que lhe
probe contar aquilo que um
paciente lhe revelou sobre a
sua doena. Estas ideias vm
de Hipcrates. Os seus discpulos tinham de prestar um
juramento ainda hoje conhecido como o juramento hipocrtico:

Juro por Apolo, o mdico, por Escolpio, por Higeia e por Panaceia, 
tomando
por testemunhas todos os
Deuses e todas as Deusas,
que cumprirei com todas as
minhas posses e conforme o
meu saber o seguinte juramento: Considerar e amar como a
meus pais aquele que me ensinou esta arte; viver com ele
e, se necessrio for, repartir com

56
ele os meus bens; olhar pelos
seus filhos como se fossem
meus irmos e ensinar-lhes
esta arte, se assim o pretenderem, sem receber qualquer
pagamento ou promessa escrita; ensinar aos meus filhos,
aos filhos do mestre que me
ensinou e a todos os discpulos que se inscrevam e que
concordem com as regras da
profisso, mas s a estes,
todos os preceitos e conhecimentos. Prescrever aos doentes, segundo as 
minhas possibilidades e o meu saber, o
regime conveniente para o seu
bem e nunca prejudicar ningum. No receitar drogas
perigosas para agradar a quem
quer que seja, nem lhe dar
conselhos que possam causar a
sua morte. No dar s mulheres meios de abortarem. Conservar a pureza da 
minha vida
e da minha profisso. No
fazer operaes para tirar
pedras, mesmo nos enfermos em
que a doena seja manifesta,
e deixar esta operao aos
especialistas nessa arte. Em
todas as casas a que eu for,
entrar somente para benefcio
dos meus doentes, evitando
qualquer prejuzo intencional
ou qualquer seduo, bem
como, em especial, os prazeres do amor com mulheres ou
com homens, quer sejam livres
ou escravos. Manter secreto
e nunca revelar aos outros
tudo o que possa vir a saber
no exerccio da minha profisso, fora da minha profisso
ou na convivncia diria com
as pessoas e que no deva ser
divulgado. Se eu mantiver e
observar este juramento com
fidelidade, que possa ter
alegria em viver e praticar a
minha arte, respeitado por
todos os homens e em todos os
tempos, mas se eu me desviar
dele, ou o violar, que me suceda o contrrio.

Quando acordou na manh de
sbado, Sofia sobressaltou-se. Teria apenas sonhado,
ou teria visto, de facto, o
filsofo?
Tacteando, procurou debaixo da cama. Sim - a estava
a carta que chegara nessa
noite. Tinha lido sobre a
crena no destino, no que dizia respeito aos gregos. No
podia ser apenas um sonho.
Seguramente que tinha visto o filsofo! E mais - tinha visto com os seus 
prprios olhos que ele ficara
com a sua carta.
Sofia levantou-se e espreitou para debaixo da cama.
Retirou as folhas escritas.
Mas o que era aquilo? Bem
atrs, junto  parede, estava
uma coisa vermelha. Seria um
leno?
Sofia enfiou-se debaixo da
cama e retirou um leno de
seda vermelho. Nunca tinha
visto aquele leno.
Examinou bem o leno de
seda e soltou um grito quando
viu que na bainha estava algo
escrito a preto: "Hilde".
Hilde! Mas quem era esta
Hilde? Como era possvel
que os seus caminhos se cruzassem desta forma?

57

SCRATES

... a pessoa mais sbia 
aquela que sabe que no
sabe...

Sofia vestiu um vestido de
Vero e desceu para a cozinha. A me estava debruada
sobre o lava-loua. Sofia
decidiu no dizer nada sobre
o leno de seda.
- J foste buscar o jornal? - perguntou Sofia em
voz baixa.
A me voltou-se.
- No queres ser simptica e ir busc-lo por mim?
Sofia correu pelo caminho
de saibro e espreitou para a
caixa do correio verde.
Apenas jornais. Mas tambm no podia esperar uma
resposta imediata. Na primeira pgina do jornal leu
algumas linhas acerca do contingente noruegus da ONU
no Lbano.
Contingente da ONU -
no era o que estava escrito
no postal do pai de Hilde?
Mas tinha um selo noruegus.
Talvez os soldados noruegueses da ONU tivessem uma
caixa de correio apenas para
eles.
Quando voltou  cozinha, a
me afirmou ironicamente:
- De repente os jornais
passaram a interessar-te muito.
Felizmente, no disse mais
nada acerca da caixa do correio ou alguma coisa semelhante, nem durante o 
pequeno-almoo nem durante o resto
do dia. Quando foi s compras, Sofia foi a correr
para a toca com a carta que
falava do destino.
O seu corao deu um pulo
quando encontrou um pequeno
envelope branco junto  caixa
das cartas do seu professor
de filosofia. Sofia julgou
saber quem o tinha colocado
l.
Este envelope tambm tinha
os bordos hmidos. E apresentava dois golpes profundos, exactamente como 
o envelope branco que recebera no
dia anterior.
Teria o filsofo estado
ali? Conheceria ele o seu
esconderijo secreto? Porque
 que os envelopes estavam
molhados?
Sofia ficou atordoada com
todas estas perguntas. Abriu
o envelope e leu o que estava escrito na folha.

58
Cara Sofia! Li a tua
carta com grande interesse -
e tambm com muita pena porque no posso aceitar o teu
convite para tomar caf em
tua casa. Havemos de nos encontrar um dia, mas, por enquanto, no posso 
ser visto
na Curva do Capito.
Devo ainda acrescentar que
j no posso entregar as minhas cartas pessoalmente.
Com o decorrer do tempo,
isso seria demasiado arriscado. O meu pequeno mensageiro
levar as prximas cartas.
Em compensao, as cartas
sero depositadas directamente no teu esconderijo secreto, no jardim. 
Daqui em diante, podes entrar em contacto comigo quando sentires que
h necessidade disso. Nesse
caso, tens de usar um envelope cor-de-rosa com uma bolacha doce ou com um 
torro de
acar. Quando o mensageiro
encontrar uma dessas cartas,
no deixar de ma trazer.

PS. No  nada divertido
recusar o convite de uma jovem. Mas por vezes  necessrio.
PS2. Se encontrares um
leno de seda, quero pedir-te
que o conserves cuidadosamente. Acontece, por vezes, que
os objectos so trocados, sobretudo na escola e em locais
semelhantes, e esta  na verdade uma escola de filosofia.

Cumprimentos cordiais,
Albert Knox

Sofia j tinha catorze
anos, e j recebera vrias
cartas durante a sua breve
existncia, pelo menos no
Natal ou nos aniversrios.
Mas esta era a carta mais
estranha que alguma vez recebera.
No trazia selo. Nem sequer tinha estado na caixa do
correio. Esta carta fora depositada directamente no esconderijo 
supersecreto de
Sofia, junto  antiga sebe.
Tambm era estranho que a
carta se tivesse molhado, estando um tempo primaveril
seco.
Mas o mais estranho era,
obviamente, o leno de seda.
O professor de filosofia tinha mais uma aluna. Est
bem! E esta outra aluna tinha perdido um leno de seda
vermelho. Est bem! Mas como  que conseguira perder o
leno debaixo da cama de Sofia?
E Alberto Knox... que
nome to esquisito!
De qualquer forma, esta
carta provara que havia uma
relao entre o professor de
filosofia e Hilde Mller
Knag. Mas que o pai de
Hilde confundisse as moradas, era completamente incompreensvel.
Sofia ficou muito tempo
sentada, questionando-se sobre que relao poderia haver
entre ela prpria e Hilde.
Por fim, suspirou, resignada. O professor de filosofia dissera que se 
encontrariam um dia. Iria ela, nessa
altura, conhecer tambm
Hilde?

59
Virou a folha. Descobriu
ento que havia algumas frases no verso.

Existe um pudor natural?
A pessoa mais sbia 
aquela que sabe que no sabe.
O verdadeiro conhecimento
vem de dentro.
Quem sabe o que  correcto, age correctamente.

Sofia j sabia que as frases curtas dos envelopes
brancos a iriam preparar para
o contedo do envelope grande
que, entretanto, receberia em
seguida. E nesse momento,
teve uma ideia: se o "mensageiro" lhe levava para a toca
o envelope amarelo, Sofia
podia esperar por ele. Ou
por ela? De qualquer modo,
havia de agarrar a pessoa em
questo at que lhe contasse
mais qualquer coisa a respeito do filsofo! Na carta estava escrito que o 
mensageiro
era pequeno. Tratar-se-ia de
uma criana?
"Existe um pudor natural?"
Sofia sabia que "pudor"
era uma palavra antiquada para designar certas inibies
- por exemplo, deixar-se ver
nu. Mas seria realmente natural ter pudor em relao a
isso? Ser natural equivalia
a dizer que era vlido para
todos os homens. Mas em muitos pases do mundo era natural estar nu!
Seria a sociedade a estabelecer o que era permitido
e o que no era? Quando a
av era jovem, era completamente impossvel tomar banhos
de sol em topless. Mas
hoje em dia, a maior parte
das pessoas achava isso "natural", apesar de ser totalmente proibido em 
muitos pases. Sofia coou a cabea.
Seria isto filosofia?
Depois podia ler-se: "A
pessoa mais sbia  a que
sabe que no sabe".
Mais sbia que quem? Se o
filsofo queria dizer com
isso que uma pessoa que sabia
que no sabia tudo era mais
sbia do que uma que sabia
pouco e que pensava que sabia
muito - sim, nesse caso no
era muito difcil partilhar a
sua opinio. Sofia nunca tinha pensado nisso. Mas quanto mais pensava, 
mais claro
lhe parecia que, no fundo,
saber que no se sabe  uma
espcie de saber. Ela no
conseguia imaginar nada mais
estpido do que pessoas que
defendiam opinies que julgavam irrefutveis, quando, na
realidade, nada sabiam sobre
isso.
Em seguida, havia a frase
sobre o conhecimento que vinha de dentro. Mas, sem dvida, todo o 
conhecimento vinha primeiro do exterior passando depois para a cabea
das pessoas. Por outro lado,
Sofia lembrava-se bem de situaes em que a sua me ou
os professores, na escola,
tinham tentado ensinar-lhe
qualquer coisa em que ela no
estava interessada. Se
aprendera de facto alguma
coisa, tambm tinha,

60
de algum modo, contribudo
para isso. Podia acontecer-lhe compreender algo subitamente - e era isso 
que era
designado por "saber".
Sim, Sofia achava que tinha resolvido as primeiras
perguntas muito bem. Mas em
seguida vinha uma afirmao
to estranha que a deixara
perplexa. "Quem sabe o que 
correcto, age correctamente".
Queria isso dizer que um
assaltante de bancos no tinha uma ideia melhor quando
assaltava um banco? Sofia
achava que no. Em vez disso, estava convencida de que
tanto as crianas como os
adultos podiam fazer disparates - dos quais se arrependeriam mais tarde - 
e que o
faziam tendo plena conscincia de que poderiam ter agido
de uma forma mais correcta.
Enquanto ainda estava sentada, ouviu de repente, do
lado da sebe que ia dar ao
bosque, ramos secos a estalarem. Seria o mensageiro?
Sofia sentiu de novo o corao aos pulos. Mas teve ainda mais medo quando 
se deu
conta de que, o que se aproximava, arfava como um animal.
Logo em seguida, entrou na
toca um co grande, vindo do
bosque. Devia ser um labrador. Segurava na boca um
grande envelope amarelo que
deixou cair aos ps de Sofia. Tudo se passou to depressa que Sofia no 
conseguiu sequer reagir. Passados
poucos segundos, tinha o
grande envelope nas mos - e
o co amarelo desaparecera de
novo no bosque. S depois de
tudo isto se ter passado 
que o choque surgiu. Sofia
ps as mos no colo e comeou
a chorar.
No deu por quanto tempo
ficou assim, mas, da a um
bocado, levantou de novo os
olhos.
Ento aquele era o mensageiro! Sofia sentiu-se aliviada. Era por isso que 
os
envelopes brancos estavam molhados nas bordas. E era por
isso que tinham golpes. Como
 que ainda no pensara nisso? J fazia sentido que devesse colocar no 
envelope um
biscoito ou um torro de acar quando quisesse escrever
ao filsofo.
Nem sempre conseguia pensar to depressa como desejava. No entanto, era 
bastante
curioso que o mensageiro fosse um co amestrado. Desta
forma, podia pr de lado a
ideia de vir a saber pelo
mensageiro o paradeiro de
Alberto Knox.

Sofia abriu o envelope e
comeou a ler.

A filosofia em Atenas

Cara Sofia! Quando leres
esta carta, j ters conhecido Hermes. Por precauo,
devo acrescentar que Hermes
 um co. Mas no tens que

61
te preocupar. Ele  muito
simptico - e, alm disso,
tem mais juzo que muitas
pessoas. Pelo menos, no
tenta parecer mais esperto do
que  na realidade.
J podes perceber que o
seu nome no  fruto do acaso. Hermes era o mensageiro
dos deuses gregos. Era ainda
o deus dos viandantes, mas
por enquanto isso no nos diz
respeito. O importante  que
do nome Hermes deriva o adjectivo "hermtico", que significa obscuro e 
indecifrvel. Isso est relacionado
com o facto de Hermes nos
manter afastados um do outro.
J apresentei o mensageiro. Ele responde pelo seu
nome e, em geral,  bastante
obediente.
Voltemos  filosofia. J
deixmos a primeira unidade.
Refiro-me  filosofia da natureza, a verdadeira ruptura
com a concepo mtica do
mundo. Vamos conhecer agora
os trs principais filsofos
da Antiguidade. Chamam-se
Scrates, Plato e Aristteles. Cada um destes filsofos marcou de uma 
certa maneira a civilizao europeia.
Os filsofos da natureza
so tambm designados por
pr-socrticos, visto que viveram antes de Scrates. Na
realidade, Demcrito morreu
alguns anos aps Scrates,
mas todo o seu pensamento
pertence  filosofia da natureza pr-socrtica. Scrates
representa uma linha de separao no apenas do ponto de
vista cronolgico. Tambm do
ponto de vista geogrfico,
Scrates  o primeiro filsofo nascido em Atenas, e
tanto ele como ambos os seus
sucessores viveram e exerceram a sua actividade em Atenas. Talvez 
recordes que
Anaxgoras viveu algum tempo
nesta cidade, tendo, no entanto, sido expulso dela por
defender que o sol era uma
esfera de fogo. (Scrates
no iria ter um destino melhor!>).
A partir da poca de Scrates, Atenas torna-se o
ponto de encontro da cultura
grega.  ainda mais importante notar que todo o projecto filosfico muda 
essencialmente, se passarmos dos
filsofos da natureza para
Scrates. Mas antes de conhecermos Scrates, vamos
saber um pouco mais acerca
dos chamados sofistas, que
influenciaram o panorama cultural da cidade de Atenas.
O pano vai subir, Sofia!
A histria do pensamento 
semelhante a um drama em muitos actos.

O homem no centro

Por volta de 450 a.C.,
Atenas tornou-se o centro
cultural do mundo grego. A
filosofia tambm tomou ento
uma orientao nova.

62
Os filsofos da natureza
eram, sobretudo, investigadores do mundo fsico. Ocupam
consequentemente um lugar importante na histria das cincias. Em Atenas, 
o interesse concentrou-se ento
mais no homem e no seu lugar
na sociedade.
Em Atenas desenvolvia-se
progressivamente uma democracia com assembleias populares
e tribunais. Uma das condies para a instaurao da
democracia exigia que os homens recebessem instruo suficiente para 
poderem participar na vida poltica. Tambm nos dias de hoje vemos
que uma jovem democracia precisa do esclarecimento popular. Entre os 
atenienses
isso significava sobretudo
dominar a retrica.
Vindo das colnias gregas,
um grupo de professores itinerantes e de filsofos
afluiu ento a Atenas. Chamavam-se sofistas. A palavra
"sofista" designa uma pessoa
sbia ou erudita. Em Atenas, os sofistas ganhavam o
seu sustento ensinando os cidados.
Os sofistas tinham uma notvel semelhana com os filsofos da natureza, 
pois tambm eles eram crticos relativamente aos mitos tradicionais. Mas, 
simultaneamente,
os sofistas recusavam tudo o
que lhes parecia ser especulao filosfica desnecessria. Achavam que 
mesmo que
houvesse resposta para muitas
questes filosficas, os homens nunca poderiam encontrar
explicaes verdadeiramente
seguras para os enigmas da
natureza e do universo. Em
filosofia, este ponto de vista  designado por cepticismo.
Mas apesar de no podermos
encontrar resposta para todos
os enigmas da natureza, sabemos que somos homens e que
devemos aprender como viver
em comunidade. Os sofistas
interessavam-se pelo homem e
pelo seu lugar na sociedade.
"O homem  a medida de todas as coisas", dizia o sofista Protgoras 
(cerca de
487-420 a.C.>). Queria
dizer que a justia e a injustia, o bem e o mal devem
ser sempre avaliados em funo das necessidades dos homens.  pergunta se 
acreditava nas divindades gregas,
respondeu: "sobre os deuses
nada posso dizer! Porque
muitas coisas nos impedem que
o saibamos: a dificuldade do
problema e a brevidade da
vida humana". Chamamos
agnstico quele que diz
no poder afirmar com segurana se Deus existe ou no.
Os sofistas faziam com
frequncia longas viagens,
tomando assim conhecimento de
vrios sistemas de governo.
Os usos e os costumes, e as
leis das cidades-estado variavam muito. Partindo destas
experincias, os sofistas
iniciaram em Atenas uma discusso sobre o que era estabelecido pela 
natureza e o
que era imposto pela sociedade. Desta forma, criaram na
cidade-estado de Atenas as
bases para uma crtica social.

63
Podiam, por exemplo, mostrar que uma expresso como
"pudor natural" no era admissvel, porque se o pudor
fosse natural, teria de ser
inato. Mas  inato, Sofia,
- ou foi a sociedade que o
criou? Para pessoas que viajaram muito, a resposta tinha
de ser simplesmente: no 
natural - ou inata - a vergonha de se mostrar nu. Pudor - ou a ausncia 
de pudor
- tem a ver sobretudo com os
usos e os costumes numa sociedade.
Como podes compreender, os
sofistas provocavam fortes
discusses na sociedade ateniense, ao afirmarem que no
havia normas absolutas para
estabelecer o que  justo e o
que no . Scrates, pelo
contrrio, tentou provar que
algumas normas so realmente
absolutas e universalmente
vlidas.

Quem era Scrates?

Scrates (470-399 a.
C.>)  talvez a personagem
mais enigmtica de toda a
histria da filosofia. No
escreveu uma nica linha.
Apesar disso, pertence ao
nmero dos que exerceram
maior influncia no pensamento europeu. O facto de ser
conhecido, mesmo por quem no
possui muitos conhecimentos
de filosofia, tem provavelmente a ver com a sua morte
trgica.
Sabemos que nasceu em
Atenas e que a passou a sua
vida, sobretudo nas praas e
nas ruas, onde conversava com
todo o tipo de gente. Achava
que os campos e as rvores
no lhe podiam ensinar nada.
Por vezes, ficava longas horas absorto em reflexo profunda.
Ainda no seu tempo, era
considerado uma pessoa enigmtica e aps a sua morte foi
considerado o precursor das
mais diversas orientaes filosficas. E precisamente
por ser to enigmtico e ambguo, variadssimas orientaes o podiam 
reivindicar.
Sabe-se que era muito
feio. Era pequeno e gordo, e
tinha olhos salientes e um
nariz achatado. Mas interiormente, dizia-se, era um
homem maravilhoso, nunca se
poderia encontrar algum
igual a ele.
No entanto, foi condenado
 morte devido  sua actividade filosfica.
Conhecemos a vida de
Scrates sobretudo atravs
de Plato, que era seu discpulo, tambm ele um dos
maiores filsofos da histria.
Plato escreveu muitos
dilogos - ou conversas filosficas - nas quais faz
participar Scrates.
Quando Plato pe as palavras na boca de Scrates,
no podemos dizer com certeza
que Scrates as tivesse verdadeiramente pronunciado.

64
Por isso, no  fcil distinguir a doutrina de Scrates da de Plato. 
Este
problema  vlido, tambm,
para muitas outras personalidades histricas que no deixaram fontes 
escritas. O
exemplo mais famoso  obviamente Jesus. No podemos
ter a certeza de que o "Jesus histrico" tenha dito, de
facto, aquilo que Mateus ou
Lucas puseram na sua boca.
Da mesma forma, permanecer
sempre um enigma aquilo que o
"Scrates histrico" disse
realmente.
Quem era "realmente" Scrates no  muito importante.  sobretudo o seu 
retrato por Plato que inspira os
pensadores ocidentais de h
quase dois mil e quatrocentos
anos.

A arte do dilogo
O que distinguia, na verdade, a actividade de Scrates era o seu desejo 
de no
ensinar os homens. Em vez
disso, parecia querer ele
mesmo aprender com o seu interlocutor. Assim, no ensinava como um vulgar 
professor
de escola: dialogava.
Mas no se teria tornado
um filsofo famoso se apenas
tivesse escutado os seus interlocutores. Tambm no teria sido condenado 
 morte.
E, sobretudo no incio, apenas punha questes. Alegava,
humildemente, nada saber. No
decurso do dilogo, levava
frequentemente os outros a
reconhecerem os pontos fracos
das suas reflexes. Podia
suceder ento que o interlocutor fosse encostado  parede e tivesse de 
reconhecer,
por fim, o que era o justo e
o injusto.
Diz-se que a me de Scrates era parteira, e Scrates comparava a sua 
actividade  arte da obstetrcia.
No  a parteira que d 
luz a criana, ela apenas
est presente e ajuda a me.
Scrates compreendeu tambm
que a sua tarefa era ajudar
os homens a "parir" o saber
correcto, porque o verdadeiro
saber tem de vir de dentro e
no pode ser enxertado. S o
conhecimento que vem do interior  a verdadeira "inteligncia".
Vou precisar: a capacidade
de dar  luz crianas  uma
faculdade natural. Da mesma
forma, todos os homens podem
compreender as verdades filosficas, usando simplesmente
a razo. Quando algum
"recorre  razo", retira
qualquer coisa de si mesmo.
Precisamente por se fingir
ignorante, Scrates obrigava
as pessoas a usarem a razo.
Scrates podia simular ignorncia ou parecer mais estpido do que na 
realidade era:
a famosa ironia socrtica.
Desta forma, ele conseguia
sempre descobrir os pontos
fracos na forma de pensar dos
atenienses. Isto podia passar-se no centro de uma praa, ou

65
seja, em pblico. Um encontro com Scrates podia levar
o interlocutor a fazer figura
de estpido, ou a ser ridicularizado perante uma grande
assistncia.
Por isso, no  de espantar que ele se tivesse tornado incmodo e muito 
irritante
- sobretudo para aqueles que
detinham o poder. Scrates
dizia que Atenas era como um
cavalo indolente, e ele era
uma espcie de aguilho que
lhe picava o flanco para o
manter desperto. (O que 
que se faz com o aguilho,
Sofia? Sabes-mo dizer?>)

Uma voz divina

Scrates picava os seus
prximos no flanco, no tendo, porm, a inteno de os
atormentar. Havia algo nele
que no o deixava agir de outra forma. Repetia frequentemente que ouvia 
interiormente uma voz divina. Scrates insurgia-se, por exemplo,
com a condenao de pessoas 
morte. Alm disso, recusava-se a denunciar inimigos polticos. Por fim, 
isso iria
custar-lhe a vida.
No ano de 399 a.C. foi
acusado de "corromper a juventude" e de "inventar novos
deuses". Com uma maioria 
justa, foi declarado culpado
por um jri de 500 membros.
Podia ter pedido o indulto. Poderia, pelo menos, ter
salvo a sua vida, se estivesse disposto a deixar Atenas.
Mas se o tivesse feito, no
teria sido Scrates, porque
a prpria conscincia - e a
verdade - eram mais importantes do que a vida. Insistia que s agira para 
o bem
do Estado, mas, mesmo assim,
foi condenado  morte. Pouco
tempo depois, e em presena
dos seus amigos mais prximos, bebeu uma taa de cicuta.
Porqu, Sofia? Porque 
que Scrates teve de morrer?
H muitas pessoas que ainda
fazem esta pergunta. Mas ele
no foi o nico na histria a
ir at s ltimas consequncias e a morrer em nome das
suas convices. J mencionei Jesus e entre Jesus e
Scrates h, de facto, muitas afinidades. Vou referir
apenas algumas.
Tanto Jesus como Scrates eram j considerados pelos seus contemporneos 
pessoas enigmticas. Nenhum deles escreveu a sua mensagem,
por isso estamos completamente dependentes da imagem que
os seus discpulos nos do
deles. Sabe-se, no entanto,
que ambos eram mestres na
arte de comunicar. Alm disso, expressavam-se de uma
forma clara, o que tanto poderia encantar como irritar.
E ambos acreditavam ser portadores de uma mensagem maior
que eles mesmos. Desafiavam
aqueles que detinham o poder
na sociedade porque criticavam todas

66
as formas de injustia e de
abuso de poder. E ainda: esta actividade custou a ambos
a vida.
Inclusivamente nos processos contra Jesus e Scrates
vemos claros paralelismos.
Ambos poderiam ter talvez
pedido o indulto e salvo assim as suas vidas. Mas acreditavam estar a 
trair as suas
convices se no fossem at
ao fim. E o facto de terem
enfrentado a morte de cabea
erguida tornou-os dignos da
confiana de todos, mesmo
aps a morte.
Se fao este paralelismo
entre Jesus e Scrates no
 porque os ache semelhantes.
Queria apenas sublinhar que
 impossvel dissociar a sua
mensagem da sua coragem.

Um joker em Atenas
Scrates, Sofia! Ainda
no discutimos tudo o que lhe
diz respeito, como compreendeste. Dissemos algumas coisas sobre o seu 
mtodo. Mas
qual era o seu projecto filosfico?
Scrates era um contemporneo dos sofistas. Como
eles, preocupava-se com o homem e com a vida humana, no
com os problemas dos filsofos da natureza. Um filsofo
romano - Ccero - disse
alguns sculos mais tarde que
Scrates trouxera a filosofia do cu para a terra, a
introduzira nas cidades e nas
casas e que tinha forado os
homens a reflectirem sobre a
vida e os costumes, o bem e o
mal.
Mas Scrates diferia dos
sofistas num ponto importante. No se considerava um
sofista - uma pessoa instru
da ou sbia. Ao contrrio
dos sofistas, no pedia remunerao pelo seu ensino.
No, Scrates denominava-se
filsofo, no sentido mais genuno do termo. Um "filsofo" , na 
realidade, um "amante da sabedoria", algum que
aspira a adquirir a sabedoria.
Ests a seguir-me, Sofia?
 importante no teu curso
que compreendas a diferena
entre um sofista e um filsofo. Os sofistas eram pagos
pelas suas subtilezas e esses
"sofistas" estiveram presentes durante toda a histria.
Refiro-me a todos os mestres-escola ou sabiches que
esto satisfeitos com o seu
pouco saber ou que se gabam
de saber muito acerca daquilo
que, na realidade, no conhecem. Certamente j deparaste, embora sejas 
jovem, com alguns desses "sofistas". Um
verdadeiro filsofo, Sofia,
 algum completamente diferente, sim,  exactamente o
contrrio.
Um filsofo apercebe-se
bem que, no fundo, sabe muito
pouco. Precisamente por isso
ele procura sempre atingir o
verdadeiro conhecimento.

67
Por isso, Scrates era um
homem extraordinrio. Sabia
claramente que nada sabia
acerca da vida e do mundo. E
mais importante ainda: o facto de saber to pouco atormentava-o.
Um filsofo , portanto,
algum que reconhece que h
muitas coisas que no entende. E isso aflige-o. Deste
ponto de vista,  porm mais
sbio que todos os que se gabam do seu pretenso saber.
"A pessoa mais sbia  aquela que sabe que no sabe",
como eu disse. O prprio
Scrates dizia que sabia
apenas uma coisa, isto , que
nada sabia. Presta ateno a
isto, porque mesmo entre filsofos esta declarao  uma
coisa rara. Alm disso, pode
ser perigoso declar-lo publicamente. Aqueles que perguntam so sempre os 
mais perigosos. No  perigoso responder. Uma simples pergunta
pode ser mais explosiva do
que mil respostas.
Conheces a histria dos
trajes novos do rei, Sofia?
Na realidade, o rei ia nu,
mas nenhum dos seus sbditos
ousou diz-lo. E, de repente, uma criana exclamou que
o rei estava nu. Era uma
criana corajosa, Sofia.
Deste modo, tambm Scrates
ousou esclarecer quo pouco
os homens sabem. J falmos
acerca da semelhana entre
filsofos e crianas.
Vou ser mais preciso: a
humanidade  confrontada com
questes importantes, para as
quais no encontra facilmente
as respostas correctas. Temos, ento, duas alternativas: podemos enganar-
nos a
ns mesmos e ao resto do mundo e fingir que sabemos tudo
o que  preciso saber. Ou
podemos fechar os olhos perante as grandes questes e
desistir de uma vez por todas
de ir mais longe. Desta forma, a humanidade divide-se em
duas partes. Em geral, os
homens ora esto totalmente
seguros ou so indiferentes.
(Uns e outros rastejam na
pele do coelho!>)  como as
cartas, quando se divide um
baralho. Colocam-se as cartas pretas num monte e as
vermelhas num outro. Mas de
vez em quando surge um joker
no baralho, que no  copas
nem paus, nem ouros nem espadas. Scrates era como um
joker em Atenas. No tinha
certezas absolutas, nem era
indiferente. Sabia apenas
que nada sabia - e isso preocupava-o, por isso se tornou
filsofo - uma pessoa que
no desiste e que procura incansavelmente o saber.
Conta-se que uma vez um
ateniense perguntou ao orculo de Delfos quem era o homem mais sbio de 
Atenas. O
orculo respondeu: Scrates.
Quando Scrates soube disso
ficou verdadeiramente admirado. (Acho que ele se riu,
Sofia!>) Foi imediatamente
para a cidade e procurou algum que fosse tido por ele e
por outros como sbio. Mas
quando se provou que esse homem no conseguia responder
com clareza s suas perguntas, Scrates reconheceu por
fim que o orculo tinha razo.

68
Para Scrates, era importante encontrar um fundamento
seguro para o nosso conhecimento. Acreditava que esse
fundamento residia na razo
humana. Devido  sua forte
convico na razo humana,
ele era um racionalista.

O verdadeiro conhecimento
leva a agir correctamente

J referi que Scrates
julgava ouvir dentro de si
uma voz divina, e essa "conscincia" dizia-lhe o que estava certo. Quem 
soubesse o
que era o bem, praticaria o
bem. Segundo ele, o verdadeiro saber leva a agir correctamente. E apenas 
aquele
que age correctamente se torna um verdadeiro homem.
Quando agimos mal,  porque
no sabemos agir melhor. Por
isso  to importante alargar
o nosso saber. Para Scrates, tratava-se especificamente de encontrar 
definies
totalmente claras e universais para o que  justo e o
que  injusto. Ao contrrio
dos sofistas, ele achava que
a faculdade de distinguir o
justo do injusto residia na
razo e no na sociedade.
Talvez no consigas engolir facilmente a ltima frase, Sofia. Vou tentar 
mais
uma vez: Scrates achava impossvel que algum fosse feliz se agisse 
contra as suas
prprias convices. E aquele que sabe como atingir a
felicidade vai, certamente,
faz-lo. Por isso, quem sabe
o que est certo, far o que
est certo. Ningum deseja
ser infeliz, pois no?
O que te parece, Sofia?
Podes viver feliz se estiveres sempre a fazer coisas
que, no fundo do corao, no
aches correctas? H muitas
pessoas que mentem e roubam
constantemente, outras que
lanam calnias. Pois bem!
Sabem que isso no  correcto - ou justo, se preferires. Mas acreditas 
que isso
as faz felizes? Scrates no
acreditava.

Depois de ter lido a carta
sobre Scrates, Sofia guardou-a rapidamente na caixa e
saiu de gatas para o jardim.
Para se poupar a perguntas
eventuais acerca de onde tinha estado, decidiu estar em
casa antes que a me tivesse
regressado das compras. Alm
disso, Sofia tinha prometido
lavar a loua.
Mal abriu a torneira, a
me entrou com dois enormes
sacos de plstico.
- Ultimamente, andas com
a cabea nas nuvens, Sofia.
Sofia respondeu sem reflectir:
- Passava-se exactamente
o mesmo com Scrates!
- Scrates?

69
A me esbugalhou os olhos.
- Que pena ter de o pagar
com a vida - continuou Sofia muito pensativa.
- Sofia! J no sei o
que hei-de fazer!
- Scrates tambm no. A
nica coisa que ele sabia era
que no sabia nada. E, no
entanto, era o homem mais sbio de Atenas.
A me ficou pura e simplesmente estupefacta. Por
fim, afirmou:
- Aprendeste isso na escola?
Sofia abanou energicamente
a cabea.
- A no aprendemos nada... A grande diferena entre um mestre-escola e 
um
verdadeiro filsofo  que o
mestre-escola acha que sabe
muito, e procura constantemente meter  fora na cabea
dos alunos aquilo que sabe.
O filsofo procura ir ao
fundo das questes com os
seus alunos.
- Bom, estamos a falar de
coelhos brancos. Mas vou
querer saber com que tipo de
namorado  que tu andas. Se
no, comeo a pensar que ele
no  bom da cabea.
Sofia voltou-se de costas
para o lava-loua, apontando
com a escova para a me.
- Ele  bom da cabea.
Mas  como um aguilho que
incomoda os outros, para lhes
incutir uma nova maneira de
pensar.
- Pra com isso. Acho
que parece um pouco pretensioso e impertinente.
Sofia inclinou-se de novo
para o lava-loia.
- Ele no  sbio nem impertinente. Mas procura
atingir o verdadeiro saber.
Essa  a grande diferena
entre um verdadeiro joker e
as outras cartas do baralho.
- Disseste joker?
Sofia acenou afirmativamente.
- J alguma vez reflectiste no facto de, num baralho, haver muitas copas 
e ouros? Tambm h muitas espadas e paus. Mas h apenas um
joker.
- De que coisas tu falas,
mida!
- Que perguntas tu fazes!
A me tinha arrumado todas
as compras. Pegou no jornal
e foi para a sala de estar.
Sofia teve a sensao de que
ela fechara a porta com mais
fora do que era habitual.
Quando acabou de lavar a
loua, foi para o quarto.
Pusera o leno de seda vermelho juntamente com as peas
do Lego, bem no cimo do armrio. Retirou-o e observou-o atentamente.
Hilde...

70

Atenas

... e das runas elevaram-se edifcios imponentes...

Ao fim da tarde, a me de
Sofia foi visitar uma amiga.
Mal ela saiu de casa, Sofia
foi para o jardim e depois
para a toca na velha sebe.
A encontrou junto  caixa
dos biscoitos um pacote volumoso. Sofia rasgou imediatamente o papel. Era 
uma cassete de vdeo!
Voltou para casa a correr.
Uma cassete de vdeo! Era
algo completamente novo. Mas
como  que o filsofo podia
saber que eles tinham um leitor de vdeo? E o que  que
haveria no vdeo?
Sofia introduziu a cassete
no leitor. De imediato se
viu uma grande cidade no
ecr. Sofia concluiu que tinha de se tratar de Atenas,
porque estava a ver a Acrpole em grande plano. Sofia
j tinha visto vrias vezes
fotografias daquelas runas
antigas. Os turistas, com
roupas leves e mquinas fotogrficas ao pescoo, movimentavam-se 
rapidamente entre o
que restava dos templos.
Ora, no havia um que trazia
mesmo um cartaz? L estava
de novo o cartaz. No tinha
escrito "Hilde"?
Passado um pouco, apareceu
um homem de meia idade 
frente da cmara. Era bastante pequeno, tinha uma barba negra bem tratada 
e uma
boina azul. Olhou imediatamente para a cmara e disse:
- Bem vinda a Atenas,
Sofia. Com certeza, j calculaste que eu seria Alberto
Knox. Se ainda no tinhas
pensado nisso, repito apenas
que o coelho branco ainda est a ser retirado da cartola
do universo. Estamos na
Acrpole. Esta palavra significa: "cidadela" - ou
propriamente: "a cidade sobre
as colinas". Aqui em cima
viveram homens desde a Idade
da Pedra. Isso est relacionado com a posio privilegiada deste lugar. 
Era fcil
defender este planalto de
inimigos. Da Acrpole desfrutava-se de um belo panorama sobre um dos 
melhores portos do Mediterrneo.  medida que Atenas se expandia
na plancie, no sop do planalto, a Acrpole foi utilizada como fortaleza 
e como
rea dos templos. Na primeira metade do sculo V a.C.,
rebentou uma guerra sangrenta
contra os persas e, no ano de
480, o

71
rei persa Xerxes fez saquear Atenas e incendiar todos os antigos 
edifcios de
madeira da Acrpole. No ano
seguinte, os persas foram
derrotados, e iniciou-se ento o perodo ureo de Atenas, Sofia.
A Acrpole foi reconstruda - mais imponente e
bela que nunca - e tornou-se
a partir de ento exclusivamente zona dos templos.
Precisamente nesta altura,
Scrates andava pelas ruas e
pelas praas falando com os
atenienses. Desta forma,
pde observar a reconstruo
da Acrpole e a construo
de todos os edifcios imponentes que aqui vemos. Que
grande terreno de construo!
Por detrs de mim vs o templo maior. Chama-se Partnon - ou "morada das 
virgens" - e foi construdo em
honra da deusa Atena, a
deusa protectora de Atenas.
Esta grande obra de mrmore
no apresenta nenhuma linha
recta, todos os lados apresentam uma ligeira curvatura.
Assim, o edifcio teria uma
estrutura mais dinmica.
Apesar de o templo ser de
grandes dimenses, no parece
to pesado a quem o v. Isso
deve-se a uma iluso ptica.
Mesmo as colunas esto ligeiramente curvadas para dentro e formariam uma 
pirmide
de mil e quinhentos metros de
altura se fossem suficientemente compridas para se encontrarem num ponto 
acima do
templo. A nica coisa que
havia no interior deste enorme edifcio era uma esttua
de Atena, com doze metros de
altura. Devo ainda acrescentar que o mrmore branco, que
estava pintado de cores vivas, foi retirado de uma montanha a dezasseis 
quilmetros
de distncia...
O corao de Sofia batia
desordenadamente. Seria verdadeiramente o seu professor
de filosofia que lhe falava
atravs do vdeo? Ela apenas
vira uma vez o seu vulto na
escurido. Mas podia perfeitamente ter sido o mesmo homem que estava 
agora na
Acrpole em Atenas.
Comeou ento a percorrer
a parte lateral do templo, e
a cmara seguia-o. Por fim,
dirigiu-se para a beira do
rochedo e apontou para a paisagem. A cmara focou um teatro antigo, 
abaixo do planalto da Acrpole.
- Aqui vs o antigo teatro de Dioniso - prosseguiu
o homem da boina. -  provavelmente o teatro mais antigo da Europa. Aqui 
foram
representadas as peas dos
grandes dramaturgos squilo, Sfocles e Eurpides, ainda no perodo 
em que
Scrates viveu. J mencionei a tragdia do infeliz rei
dipo. Foi aqui que se estreou. Mas tambm eram representadas comdias. O 
comedigrafo mais famoso era
Aristfanes, que entre outras coisas escreveu uma comdia maliciosa sobre 
Scrates. Bem ao fundo, vs a parede de pedra em que os actores entravam 
em cena. Chamava-se sken, e dela deriva
a nossa palavra "cena". A
palavra grega teatro deriva
de um termo grego antigo que

72
significava "ver". Mas vamos
voltar rapidamente  filosofia, Sofia. Damos uma volta
ao Partnon e descemos depois pelo lado da entrada...
Aquele homem andou  volta
do grande templo,  direita
do qual havia alguns templos
mais pequenos. Desceu depois
as escadas entre algumas colunas altas. Quando chegou
ao sop do planalto da Acrpole, subiu para uma pequena
colina e apontou para Atenas:
- A colina sobre a qual
estamos chama-se Arepago.
Aqui, o supremo tribunal de
Atenas tratava dos casos de
homicdio. Vrios sculos
mais tarde, esteve aqui o
apstolo Paulo e falou aos
atenienses sobre Jesus e o
cristianismo. Mas voltaremos
a falar disto numa outra
oportunidade. Em baixo, 
esquerda, vs as runas da
antiga gora de Atenas. 
excepo do grande templo
originalmente dedicado a
Atena e ao deus Hefesto,
no resta muita coisa. Vamos
descer...
Logo em seguida, ele surgiu de novo entre as runas
antigas. Sob o cu - e no
ecr de Sofia - estava o
grande templo de Atenas sobre a Acrpole. O professor
de filosofia sentou-se em
cima de um bloco de mrmore.
Olhou para a cmara e disse:
- Estamos sentados junto
da antiga gora de Atenas.
Uma vista triste, no ?
Quero dizer, hoje. Mas outrora havia aqui templos imponentes, tribunais e 
outros
edifcios pblicos, lojas, um
auditrio e inclusivamente
uma grande palestra. Tudo
isto rodeava esta gora, uma
praa grande quadrangular...
Neste pequeno terreno foi
lanado o fundamento de toda
a civilizao europeia.
Termos como "poltica" e
"democracia", "economia" e
"histria", "biologia" e "fsica", "matemtica" e "lgica", "teologia" e 
"filosofia", "tica" e "psicologia",
"teoria" e "mtodo", "ideia"
e "sistema" - e muitos outros - provm de um pequeno
povo cuja vida quotidiana decorria  volta desta praa.
Aqui falava Scrates com os
homens que o procuravam.
Talvez agarrasse pelo brao
um escravo, que trazia um
cntaro com azeite, e colocasse ao pobre homem uma pergunta filosfica, 
visto que
Scrates achava que um escravo possua a mesma capacidade de raciocinar 
que qualquer cidado. Talvez tivesse
uma discusso agitada com um
cidado - ou estivesse embrenhado numa conversa amena
com o seu jovem discpulo
Plato.  estranho pensar
nisso. Falamos sempre de filosofia "socrtica" ou
"platnica", mas  completamente diferente ser Plato
ou Scrates.
Sofia achou este pensamento estranho. Mas pareceu-lhe
igualmente estranho que o filsofo falasse com ela por
meio de uma gravao de vdeo
que fora trazida por um co
misterioso para o seu esconderijo secreto no jardim.

73

O filsofo levantou-se ento dos blocos de mrmore,
onde estivera sentado. Disse
em voz baixa:
- Na verdade, eu queria
ficar por aqui, Sofia.
Queria mostrar-te a Acrpole e as runas da antiga
gora em Atenas. Mas ainda
no sei se percebeste como
este local era imponente em
tempos antigos... senti-me
tentado... a dizer algo mais.
Isto  obviamente contra todas as regras... mas espero
que fique entre ns... bom,
tanto faz, uma rpida vista
de olhos deve ser suficiente...
No disse mais nada, ficou
no mesmo lugar muito tempo a
olhar para a cmara. Em seguida, surgiu uma imagem completamente 
diferente no ecr.
Das runas surgiram vrios
edifcios altos. Todas as
runas antigas estavam reconstrudas como por magia.
No horizonte, Sofia via
ainda a Acrpole, mas desta
vez, a Acrpole e os edifcios em baixo, na gora, estavam completamente 
novos.
Eram dourados e pintados de
cores brilhantes. Na grande
praa quadrangular passeavam
homens em trajes de cores vivas. Alguns tinham espadas,
outros um cntaro na cabea,
e um deles tinha um rolo de
papiro debaixo do brao.
Sofia reconheceu ento o
seu professor de filosofia.
Tinha ainda a boina azul na
cabea mas vestia uma tnica
como os outros homens. Veio
na direco de Sofia, fixou
a cmara e disse:
- Pois . Agora encontramo-nos na antiga Atenas,
Sofia. Gostava que tu pudesses estar aqui. Estamos
no ano 402 a.C., apenas
trs anos antes da morte de
Scrates. Espero que saibas
apreciar esta visita que 
exclusiva: foi muito difcil
alugar uma cmara de vdeo...
Sofia comeou a ter tonturas. Como  que o misterioso
homem podia estar subitamente
na Atenas de h dois mil e
quatrocentos anos? Como 
que podia ver uma gravao de
vdeo de outra poca? Sofia
sabia obviamente que na
Antiguidade no havia vdeo.
Estaria a ver um filme de
fico? Mas os edifcios de
mrmore pareciam autnticos.
Reconstruir toda a antiga
gora de Atenas e a Acrpole apenas para um filme sairia muito caro. 
Apresentar
Atenas apenas a Sofia era
pagar um preo demasiado
alto.
O homem com a boina levantou de novo os olhos.
- Ests a ver aqueles
dois homens l atrs, sob a
arcada?
Sofia descobriu um homem
mais velho, num traje um pouco andrajoso. Tinha uma barba comprida 
desgrenhada, nariz achatado, olhos azuis penetrantes e faces redondas.
Ao seu lado estava um jovem
muito belo.
- Ests a ver, Sofia?
So Scrates e o seu jovem
discpulo. Mas vais conhec-los pessoalmente.

74
O professor de filosofia
foi ter com os dois homens
que estavam sob uma arcada
alta. Quando os alcanou levantou um pouco a boina e
disse algo que Sofia no
compreendeu. Seguramente estava a falar grego. Pouco
depois, olhou de novo para a
cmara e disse:
- Eu contei-lhes que uma
jovem norueguesa desejava conhec-los. Agora Plato vai
colocar algumas questes sobre as quais tu podes reflectir. Mas temos de 
nos apressar, para que os guardas no
nos descubram...
Sofia sentiu uma presso
nas fontes, no momento em que
o jovem, olhando para a cmara, se apresentou:
- Bem vinda a Atenas,
Sofia - disse ele com uma
voz afvel. Falava um noruegus muito arranhado -
Chamo-me Plato e quero
dar-te quatro tarefas.
Primeiro, deves reflectir em
como  que um padeiro pode
fazer cinquenta bolos totalmente iguais. Depois podes
perguntar-te como  que todos
os cavalos so iguais. Em
seguida, deves pensar se
acreditas que o homem tem uma
alma imortal. E por fim, deves responder  pergunta: as
mulheres e os homens so
igualmente racionais? Boa
sorte!
De imediato, a imagem desapareceu. Sofia tentou bobinar para a frente e 
para
trs, mas tinha visto tudo o
que estava no vdeo.
Sofia tentou ordenar os
pensamentos. Mas mal comeava a reflectir numa coisa,
surgia uma outra ideia, e a
primeira evaporava-se.
Que o seu professor de filosofia era bastante original, sabia-o h muito 
tempo.
Mas recorrer a mtodos de
ensino que destruam todas as
leis da natureza conhecidas,
isso era ir longe demais, segundo Sofia.
Teria ela realmente visto
Scrates e Plato no ecr?
Era bvio que no, isso era
totalmente impossvel. Mas
afinal, tambm no era um
filme de desenhos animados.
Sofia retirou a cassete do
leitor e foi para o quarto.
Enfiou-a, ento, na prateleira mais alta do armrio,
junto s peas do Lego. Em
seguida, caiu esgotada na
cama e adormeceu.
Horas mais tarde, a me
entrou no quarto. Foi junto
de Sofia e disse:
- Mas o que  que te deu
agora, Sofia?
- Mmm...
- Deitaste-te vestida!
Sofia mal conseguia abrir
os olhos.
- Estava em Atenas -
disse.
No disse mais nada; virou-se para o outro lado e
voltou a adormecer.

75

Plato

... uma saudade de regressar  verdadeira origem...

Na manh seguinte, Sofia
acordou sobressaltada.
Passava pouco das cinco, mas
estava to desperta que se
levantou na cama.
Porque  que estava vestida? Lembrou-se, ento, de
tudo. Sofia subiu para um
banquinho e olhou para a prateleira superior do armrio.
Sim - estava l uma cassete
de vdeo. Logo, no fora nenhum sonho, pelo menos uma
parte era verdade.
No vira realmente Plato
e Scrates? Mas no queria
pensar mais nisso. Talvez a
me tivesse razo ao afirmar
que ultimamente andava com a
cabea nas nuvens.
De qualquer modo, no conseguia dormir mais. Talvez
devesse verificar na toca se
o co tinha trazido uma nova
carta.
Sofia desceu sorrateiramente as escadas, calou as
sapatilhas e saiu.
No jardim tudo estava admiravelmente claro e silencioso. Os pssaros 
chilreavam
com tal intensidade que
Sofia sorriu. Na erva, o
orvalho caa semelhante a gotas de cristal. De novo percebeu como o mundo 
era uma
maravilha inexplicvel.
A velha sebe tambm estava
um pouco hmida. Sofia no
encontrou nenhuma nova carta
do filsofo, mas apesar disso
enxugou uma raiz grossa e
sentou-se.
Lembrou-se que o Plato
do vdeo lhe tinha dado algumas tarefas. Primeiro, tinha
de pensar como  que um pasteleiro podia fazer cinquenta
bolos iguaizinhos.
Sofia tinha de reflectir
bem, visto que lhe parecia um
trabalho difcil. Quando a
me fazia bolos, o que era
raro, nunca havia dois exactamente iguais. Ela no era
uma pasteleira profissional e
podia fazer muitas coisas erradas, mas os bolos que compravam nas lojas 
tambm nunca
eram totalmente iguais. Cada
bolo recebia uma forma diferente nas mos do pasteleiro.
Subitamente, Sofia sorriu
com uma expresso astuta.
Lembrava-se que estivera uma
vez com o pai na cidade, enquanto a me fazia os

76
biscoitos de natal. Quando
regressaram a casa, toda a
mesa da cozinha estava coberta com biscoitos. Mesmo no
estando todos igualmente perfeitos, de certo modo eram
todos iguais. E porque  que
eram iguais? Porque a me
tinha usado a mesma forma
para todos os biscoitos, obviamente.
Sofia estava to contente
por se ter lembrado da histria dos biscoitos que deu a
primeira tarefa por terminada. Se um pasteleiro fazia
cinquenta bolos todos iguais,
 porque usava a mesma forma
para todos. E basta!
Depois, o Plato do vdeo
olhara para a cmara e perguntara porque  que todos os
cavalos so iguais. Mas isso
no era verdade. Sofia diria, antes pelo contrrio,
que no havia dois cavalos
iguais, da mesma forma que
no podia haver dois homens
iguais.
Estava quase para abandonar a tarefa, mas lembrou-se
do que tinha pensado a propsito dos biscoitos. Tambm
no havia dois iguais, alguns
eram maiores que outros, outros estavam partidos; no entanto, era claro 
para toda a
gente que, por assim dizer,
eram "completamente iguais".
Talvez Plato quisesse
perguntar porque  que um cavalo era sempre um cavalo e
no, por exemplo, uma coisa
intermdia entre cavalo e
porco. Porque, apesar de alguns cavalos serem castanhos
como ursos, e outros brancos
como cordeiros, todos os cavalos tinham qualquer coisa
em comum. Sofia nunca vira
um cavalo com seis ou oito
pernas. Mas Plato no podia querer dizer que todos os
cavalos eram iguais por terem
sido moldados a partir da
mesma forma.
Se fosse esse o caso,
Plato tinha, de facto, colocado uma questo complexa.
Ter o homem uma alma imortal? Sofia no se sentiu capaz de responder a 
essa pergunta. Sabia apenas que um
cadver era cremado ou enterrado, e que depois nada mais
lhe acontecia. Se o homem
tivesse uma alma imortal, teria que ser constitudo por
duas partes diferentes: um
corpo que se decompe passado
algum tempo - e uma alma que
age mais ou menos independentemente dos processos do corpo. A sua av 
dissera uma
vez que, para ela, era como
se apenas o corpo envelhecesse. Interiormente, tinha
permanecido sempre jovem.
A questo da "jovem" levou
Sofia  ltima pergunta. Os
homens e as mulheres so
igualmente racionais? Neste
ponto, no tinha de todo a
certeza. Dependia do que
Plato entendia por "racional".
Subitamente, lembrou-se
daquilo que o seu professor
de filosofia dissera acerca
de Scrates. Scrates explicara que todos os seres
humanos podiam compreender
verdades filosficas, se
usassem a razo. Ele acreditava tambm que um escravo
podia resolver questes filosficas

77
com a mesma facilidade de um
aristocrata. Sofia estava
convencida de que ele tambm
teria dito que as mulheres e
os homens eram igualmente racionais.
E estando sentada, absorta
nas suas reflexes, apercebeu-se subitamente de um barulho na sebe e 
ouviu qualquer coisa a ofegar e a arfar
como se de uma mquina a vapor se tratasse. Pouco depois, o co amarelo 
infiltrou-se na toca. Trazia um
grande envelope na boca.
- Hermes! - exclamou
Sofia. - Muito obrigada!
O co deixou cair o envelope no regao de Sofia; ela
estendeu a mo e afagou-o no
pescoo.
- O Hermes  um co valente - dizia.
O co deitou-se e deixou-se acariciar por Sofia.
Passados alguns minutos, levantou-se e, passando com dificuldade pela 
sebe, regressou pelo caminho por onde viera.
Sofia seguiu-o com o envelope na mo. Rastejou pela
densa sebe e pouco depois estava fora do jardim.
Hermes correu para o bosque e Sofia seguiu-o a alguns metros de 
distncia.
Por duas vezes, o co voltou-se e rosnou, mas Sofia
no se deixou intimidar.
Agora, queria encontrar o
filsofo, mesmo que tivesse
de correr at Atenas.
O co correu com mais velocidade e chegou a um pequeno carreiro.
Sofia tambm comeou a
correr mais depressa, mas,
passado pouco tempo, o co
voltou-se e ladrou como um
co de guarda. Sofia no desistiu; aproveitou a oportunidade para se 
aproximar ainda mais dele.
Hermes corria  frente,
pelo carreiro. At que,
Sofia teve de reconhecer que
no o podia alcanar. Ficou
muito tempo parada, tentando
detectar para onde o co se
afastava. Por fim, tudo ficou silencioso.
Sofia sentou-se num tronco, junto a uma pequena clareira. Tinha na mo o 
grande
envelope amarelo. Abriu-o,
retirou vrias folhas escritas e comeou a ler:

A Academia de Plato

Que bom ver-te, Sofia!
Claro que quero dizer, em
Atenas. Penso ter-me finalmente apresentado, no achas?
E uma vez que tambm te
apresentei Plato, podemos
comear imediatamente.
Plato (428-347 a.C.>)
tinha 29 anos quando Scrates teve de beber a taa de
cicuta. Fora discpulo de
Scrates por muito tempo e
seguiu

78
atentamente o processo instaurado contra ele. Que
Atenas pudesse condenar 
morte o homem mais nobre da
cidade no provocou nele apenas uma impresso indelvel;
isso iria determinar a orientao de toda a sua actividade filosfica.
Para Plato, a morte de
Scrates demonstrou muito
claramente qual  a contradio que pode existir entre as
condies de facto numa sociedade e o que  verdadeiro e
ideal.
Plato, ao transcrever o
discurso da Apologia de Scrates, desempenhou uma importantssima tarefa. 
A
narrou tudo o que Scrates
exps ao tribunal.
Com certeza recordas ainda
que Scrates no escreveu
nada pela sua prpria mo.
Muitos pr-socrticos haviam-no feito, mas a maior parte dos seus textos 
no se
conservou para a posteridade.
No que diz respeito a Plato, pensa-se que todas as
suas obras principais se conservaram. (Alm da Apologia de Scrates, 
escreveu um
conjunto de cartas e mais de
trinta e cinco dilogos filosficos>). Se estes escritos
se conservaram deve-se ao
facto de Plato ter fundado
perto de Atenas a sua prpria escola filosfica, num
pequeno bosque, que tinha o
nome do lendrio heri grego
Academo. A escola de filosofia de Plato recebeu assim o nome de 
Academia.
(Desde ento, foram abertas
em todo o mundo milhares de
academias. Falamos ainda de
"acadmicos" e de "disciplinas acadmicas">).
Na Academia de Plato
leccionava-se filosofia, matemtica e ginstica. Talvez
o termo "leccionar" no seja
o mais adequado. Na Academia de Plato tambm se usava o dilogo vivo. 
No  por
acaso que o dilogo tenha sido a sua forma privilegiada
de escrita.

O verdadeiro, o belo e o
bom eternos

No incio deste curso de
filosofia, eu disse-te que,
por vezes, vale a pena perguntar qual o projecto de um
determinado filsofo. E por
isso pergunto agora: o que 
que Plato queria descobrir?
Dito em poucas palavras:
Plato interessava-se por um
lado pela relao entre aquilo que  eterno e imutvel e,
por outro, por aquilo que
"flui". (Exactamente como
os pr-socrticos!>)
Dissemos que tanto os sofistas como Scrates se tinham afastado das 
questes da
filosofia da natureza e se
tinham interessado mais pelos
homens e pela sociedade. E
isso est certo; mas tanto os
sofistas como Scrates se
ocupavam tambm, de certa maneira, da relao que existe
entre o que  eterno e constante - e aquilo que "flui".
Preocupavam-se

79
com esta questo quando se
tratava da moral humana e dos
ideais ou virtudes da sociedade. Os sofistas achavam,
grosso modo, que o conceito
de justia e de injustia variava de cidade-estado para
cidade-estado e de gerao
para gerao. A questo da
justia e da injustia seria,
portanto, algo "fluido".
Scrates no podia aceitar
isto. Acreditava em regras
ou normas eternas e intemporais para o procedimento humano. Quando usamos 
apenas a
nossa razo, segundo ele, podemos compreender todas essas
normas imutveis, porque a
razo humana  justamente
algo eterno e imutvel.
Ests a seguir-me, Sofia?
E agora vem Plato. Ele
interessa-se tanto por aquilo
que  eterno e imutvel na
natureza - como por aquilo
que na moral e na sociedade 
eterno e imutvel. Sim, para
Plato trata-se de uma mesma
coisa. Ele procura obter uma
"realidade" prpria que seja
eterna e imutvel. E na verdade  precisamente para isso
que temos filsofos. Para
eles no se trata de eleger a
mulher mais bela do ano ou a
verdura mais barata. (Por
isso, eles nem sempre so populares!>). Os filsofos
procuram dar pouca ateno a
essas coisas frvolas e efmeras. Procuram mostrar o
que  "verdadeiro" em si,
"belo" em si, e "bom" em Si.
Com isto, temos uma ideia
dos contornos do projecto filosfico de Plato. A partir de agora, 
consideramos
uma coisa de cada vez. Vamos
tentar compreender a viso
deste pensador que deixou
vestgios profundos em toda a
filosofia europeia posterior.

O mundo das ideias

Empdocles e Demcrito j
tinham mostrado que todos os
fenmenos na natureza
"fluem", mas que apesar disso
h "algo" que nunca se transforma (as "quatro razes" ou
os "tomos">). Plato confronta-se igualmente com esta
problemtica - mas de uma
forma completamente diferente.
Plato achava que tudo o
que podemos tocar e sentir na
natureza "flui". No h,
portanto, nenhum elemento
eterno. Tudo o que pertence
ao "mundo sensvel"  composto por uma matria que o tempo consome. Mas 
ao mesmo
tempo, tudo  constitudo por
uma forma intemporal que 
eterna e imutvel.
Compreendeste?
Porque  que os cavalos
so iguais, Sofia? Talvez
penses que eles no o so de
todo. Mas h algo que  comum a todos os cavalos, algo
que permite que nunca tenhamos problemas em reconhecer
um cavalo.

80
Um cavalo particular
"flui", obviamente. Pode ser
velho e coxo, com o tempo ficar tambm doente, e morre.
Mas a verdadeira "forma de
cavalo"  eterna e imutvel.
Assim, o eterno e imutvel
no  nenhum "elemento primordial". O eterno e o imutvel so modelos 
espirituais
ou abstractos, a partir dos
quais se formam todos os fenmenos.
Vou ser mais preciso: os
pr-socrticos tinham dado
uma explicao verdadeiramente til para as transformaes na natureza, 
sem ter que
pressupor que algo se "transforma" efectivamente. Na natureza h 
partculas minsculas, eternas e constantes que
no entram em desagregao,
segundo eles. Pois bem, Sofia! Mas no tinham nenhuma
explicao aceitvel para o
modo como estas partculas
minsculas que eram elementos
constituintes de um cavalo
podiam produzir quatro ou
cinco sculos mais tarde um
cavalo totalmente novo! Ou
talvez um elefante, ou um
crocodilo. Plato quer dizer
que os tomos de Demcrito
nunca se podem tornar um
"crocofonte" ou um "eledilo".
E foi precisamente este o
ponto de partida das suas reflexes filosficas.
Se j percebes o que quero
dizer, podes saltar esta parte. Por precauo, vou explicar melhor: tens 
uma caixa
de peas de Lego e constris
um cavalo. Depois, desmanchas o que fizeste e colocas
novamente as peas na caixa.
No podes esperar ter um
novo cavalo se apenas agitas
a caixa. Como  que as peas
do Lego conseguiriam produzir por si mesmas um novo cavalo? No, tu tens 
de montar
de novo o cavalo, Sofia. E
se o consegues  porque tens
em ti uma imagem do aspecto
do cavalo. O cavalo de Lego
foi portanto formado a partir
de um modelo que se conserva
inalterado de cavalo para cavalo.
Conseguiste resolver a
pergunta acerca dos cinquenta
bolos iguais? Imaginemos
agora que cais do espao sideral para a terra e que nunca tinhas visto 
uma pastelaria. Deparas com uma pastelaria atraente - e vs, num
tabuleiro, cinquenta biscoitos em forma de homem, exactamente iguais. 
Calculo que
coarias a cabea e te questionarias como  que podiam
ser todos exactamente iguais.
 fcil de imaginar que a um
falta um brao, um outro perdeu talvez um bocado da cabea, e o terceiro 
tem uma barriga demasiado gorda. Mas
depois de uma reflexo fundada chegas  concluso de que
todos os biscoitos possuem um
denominador comum. Apesar de
nenhum deles ser totalmente
perfeito, tens a ideia de que
tm que ter uma origem comum.
Compreendes que todos os
biscoitos foram feitos a partir de uma mesma forma.
E no  tudo, Sofia: ters ento o desejo de ver
esta forma. Porque  bvio
que a forma tem de ser indescritivelmente mais perfeita
- e de certo modo mais bela
- do que uma das suas frgeis
cpias.

81
Se resolveste este problema sozinha, resolveste um
problema filosfico exactamente da mesma forma que
Plato. Como a maior parte
dos filsofos, ele "caiu do
espao sideral", por assim
dizer. (Ele instalou-se no
cimo de um dos plos finos da
pelagem do coelho>). Ele admirou-se como todos os fenmenos na natureza 
podem ser
to semelhantes entre si, e
chegou ento  concluso de
que "acima" ou "por detrs"
de tudo o que vemos  nossa
volta h um nmero limitado
de formas. A estas formas
chamou Plato ideias. Por
detrs de todos os cavalos,
porcos e homens h a "ideia
cavalo", a "ideia porco" e a
"ideia homem". (E por isso,
a referida pastelaria pode
ter, alm de biscoitos em
forma de homem, biscoitos em
forma de porco e de cavalo,
visto que uma pastelaria decente tem geralmente variadssimas formas. Mas 
para
cada tipo de biscoito  suficiente uma nica forma>).
Concluso: Plato defendia uma realidade prpria por
detrs do "mundo sensvel".
A esta realidade chamava ele
o mundo das ideias.
Encontramos aqui os "modelos" eternos e imutveis,
os arqutipos por detrs
dos diversos fenmenos que se
nos deparam na natureza. Designamos esta importante concepo por teoria 
das ideias
de Plato.

Saber seguro

At agora, seguiste-me,
cara Sofia. Mas ter Plato realmente querido dizer
isto, perguntars. Queria
ele dizer que estas formas
existem numa realidade completamente diferente?
Ele no o chegou a dizer
explicitamente, mas alguns
dos seus dilogos tm de ser
interpretados desta forma.
Vamos tentar seguir a sua
argumentao.
Um filsofo procura, como
j o dissemos, vir a compreender algo que  eterno e
imutvel. Por exemplo, faria
pouco sentido escrever um
tratado filosfico acerca da
existncia de uma determinada
bola de sabo. Em primeiro
lugar, dificilmente algum a
poderia examinar bem antes de
ter rebentado. Em segundo
lugar, seria provavelmente
difcil vender um tratado filosfico acerca de algo que
ningum viu e que s existiu
durante poucos segundos.
Plato achava que tudo o
que vemos  nossa volta na
natureza, sim, tudo o que podemos agarrar e tocar pode
ser comparado com a bola de
sabo. Porque nada do que
existe no mundo dos sentidos
dura. Tu sabes obviamente
que todos os homens e animais
mais tarde ou mais cedo morrem e entram em decomposio.
Mesmo um bloco de mrmore se
desagrega lentamente. (A
Acrpole est a cair em runas, Sofia! 

82
escandoloso, mas  assim>).
Para Plato, nunca podemos
ter um saber seguro acerca de
algo que se transforma.
Daquilo que pertence ao mundo sensvel - e que ns podemos portanto 
agarrar e tocar -, temos apenas opinies
incertas ou suposies. S
podemos ter um saber verdadeiro daquilo que conhecemos
com a razo.
Sofia, eu vou explicar
isto melhor: um biscoito em
forma de homem pode sofrer
tanto ao ser amassado, ao levedar e ao ser cozido que j
no se possa dizer exactamente o que . Mas depois de eu
ter visto vinte, trinta biscoitos - que podem ser mais
ou menos perfeitos -, posso
saber com grande segurana
qual  o aspecto da forma dos
bolos. Posso conclu-lo,
mesmo que nunca tenha visto a
prpria forma. Nunca  claro
se seria melhor ver a forma a
olho nu, visto que no podemos confiar sempre nos nossos
sentidos. A viso pode variar de homem para homem.
Inversamente, podemos confiar naquilo que a razo nos
diz, visto que a razo  a
mesma em todos os homens.
Quando ests numa sala de
aula com mais trinta alunos,
e o professor pergunta qual 
a cor mais bonita do arco-ris - a ele tem certamente
muitas respostas diferentes.
Mas se ele perguntar quanto
 trs vezes oito, toda a
turma deveria dar a mesma
resposta. Nesse caso,  a
razo que julga, e a razo 
de certo modo exactamente o
contrrio do opinar e do sentir. Podemos dizer que a razo  eterna e 
universal,
precisamente porque se pronuncia apenas acerca de realidades eternas e 
universais.
Plato interessou-se muito
por matemtica, porque as
verdades matemticas nunca se
alteram. Assim, podemos ter
um saber seguro acerca delas.
Mas agora precisamos de um
exemplo: imagina que encontras na floresta uma pinha
redonda. Talvez digas que
achas que ela parece redonda
- mas Jorunn afirma que ela
 um pouco achatada num dos
lados. (Vocs discutem ento!>). No podem ter um conhecimento seguro 
acerca do
que vm com os olhos, mas podem saber com toda a segurana que a soma dos 
ngulos num
crculo perfaz 360. Vocs
esto a falar de um crculo
ideal que no existe na natureza, mas que vem muito
claramente com a vossa viso
interior. (Vocs falam sobre a forma escondida do bolo
- e no sobre um qualquer
biscoito em cima da mesa da
cozinha>).
Breve resumo: acerca daquilo que percepcionamos ou
sentimos podemos ter apenas
opinies incertas. Mas acerca daquilo que conhecemos com
a razo, podemos atingir um
conhecimento seguro. A soma
dos ngulos num tringulo
perfaz para toda a eternidade
180. Do mesmo modo, a
"ideia" de que todos os cavalos caminham sobre quatro patas ser vlida 
mesmo que todos os cavalos do mundo sensvel ficassem coxos.

83
Uma alma imortal

Vimos que, segundo Plato,
a realidade est dividida em
duas partes.

Uma parte  o mundo sensvel - de que s podemos
atingir um conhecimento impreciso e imperfeito, e onde
usamos os nossos cinco (imprecisos e imperfeitos>) sentidos. A 
caracterstica do
mundo dos sentidos  que
"tudo flui" e consequentemente nada possui estabilidade.
Nada  no mundo dos sentidos, existe apenas um conjunto de coisas que 
nascem e perecem.
A outra parte  o mundo
das ideias - de que podemos
alcanar um saber certo usando a razo. Este mundo das
ideias no pode ser conhecido
atravs dos sentidos. Em
compensao, as ideias (ou
formas>) so eternas e imutveis.

Consequentemente, para
Plato, o homem tambm  um
ser dividido em duas partes.
Temos um corpo que "flui".
Ele est indissoluvelmente
ligado ao mundo sensvel e
sofre o mesmo destino que o
sensvel (por exemplo, uma
bola de sabo>). Todos os
nossos sentidos esto ligados
ao corpo e so de pouca confiana. Mas ns possumos
tambm uma alma imortal -
ela  a sede da razo. Uma
vez que a alma no  material, pode observar o mundo das
ideias.
Bem, j disse quase tudo.
Mas h mais, Sofia: H
MAIS!
Para Plato, a alma j
existia antes de se ter estabelecido no nosso corpo: antigamente, a alma 
estava no
mundo das ideias. (Estava
junto s formas dos biscoitos
em cima do armrio>). Mas
logo que a alma acorda num
corpo humano, esquece-se das
ideias perfeitas. Inicia-se
ento um processo espantoso:
quando o homem se apercebe
das formas na natureza, emerge progressivamente na alma
uma vaga recordao. O homem
v um cavalo - mas um cavalo
imperfeito (sim, um cavalo
em biscoito!>), e isso  o
suficiente para despertar na
alma uma recordao vaga do
cavalo perfeito que a alma
viu outrora no mundo das
ideias. Com isto, surge
igualmente uma saudade, um
desejo da verdadeira sede da
alma. Plato chamava a este
desejo Eros - ou seja amor.
A alma sente, portanto, um
"desejo amoroso" da sua verdadeira origem. A partir
da, v o corpo e tudo o que
 sensvel como imperfeito e
insignificante. A alma deseja voar "de volta" ao mundo
das ideias nas asas do amor.
Desejaria ser libertada da
priso do corpo.
Devo sublinhar que Plato
descreve aqui o percurso ideal. Com efeito, nem todos os
homens permitem que a sua
alma inicie a viagem de regresso ao mundo das ideias.
A maior parte dos homens
fixa-se nos

84
"reflexos" das ideias no mundo sensvel. Vem um cavalo
- e outro. Mas no vem
aquilo de que todos os cavalos so apenas uma cpia.
(Entram de rompante na cozinha e atiram-se aos biscoitos sem perguntar de 
onde 
que vm>). Plato descreve
o percurso dos filsofos.
Podemos ler a sua filosofia
como descrio da actividade
de um filsofo. Quando vs
uma sombra, Sofia, pensas
tambm que h algo que est a
fazer sombra. Vs a sombra
de um animal. Talvez seja um
cavalo, pensas tu, mas no
consegues ter a certeza absoluta. Ento, voltas-te e vs
o verdadeiro animal - que 
obviamente de longe mais bonito e ntido nos contornos
do que a sua inconstante sombra. POR ISSO, SEGUNDO
PLATO, TODOS OS FENMENOS DA
NATUREZA SO MERAS SOMBRAS
DAS FORMAS OU IDEIAS ETERNAS. Porm, a maioria das
pessoas est satisfeita com a
sua vida entre as sombras.
No pensam que h algo que
provoca as sombras. Acham
que as sombras so tudo o que
existe - e por isso no tomam as sombras como sombras.
Deste modo, esquecem tambm
a imortalidade das suas almas.

A sada da escurido da
caverna

Plato conta uma alegoria
que ilustra precisamente esta
reflexo. Denominamo-la a
alegoria da caverna. Vou
cont-la com as minhas prprias palavras. Imagina homens que vivem numa 
caverna
subterrnea. Esto virados
de costas para a entrada,
presos com correntes, pelas
mos e pelos ps; por isso s
podem olhar para a parede da
caverna. Por detrs deles h
um muro alto, e atrs desse
muro passam por sua vez vultos humanos que levam diversos objectos por 
cima do
muro. Uma vez que atrs desses objectos arde uma fogueira, eles provocam 
sombras
trmulas na parede da caverna. A nica coisa que os homens da caverna 
podem ver 
portanto este "teatro de sombras". Esto ali desde que
nasceram e para eles as sombras so tudo o que existe.
Imagina agora que um destes habitantes da caverna
consegue libertar-se da priso. Primeiro, questiona-se
de onde  que vm estas imagens na parede da caverna. O
que  que achas que sucede
quando ele se volta para as
figuras que so levadas por
cima do muro? De incio,
fica ofuscado pela luz brilhante. A viso dos objectos
com contorno ntido ofusca-o
- at ento, ele vira apenas
as suas sombras. Se pudesse
subir pelo muro e passar o
fogo at sair para fora da
caverna, ficaria ainda mais
encandeado. Mas depois de
ter esfregado os olhos veria
tambm como tudo  belo.
Pela primeira vez, veria cores e contornos ntidos.
Veria animais e flores verdadeiros - dos quais as figuras na caverna

85
eram cpias. Mas nesse momento, perguntar-se-ia de
onde  que os animais e as
plantas vm. V o sol no cu
e compreende que o sol d vida s flores e aos animais na
natureza, da mesma forma que
o fogo da caverna fazia com
que ele pudesse ver as sombras.
O feliz habitante da caverna poderia sair a correr
para a natureza e alegrar-se
com a sua liberdade recm adquirida. Mas ele pensa em
todos aqueles que ainda esto
na caverna. Por isso, regressa. Logo que chega l,
tenta explicar aos outros habitantes da caverna que as
sombras na parede so apenas
cpias trmulas de coisas
verdadeiras, mas ningum
acredita nele. Eles apontam
para a parede da caverna e
afirmam que o que a vem 
tudo o que existe. Por fim,
matam-no.
Aquilo que Plato descreve na alegoria da caverna  o
percurso do filsofo, desde
as opinies confusas at s
ideias reais por detrs da
natureza. Pensa tambm em
Scrates, que os "habitantes
da caverna" assassinaram por
destruir as opinies habituais e por lhes querer mostrar o caminho para o 
verdadeiro conhecimento. Desta
forma, a alegoria da caverna
torna-se uma imagem da coragem e da responsabilidade pedaggica do 
filsofo.
Para Plato, a relao
entre a escurido da caverna
e a natureza l fora corresponde  relao entre os objectos da natureza 
e o mundo
das ideias. Ele no queria
dizer que a natureza era escura e triste, mas que ela 
escura e triste em comparao
com a claridade das ideias.
A fotografia de uma rapariga
bonita tambm no  sombria e
triste, pelo contrrio, mas 
apenas uma fotografia.

O Estado dos filsofos

Encontramos a alegoria da
caverna de Plato no dilogo
A Repblica. Plato descreve nessa obra tambm o
Estado ideal, isto , ele
imagina um Estado-modelo -
ou aquilo que designamos por
"Estado utpico". Resumidamente, podemos dizer que, para
Plato, o Estado deve ser
governado por filsofos. Toma
como ponto de partida o homem
individual.
Segundo Plato, o corpo
humano  constitudo por trs
partes, a saber: a cabea, o
peito e o abdmen. A cada
uma destas partes corresponde
uma faculdade.  cabea corresponde a razo, ao peito a
vontade, ao abdmen o prazer
ou a concupiscncia. A cada
uma destas faculdades pertence ainda um ideal ou uma virtude. A razo 
deve procurar
a sabedoria, a vontade deve
mostrar coragem, e a concupiscncia deve ser refreada,
para que o homem possua temperana. S

86
quando as trs partes actuam
em consonncia temos um homem
harmonioso ou ntegro. Na
escola, as crianas tm de
aprender primeiro a refrear a
sua concupiscncia, depois 
desenvolvida a coragem, e por
fim devem desenvolver a razo
e adquirir a sabedoria.
Plato imagina um Estado
que  organizado exactamente
como um homem. Assim como o
corpo possui "cabea", "peito" e "abdmen", o Estado
possui soberanos, guardies
(ou soldados>) e os comerciantes (grupo ao qual pertencem, alm dos 
comerciantes, os artesos e os camponeses>). Torna-se claro que
Plato toma como modelo a
cincia mdica grega. Assim
como um homem so e harmonioso apresenta equilbrio e
temperana, aquilo que caracteriza um Estado justo  o
facto de cada um conhecer o
seu lugar no todo. Tal como
a filosofia de Plato em geral, tambm a sua filosofia
poltica est impregnada de
racionalismo. Decisivo para
a criao de um bom Estado 
ele ser dirigido com razo.
Tal como a cabea dirige o
corpo, so os filsofos que
tm de governar a sociedade.
Fao agora uma apresentao resumida da relao entre
os trs componentes do homem
e do Estado:

Corpo Alma
cabea razo
peito vontade
abdmen concupiscncia

Virtude Estado
sabedoria soberano
coragem guardies
temperana artesos

O Estado ideal de Plato
pode fazer lembrar o antigo
sistema indiano de castas,
onde cada um tinha a sua funo especfica para o bem do
todo. Desde o tempo de Plato - e ainda antes - o
sistema indiano de castas conhece exactamente esta tripartio entre a 
casta governante (ou a casta dos sacerdotes>), a casta guerreira e
a casta dos artesos.
Hoje diramos talvez que o
Estado de Plato  um
Estado totalitrio. Devemos
reparar que ele era da opinio de que as mulheres poderiam governar o 
Estado tal
como os homens, precisamente
porque os soberanos devem governar a cidade-Estado em
funo da sua razo. Segundo
Plato, as mulheres tinham
tanta racionalidade como os
homens, se recebessem a mesma
formao, e se fossem ainda
libertadas do cuidado das
crianas e das tarefas domsticas. Plato queria abolir
nos soberanos e nos seus
guardies a famlia e a propriedade privada. A formao
das crianas era demasiado
importante para ser deixada
aos indivduos. A educao
das crianas tinha de estar a
cargo do Estado. (Plato
foi o primeiro filsofo que
se pronunciou a favor de jardins infantis e escolas pblicas>).

87
Depois de ter tido algumas
desiluses polticas, Plato
escreveu o dilogo As Leis.
Descreve nele o "Estado de
lei" como o segundo melhor
Estado e introduz de novo a
propriedade privada e os laos familiares. Desta forma,
a liberdade das mulheres 
restringida. Mas ele diz
tambm que um Estado que no
educa e forma mulheres  como
um homem que apenas exercita
o seu brao direito.
Podemos basicamente dizer
que Plato tinha uma opinio
positiva das mulheres - pelo
menos para o seu tempo. No
dilogo O Banquete  uma
mulher, Diotima, que revela
a Scrates o seu saber filosfico.
Isto era Plato, Sofia.
Desde h mais de dois mil
anos, os homens discutem e
criticam a sua singular teoria das ideias. O primeiro
foi seu discpulo na
Academia. Chamava-se
Aristteles - o terceiro
grande filsofo de Atenas.
Mas no digo mais nada por
hoje!

Enquanto Sofia estivera
sentada no tronco, o sol elevara-se a oriente sobre a colina. Espreitara 
por cima do
horizonte precisamente no momento em que estava a ler sobre o filsofo 
que sara da
caverna e piscara os olhos ao
ver a luz brilhante no exterior.
Ela mesma tinha a sensao
de sair de uma gruta subterrnea. Sofia julgava ver a
natureza de um modo completamente novo depois de ter lido
aquilo sobre Plato. Tinha
a sensao de ter sido cega
s cores. Vira talvez sombras, mas no as ideias claras.
No tinha a certeza de que
Plato tivesse razo em tudo
o que afirmava sobre os arqutipos eternos, mas pareceu-lhe muito bela a 
ideia de
que todas as coisas vivas
eram apenas uma cpia imperfeita da forma eterna no mundo das ideias. 
Afinal, era
verdade que todas as flores e
rvores, homens e animais
eram "imperfeitos".
Tudo o que via  sua volta
era to belo e vivo que Sofia pensou que tinha de esfregar os olhos. Mas 
nada do
que via era constante. No
entanto, da a cem anos haveria ali as mesmas flores e
animais. Mesmo que cada animal e cada flor morresse e
fosse esquecido, algo "faria
lembrar" o aspecto de tudo.
Sofia admirava esta obra
maravilhosa quando, subitamente, um esquilo saltou para
o tronco de um pinheiro, rodopiou e desapareceu por entre os ramos. J te 
vi por
aqui, pensou Sofia. Sabia
que provavelmente no tinha
visto aquele esquilo - ela
vira, por assim dizer, a mesma "forma". Porque  que
Plato no havia de ter razo ao dizer que ela vira outrora no mundo das 
ideias o
"esquilo" eterno - muito antes de a sua alma se ter estabelecido num 
corpo?

88
Seria verdade que ela j
vivera antes? Teria a sua
alma existido antes de ter
recebido um corpo que tinha
agora de arrastar consigo?
Seria verdade que ela tivesse em si um gro de ouro -
uma jia que o tempo no consumia, uma alma que viveria
depois de o seu corpo envelhecer e morrer?
.. linha 19, pgina a negro 70 a 88 - isilda

89
A Cabana Do Major

... a rapariga do espelho
piscou ambos os olhos...

Eram apenas sete e um
quarto. Sofia no tinha de
ir a correr para casa. A me
dormiria certamente mais duas
horas; ao domingo era sempre
preguiosa.
Deveria ela avanar mais
no bosque e tentar encontrar
Alberto Knox? Mas porque 
que o co rosnara to furiosamente contra ela?
Sofia levantou-se do tronco e foi pelo carreiro do
bosque atravs do qual Hermes correra. Trazia na mo o
envelope amarelo com a longa
carta sobre Plato. Por duas vezes o carreiro se bifurcou, mas ela seguiu 
sempre o
caminho principal.
Os pssaros chilreavam por
toda a parte - nas rvores e
pelo ar, nos arbustos e no
matagal. Estavam diligentemente absortos na sua toilete
matinal. Para eles, no havia distino entre os dias
da semana e o fim-de-semana.
Mas quem  que ensinara aos
pssaros tudo aquilo? Teria
cada um um pequeno computador
dentro de si, um "programa"
que lhes dizia o que tinham a
fazer?
De incio, o caminho conduzia ao cimo de um pequeno
penhasco, depois, descia
abruptamente entre pinheiros
altos. Da em diante, o bosque era to denso que as rvores deixavam ver 
apenas alguns metros adiante.
De repente, descobriu entre os troncos dos pinheiros
qualquer coisa azul. Era um
lago. Nesse lugar, o carreiro seguia noutro sentido, mas
Sofia continuou a andar por
entre as rvores. No sabia
ao certo porqu, mas os seus
ps conduziam-na naquele sentido.
O lago no era maior do
que um campo de futebol. Defronte a ela, na outra margem, Sofia viu uma 
cabana
pintada de vermelho numa pequena clareira rodeada de btulas brancas. Da 
chamin
elevava-se um fio de fumo.
Sofia desceu at  gua.
O solo estava muito hmido
em quase todos os stios, mas
descobriu rapidamente um barco a remos. Estava puxado
para terra. Dentro do barco
havia um par de remos.

90
Sofia olhou ao seu redor.
Parecia-lhe impossvel, indo
 volta do lago, alcanar a
cabana com os ps secos. Resoluta, dirigiu-se para o
barco e empurrou-o para a
gua. Subiu para bordo, colocou os remos nos toletes e
remou atravs do lago. Depressa atingiu a outra margem. Sofia desceu para 
terra
e tentou puxar o barco para
um lugar seco. A margem era
a muito mais ngreme do que
do outro lado.
Sofia olhou uma vez para
trs e depois subiu em direco  cabana.
Estava assustada consigo
mesma. Como  que ousara fazer isto? No o sabia; qualquer coisa 
"estranha" parecia
gui-la.
Sofia chegou  porta e bateu. Ficou algum tempo  espera, mas ningum 
abriu. Girou com cuidado o puxador e a
porta abriu-se.
- Com licena! - disse
- est algum em casa?
Sofia entrou numa sala
grande. No se atrevia a fechar a porta.
Era bvio que algum morava ali. Sofia ouviu o crepitar de um fogo de 
lenha.
Logo, algum estivera l h
pouco tempo.
Em cima de uma grande escrivaninha, havia uma velha
mquina de escrever, alguns
livros, duas esferogrficas e
muito papel. Em frente  janela que dava para o lago,
havia uma mesa e duas cadeiras. De resto, no havia
muitos mveis; apenas uma parede estava coberta com uma
estante cheia de livros. E
acima de uma cmoda branca,
estava pendurado um grande
espelho redondo com uma moldura de lato. Parecia ser
muito antigo.
Numa parede, estavam dois
quadros. Um era uma pintura
a leo, e representava uma
casa branca que distava alguns metros de uma pequena
enseada com um barraco vermelho para os barcos. Entre
a casa e o barraco havia um
jardim ligeiramente inclinado
com uma macieira, alguns arbustos espessos e rochedos.
As btulas rodeavam o jardim
como uma coroa. A pintura
chamava-se "Bjerkely".
Ao lado do quadro, havia
um velho retrato de um homem
que estava sentado com um livro no regao numa cadeira
perto da janela e ao fundo
havia igualmente uma enseada
com rvores e rochedos. A
pintura devia ter alguns sculos - e chamava-se "Berkeley", O pintor do 
retrato
chamava-se Smibert.
Berkeley e Bjerkely...
no era estranho?
Sofia continuou a olhar em
seu redor na cabana. Da sala
de estar, uma porta conduzia
a uma pequena cozinha. A, a
loua fora recentemente lavada. Pires e copos estavam
empilhados sobre um pano de
linho, e alguns pires apresentavam ainda vestgios de
detergente. No cho, havia
uma malga de metal com restos
de comida. Logo, ali vivia
tambm um animal, um co ou
um gato.

91
Sofia voltou para a sala
de estar. Uma outra porta
conduzia a um pequeno quarto
de dormir.  frente da cama
estavam dois cobertores amarrotados. Sofia descobriu nos
cobertores alguns plos amarelos. Esta era a prova;
Sofia estava totalmente convencida de que Alberto Knox
e Hermes moravam naquela cabana.
Quando voltou  sala de
estar, Sofia aproximou-se do
espelho acima da cmoda. A
superfcie do vidro era opaca
e irregular, por isso o seu
reflexo era pouco ntido.
Sofia comeou a fazer caretas para si mesma - tal como
o fazia de vez em quando em
casa, na casa de banho. O
seu reflexo no espelho imitava-a em tudo, mas tambm no
se esperaria outra coisa.
De repente, algo estranho
aconteceu - por um milsimo
de segundo, Sofia viu, muito
claramente, que a rapariga do
espelho piscava ambos os
olhos. Sofia recuou sobressaltada. Se ela prpria tivesse piscado os dois 
olhos
- como  que poderia ter
visto a outra a piscar os
olhos? E mais uma vez, a rapariga do espelho parecia
piscar os olhos para Sofia.
Parecia que queria dizer: eu
estou a ver-te, Sofia. Estou aqui do outro lado.
Sofia sentiu o corao
martelar-lhe no peito. Simultaneamente, ouviu ao longe
um co a ladrar. Era com
certeza Hermes! Tinha de se
ir embora.
Reparou ento numa carteira verde sobre a cmoda, por
baixo do espelho de lato.
Sofia levantou-a e abriu-a
cautelosamente. A carteira
continha uma nota de cem coroas, outra de cinquenta e...
um carto de estudante. No
carto de estudante havia uma
fotografia de uma rapariga
loira. Abaixo da fotografia
lia-se "Hilde Mller Knag"
e "Escola de Lillesand".
Sofia sentiu um arrepio
pela espinha. Depois, ouviu
de novo o co ladrar. Tinha
de sair dali.
Ao passar pela mesa, descobriu um envelope branco entre os numerosos 
livros e papis. No envelope estava escrito "Sofia".
Sem reflectir um segundo,
apoderou-se da carta e p-la
dentro do grande envelope
amarelo, junto  carta sobre
Plato. Precipitou-se para
fora da cabana e fechou a
porta.
L fora, ouvia o co ladrar mais alto. E viu ento
que o barco tinha desaparecido. Passados um ou dois segundos, descobriu-o 
no meio
do pequeno lago. Junto ao
barco flutuava um remo.
Isso acontecera porque ela
no tinha conseguido arrastar
o barco para terra. Ouviu de
novo o co ladrar, e ouviu em
seguida uma outra coisa que
se mexia entre as rvores, no
outro lado do lago.
Sofia no pensou duas vezes. Com o grande envelope
na mo, correu para os arbustos atrs da cabana. Pouco
depois teve de atravessar

92
um pntano, e por vrias vezes se afundou na gua at ao
meio da barriga da perna.
Mas tinha mesmo de continuar. Tinha de chegar a
casa.
Passado um pouco, deu com
um caminho. Seria esse o caminho pelo qual viera? Sofia
parou e torceu o vestido. S
ento lhe vieram as lgrimas
aos olhos.
Como  que podia ter sido
to imbecil? O mais grave de
tudo era a questo do barco.
No conseguia esquecer a
imagem do barco a remos e do
remo  deriva no lago. Era
tudo to desagradvel, to
horrvel...
Nessa altura, o professor
de filosofia j tinha certamente regressado ao lago.
Ele precisava naturalmente
do barco para chegar a casa.
Sofia sentia-se uma imbecil,
mas no o fizera de propsito.
O envelope! Isso era mais
grave ainda. Porque  que
ela trouxera o envelope?
Porque o seu nome estava escrito nele, obviamente; por
isso, num certo sentido, pertencia-lhe. No entanto, sentiu-se uma ladra. 
E depois
disso, era bvio que ela estivera na cabana.
Sofia tirou uma folha do
envelope que tinha escrito:

O que  que vem primeiro
- a galinha ou a ideia "galinha"?
Ter o homem ideias inatas?
Qual  a diferena entre
uma planta, um animal e um
homem?
Porque  que chove?
Do que  que o homem necessita para viver uma vida
feliz?

Nesse momento, Sofia no
conseguia reflectir sobre estas perguntas, mas calculou
que tinham a ver com o filsofo seguinte. No era aquele que se chamava 
Aristteles?
Quando, aps aquela interminvel corrida pelo bosque,
descobriu a sebe, sentiu-se
como um nufrago que alcana
a terra a nado. Era estranho
ver a sebe do outro lado. S
quando entrou agachada na toca, olhou para o relgio.
Eram dez e meia. Deixou o
envelope grande junto aos outros papis na caixa dos biscoitos. Enfiou 
nos collants a folha com as novas
perguntas.
Quando Sofia entrou, a
me estava ao telefone. Pousou, entretanto, o auscultador.
- Onde  que estavas metida, Sofia?
- Eu... dei um passeio...
no bosque - balbuciou Sofia.
- Estou a ver que sim.
Sofia ficou calada; via
como a gua pingava do seu
vestido.
- Tenho que telefonar a
Jorunn...
- Jorunn?

93
A me foi buscar algo seco
para ela vestir. Sofia conseguiu a muito custo esconder
a folha do seu professor de
filosofia. Sentaram-se na
cozinha e a me preparou o
cacau.
- Estiveste com ele? -
perguntou.
- Com ele?
Sofia pensava apenas no
professor de filosofia.
- Com ele, sim. Com o
teu... "coelho".
Sofia abanou a cabea.
- O que  que vocs fazem
quando esto juntos? Porque
 que ests to molhada?
Sofia estava muito sria e
olhava fixamente para o tampo
da mesa, mas dentro de si no
conseguiu deixar de sorrir.
Pobre mam, como se preocupava!
Abanou de novo a cabea.
Vieram ento as perguntas em
srie.
- Agora, quero ouvir toda
a verdade! Estiveste fora
esta noite? Entraste s escondidas depois de eu ter ido
para a cama? Tu tens apenas
catorze anos, Sofia, quero
saber com quem  que tu andas!
Sofia desatou a chorar e
comeou a contar. Ainda tinha medo, e quando se tem
medo diz-se geralmente a verdade. Sofia contou que tinha
acordado cedo, e que tinha
dado um passeio no bosque.
Falou sobre a cabana e o
barco e tambm sobre o estranho espelho. Mas conseguiu
ocultar tudo o que tinha a
ver com o curso por correspondncia. Tambm no mencionou a carteira 
verde. No
sabia bem porqu, mas tinha
de guardar a histria de
Hilde para si.
A me abraou-a. Sofia
compreendeu que j acreditava
nela.
- Eu no tenho nenhum namorado - soluou - Eu s
disse isso para que tu no
tivesses que te preocupar por
causa do coelho branco.
- Ento foste mesmo at 
cabana do major... - disse a
me com um ar pensativo.
- At  cabana do major?
- Sofia arregalou os olhos.
- A pequena cabana que tu
descobriste no bosque chama-se a "cabana do major".
H muitos, muitos anos, viveu a um velho major. Ele
era um pouco excntrico. Mas
agora no vamos pensar nisso.
Desde essa altura, a cabana
est desocupada.
- Isso  o que tu pensas.
Agora mora l um filsofo.
- No, no comeces de
novo a fantasiar.
Sofia estava sentada no
seu quarto e reflectia sobre
o que lhe acontecera. A sua
cabea era como um circo barulhento com elefantes pesados e palhaos 
cmicos, trapezistas ousados e macacos
amestrados. Mas havia uma
imagem que voltava sempre: um
pequeno barco

94
a remos e um remo flutuavam
num lago no meio de um bosque
- e algum precisava do barco para regressar a casa...
Ela tinha a certeza de que
o professor de filosofia no
lhe queria mal e, quando percebesse que Sofia tinha visitado a cabana, 
talvez lhe
perdoasse, mas ela no cumprira o prometido. Era assim
que agradecia. Como  que
podia remediar isso?
Sofia agarrou no papel de
carta cor-de-rosa e escreveu:

Caro filsofo: Estive na
cabana no domingo, de manh.
Eu queria muito encontrar-te, para discutir melhor alguns problemas 
filosficos.
Por enquanto, sou uma f de
Plato, mas no tenho a certeza se ele tinha razo ao
afirmar que as ideias ou os
arqutipos existem numa outra
realidade. Existem naturalmente na nossa alma, mas isso
 completamente diferente,
segundo a minha opinio actual. Infelizmente, devo tambm confessar que 
ainda no
estou suficientemente convencida de que a nossa alma seja
realmente imortal. Pessoalmente, no tenho quaisquer
recordaes da minha vida anterior. Se me pudesses convencer de que a 
alma da minha
falecida av est bem no mundo das ideias, eu ficaria
muito grata.
Na verdade, no comecei
esta carta, que vou deixar
com um torro de acar, dentro de um envelope cor-de-rosa, por amor da 
filosofia.
Queria apenas pedir desculpa
por te ter desobedecido.
Tentei puxar o barco para
terra, mas pelos vistos no
tive fora suficiente. Alm
disso,  possvel que uma
onda violenta tenha levado o
barco de volta para a gua.
Espero que tenhas chegado
a casa enxuto. Caso contrrio, podes consolar-te, sabendo que eu fiquei 
molhada
at aos ossos e que provavelmente vou apanhar uma forte
constipao, mas sou eu a
culpada por isto ter acontecido.
No toquei em nada na cabana, mas infelizmente ca na
tentao quando vi o envelope
com o meu nome. No porque
eu quisesse roubar alguma
coisa, mas uma vez que o meu
nome estava escrito na carta,
fiquei confusa e a pensar durante alguns segundos que a
carta me pertencia. Eu peo
sinceramente as minhas desculpas, e prometo que no te
hei-de desiludir de novo.

PS. Vou reflectir imediatamente sobre todas as perguntas.
PS2. O espelho de lato
sobre a cmoda branca  um
espelho normal, ou  um espelho mgico? Pergunto apenas
porque no estou muito habituada a que o meu reflexo no
espelho pisque os olhos.

Cumprimentos cordiais da
tua aluna dedicada, SOFIA

95
Sofia leu a carta duas vezes antes de a colocar no envelope. No era to 
cerimoniosa como a anterior. Antes
de ir  cozinha para tirar um
torro de acar, pegou uma
vez mais na folha com os problemas.
"O que  que vem primeiro
- a galinha ou a ideia
'galinha'?" A pergunta era
to difcil como o velho
enigma acerca da galinha e do
ovo. Sem ovo, no h galinha, mas sem galinha tambm
no h ovo. Seria realmente
to difcil descobrir o que 
que existia primeiro, se a
galinha ou a "ideia" galinha?
Sofia sabia o que Plato
teria dito. Ele teria dito
que a ideia "galinha" existira no mundo das ideias muito
antes de haver uma galinha no
mundo sensvel. Segundo
Plato, a alma tinha visto a
ideia "galinha" antes de se
ter estabelecido num corpo.
Mas no era precisamente
nesse ponto que Sofia tinha
pensado que Plato poderia
ter-se enganado? Um homem
que nunca viu uma galinha
viva, ou uma imagem de uma
galinha, tambm no pode ter
nenhuma "ideia" de uma galinha. E com isto, tinha chegado  pergunta 
seguinte.
"Ter o homem ideias inatas?" Era muito duvidoso,
pensava Sofia. Dificilmente
conseguia imaginar que um
beb recm-nascido possusse
muitas ideias. No se podia
ter a certeza absoluta, porque o facto de no falar no
queria dizer que no houvesse
quaisquer ideias na sua cabea. Porm, temos de ver as
coisas no mundo, antes que
possamos saber algo sobre
elas.
"Qual  a diferena entre
uma planta, um animal e um
homem?". Sofia compreendeu
imediatamente que havia diferenas bastante claras. Por
exemplo, no acreditava que
uma planta tivesse uma vida
mental muito complexa. Alguma vez ouvira falar de uma
campainha com um desgosto
amoroso? Uma planta cresce,
alimenta-se e produz pequenas
sementes, atravs das quais
se multiplica. E com isso
estava dito quase tudo acerca da natureza das plantas.
Sofia apercebeu-se de que o
que dissera sobre as plantas
tambm era vlido para os
animais e para os homens.
Mas os animais tinham outras
caractersticas. Por exemplo, podiam mover-se (alguma
vez uma rosa teria participado numa corrida de 60 metros?>). Era mais 
difcil
indicar a diferena entre um
homem e um animal. Os homens
podiam pensar, mas no o conseguiriam igualmente os animais? Sofia estava 
convencida de que o seu gato Sherekan podia pensar. Pelo menos
conseguia comportar-se de uma
forma calculada. Mas conseguiria reflectir sobre questes filosficas? 
Podia o
gato reflectir sobre a diferena entre uma planta, um
animal e um homem? Dificilmente! Um gato podia certamente estar alegre ou 
triste
- mas questionar-se-ia o
gato sobre a existncia de
Deus ou sobre a imortalidade
da alma? Sofia achou isto
extremamente improvvel.

96
Neste, eram vlidas as mesmas consideraes feitas sobre um recm-nascido 
e sobre
as ideias inatas. Era to
difcil discutir sobre estas
ideias com um gato como com
um beb recm-nascido.
"Porque  que chove?" Sofia encolheu os ombros. Certamente porque o mar 
se evapora e porque as nuvens se
condensam em chuva. No o
aprendera j na terceira
classe? Tambm se podia dizer que chovia para que os
animais e as plantas pudessem
crescer. Mas seria verdade?
Um aguaceiro teria uma inteno?
O ltimo problema tinha de
qualquer forma a ver com intenes. "De que  que o homem necessita para 
viver uma
vida feliz?" O professor de
filosofia j tinha escrito
isso no incio do curso. Todos os homens precisam de comida, calor, amor 
e ateno.
Esta era a condio bsica
para uma vida feliz. Em seguida, tinha apontado para o
facto de todos precisarem de
respostas a determinadas
questes filosficas. Para
isso, era bastante importante
ter um emprego de que se gostasse. Uma pessoa que odiasse o trnsito, 
dificilmente
seria feliz como condutor de
txi. E se se detestava o
estudo, ser professor no seria certamente uma escolha
profissional inteligente.
Sofia adorava animais, e por
isso podia facilmente imaginar tornar-se veterinria.
De qualquer modo, no achava
necessrio ganhar um milho
no totoloto para ter uma boa
vida. Antes pelo contrrio.
Havia inclusivamente o ditado: "O cio  a origem de
todos os vcios".
Sofia ficou no quarto, at
que a me a chamou para comer. Tinha grelhado costeletas e cozido 
batatas. Que
delcia! Tambm tinha acendido uma vela. Como sobremesa, havia creme de 
amoras.
Conversaram sobre diversos
assuntos. A me perguntou
como  que Sofia queria festejar o seu dia de anos.
Faltavam poucas semanas.
Sofia encolheu os ombros.
- Queres convidar algum?
Quero dizer, desejas fazer
alguma festa?
- Talvez...
- Podemos convidar a
Marta e a Ana Maria... e
Hege... e Jorunn, evidentemente. E talvez Jrgen...
Mas isso tens de ser tu a
decidir. Sabes uma coisa -
eu lembro-me perfeitamente de
quando fiz os meus quinze
anos. E ainda no me parece
ter sido h muito tempo.
Nesse tempo, j me sentia
adulta, Sofia. No  estranho? No acho que me tenha
modificado muito desde essa
altura.
- Tu no te modificaste,
nada se "modifica". Apenas
te desenvolveste, tornaste-te
mais velha...
- Mm... sim, isso soa
muito adulto. S acho que
passou tudo to depressa...

97
ARISTTELES

... um homem meticuloso e
metdico que queria pr em
ordem os conceitos dos homens...

Enquanto a me dormia a
sesta, Sofia foi para a toca. Ps um torro de acar
no envelope cor-de-rosa e escreveu "Para Alberto".
No tinha chegado nenhuma
carta nova, mas passados poucos minutos, Sofia ouviu o
co aproximar-se.
- Hermes! - chamou
Sofia; em seguida, Hermes
entrou na toca, com um grande
envelope amarelo na boca.
Sofia ps-lhe um brao 
volta; ele arfava e ofegava.
Sofia pegou no envelope cor-de-rosa com o torro de acar e colocou-o na 
boca de
Hermes. Ele saiu da toca e
desapareceu no bosque.
Sofia estava um pouco nervosa ao abrir o envelope.
Haveria algo acerca da cabana e do barco?
O envelope continha, como
era habitual, folhas juntas
com um clipe. Mas havia tambm uma folha solta. Na folha estava escrito:

Cara detective! Ou cara
assaltante, para ser mais
preciso. O incidente j foi
notificado... No, no estou
muito zangado. Se s assim
to curiosa quando se trata
de encontrar respostas para
os problemas da filosofia,
isso  muito promissor. A
maada  que agora tenho de
mudar de casa. Bom,  obviamente por minha culpa. Eu
devia ter sabido que tu s
uma pessoa que quer examinar
as coisas a fundo.

Cumprimentos cordiais do
Alberto

Sofia respirou fundo. Ele
no estava aborrecido. Mas
porque  que tinha de mudar
de casa?
Pegou nas folhas grandes e
correu para o seu quarto.
Era melhor que estivesse em
casa quando a me acordasse.
Pouco depois, j estava confortavelmente estendida na
cama. Queria ler acerca de
Aristteles.

98
Filsofo e cientista

Cara Sofia! Ficaste certamente espantada com a teoria das ideias de 
Plato.
No s a primeira. No sei
se aceitaste tudo com facilidade ou se fizeste alguns reparos crticos. 
Mas se fizeste reparos crticos, podes
estar certa de que as mesmas
objeces foram levantadas j
por Aristteles (384-322 a.C.>). Ele foi durante vinte anos aluno na
Academia de Plato.
Aristteles no era um
ateniense. Era natural da
Macednia, mas foi para a
Academia quando Plato tinha 61 anos. O pai era um
mdico reconhecido - ou seja, um cientista. Este pano
de fundo j nos diz algo sobre o projecto filosfico de
Aristteles. Aquilo que o
interessava acima de tudo era
a natureza viva. No foi
apenas o ltimo grande filsofo grego, foi tambm o primeiro grande 
bilogo da Europa.
Se quisermos formular tudo
de um modo um tanto exagerado, podemos dizer que Plato
estava to concentrado nas
formas ou "ideias" eternas
que mal reparava nas transformaes da natureza. Aristteles, pelo 
contrrio, interessava-se precisamente pelas transformaes - ou
aquilo que ns hoje designamos por processos fsicos.
Se quisermos exagerar ainda mais, podemos dizer que
Plato se afastava do mundo
sensvel e s distinguia passageiramente aquilo que vemos
 nossa volta. (Ele queria
sair da caverna! Queria
olhar para o eterno mundo das
ideias!>). Aristteles fazia
exactamente o inverso: dirigia-se  natureza e estudava
peixes e rs, anmonas e papoilas.
Podes dizer que Plato
usou apenas o seu entendimento; Aristteles, por seu
lado, usou tambm os sentidos.
At na sua maneira de escrever encontramos claras diferenas. Enquanto 
Plato
era poeta e criador de mitos,
os textos de Aristteles so
secos e pormenorizados como
uma enciclopdia. Em compensao, na origem de muitas
coisas acerca das quais ele
escreve, h estudos naturalistas intensivos.
Na Antiguidade so referidos mais de 170 ttulos
que Aristteles ter escrito. Hoje, conservam-se 47
textos. No se trata de livros acabados. A maior parte
dos textos de Aristteles
so constitudos por apontamentos para as lies. Mesmo
no tempo de Aristteles, a
filosofia era sobretudo uma
actividade oral.
A importncia de Aristteles para a cultura europeia
no reside apenas no facto de
ele ter criado a linguagem
tcnica que ainda hoje as diversas cincias utilizam.
Ele foi o grande sistemtico
que fundou e ordenou as diversas cincias.

99
Como Aristteles escreveu
sobre todas as cincias, vou
tratar apenas de algumas das
reas mais importantes.
Dado que falei tanto de
Plato, deves saber primeiro
como  que Aristteles argumenta contra a teoria das
ideias de Plato. Depois,
vamos ver como  que ele concebe a sua prpria filosofia
da natureza. Aristteles recapitulou aquilo que os filsofos da natureza 
antes dele
disseram. Vamos ver como 
que ele ordena os nossos conceitos e funda a lgica como
cincia. Por fim, vou falar
ainda um pouco da viso de
Aristteles acerca do homem
e da sociedade. Se aceitares
estas condies, s precisamos de arregaar as mangas e
comear.

No h ideias inatas

Tal como os filsofos anteriores, tambm Plato queria encontrar algo 
eterno e
imutvel no meio de todas as
transformaes. Deste modo,
encontrou as ideias perfeitas, que so superiores ao
mundo sensvel. Alm disso,
para Plato, estas ideias
eram mais reais do que todos
os fenmenos na natureza.
Primeiro, vinha a ideia "cavalo" - em seguida, todos os
cavalos do mundo sensvel,
que galopavam como cpias na
parede de uma caverna. Logo,
a ideia "galinha" veio antes
da galinha e do ovo.
Aristteles achava que
Plato tinha posto tudo s
avessas. Estava de acordo
com o seu professor em que o
cavalo particular "flui", e
que nenhum cavalo vive eternamente. Tambm estava de
acordo em que a forma do cavalo  em si eterna e imutvel. Mas a "ideia" 
cavalo ,
para ele, apenas um conceito
que ns homens formmos, depois de termos visto um determinado nmero de 
cavalos.
Para Aristteles, a "forma"
cavalo consiste nas caractersticas do cavalo - diramos hoje na 
espcie cavalo.
Vou precisar: pela "forma"
cavalo, Aristteles designa
aquilo que  comum a todos os
cavalos. E neste caso, a
imagem da forma do biscoito
j no  vlida, porque as
formas existem independentemente do biscoito particular.
Aristteles no acreditava
que essas formas, por assim
dizer, existissem na sua prpria prateleira na natureza.
Para Aristteles, as "formas" residem nas prprias
coisas como qualidades especficas das coisas.
Aristteles tambm no
concorda com Plato em que a
ideia "galinha" precede a galinha. Aquilo a que Aristteles chama a 
"forma" galinha, reside na forma das qualidades especficas de cada
galinha - por exemplo, pr
ovos. Assim, a galinha em si
e a "forma" galinha so to
inseparveis como a alma e o
corpo.

100
Com isto, dissemos basicamente quase tudo acerca da
crtica de Aristteles  teoria das ideias de Plato.
Mas deves notar que estamos
a falar de uma viragem drstica no pensamento. Para
Plato, o grau mximo de realidade  o que pensamos com
a razo. Para Aristteles,
 igualmente evidente que o
grau mximo de realidade  o
que percepcionamos ou sentimos com os sentidos. Segundo
Plato, aquilo que vemos 
nossa volta na natureza 
apenas reflexo de algo que
existe no mundo das ideias -
e consequentemente na alma do
homem. Aristteles dizia
exactamente o contrrio:
aquilo que est na alma do
homem  apenas reflexo dos
objectos da natureza. O mundo real  a natureza, segundo
Aristteles, enquanto Plato fica preso a uma concepo mtica do mundo 
que confunde as representaes do
homem com o mundo real.
Aristteles aponta para o
facto de que nada existe na
conscincia que no tenha
existido primeiro nos sentidos. Plato poderia ter dito
que no h nada na natureza
que no tenha existido primeiro no mundo das ideias.
Desta forma, Plato duplicou o nmero de coisas, segundo Aristteles. Ele 
explicara o cavalo particular
recorrendo  ideia "cavalo".
Que tipo de explicao 
esta, Sofia? Isto , de
onde vem a ideia "cavalo"?
Existir ainda um terceiro
cavalo - do qual a ideia
"cavalo"  por sua vez apenas
uma cpia?
Aristteles defendia que
tudo o que temos em pensamentos e em ideias chegou  nossa conscincia 
atravs daquilo que vimos e ouvimos. Mas
tambm temos uma razo inata.
Temos uma faculdade inata de
ordenar todas as impresses
sensveis em diferentes grupos e classes. Assim nascem
conceitos como "pedra",
"planta", "animal" e "homem".
Assim surgem os conceitos
"cavalo", "lagosta" e "canrio".
Aristteles no negava que
o homem tivesse uma razo
inata. Muito pelo contrrio:
para Aristteles, a razo 
precisamente a caracterstica
mais importante do homem.
Mas a nossa razo est completamente "vazia" enquanto
no sentirmos nada. Logo, um
homem no possui "ideias"
inatas.

As formas so as
qualidades das coisas

Aps ter esclarecido a sua
posio em relao  teoria
das ideias de Plato, Aristteles afirma que a realidade  constituda 
por diversas
coisas particulares que apresentam uma unidade de forma
e matria. A "matria" 
aquilo a partir do qual a
coisa  feita, enquanto a
"forma" caracteriza as qualidades particulares das coisas. Uma galinha 
esvoaa 
tua frente, Sofia. A "forma" da galinha  precisamente
o esvoaar

101
- assim como cacarejar e pr
ovos. Pela "forma" da galinha so portanto designadas
as qualidades particulares da
sua espcie - ou aquilo que
a galinha faz. Quando a galinha morre e deixa de cacarejar, a "forma" da 
galinha
tambm deixa de existir. A
nica coisa que permanece  a
"matria" da galinha ( bastante triste, Sofia!>); mas
j no  uma galinha.
Como j afirmei, Aristteles estava interessado nas
transformaes da natureza.
Na matria h sempre uma
possibilidade de se atingir
uma determinada forma. Podemos dizer que a matria se
esfora por realizar uma possibilidade em si inerente.
Cada mudana na natureza 
para Aristteles uma transformao da matria da possibilidade para a 
realidade.
Eu vou explicar isto, Sofia. Vou contar uma histria
cmica. Era uma vez um escultor que estava a trabalhar
num enorme bloco de granito.
Todos os dias esculpia e talhava a pedra informe, e certo dia recebeu a 
visita de um
jovem. - O que  que procuras? - perguntou o jovem. -
Espera - disse o escultor.
Passados alguns dias, o rapaz voltou e nessa altura, o
escultor tinha esculpido um
belo cavalo a partir do bloco
de granito. O rapaz fixou
emudecido o cavalo. Em seguida, voltou-se para o escultor e perguntou: - 
Como
 que sabias que isso estava
ali?
Sim, como  que ele podia
saber? De certo modo, o escultor tinha visto a forma do
cavalo no bloco de granito,
porque nesse bloco de granito
estava inerente a possibilidade de se tornar cavalo.
Aristteles achava que em
todas as coisas da natureza
est inerente uma possibilidade de realizar uma forma
determinada.
Voltemos  questo da galinha e do ovo. Num ovo de
galinha est inerente a possibilidade de se tornar galinha. Isto no 
significa que
todos os ovos de galinha se
tornem galinhas - inclusivamente h alguns que vo parar
 mesa do pequeno-almoo, sob
a forma de ovo estrelado,
omeleta ou ovo mexido, sem
realizarem a forma inerente
ao ovo. Mas tambm  bvio
que um ovo de galinha nunca
se pode converter em ganso.
Esta possibilidade no reside no ovo de galinha. A forma de uma coisa 
indica tanto
as suas possibilidades como
as suas limitaes.
Quando Aristteles fala
de forma e de matria no
est a pensar apenas em organismos vivos. Tal como a
"forma" da galinha  cacarejar, bater com as asas e pr
ovos, a "forma" da pedra 
cair ao cho. Tal como a galinha no pode evitar cacarejar, tambm a 
pedra no pode
evitar cair ao cho. Obviamente, podes levantar uma pedra e lan-la ao 
ar, mas
como a natureza da pedra 
cair ao cho, no a podes
lanar para a lua. (Se fizeres esta experincia, deves
ser um

102
pouco cautelosa, porque a pedra pode facilmente vingar-se. Ela quer 
regressar 
terra to rapidamente quanto
possvel - e ai daquele que
estiver no seu caminho!>).

A causa final

Antes de deixarmos este
gnero de consideraes, segundo as quais todas as coisas animadas e 
inanimadas tm
uma forma que diz algo acerca
da sua potencialidade, devo
ainda acrescentar que Aristteles tinha uma viso bastante importante 
sobre as relaes de causalidade na natureza.
Quando, no dia-a-dia, falamos de "causas" que provocam isto ou aquilo, 
referimo-nos ao modo como algo sucede. A janela parte-se porque o Pedro 
atirou uma pedra, um sapato forma-se porque o sapateiro cose algumas
peas de couro. Mas Aristteles achava que na natureza
havia vrios tipos de causa.
 sobretudo importante compreender o que  que ele entendia por causa 
final.
No caso da janela partida
tambm  naturalmente oportuno perguntar porque  que
Pedro atirou a Pedra. Perguntamos tambm qual era a
sua inteno, qual era a sua
finalidade. No podem subsistir dvidas de que uma inteno ou um fim tm 
um papel
importante na produo de um
sapato. Mas Aristteles
tambm tinha em vista a mesma
causa final em alguns processos fsicos na natureza. Vamos ficar-nos por 
um exemplo:
Porque  que chove, Sofia? Com certeza j aprendeste na escola que chove
porque o vapor de gua das
nuvens arrefece e se condensa
em gotas de gua que caem no
solo devido  gravidade.
Aristteles teria concordado, mas acrescentando que
apenas mencionaste trs causas. A causa material  o
facto de o vapor de gua actual (as nuvens>) estar presente quando o ar 
arrefeceu.
A causa eficiente  o facto de o vapor de gua arrefecer, e a causa 
formal  o
facto de a "forma" ou natureza da gua ser cair no solo.
Se no tivesses dito mais
nada, Aristteles teria
acrescentado que chove porque
as plantas e os animais precisam da gua da chuva para
crescerem. Era o que ele designava por causa final.
Como vs, Aristteles atribuiu s gotas de gua uma espcie de finalidade 
vital ou
a "inteno".
Ns diramos ao contrrio:
as plantas crescem porque h
humidade. Percebes esta diferena, Sofia? Aristteles
acreditava que em toda a natureza h uma finalidade.
Chove para que as plantas
cresam, e as laranjas e as
uvas crescem para que os homens as comam.

103
Hoje, a cincia j no
pensa assim. Dizemos que a
alimentao e a humidade so
condies para que os homens
e os animais possam viver.
Sem estas condies, ns no
existiramos. Mas no  inteno das laranjas ou da
gua alimentarem-nos.
No que diz respeito  sua
teoria das causas, podemos
sentir-nos tentados a afirmar
que Aristteles se enganou,
mas no nos vamos precipitar.
Muitos homens acham que
Deus criou o mundo para que
homens e animais pudessem viver nele. Perante este cenrio, pode-se 
tambm afirmar
que a gua corre nos rios
porque os homens e os animais
precisam de gua para viver.
Mas, nesse caso, falamos do
fim ou da inteno de Deus.
No so as gotas de chuva ou
a gua dos rios que nos querem bem.

Lgica

A distino entre "forma"
e "matria" tambm tem um papel importante na descrio
que Aristteles faz do modo
como o homem conhece os objectos na natureza.
Quando conhecemos algo,
ordenamos as coisas em classes ou grupos distintos. Eu
vejo um cavalo, depois vejo
mais um cavalo - e em seguida mais um. Os cavalos no
so totalmente idnticos mas
h algo que  comum a todos
os cavalos e aquilo que  comum a todos os cavalos  a
"forma" do cavalo. O que 
diferente ou individual pertence  "matria" do cavalo.
Desta forma, os homens ordenam as coisas e colocam-nas
em locais distintos. Colocamos as vacas no curral, os
cavalos na cavalaria, os
porcos na pocilga e as galinhas no galinheiro. O mesmo
sucede quando Sofia Amundsen arruma o seu quarto. Pe
os livros na estante, mete os
livros da escola na pasta e
as revistas na gaveta da cmoda. Os vestidos so dobrados cuidadosamente 
- a roupa
interior numa prateleira, as
camisolas noutra e as meias
numa gaveta. Repara que fazemos o mesmo nas nossas cabeas: separamos 
coisas que
so feitas de pedra, de l e
de borracha. Distinguimos as
coisas animadas das inanimadas, e subdividimos ulteriormente estas coisas 
em "plantas", "animais" e "homens".
Ests a compreender, Sofia? Aristteles queria fazer uma arrumao 
profunda no
quarto da natureza. Procurou
provar que todas as coisas na
natureza pertencem a diversos
grupos e subgrupos. (Hermes
 um ser vivo, mais exactamente, um animal, mais exactamente, um 
vertebrado, mais
exactamente, um mamfero,
mais exactamente, um co,
mais exactamente, um labrador, mais exactamente, um labrador macho>).

104
Vai ao teu quarto, Sofia.
Levanta um objecto qualquer
do cho. Seja o que for que
tu levantes, descobrirs que
aquilo em que tocas pertence
a uma ordem. No dia em que
vs algo que no consegues
classificar sofres um choque.
Se, por exemplo, descobrisses uma pequena coisa acerca
da qual no conseguias dizer
com segurana se pertence ao
reino vegetal, animal ou mineral, acho que no te atreverias a tocar-lhe.
Falei de reino vegetal,
reino animal e reino mineral.
Estou a pensar naquele jogo
em que um pobre diabo  enviado para o corredor enquanto
os outros imaginam algo que
ele deve adivinhar quando regressa  sala. Os outros decidem pensar no 
gato Tareco
que, nesse momento, est sentado no jardim. Em seguida,
o pobre jogador entra de novo
e comea a adivinhar. Os outros s podem responder "no"
ou "sim". Se o jogador  um
bom aristotlico - e nesse
caso no  de modo algum um
pobre diabo, a conversa pode
decorrer mais ou menos assim:
-  concreto? - (Sim!>)
- Pertence ao reino mineral? - (No!>) -  animado? - (Sim!>) - Pertence 
ao reino vegetal? -
(No!>) -  um animal? -
(Sim!>) -  um pssaro?
- (No!>) -  um mamfero? - (Sim!>) -  todo o
animal? - (Sim!>) -  um
gato? - (Sim!>) -  o
Tareco? (Siiiiiim! Risos...>)
Foi portanto Aristteles
quem descobriu este jogo.
Por seu lado, a Plato cabe
a honra de ter descoberto "s
escondidas no escuro". A
Demcrito j atribumos a
honra de ter descoberto o
jogo do Lego.
Aristteles foi um homem
meticuloso e metdico que
queria pr em ordem os conceitos dos homens. Por isso,
foi ele quem fundou a lgica como cincia. Estabeleceu vrias regras 
precisas
para determinar que concluses ou que demonstraes so
vlidas logicamente. Um
exemplo deve ser suficiente:
se eu afirmo primeiro que
"todos os seres vivos so
mortais" (1.a premissa>), e
afirmo em seguida que "Hermes  um ser vivo" (2.a
premissa>), posso deduzir a
concluso: "Hermes  mortal>>.
O exemplo mostra que a lgica de Aristteles trata da
relao entre termos, neste
caso "ser vivo" e "mortal".
Mesmo sendo foroso admitir
que o silogismo dado  cem
por cento sustentvel, temos
de reconhecer que ele no nos
diz propriamente nada de novo. J sabamos que Hermes
 "mortal". (Porque  um
co, e todos os ces so "seres vivos" - logo, "mortais", ao contrrio 
das pedras>). Sim, Sofia, j sabamos isso. Mas nem sempre
a relao entre grupos ou
coisas nos parece to evidente. Por vezes, pode ser necessrio ordenar os 
nossos
termos.
Vou contentar-me com um
exemplo: ser verdade que
crias de rato podem mamar
leite da me como sucede com
as ovelhas ou os porcos?
Isto parece muito estranho,
mas no nos podemos esquecer
de que os ratos no pem
ovos. (Quando  que eu vi
um ovo de rato ultimamente?>).

105
Mas do  luz crias - tal
como os porcos ou as ovelhas.
Mas os animais que do  luz
crias so chamados mamferos
- e os mamferos mamam o
leite das mes. Com isto,
atingimos o nosso objectivo.
Tnhamos a resposta dentro
de ns, mas foi preciso reflectir primeiro. De momento, tnhamo-nos 
esquecido de
que os ratos mamam realmente
leite das mes. Talvez seja
porque nunca vimos as crias
dos ratos a mamar, certamente
porque os ratos se envergonham um pouco  frente dos
homens quando tm de alimentar as suas crias.

A escala da natureza

Quando Aristteles quer
"pr ordem" na existncia,
ele aponta primeiro para o
facto de que tudo o que h na
natureza pode ser dividido em
dois grupos principais. Por
um lado, temos as coisas
inanimadas - como pedras,
gotas de gua e torres de
terra. Nelas no est inerente nenhuma potencialidade
de mudana. Essas coisas
inanimadas s se podem alterar, segundo Aristteles,
por aco do exterior. Por
outro lado, temos as coisas
animadas, nas quais  inerente a possibilidade de se
alterarem.
No que diz respeito s
coisas animadas, Aristteles
salienta que devem ser divididas em 2 grupos - por um
lado o reino vegetal (ou
plantas>) e por outro os seres animados. Por fim, os
seres animados podem dividir-se em subgrupos - nomeadamente os animais 
e os
homens.
Tens de admitir que esta
classificao, apesar da impreciso em relao s plantas,  clara e 
compreensvel.
Entre as coisas animadas e
no animadas existe uma diferena essencial. Tambm entre as plantas e os 
animais
existe uma diferena essencial, por exemplo, entre uma
rosa e um cavalo. E eu gostaria de pensar tambm que
existe uma diferena essencial entre um cavalo e um homem. Mas onde  que 
residem
exactamente essas diferenas?
Consegues responder a isto?
Infelizmente, no tenho
tempo para esperar que escrevas a resposta e a coloques
num envelope cor-de-rosa com
um torro de acar, por isso
respondo eu mesmo imediatamente. Quando Aristteles
classifica os fenmenos da
natureza em diferentes grupos, parte das qualidades das
coisas, ou, mais exactamente,
do que elas podem fazer ou do
que elas fazem.
Todos os seres vivos
(plantas, animais e homens>)
tm a faculdade de assimilar
a alimentao, de crescer e
de se multiplicar. Os homens
e os animais tm ainda a capacidade de sentir e de se
mover na natureza.

106
Todos os homens tm ainda a
faculdade de pensar - ou,
justamente, de ordenar as suas impresses sensveis em
diferentes grupos e classes.
Deste modo, no h na natureza limites verdadeiramente definidos. Vemos 
uma passagem gradual de plantas mais
simples para plantas mais
complexas, de animais simples
para animais complexos. No
cimo desta escala est o homem - que, segundo Aristteles, rene toda a 
vida da
natureza. O homem cresce e
alimenta-se, tal como as
plantas, tem sensaes e a
capacidade de se mover, tal
como os animais, mas alm
disso tem uma caracterstica
muito particular, que s o
homem possui: a capacidade de
pensar racionalmente.
Deste modo, o homem possui
uma centelha da razo divina,
Sofia. Sim, eu disse "divina". Em alguns passos,
Aristteles explica que tem
de haver um Deus que deu
origem a todos os movimentos
da natureza. Deste modo,
Deus representa o vrtice
absoluto na escala da natureza .
Aristteles acreditava que
os movimentos das estrelas e
dos planetas regiam os movimentos aqui na terra. Mas
tinha de haver algo que movesse os corpos celestes. A
esse algo chamava Aristteles o primeiro motor ou
Deus. O primeiro motor no
se move, mas  a primeira
causa dos movimentos dos corpos celestes e, consequentemente, de todos os 
movimentos
na natureza.

tica

Regressemos ao homem, Sofia. A "forma" do homem ,
segundo Aristteles, possuir
uma "alma vegetativa", uma
"alma sensitiva", como uma
"alma racional". E ele pergunta ento: como  que o homem deve viver? De 
que  que
o homem precisa para viver
bem?
Posso responder em poucas
palavras: o homem s  feliz
quando pode desenvolver e
usar todas as suas faculdades
e capacidades.
Aristteles acreditava em
trs formas de se conseguir
uma vida feliz: a primeira
forma de vida tem a ver com o
desejo e o prazer do corpo.
A segunda como cidado livre
e responsvel. A terceira
como pesquisador e filsofo.
Aristteles sublinha que
estas trs formas se completam para que o homem possa
ter uma vida feliz. Ele recusava portanto qualquer tipo
de parcialidade. Se vivesse
hoje, talvez dissesse que um
homem que apenas cuida do seu
corpo vive to parcialmente e
to mal como aquele que apenas usa a cabea. Ambos os
extremos so expresso de uma
conduta errada de vida.

107
No que diz respeito  relao com o prximo, Aristteles tambm aconselha 
um
"meio termo". No devemos
ser cobardes nem temerrios,
mas corajosos. (Pouca coragem significa cobardia, demasiada coragem 
significa temeridade>). Tambm no devemos
ser avarentos nem esbanjadores, mas generosos. (Ser
pouco generoso  avareza, ser
muito generoso  esbanjamento>).
O mesmo  vlido para a
alimentao. Comer pouco 
perigoso, mas comer muito
tambm  perigoso. A tica
de Plato e de Aristteles
faz recordar a cincia mdica
grega: s atravs da harmonia
e da moderao me torno um
homem feliz ou "harmonioso".

Poltica

A ideia de que o homem no
deve levar nada ao extremo,
na vida, est tambm patente
na viso aristotlica da sociedade. Aristteles afirmava que o homem  um 
"ser social". Na sua opinio, sem a
sociedade  nossa volta no
somos verdadeiros homens. A
famlia e a cidade satisfazem
as necessidades vitais mais
bsicas como a alimentao e
o calor, o casamento e a educao dos filhos. Todavia, a
forma mais elevada de comunidade humana s pode ser, para
Aristteles, o Estado.
Com isto coloca-se a questo: como  que o Estado deveria ser organizado? 
(Ainda te recordas do Estado
platnico dos filsofos?>)
Aristteles menciona vrias
formas boas de governo. Uma
delas  a monarquia - significa que h um nico chefe
supremo do Estado. Para que
esta forma de Estado seja
boa, no pode degenerar em
"tirania", caso em que um
nico soberano governa o
Estado em seu prprio proveito. Uma outra forma boa
de Estado  a aristocracia. A aristocracia  o governo de um grupo 
restrito de
indivduos. Esta forma de
Estado tem de se precaver
para no degenerar numa oligarquia, um regime no qual
apenas so salvaguardados os
interesses de poucas pessoas.
Uma terceira forma de Estado  a democracia. Mas
tambm esta forma de Estado
tem o seu lado contrrio.
Uma democracia pode facilmente degenerar numa "oclocracia" que significa 
governo
da multido. (Mesmo que
Hitler no se tivesse tornado chefe de Estado da Alemanha, muitos 
pequenos nazis
teriam podido estabelecer uma
terrvel "oclocracia">).

A concepo da mulher

Finalmente, temos de dizer
algo acerca da opinio de
Aristteles sobre a mulher.
Infelizmente, no era to
animadora como a de Plato.

108
Aristteles pensava que algo
faltava  mulher. Ela  um
"homem incompleto". Na reproduo, a mulher  passiva
e receptora, enquanto o homem
 activo e dador. Por isso,
segundo Aristteles, a criana herdava apenas as caractersticas do 
homem. Todas
as caractersticas da criana
estavam contidas no smen do
homem. A mulher  como o
terreno que recebe e conserva
a semente, enquanto o homem 
o prprio "semeador". Ou,
dito de uma forma verdadeiramente aristotlica: o homem
d a "forma", a mulher d a
"matria".  surpreendente e
lamentvel que um homem to
perspicaz como Aristteles
se pudesse enganar de tal
forma no que diz respeito 
relao entre os sexos. No
entanto, revelo duas coisas:
em primeiro lugar, Aristteles no tinha muita experincia prtica da 
vida das mulheres e das crianas; em segundo lugar mostra como nos
podemos enganar quando os homens detm o poder absoluto
na filosofia e na cincia.
A concepo aristotlica
da mulher  particularmente
grave porque se tornou predominante durante a Idade Mdia, e no a de 
Plato.
Deste modo, tambm a Igreja
herdou uma concepo da mulher para a qual no h justificao nenhuma na 
Bblia.
Jesus no era de modo algum
inimigo das mulheres!
Por agora no digo mais
nada! Mas continuars a ter
notcias minhas.

Aps ter lido duas vezes o
captulo acerca de Aristteles, Sofia meteu de novo
as folhas no envelope amarelo
e olhou ao seu redor. Viu
logo que estava tudo desarrumado. No cho, havia livros
e dossiers. Do armrio saam pegas e camisas, meias e
jeans. Em cima da cadeira,
junto  escrivaninha, estavam
vestidos sujos, misturados.
Sofia sentiu um impulso
irresistvel de arrumar.
Em primeiro lugar, despejou
todas as gavetas do armrio.
Ps os vestidos no cho.
Era importante comear tudo
do princpio. Assim, deu-se
ao trabalho de dobrar cuidadosamente todas as peas de
vesturio, e de as colocar
nas prateleiras. No armrio
havia sete prateleiras. Sofia reservou uma para as cuecas e para as 
camisolas, outra para meias e collants e
uma para calas. Deste modo
encheu por ordem todas as
prateleiras do armrio. Nunca teve dvidas sobre o lugar
de cada pea de roupa. As
coisas que deviam ser lavadas
colocou-as num saco de plstico que encontrara na prateleira do fundo.
S uma nica pea de roupa
lhe dava problemas. Era uma
meia branca comprida, normalssima. O problema no era
apenas o facto de a segunda
meia faltar. A meia nunca
pertencera a Sofia.

109
Observou a meia branca durante alguns minutos. No
havia nenhum nome escrito.
Mas Sofia tinha uma forte
suspeita de quem era a dona.
Atirou-a para a prateleira
mais alta juntamente com o
saco de peas de Lego, a
cassete de vdeo e o leno de
seda vermelho.
Era a vez do cho. Sofia
separou livros e dossiers,
revistas e cartazes - exactamente como o seu professor
de filosofia tinha descrito
no captulo sobre Aristteles. Quando o cho j estava
despachado, fez primeiro a
cama, e em seguida passou 
escrivaninha.
No fim de tudo, ps as folhas sobre Aristteles num
monte ordenado. Pegou num
dossier vazio e num furador, furou as folhas e juntou-as por ordem no 
dossier. Colocou o dossier
no armrio, junto  meia
branca. Mais tarde, iria 
toca buscar a caixa dos biscoitos.
A partir da, devia haver
ordem nas coisas. Sofia no
pensava apenas nas coisas do
quarto. Depois de ter lido
acerca de Aristteles sabia
que era igualmente importante
manter a ordem em conceitos e
ideias. Para estas questes,
tinha reservado a prateleira
especial no cimo do armrio.
Era o nico ponto do quarto
sobre o qual ela ainda no
tinha controlo total.
H duas horas que no ouvia a me. Desceu ao rs-do-cho. Tinha de dar 
comida
aos animais antes que a me
acordasse.
Na cozinha, debruou-se
para o aqurio dos peixes
dourados. Um dos peixes era
negro, o segundo laranja e o
terceiro branco e vermelho.
Por isso os baptizara de
"Diabrete", "Caracolinho
Dourado" e "Capuchinho
Vermelho". Enquanto espalhava a comida para os peixes
dourados, ia dizendo:
- Vocs pertencem  parte
animada da natureza. Por
isso, conseguem assimilar o
alimento, podem crescer e podem multiplicar-se. Mais
precisamente, vocs pertencem
ao reino animal. Assim, podem movimentar-se e observar
o quarto. Para ser mais precisa, vocs so peixes, por
isso podem respirar com as
guelras e nadar de um lado
para o outro na gua da vida.
Sofia fez girar a tampa da
caixa da comida dos peixes
dourados. Estava contente
com a classificao dos peixes dourados na ordem da natureza - e 
sobretudo com a
expresso "gua da vida".
Agora era a vez dos periquitos. Sofia deitou comida nos
comedouros e disse:
- Queridos Tom e Jerry!
Vocs so hoje dois belos
periquitos porque se desenvolveram a partir de pequenos
ovos de periquito, e s porque a "forma" desses ovos era
tornarem-se periquitos vocs
no se tornaram papagaios
palradores.
Sofia foi ao quarto de banho grande, onde estava a indolente tartaruga 
numa grande
caixa. Quando a me de Sofia tomava duche,

110
gritava que um dia havia de
matar aquele animal. Mas at
ento, tinha-se ficado por
essa mera ameaa. Sofia tirou uma folha de salada de um
frasco grande e colocou-a na
caixa.
- Querida Govinda - dizia - tu no pertences propriamente ao grupo dos 
animais mais velozes. Mas s um
animal que pode ter experincia de uma parte minscula do
grande universo em que vivemos. Consola-te, porque no
s a nica que no pode sair
da sua forma.
Sherekan devia estar l
fora a caar ratos, porque
essa era a natureza dos gatos. Sofia passou pela sala
de estar para ir ao quarto da
me. Na mesa havia um vaso
com narcisos. As flores amarelas pareceram inclinar-se
respeitosamente quando Sofia
passou. Sofia ficou algum
tempo parada e passou dois
dedos pelas corolas.
- Vocs tambm pertencem
 parte animada da natureza
- disse ela. Deste ponto de
vista, vocs tm um certo
privilgio em relao ao vaso
em que esto. Mas infelizmente, vocs no tm capacidade para o sentir.
Sofia entrou silenciosamente no quarto da me. Ela
dormia profundamente, mas
Sofia colocou-lhe uma mo
sobre a cabea.
- Tu ests entre os mais
felizes de todos - disse. -
Porque no s apenas animada, como os lrios do campo.
E no s apenas um ser vivo,
como Sherekan ou Govinda.
s um ser humano, e por isso
possuis a rara faculdade de
pensar.
- O que ests para a a
dizer, Sofia?
A me despertou mais depressa do que era habitual.
- Estou a dizer que pareces uma tartaruga preguiosa.
De resto, posso informar-te
de que arrumei o meu quarto.
Pus mos  obra com um cuidado filosfico.
A me sentou-se na cama.
- Eu j vou - disse. -
Podes preparar-me o caf?
Sofia sabia fazer o caf,
e pouco depois estavam as duas
na cozinha a tomar caf, sumo
e cacau. Passado pouco tempo,
Sofia perguntou:
- J alguma vez pensaste
porque  que vivemos?
- Ah, tu nunca desistes.
- No, porque desta vez
sei a resposta. Neste planeta vivem homens para que algum possa dar um 
nome a todas as coisas.
- Ah, sim? Nunca tinha
pensado nisso.
- Nesse caso tens um grave problema, porque o homem 
um ser racional. Se no pensas, no s um ser humano.
- Sofia!

111
- Imagina que aqui s viviam plantas e animais. Nesse caso, ningum 
poderia distinguir "gatos" de "ces",
"lrios" de "arbustos". As
plantas e os animais tambm
vivem, mas s ns podemos
classificar a natureza em
grupos ou classes.
- Tu s realmente a filha
mais estranha que eu tenho -
disse ento a me.
- Espero que sim - afirmou Sofia. - Todos os homens so mais ou menos 
estranhos. Eu sou um ser humano,
por isso sou um tanto ou
quanto estranha. Tu tens s
uma filha, por isso sou a
mais estranha.
- O que eu quis dizer foi
que tu me assustas com esta... conversa.
- Nesse caso, assustas-te
facilmente.
Um pouco mais  tarde,
Sofia regressou  toca.
Conseguiu levar a grande
caixa dos bolos para o quarto, s escondidas da me.
Primeiro, juntou todas as
folhas pela ordem correcta,
furou-as e colocou-as no
dossier antes do captulo
sobre Aristteles. Por fim,
escreveu no canto superior
direito de cada folha o nmero da pgina.
J tinha mais de cinquenta
pginas. Sofia estava quase
a fazer o seu prprio livro
de filosofia. No o escrevia, mas era escrito de propsito para ela.
Ainda no tivera tempo para pensar de modo algum nos
trabalhos de casa para segunda-feira. Talvez houvesse
teste de religio, mas o professor sempre dissera que,
para ele, o que importava
eram o empenho pessoal e a
reflexo individual. Sofia
tinha a sensao de comear a
ter uma certa preparao para
ambas as coisas.

112

O HELENISMO

... uma centelha do fogo...

O professor de filosofia
enviava as suas cartas directamente para a sebe, mas, devido a um hbito 
antigo, na
manh de segunda-feira, Sofia foi espreitar  caixa do
correio.
Estava vazia, e tambm no
seria de esperar outra coisa.
Comeou a andar por Klverveien.
De repente, viu no cho
uma fotografia. A fotografia
mostrava um jipe branco com
uma bandeira azul, onde estava escrito "ONU". Seria a
bandeira da ONU?
Sofia voltou a fotografia,
e s ento reparou que se
tratava de um postal. Para
"Hilde Mller Knag, a/c
de Sofia Amundsen...". O
postal tinha um selo noruegus, e o carimbo: Contingente ONU, sexta-
feira,
15 de Junho de 1990.
15 de Junho! Era o aniversrio de Sofia!
No postal estava escrito:

Querida Hilde: imagino
que deves estar a festejar o
teu aniversrio. Ou j passa
um dia? De qualquer modo,
no faz diferena para o teu
presente; desfrutars dele
durante toda a tua vida.
Dou-te os parabns mais uma
vez. Talvez compreendas agora porque  que mando o postal, para a Sofia. 
Tenho a
certeza de que ela to dar.

PS. A me contou-me que
perdeste a carteira. Prometo
reembolsar-te das 150 co-
roas. Recebers certamente
um novo carto de estudante
na escola antes que ela feche
para o Vero.

Um abrao do pai

Sofia ficou imvel, como
colada ao asfalto. Quando 
que o ltimo postal tinha
sido carimbado? Algo lhe dizia que o postal com a praia
tinha um carimbo de Junho -
se bem que ainda faltasse um
ms at l. No tinha fixado...

113
Olhou para o relgio e
correu de volta a casa. Nesse dia ia chegar atrasada.
Sofia abriu a porta e foi
apressadamente para o quarto.
A, debaixo do leno de seda
vermelho encontrou o primeiro
postal dirigido a Hilde.
Sim - tambm tinha o carimbo do dia 15 de Junho, o
aniversrio de Sofia e a
vspera das frias de Vero.
Enquanto corria para o supermercado, onde queria encontrar Jorunn, Sofia 
tinha
muitas perguntas na cabea.
Quem era Hilde? Como 
que o pai dela achava evidente que Sofia a encontraria?
No fazia sentido nenhum que
ele lhe enviasse os postais
em vez de os enviar directamente  filha. Era impensvel que ele no 
soubesse o
endereo da filha. Seria tudo uma brincadeira? Quereria
fazer uma surpresa  filha no
seu dia de anos servindo-se
de uma rapariga totalmente
desconhecida como correio?
Seria por esse motivo que
Sofia tinha tido um ms de
antecedncia? Servia-se dela
como intermediria porque o
presente de aniversrio que
queria dar  filha consistia
numa nova amiga? Era esse o
presente de que "desfrutaria
durante toda a vida"?
Se esse estranho homem estava de facto no Lbano, como  que podia ter 
descoberto
o endereo de Sofia? Mas
no era tudo: Sofia e Hilde
tinham pelo menos duas coisas
em comum. Se Hilde tambm
fazia anos a 15 de Junho,
tinham nascido no mesmo dia.
E ambas tinham um pai que
viajava muito.
Sofia sentiu-se arrastada
para um mundo mgico. Afinal, talvez no fosse assim
to estpido acreditar no
destino. Mas ela no devia
tirar concluses apressadas;
tudo aquilo podia ter uma explicao natural. Mas como 
que Alberto Knox podia ter
descoberto a carteira de
Hilde, se Hilde vivia em
Lillesand, que ficava a mais
de cem quilmetros de distncia? E porque  que Sofia
encontrara aquele postal no
cho? Teria cado da mala do
carteiro, antes de ter chegado  caixa do correio de Sofia? Porque  que 
ele perdera precisamente aquele postal?
- Tu s completamente
doida! - exclamou Jorunn,
quando encontrou Sofia no
supermercado.
- Desculpa.
Jorunn fixou-a com um
olhar severo, como uma professora.
- Espero que tenhas uma
boa explicao.
- Tem a ver com a ONU
- respondeu Sofia. - Fui
retida no Lbano por uma milcia inimiga.
- Tu ests  apaixonada.
Correram para a escola to
rapidamente quanto as suas
pernas lhes permitiram.

114
O teste de religio, para
o qual Sofia no tinha estudado, foi distribudo na terceira hora. Na 
folha estava
escrito:

Concepo da vida e tolerncia

1. Faz uma lista daquilo
que um homem pode saber. Faz
depois uma lista daquilo em
que apenas podemos acreditar.
2. Indica alguns factores
que determinam a concepo de
vida para um homem.
3. O que  que entendemos
por conscincia? Achas que 
igual para todos os homens?
4. O que  que se entende
por "prioridade de valores"?

Sofia reflectiu um bom bocado antes de comear a escrever. Poderia 
aproveitar
alguma coisa do que aprendera
com Alberto Knox? Tinha de
aproveitar, porque h muitos
dias que no olhava para o
livro de religio. Mal tinha
comeado a escrever, as frases brotaram.
Sofia escreveu que podemos
saber que a Lua no  um
queijo e que no seu lado
oculto tambm h crateras,
que tanto Scrates como Jesus foram condenados  morte,
que todos os homens tm de
morrer mais tarde ou mais cedo, que os grandes templos da
Acrpole foram construdos
cerca do ano 400 a.C. aps
as guerras contra os Persas
e que o orculo grego mais
famoso era o de Delfos. Como exemplos daquilo em que
podemos acreditar, Sofia escreveu que, nos outros planetas, h vida ou 
no, que
Deus existe ou no, que h
vida aps a morte ou no, e
que Jesus era filho de Deus
ou apenas um homem inteligente.
"De qualquer modo, no podemos saber de onde vem o
mundo" escreveu ela, por fim.
"O universo pode ser comparado a um coelho gigantesco
que  retirado de uma grande
cartola. Os filsofos procuram subir para um dos plos
finos do coelho, para poderem
fixar nos olhos o grande ilusionista. Se eles o conseguiro algum dia  
uma questo em aberto. Mas se um filsofo sobe para as costas de
outro, iro chegando progressivamente mais acima na delicada pelagem do 
coelho, e ento, segundo a minha opinio
pessoal, existe a possibilidade de eles o conseguirem um
dia. PS. Na Bblia, podemos ler sobre uma coisa que
pode ter sido um dos plos
finos na pelagem do coelho.
Esse plo  designado por
torre de Babel e foi totalmente destruda porque no
agradava ao ilusionista que
os homens fossem subindo ao
longo dos plos do coelho
branco que ele acabara de
criar."

115
Era a vez da pergunta seguinte. "Indica alguns factores que determinam a 
concepo de vida para um homem." A educao e o ambiente eram obviamente 
factores
importantes. Os homens que
viviam no tempo de Plato
tinham uma concepo de vida
diferente da dos homens de
hoje, simplesmente porque viviam num outro tempo e num
outro meio. De resto, as experincias adquiridas tambm
eram importantes. Mas a razo humana tambm  importante na determinao 
de uma
concepo de vida. A razo
no era determinada pelo
meio, era comum a todos os
homens. Talvez se pudesse
comparar o meio e as relaes
sociais s condies presentes na caverna de Plato.
Por intermdio da razo, o
indivduo pode tentar sair da
escurido da caverna. Mas
essa viagem exige uma grande
dose de coragem pessoal. Scrates era um bom exemplo de
um homem que, com o auxlio
da razo, se conseguiu libertar das concepes predominantes no seu 
tempo.
No fim, ela escreveu:
"Hoje em dia, homens de pases e culturas diferentes tm
um contacto cada vez mais estreito entre si. Por isso,
no mesmo bloco residencial,
podem viver cristos, muulmanos e budistas. E nesse
caso  importante tolerar a
crena dos outros em vez de
se perguntar porque  que no
tm todos a mesma crena."
Sim, Sofia achou que com
aquilo que aprendera com o
seu professor de filosofia j
ia bastante longe. Podia
ainda usar uma parte de razo
inata e aquilo que ouvira ou
lera noutros contextos.
Comeou a responder  terceira pergunta. "O que  que
entendemos por conscincia?
Achas que  igual para todos
os homens?" Sobre isto, tinha-se discutido muito na
aula. Sofia escreveu:
"Conscincia  a capacidade
dos homens para reagirem ao
que  justo e ao que  injusto. Segundo a minha opinio
pessoal, todos os homens tm
esta capacidade, ou seja, a
conscincia  inata. Scrates teria dito o mesmo. Mas
aquilo que a conscincia diz
pode variar muito de homem
para homem.  necessrio
pensar se os sofistas no estavam numa pista importante.
Eles achavam que o meio em
que cada indivduo cresce,
determina aquilo que ele acha
ser correcto e aquilo que ele
acha ser errado. Scrates,
pelo contrrio, achava que a
conscincia era igual em todos os homens. Talvez tivessem todos razo. 
Apesar de
nem todos os homens se envergonharem de andar nus, a
maior parte arrepende-se
quando trata mal outro homem.
Alm disso, temos de sublinhar que uma coisa  ter uma
conscincia e outra coisa 
us-la. Em situaes isoladas pode parecer que os homens agem de uma 
forma totalmente inconsciente, mas, segundo a minha opinio pessoal, 
tambm neles h uma
forma de conscincia, mesmo
quando est bem escondida.

116
Pode tambm parecer que alguns homens no tm racionalidade, mas isso 
deve-se apenas ao facto de no a usarem.
PS. A razo e a conscincia podem ser comparadas
a um msculo. Se no se usa
um msculo, ele vai-se tornando mais fraco e flcido."
Faltava apenas uma pergunta. "O que  que se entende
por "prioridade de valores"?
Sobre isto tambm tinham
discutido muito ultimamente.
Podia, por exemplo, ser importante andar de carro para
nos podermos deslocar depressa de um lugar para outro.
Mas se andar de carro provocasse a morte das florestas e
a poluio da natureza, estava-se perante uma "escolha de
valores". Aps uma reflexo
profunda, Sofia achava ter
chegado  convico de que
florestas saudveis e uma natureza pura eram mais importantes do que a 
possibilidade
de chegar depressa ao trabalho. Deu mais exemplos. Por
fim, escreveu: " minha opinio pessoal que a filosofia
 mais importante do que a
gramtica inglesa. Por isso,
seria uma prioridade de valores sensata se a disciplina
de filosofia fosse admitida
no plano de estudos e o horrio da aula de ingls fosse
reduzido."
No ltimo intervalo, o
professor chamou Sofia 
parte.
- J li o teu teste de religio - disse. - Estava
em cima do monte dos testes.
- Espero que tenha gostado.
- Era precisamente sobre
isso que queria falar contigo. Em muitos aspectos, deste respostas muito 
maduras.
Surpreendentemente maduras,
Sofia. E autnomas. Tinhas
feito os trabalhos de casa?
Sofia comeou a torcer as
mos.
- Mas tinha dito que as
reflexes pessoais so importantes para si.
- H limites.
Sofia fixou o professor
nos olhos. Achava que o podia fazer depois de tudo o
que tinha vivido nos ltimos
dias.
- Eu comecei a estudar
filosofia - afirmou. - 
um bom fundamento para opinies autnomas.
- Mas no vai ser fcil
classificar o teu trabalho.
Na verdade, s te posso dar
um cinco ou um um.
- Porque respondi tudo
certo ou tudo errado?  isso
que quer dizer?
- Dou-te o cinco. Mas na
prxima vez tens de fazer os
trabalhos de casa.
 tarde, quando Sofia
chegou a casa, vinda da escola, atirou a pasta para a escada e foi 
imediatamente para
a toca.

117
Havia um envelope amarelo
sobre as razes grossas. As
bordas estavam quase secas,
portanto Hermes devia ter
estado ali h um bom bocado.
Sofia levou o envelope
consigo e entrou em casa.
Primeiro, deu comida aos
animais e depois foi para o
quarto. Deitou-se na cama,
abriu a carta de Alberto e
leu.

117
O Helenismo

Que bom ver-te, Sofia!
J te falei dos filsofos da
natureza, Scrates, Plato
e Aristteles, e assim conheces o fundamento da filosofia europeia. A 
partir de
agora, as tarefas de reflexo
que recebeste at hoje em envelopes brancos j no so
importantes. Imagino que tenhas bastantes trabalhos e
testes na escola.
Vou falar-te do extenso
perodo entre Aristteles,
no final do sculo IV antes
de Cristo, e o incio da
Idade Mdia, cerca do ano
400 depois de Cristo. Sabes que escrevemos "antes" e
"depois de Cristo", precisamente porque o cristianismo 
um dos elementos mais importantes e mais singulares deste perodo.
Aristteles morreu no ano
322 antes de Cristo e, entretanto, Atenas tinha perdido a sua hegemonia. 
Isso
deve-se em grande parte s
profundas transformaes polticas resultantes das conquistas de 
Alexandre Magno (356-323 a.C>).
Alexandre Magno era rei
da Macednia. Aristteles
tambm vinha da Macednia, e
durante algum tempo chegou
mesmo a ser professor do jovem Alexandre. Alexandre
alcanou a ltima e decisiva
vitria sobre os persas e,
atravs das suas inmeras
campanhas, criou um imprio
vastssimo que compreendia a
Grcia, o Egipto, a Prsia
e se estendia at  ndia.
Comea ento uma poca nova na histria da humanidade,
caracterizada pelo desenvolvimento de uma comunidade internacional em que 
a cultura
e a lngua gregas desempenham
um papel dominante. Este perodo, que durou cerca de
trs sculos,  denominado
Helenismo, termo que designa tanto um perodo histrico como a 
supremacia da
cultura grega nos trs grandes reinos helensticos - a
Macednia, a Sria e o
Egipto.
A partir do ano 50 antes
de Cristo, Roma assumiu a
hegemonia poltica e militar.
A nova potncia conquistou,
uns a seguir aos outros, todos os reinos helensticos e,
a partir de ento, a cultura
romana e a lngua latina dominaram desde a Espanha, a
ocidente, at ao interior da
sia. Comea ento o perodo romano tambm designado
por "Antiguidade tardia".

Mas deves reparar numa coisa: antes de os Romanos

118
conquistarem o mundo helenstico, Roma tinha-se tornado
uma provncia cultural grega.
Deste modo, a cultura grega
- e a filosofia grega - teriam ainda um papel importante depois do 
declnio poltico da Grcia.

Religio, filosofia e cincia

O Helenismo foi marcado
pelo desaparecimento das
fronteiras entre os diversos
pases e culturas. Anteriormente, Gregos, Romanos e
Egpcios, Babilnios, Srios e Persas tinham venerado os seus deuses 
dentro do
que geralmente chamamos uma
"religio nacional". Nesta
fase as diversas culturas
misturaram-se e fundiram-se
num grande caldeiro que continha ideias religiosas, filosficas e 
cientficas de
todo o tipo.
Podemos dizer que a gora
urbana foi substituda pela
arena mundial. Tambm a gora antiga foi animada por vozes que ofereciam 
as suas diversas mercadorias, e diferentes pensamentos e ideias.
A novidade era que as goras
eram agora invadidas por mercadorias e ideias de todo o
mundo. Por isso, as vozes
soavam em diversas lnguas
diferentes.
J referimos que as concepes gregas se difundiram
muito para alm dos antigos
territrios gregos. A partir
de ento, deuses orientais
eram tambm adorados em toda
a regio do Mediterrneo.
Nasceram vrias religies
novas cujos deuses e concepes religiosas provinham de
diversas culturas antigas.
Este fenmeno  designado
por fuso de religies ou
sincretismo.
Anteriormente, os homens
sentiam-se vinculados ao seu
prprio povo e  sua prpria
cidade-estado. Como essas
fronteiras e divises eram
cada vez mais postas de parte, muitos sentiram dvidas e
insegurana em relao  sua
concepo de vida. A Antiguidade tardia foi marcada,
em geral, pelas dvidas religiosas, pela desagregao
cultural e pelo pessimismo.
"O mundo est velho", dizia-
-se.
As novas religies que
surgiram ento tinham duas
caractersticas em comum:
fundavam-se em doutrinas que
aspiravam a libertar os homens da angstia da morte;
alm disso, muitas destas
doutrinas eram secretas. Seguindo os seus preceitos e
participando em determinados
rituais, o homem podia esperar obter a imortalidade da
alma e uma vida eterna. O
conhecimento acerca da verdadeira natureza do universo
podia ser to importante para
a salvao da alma como os
rituais.
Eram as novas religies,
Sofia. A filosofia caminhava tambm no sentido da "salvao" e da 
serenidade no que
diz respeito  vida. A viso
filosfica no tinha apenas
um valor em si mesma, como
ainda devia libertar os homens da angstia da morte e
do pessimismo. Desta forma,
apagaram-se os limites entre
a religio e a filosofia.

119
De um modo geral, podemos
dizer que a filosofia do Helenismo no foi particularmente original. No 
apareceu
nenhum outro Plato ou
Aristteles. Em vez disso,
os trs grandes filsofos
atenienses tornaram-se uma
importante fonte de inspirao para diversas correntes
filosficas, das quais vou
falar sucintamente.
A cincia do Helenismo
tambm estava influenciada
pela mistura de diversas experincias culturais. A cidade de Alexandria, 
no
Egipto, tinha um papel chave
como ponto de encontro do
Oriente e do Ocidente. Enquanto Atenas continuava a
ser a capital da filosofia,
com as escolas filosficas
deixadas por Plato e Aristteles, Alexandria tornou-se a metrpole da 
cincia.
Com a sua grande biblioteca,
esta cidade passou a ser o
centro dos estudos de matemtica, astronomia, biologia e
medicina.
A cultura helenstica pode
ser comparada com o mundo de
hoje. O sculo XX tambm 
caracterizado por uma comunidade internacional cada vez
mais aberta, que provocou no
nosso tempo grandes transformaes na religio e na concepo de vida. 
Tal como, no
incio da nossa era, podamos
encontrar em Roma concepes
religiosas gregas, egpcias e
orientais, no final do sculo
XX podemos encontrar em todas as cidades europeias de
uma determinada extenso concepes religiosas de todas
as partes do mundo.
No nosso tempo, vemos que
uma mistura de religio, filosofia e cincia antigas e
novas pode constituir a base
para novas ofertas no "mercado das concepes do mundo".
Muito deste "novo saber"
, na realidade, uma herana
antiga cujas razes remontam
ao Helenismo.
Como j foi mencionado, a
filosofia helenstica continuou a ocupar-se dos problemas que tinham sido 
levantados por Scrates, Plato e
Aristteles. Todos desejavam estabelecer como  que o
homem deve viver e morrer da
melhor forma. Deste modo, a
tica foi colocada na ordem
do dia. Tornou-se o projecto
filosfico mais importante da
nova comunidade internacional. A questo era esta: em
que consiste a verdadeira felicidade e de que modo pode
ser alcanada?
Vamos analisar quatro dessas correntes filosficas.

Os cnicos

Conta-se que Scrates parou certo dia em frente de
uma banca onde estavam expostas muitas mercadorias. Por
fim, exclamou: "Vejam s de
quantas coisas os Atenienses
precisam para viver!". Com
isto, queria obviamente dizer
que ele no precisava dessas
coisas.

120
A filosofia cnica, que
foi fundada por Antstenes
cerca do ano 400 a.C. em
Atenas, parte desta atitude
de Scrates. Antstenes tinha sido discpulo de Scrates.
Os cnicos defendiam que
a verdadeira felicidade no
dependia de coisas exteriores, como o luxo material, o
poder poltico e uma boa sade. A verdadeira felicidade
significava no se tornar dependente dessas coisas casuais e efmeras. 
Precisamente por no repousar sobre
essas coisas, a felicidade
podia ser alcanada por todos. E uma vez alcanada no
se podia voltar a perder.
O cnico mais conhecido
era Digenes, um discpulo
de Antstenes. Conta-se que
morava num tonel e que s
possua um manto, um basto e
um saco para o po. (No
era fcil roubar-lhe a sua
felicidade!>). Certo dia,
estava a tomar um banho de
sol  frente do seu tonel
quando Alexandre Magno o
visitou. Alexandre apresentou-se ao sbio e disse-lhe
que lhe daria o que ele desejasse. Digenes pediu a
Alexandre que no lhe tapasse o sol. Foi assim que
Digenes demonstrou que era
mais rico e mais feliz do que
o grande homem. Tinha tudo o
que desejava.
Segundo os cnicos, o homem no se deve preocupar com
a sua sade, com a dor e com
a morte. Tambm no se devia
atormentar com a dor dos outros. Hoje, os termos "cnico" e "cinismo" 
exprimem quase sempre a impassibilidade
perante o sofrimento dos outros.

Os esticos

Os cnicos foram muito importantes para o desenvolvimento da filosofia 
estica
que surgiu em Atenas cerca
do ano 300 a.C.. O seu
fundador, Zeno, era
oriundo de Chipre mas juntou-se aos cnicos de Atenas
aps um naufrgio. Reunia os
seus ouvintes num prtico. O
nome estico vem do termo
grego que designa "prtico"
(stoa>). O estoicismo
iria adquirir posteriormente
uma grande importncia para a
cultura romana.
Tal como Heraclito, os
esticos achavam que todos os
homens participavam da mesma
razo universal - ou do mesmo logos. Para eles, cada
homem era um mundo em miniatura, um "microcosmos" que
reflectia o "macrocosmos".
Esta teoria levou  convico de um direito universalmente vlido, o 
direito
natural. O direito natural
baseia-se na razo intemporal
do homem e do universo, por
isso no se altera no tempo e
no espao. Neste aspecto, os
esticos tomavam o partido de
Scrates contra os sofistas.

121
O direito natural  vlido
para todos os homens, inclusivamente para os escravos.
As leis dos diversos Estados eram para os esticos cpias imperfeitas de 
um direito que se baseava na prpria
natureza.
Assim como os esticos
aboliam a diferena entre o
indivduo e o universo, tambm contestavam uma oposio
entre "esprito" e "matria".
Segundo eles, h apenas uma
natureza. Esta concepo 
denominada monismo (ao
contrrio, por exemplo, do
claro dualismo de Plato, a
bipolarizao da realidade>).
Como verdadeiros filhos do
seu tempo, os esticos eram
cosmopolitas. Estavam portanto mais abertos  cultura
contempornea do que os "filsofos do tonel" (os cnicos>). Segundo eles, 
a comunidade dos homens devia interessar-se por poltica, e
muitos esticos foram estadistas activos, como, por
exemplo, o imperador romano
Marco Aurlio (121-180
d.C.>). Contriburam para
que a cultura e a filosofia
gregas fossem difundidas em
Roma sobretudo graas ao
orador, filsofo e poltico
Ccero (106-43 a.C.>),
que criou o conceito de humanismo, ou seja, uma concepo do mundo que 
tem o indivduo como centro. O estico Sneca (4 a.C.-65 d.C.>) disse 
alguns
anos mais tarde que o homem
era sagrado para o homem,
afirmao que se tornaria o
mote de todo o humanismo.
Alm disso, os esticos
sublinharam que todos os processos naturais - por exemplo, a vida e a 
morte - seguiam as leis constantes da
natureza. Por isso, o homem
tem de se reconciliar com o
seu destino. Segundo eles,
nada acontece por acaso.
Tudo acontece por necessidade, e de pouco serve lamentarmo-nos quando o 
destino
nos bate  porta. Mesmo as
situaes felizes da vida devem ser aceites com uma grande serenidade. 
Esta posio
 semelhante  dos cnicos,
para quem todas as coisas exteriores do mundo eram indiferentes. Ainda 
hoje falamos
de uma "serenidade estica",
quando algum no se deixa
arrebatar pelos seus sentimentos.

Os epicuristas

Como vimos, Scrates queria descobrir como  que o
homem pode viver uma vida feliz. Cnicos e esticos
afirmavam que o homem se devia libertar do luxo material. Mas Scrates 
teve
tambm um discpulo que se
chamava Aristipo. Para
Aristipo, a finalidade da
vida era obter o mximo prazer sensvel. O supremo bem
era o prazer, e o grande mal
era a dor. Por isso, queria
desenvolver uma arte de viver
que evitasse todas as formas
de dor. (O objectivo que
norteava os cnicos e os esticos era suportar todas as

122
formas de dor, algo bem diferente de procurar evit-la
intencionalmente>).
Cerca do ano 300 a.C.,
Epicuro (341-270 a.
C.>) fundou em Atenas uma
escola de filosofia. Desenvolveu a tica do prazer de
Aristipo e combinou-a com a
teoria atomista de Demcrito.
Segundo se diz, os epicuristas reuniam-se num jardim.
Por isso, foram tambm designados "filsofos do jardim". Por cima do 
porto do
jardim diz-se que estaria escrito: "Estranho, aqui sers
feliz. Aqui, o prazer  o
bem supremo."
Epicuro esclareceu que o
resultado agradvel de uma
aco tem de ser sempre confrontado com os seus eventuais efeitos 
secundrios.
Se alguma vez comeste chocolate a mais, percebes o que
eu quero dizer. Caso o no
tenhas feito, proponho-te o
seguinte trabalho de casa:
pega no teu mealheiro e compra cem coroas de chocolate.
(Suponho que gostas de chocolate.>) Nesta tarefa, o
importante  comeres todo o
chocolate de uma vez. Cerca
de meia hora depois de teres
comido esse excelente chocolate, compreenders o que 
que Epicuro queria dizer com
"efeitos secundrios".
Epicuro pretendia confrontar um resultado agradvel a
curto prazo com um prazer
maior, mais duradouro ou intenso a longo prazo. (Podemos, por exemplo, 
imaginar
que decides no comer chocolate durante um ano porque
preferes poupar todo o teu
dinheiro para uma bicicleta
nova ou para uma viagem ao
estrangeiro.>) Ao contrrio
dos animais, o homem tem a
possibilidade de planear a
sua vida, tem a capacidade de
fazer um "clculo dos prazeres". O chocolate  naturalmente um valor, mas 
a bicicleta e a viagem para Inglaterra tambm o so.
Mas Epicuro tambm sublinhava que "prazer" no era
necessariamente o mesmo que
prazer fsico - por exemplo,
chocolate. Tambm a amizade
e a contemplao de uma obra
de arte podem ser agradveis.
Uma condio para a fruio
da vida so tambm antigos
ideais gregos como o autodomnio, a temperana e a serenidade, porque a 
concupiscncia tem de ser refreada.
Deste modo, a serenidade
tambm nos ajudar a suportar
a dor.
Os frequentadores do jardim de Epicuro, eram sobretudo homens 
atormentados com
angstias de natureza religiosa. Neste sentido, a teoria atomista de 
Demcrito
era um remdio til contra a
religio e a superstio.
Para termos uma vida feliz,
 bastante importante superarmos o medo da morte. Nesta questo, Epicuro 
recorre
 teoria de Demcrito sobre
os "tomos da alma". Talvez
te lembres que Demcrito no
acreditava na vida alm da
morte porque os "tomos da
alma" se dispersavam em todas
as direces.

123
"Porque  que haveramos
de ter medo da morte?", perguntava Epicuro. Porque enquanto existimos, a 
morte no
est aqui, e logo que ela
vem, ns no existimos."
(Com efeito, nunca um homem
se afligiu por estar morto>).
O prprio Epicuro resumia
a sua filosofia libertadora
atravs daquilo a que chamou
o remdio qudruplo:
No precisamos de temer os
deuses. No precisamos de
nos preocupar com a morte. 
fcil atingir o bem. O mal
suporta-se facilmente.
Na Grcia, no era uma
novidade comparar a tarefa do
filsofo  do mdico. Segundo Epicuro, o homem deve munir-se de uma 
"farmcia porttil filosfica" que, como
dissemos, contm quatro medicamentos importantes.
Ao contrrio dos esticos,
os epicuristas interessavam-se pouco por poltica e pela
sociedade. "Vive escondido!"
era o conselho de Epicuro.
Podemos talvez comparar o
seu jardim com o modo de viver de algumas comunidades de
hoje. Tambm no nosso tempo
muitos procuram um lugar onde
se possam refugiar para fugir
 sociedade.
Aps a morte de Epicuro,
muitos epicuristas orientaram-se apenas no sentido de
uma busca constante de prazeres. O seu mote passou a
ser: "vive o momento!". O
termo "epicurista"  hoje
aplicado pejorativamente a
uma pessoa que vive apenas
para o prazer.

O neoplatonismo

Vimos que cnicos, esticos e epicuristas se baseavam
na doutrina de Scrates.
Alm disso, recorriam aos
pr-socrticos Demcrito e
Heraclito. Por seu lado, a
mais notvel corrente filosfica da Antiguidade tardia
inspirava-se sobretudo na
teoria das ideias de Plato,
sendo por isso, designada por
"neoplatonismo".
O neoplatnico mais importante foi Plotino (cerca
de 205-270 d.C.>), que
estudou filosofia em Alexandria, e se transferiu posteriormente para 
Roma. Devemos notar que ele vinha de
Alexandria, cidade que era
j h muitos sculos o grande
ponto de encontro da filosofia grega e da mstica oriental. Plotino levou 
consigo
para Roma uma doutrina de
salvao que se tornaria uma
sria concorrente do cristianismo que comeava a afirmar-se. Mas o 
neoplatonismo
tambm haveria de exercer uma
forte influncia na teologia
crist.

124
Lembras-te da teoria das
ideias de Plato, Sofia?
Sabes que ele distinguia o
mundo inteligvel do mundo
sensvel. Desse modo, tambm
distinguia claramente a alma
do homem do seu corpo. Assim,
o homem tornou-se um ser duplo: segundo Plato o nosso
corpo  constitudo por terra
e p, tal como todas as outras coisas que pertencem ao
mundo sensvel, mas possumos
tambm uma alma imortal.
Esta concepo j estava difundida na Grcia muito antes de Plato. 
Plotino estava tambm familiarizado com
concepes asiticas semelhantes.
Plotino via o mundo separado em dois plos. Num extremo est a luz 
divina, que
ele designava por Uno.
Por vezes, chamava-lhe tambm
Deus. No outro extremo
reina a escurido total que a
luz do Uno no alcana. Mas
para Plotino, essa escurido
no existe de facto.  apenas uma ausncia de luz -
sim, no . A nica coisa
que existe  Deus ou o Uno,
mas tal como uma fonte luminosa se perde progressivamente na escurido, 
tambm h um
limite para o alcance dos
raios divinos.
Para Plotino, a luz do
Uno ilumina a alma, ao passo
que a matria  a escurido
que na realidade no existe.
Mas as formas da natureza
tambm possuem um fraco reflexo do Uno.
Imagina uma enorme fogueira que arde de noite, Sofia.
Do fogo jorram centelhas em
todas as direces. Em redor
da fogueira a noite fica iluminada, e a alguns quilmetros de distncia 
ainda se
pode ver um dbil claro. Se
nos afastarmos ainda mais,
vemos um minsculo ponto luminoso, como uma lanterna 
noite. E se nos afastarmos
ainda mais da fogueira, deixamos de ver a luz. Os raios
luminosos perdem-se algures
na noite, e quando est totalmente escuro, no vemos
nada. Nessa altura, no h
sombras nem contornos.
Imagina agora a realidade
como se fosse esse fogo. O
que arde  Deus - e a escurido exterior  a matria
gelada de que homens e animais so feitos. Junto de
Deus esto as ideias eternas
que so os arqutipos de todas as criaturas. A alma humana  sobretudo 
uma "centelha do fogo". Mas em toda a
natureza brilha um pouco dessa luz divina. Podemos v-la
em todos os seres vivos, inclusivamente uma rosa ou um
jacinto tm esse reflexo divino. A terra, a gua e as
pedras so os seres mais afastados de Deus.
Em tudo o que vemos h algo do mistrio divino. Vemos
que ele cintila num girassol
ou numa papoila. Temos uma
ideia mais clara desse mistrio impenetrvel numa borboleta que levanta 
voo de um
ramo - ou num peixe dourado
que nada no seu aqurio. Mas
estamos mais prximos de
Deus na nossa prpria alma.
S a podemos unir-nos ao
grande mistrio da vida. Em
momentos raros podemos sentir
que ns mesmos somos esse
mistrio divino.

125
As imagens que Plotino
usa fazem-nos recordar a alegoria da caverna de Plato.
Quanto mais nos aproximamos
da entrada da caverna mais
nos aproximamos da origem de
tudo o que existe. Mas, ao
contrrio da clara bipartio
da realidade em Plato, o
pensamento de Plotino denota
uma experincia do todo. Tudo  Uno - porque tudo 
Deus. Mesmo as sombras na
caverna de Plato so um
fraco reflexo do Uno.
Plotino experimentou algumas vezes no decurso da sua
vida a fuso da sua alma com
Deus. Damos a isso o nome
de experincia mstica.
Plotino no era o nico a
ter essas experincias, que
foram relatadas por homens de
todos os tempos e culturas.
Podem descrever a sua experincia de um modo completamente diferente, mas 
as suas
descries apresentam muitas
semelhanas importantes. Vamos analisar algumas dessas
semelhanas.

Misticismo

Uma experincia mstica 
uma experincia de unidade
com Deus ou com o "mundo espiritual". Muitas religies
afirmam que entre Deus e a
Criao h um abismo; mas o
mstico sente que esse abismo
no existe. Os msticos e as
msticas sentem uma "fuso
com Deus".
Sucede que aquilo a que
geralmente chamamos "eu" no
 o nosso verdadeiro eu. Por
breves momentos, podemos ter
a experincia de uma identificao com um eu maior. Alguns chamam-lhe 
Deus, outros
"mundo espiritual", "natureza
absoluta" ou "universo". Na
fuso, o mstico sente que
"se perde a si mesmo", desaparece ou perde-se em Deus,
tal como uma gota de gua "se
perde" quando se mistura no
oceano. Um mstico indiano
disse outrora o seguinte:
"Quando eu existia, Deus
no existia. Agora, Deus
existe e eu j no existo."
O mstico cristo Angelus
Silesius (1624-1677>)
afirmou: "A gota torna-se
oceano quando atinge o oceano, a alma torna-se Deus
quando alcana Deus."
Talvez estejas a pensar
que no  muito agradvel "a
ideia de se perder a si mesmo". Compreendo o que pensas, Sofia, mas o 
importante
 que aquilo que tu perdes 
inferior em relao ao que
ganhas. Perdeste quanto 
forma que possuis de momento,
mas ao mesmo tempo compreendes que na realidade s algo
infinitamente maior. s todo
o universo. s a alma do
mundo, Sofia. s Deus. Se
tens de renunciar a ti mesma
como Sofia Amundsen, podes
consolar-te com a ideia de
que um dia perders o teu "eu
quotidiano". O teu verdadeiro eu - que s podes descobrir quando 
consegues libertar-te a ti mesma - , para
os msticos, um fogo maravilhoso que arde eternamente.

126
Mas uma experincia mstica deste gnero nem sempre
vem por si mesma. Muitas vezes, o mstico tem de percorrer uma via de 
purificao e
de iluminao para poder encontrar Deus. Essa via consiste numa vida 
simples e na
meditao. De repente, o
mstico atinge ento a sua
meta e pode exclamar: "eu sou
Deus" ou "Eu sou Tu!".
Encontramos em todas as
grandes religies correntes
msticas, e aquilo que os
msticos escrevem sobre a sua
experincia mstica revela
notveis semelhanas, apesar
das diferenas culturais. S
quando o mstico tenta dar
uma interpretao religiosa
ou filosfica  sua experincia mstica  que o ambiente
cultural se torna manifesto.
Na mstica ocidental -
ou seja, no judasmo, no
cristianismo e no islamismo
- o mstico afirma sentir o
encontro com um Deus pessoal. Apesar de Deus estar
presente na natureza e na alma humana, est alm deste
mundo. Na mstica oriental
- ou seja, no hindusmo, no
budismo e na religio chinesa
- o mstico experimenta uma
fuso total com Deus ou com
a "alma do mundo". "Eu sou a
alma do mundo", poder dizer
o mstico, ou "eu sou Deus".
Porque Deus no s est
presente no mundo, como no
est em qualquer outro lugar.
Antes de Plato, havia
fortes correntes msticas,
sobretudo na ndia. Swami
Vivekananda, que contribuiu
para a difuso do hindusmo
no Ocidente, afirmou: "Tal
como certas religies do mundo afirmam que um homem que
no acredita num Deus pessoal transcendente  ateu,
ns afirmamos que um homem
que no acredita em si mesmo
 ateu. No acreditar na
grandeza da prpria alma 
aquilo que chamamos atesmo."
Uma experincia mstica
tambm pode ser importante do
ponto de vista da tica. Um
presidente da ndia, Radhakrishnan, afirmou um dia:
"Deves amar o teu prximo
como a ti mesmo, porque tu s
o teu prximo. S uma iluso
te leva a pensar que o teu
prximo  um outro em relao
a ti mesmo."
Homens que no pertenam a
nenhuma religio tambm podem
relatar experincias msticas. De repente, vivem algo
a que chamam "conscincia
csmica" ou "sentimento ocenico". Sentem-se arrancados
ao tempo e vem o mundo "do
ponto de vista da perspectiva
da eternidade".

Sofia sentou-se na cama.
Tinha de verificar se ainda
possua corpo. Ao ler sobre
Plotino e os msticos, tivera a sensao de flutuar pelo
quarto, sair pela janela e
sobrevoar a cidade. Vira todas as pessoas em baixo, na
praa, voara mais alto sobre
o mar do Norte e a Europa
at ao Sara e s extensas
savanas de frica.

127
Todo o globo terrestre se
tornara um ser vivo e esse
ser era Sofia. "Eu sou o
mundo", pensava ela. Todo o
universo, que tantas vezes
lhe parecera insondvel e inquietante - era o seu prprio eu. O universo 
continuava a ser grande e majestoso, mas, nesse momento, ela
sentia-se to grande como o
universo.
Essa sensao maravilhosa
extinguiu-se rapidamente, mas
Sofia tinha a certeza de que
nunca a esqueceria. Algo parecia ter sado de si e ter-se misturado com 
tudo, tal
como uma gota de corante pode
tingir um copo de gua.
Quando tudo passou, teve a
sensao de que acordava com
dores de cabea de um sonho
espantoso. Sofia verificou
com uma certa desiluso que
tinha um corpo que tentava
levantar-se da cama. Tinha
dores nas costas por ter estado tanto tempo deitada de
barriga para baixo enquanto
lia a carta de Alberto
Knox. Mas sentira qualquer
coisa de que nunca se esqueceria.
Por fim, conseguiu pr-se
de p. Furou as folhas e colocou-as junto s outras lies no dossier. 
Depois,
saiu para o jardim.
Os pssaros chilreavam como se o mundo tivesse sido
criado de novo. Atrs das
velhas coelheiras as btulas
eram de um verde-claro to
intenso que parecia que o
Criador ainda no terminara
a diluio das cores.
Poderia de facto pensar
que tudo era um Eu divino?
Poderia pensar que possua
uma alma que era uma "centelha do fogo"? Se assim fosse, ela mesma era um 
ser divino.

128
OS POSTAIS

... eu imponho a mim mesmo
uma severa censura...

Passaram alguns dias durante os quais Sofia no recebeu mais cartas do 
seu professor de filosofia. Na
quinta-feira, 17 de Maio,
era o feriado nacional da
Noruega. Tambm tinha o dia
18 livre.
Na quarta-feira, a caminho
da escola, Jorunn disse de
repente:
- Que tal irmos acampar?
O primeiro pensamento de
Sofia foi recusar por no
poder estar afastada de casa
por muito tempo.
Depois, mudou de ideias.
- Por mim, est bem.
Duas horas mais tarde,
Jorunn chegou a casa de Sofia com uma grande mochila.
Sofia tambm j tinha metido
a tenda dentro da sua mochila. Levaram ainda consigo
sacos-cama e roupa quente,
colches de borracha, lanternas, termos grandes com ch e
muita comida saborosa.
Quando a me de Sofia
chegou a casa, cerca das cinco horas, fez-lhes muitas recomendaes sobre 
o que deviam fazer e no fazer. A
me tambm queria saber onde
elas pensavam acampar.
Responderam que queriam ir
para Tiurtoppen (Cabeo do
Galo Silvestre>). Talvez
ouvissem o canto do galo silvestre, na manh seguinte.
Ao escolher aquele local
para acampar, Sofia tambm
tinha uma segunda inteno.
Se no estava enganada, a
cabana do major no ficava
longe de Tiurtoppen. Algo a
levava a l voltar, mas tambm sabia que nunca se atreveria a ir sozinha.
Foram pelo caminho que
saa do parque de estacionamento em frente do porto do
jardim de Sofia. Jorunn e
Sofia conversaram acerca de
Deus e do mundo, e Sofia
achou por bem fazer uma pausa
em relao a tudo o que tinha
a ver com filosofia.

129
Cerca das oito horas, j
tinham montado a tenda num
planalto perto de Tiurtoppen. Tinham preparado o local do acampamento e 
os sacos-cama. Depois de terem
comido, Sofia perguntou:
- J alguma vez ouviste
falar da cabana do major?
- A cabana do major?
- Algures neste bosque h
uma cabana... junto a um pequeno lago. Em tempos viveu
l um major, e por isso lhe
chamam a cabana do major.
- E ainda mora l algum?
- Vamos ver?
- Onde  que fica?
Sofia apontou para as rvores.
Jorunn no queria ir, mas
Sofia conseguiu convenc-la.
O sol comeava a desaparecer
no horizonte.
Primeiro, caminharam por
entre pinheiros altos, em seguida tiveram de abrir caminho por entre os 
arbustos e
os silvados. Finalmente,
chegaram a um carreiro. Seria o que Sofia percorrera
na manh de domingo?
Sim - pouco depois, viu
qualquer coisa cintilar entre
as rvores no lado direito do
caminho.
- Ali est ela - afirmou.
Passados uns instantes,
estavam junto ao pequeno lago. Sofia olhou para a cabana, do outro lado. 
As portadas das janelas estavam fechadas. A casinha vermelha
parecia totalmente abandonada.
Jorunn olhou em volta.
- Vamos pela gua? -
perguntou.
- No, remamos.
Sofia apontou para o canavial. L estava o barco como
da outra vez.
- J estiveste aqui?
Sofia abanou a cabea.
Seria demasiado complicado
relatar  amiga a sua ltima
visita. Como  que seria capaz de no revelar nada acerca de Alberto Knox 
e do
curso de filosofia?
Gracejavam e riam enquanto
remavam no lago. Na outra
margem, Sofia teve muito
cuidado em puxar bem o barco
para terra. Pouco depois,
estavam  porta. Jorunn rodou a maaneta, mas a porta
no se abriu. Era bvio que
no havia ningum na cabana.
- Fechada, estavas  espera de outra coisa?
- Talvez encontremos uma
chave - afirmou Sofia.
Comeou a procurar junto
ao muro.
- O melhor  voltarmos 
tenda - disse Jorunn, passado alguns minutos.

130
Mas, nesse momento, Sofia
exclamou:
- Encontrei-a, encontrei-a!
Mostrou a chave com uma
expresso triunfante. Introduziu-a na fechadura e a porta
abriu-se.
As duas amigas entraram
furtivamente na casa. No interior estava escuro e fazia
frio.
- No se v nada - disse
Jorunn.
Sofia tambm pensara nisso. Tirou uma caixa de fsforos do bolso e 
acendeu um
fsforo. Antes de o fsforo
se apagar, s conseguiram ver
que a cabana estava vazia.
Sofia acendeu outro e descobriu ento uma pequena vela
num candelabro de ferro forjado em cima da lareira.
Acendeu a vela com mais um
fsforo, e a pequena sala ficou de repente to clara que
podiam ver  sua volta.
- No  estranho que uma
pequena vela possa iluminar
tanta escurido? - perguntou
Sofia.
A amiga acenou afirmativamente.
- Mas a luz perde-se algures na escurido - prosseguiu Sofia. - Na 
realidade
no existe nenhuma escurido
em si.  apenas ausncia de
luz.
- Credo, que coisas estranhas ests para a a dizer. Vamos embora...
- Primeiro vamos ver o
espelho. - Sofia apontou
para o espelho de lato que
estava em cima da cmoda,
exactamente como na outra
vez.
- Que bonito...
- Mas isto  um espelho
mgico.
- Espelho, espelho meu,
existe algum mais belo do
que eu?
- Eu no estou a brincar,
Jorunn. Acho que se pode
ver qualquer coisa no outro
lado do espelho.
- No disseste que nunca
tinhas estado aqui? E porque
 que te divertes tanto em
assustar-me?
Sofia no podia responder
a estas perguntas.
- Desculpa.
Mas Jorunn descobriu ento uma coisa que estava, no
cho, a um canto.
Levantou-a.
- Postais ilustrados -
afirmou.
Sofia sobressaltou-se.
- No lhes toques! Ests
a ouvir, no podes tocar-lhes!
Jorunn recuou assustada.
Deixou cair a caixa como se
se tivesse queimado. Os postais espalharam-se pelo cho.
Passados uns instantes, desatou a rir.

131
- So apenas postais normalssimos.
Jorunn agachou-se e pegou
nos postais. Em seguida,
Sofia tambm se baixou.
- Lbano... Lbano...
Lbano... os postais foram
todos enviados do Lbano -
afirmou Jorunn.
- Eu sei - Sofia quase
soluava.
- Mas ento j estiveste
aqui.
- Sim, estive.
Sofia compreendeu que tudo
seria mais fcil se confessasse que j tinha estado
ali. Tambm no faria mal
relatar  amiga os acontecimentos misteriosos dos dias
anteriores.
- Era aqui que te queria
contar.
Jorunn tinha comeado a
ler os postais.
- So todos endereados a
uma certa Hilde Mller
Knag.
Sofia ainda no tocara em
nenhum postal.
-  esse o endereo completo?
Jorunn leu alto:
- Hilde Mller Knag,
a/c Alberto Knox,
Lillesand, Noruega.
Sofia respirou de alvio.
Receara que nos postais estivesse escrito "a/c Sofia
Amundsen". S ento os observou melhor.
- 28 de Abril... 4 de
Maio... 6 de Maio... 9 de
Maio... foram carimbados h
poucos dias.
- Mas no  tudo. Todos
os carimbos so noruegueses.
Olha - Contingente ONU!
Os selos tambm so noruegueses...
- Eu acho que  sempre
assim. Eles tm de ser neutrais, e por isso tm l uma
estao de correios norueguesa.
- Mas como  que a correspondncia  enviada para
casa?
- Em avies militares,
acho eu.
Sofia ps a vela no cho.
As duas amigas leram o que
estava nos postais. Jorunn
ordenou-os. Leu em voz alta
o primeiro postal.

Querida Hilde! Acredita
que estou desejoso de voltar
para casa em Lillesand. Vou
chegar a Kjevik no dia 23
de Junho,  tarde. Gostava
de poder chegar a tempo para
o teu aniversrio, mas estou
sob ordens militares. Em
compensao posso prometer-te
que vou escolher com todo o
cuidado um grande presente
que vais receber no dia dos
teus anos.
Beijos daquele que pensa
sempre no futuro da filha

PS. Envio a uma amiga
comum uma cpia deste postal.
Compreende-me, querida Hilde, de momento estou muito
misterioso, mas tu hs-de
compreender.

132
Sofia leu o segundo postal:

Querida Hilde! Aqui,
temos de viver o dia-a-dia.
Se mais tarde me vier a recordar de alguma coisa relacionada com todos 
estes meses
no Lbano, ser da longa espera. Mas esforo-me ao mximo para te poder 
dar um
presente to bonito quanto
possvel pelo teu aniversrio. Por agora, no posso
dizer mais nada. Imponho a
mim mesmo uma severa censura.

Beijos do pai

As duas amigas estavam sem
flego devido  tenso. Nenhuma delas fazia comentrios, apenas liam o 
que estava nos postais.

Minha querida filha!
Gostava de te poder enviar
os meus pensamentos com uma
pomba branca. Mas, no Lbano, no h pombas brancas.
Se este pas devastado pela
guerra precisa realmente de
alguma coisa,  de pombas
brancas. Se um dia a ONU
pudesse trazer realmente a
paz ao mundo!
PS. Talvez possas partilhar o teu presente de aniversrio com uma outra 
pessoa. Vamos ver, quando eu
chegar a casa. Mas tu ainda
no sabes do que estou a falar.

Muitos beijos de uma pessoa que tem muito tempo para
pensar em ns os dois.

Depois de terem lido seis
postais, s faltava um.

Querida Hilde! Estou
quase a rebentar com todos os
segredos que tm a ver com o
teu aniversrio, e vrias vezes por dia tenho de me conter para no 
telefonar e contar tudo.  uma coisa que
no pra de crescer. E tu
sabes que quando uma coisa
cresce  mais difcil guard-la para ns.

Beijos do pai

PS. Vais conhecer uma
rapariga chamada Sofia.
Para poderem saber um pouco
uma da outra antes de se conhecerem, comecei a enviar-lhe cpias de todos 
os postais que te escrevo. Ser
que ela j comeou a perceber, Hilde? At agora, no
sabe mais do que tu. Tem uma
amiga chamada Jorunn. Talvez essa te possa ajudar.

Quando Jorunn e Sofia
acabaram de ler o ltimo postal, olharam-se fixamente nos
olhos. Jorunn agarrou no
pulso de Sofia.

133
- Tenho medo - disse.
- Eu tambm.
- Qual  a data do ltimo
postal?
Sofia observou de novo o
postal.
- 16 de Maio - disse.
- Hoje, portanto.
- Impossvel! - ripostou
Jorunn. Estava quase a irritar-se.
Examinaram bem o carimbo,
e no havia erro possvel.
Estava escrito "16.05.-
90"
- Mas no  possvel -
insistiu Jorunn. - E eu
no consigo compreender quem
 que poder ter escrito isto. Tem de ser algum que
nos conhece. Mas como  que
ele pode ter sabido que ns
viramos hoje aqui?
Jorunn era a que tinha
mais medo. Para Sofia, a
histria de Hilde e do pai
j no era novidade.
- Eu acho que isto tem a
ver com o espelho de lato.
Jorunn assustou-se de
novo.
- No ests a querer dizer que os postais saltam do
espelho no preciso momento em
que so carimbados no Lbano?
- Tens uma explicao melhor?
- No.
- Mas este no  o nico
mistrio.
Sofia levantou-se e iluminou com a vela os quadros da
parede. Jorunn inclinou-se
para as pinturas.
- "Berkeley" e "Bjerkely". O que  que isto significa?
- No fao ideia.
Nesse momento, a vela j
estava quase no fim.
- Vamos embora! - disse
Jorunn. - Anda!
- Eu s quero levar o espelho.
Dito isto, Sofia levantou-se e tirou da parede o
grande espelho de lato que
estava pendurado sobre a cmoda branca. Jorunn tentou
dissuadi-la, mas Sofia no
se deteve.
Quando saram, estava uma
noite tpica de Maio e havia
luz suficiente para poderem
reconhecer os contornos dos
arbustos e das rvores. O
cu espelhava-se no lago. As
duas amigas remaram lentamente para a outra margem.
Nenhuma falou muito enquanto regressavam  tenda,
mas ambas pensavam que a outra reflectia sobre o que tinham visto. De 
quando em
quando, um pssaro levantava
voo, espantado; ouviram duas
vezes uma coruja.
Quando chegaram  tenda,
enfiaram-se nos sacos-cama.
Jorunn recusou-se a deixar o
espelho entrar na tenda. Antes de adormecerem, pensaram

134
que era inquietante que ele
ficasse  entrada da tenda.
Sofia tambm trouxera os
postais, que colocou num bolso exterior da mochila.
Na manh seguinte, acordaram cedo. Sofia foi a primeira a sair do saco-
cama.
Calou as botas e saiu da
tenda. O espelho de lato
estava deitado na relva, coberto de orvalho. Sofia limpou o orvalho com a 
camisola
e observou o seu reflexo.
Felizmente, no encontrou
nenhum postal recente do
Lbano.
Sobre a plancie atrs da
tenda pairava uma neblina matinal esfarrapada como pequenos tufos de 
algodo. Os
pssaros chilreavam energicamente, mas no conseguia
ver nem ouvir galos silvestres.
As duas amigas vestiram
mais uma camisola e tomaram o
pequeno-almoo diante da tenda. Depressa recomearam a
falar da cabana do major e
dos misteriosos postais.
Depois do pequeno-almoo,
desarmaram a tenda e puseram-se a caminho de casa.
Sofia levava o grande espelho de lato debaixo do brao. Por vezes, tinha 
de fazer uma curta pausa, porque
Jorunn se recusava a tocar
no espelho.
 medida que se aproximavam das primeiras casas, ouviram uns estampidos. 
Sofia
lembrou-se do que o pai de
Hilde escrevera acerca do
Lbano devastado pela guerra. Compreendeu como era bom
viver num pas em paz. Os
estampidos vinham de inocentes fogos de artifcio.
Sofia convidou Jorunn
para tomar cacau. A me quis
saber logo de onde vinha o
grande espelho. Sofia disse
que o tinham encontrado na
cabana do major. A me voltou a afirmar que essa cabana
estava desabitada h muitos
anos.
Depois de Jorunn ter ido
para casa, Sofia vestiu um
vestido vermelho. O resto do
feriado nacional decorreu
normalmente. No telejornal
da noite houve uma reportagem
que mostrava como os soldados
noruegueses da ONU no Lbano tinham festejado o dia.
Sofia olhava fixamente para
o cran. Um dos homens que
ali via podia ser o pai de
Hilde.
A ltima coisa que Sofia
fez nesse dia 17 de Maio
foi pendurar o grande espelho
de lato no seu quarto. Na
manh seguinte, encontrou na
toca um novo envelope amarelo. Abriu-o e leu imediatamente o que estava 
escrito
nas folhas.

135
DUAS CULTURAS

... s assim no flutuars
no vazio

J no falta muito para
nos encontrarmos, Sofia.
Calculei que regressarias 
cabana do major, por isso
deixei l todos os postais do
pai de Hilde. S assim podem chegar a Hilde.
Mas no precisas de te
preocupar com isso. At 15
de Junho ainda vai correr
muita gua debaixo das pontes.
Vimos como os filsofos do
Helenismo assimilaram os antigos filsofos gregos, e como alguns foram 
fundadores de
seitas religiosas. Plotino
prestou homenagem a Plato
como se se tratasse de um redentor da humanidade.
Mas, como sabemos, no mesmo perodo nasceu um outro
redentor fora do mbito cultural greco-romano. Refiro-me a Jesus de 
Nazar. Vamos ver neste captulo como o
cristianismo foi penetrando
no mundo greco-romano - mais
ou menos como o mundo de
Hilde comeou lentamente a
penetrar no nosso mundo.
Jesus era judeu, e os judeus pertencem  cultura semtica. Os gregos e os 
romanos pertencem  cultura indo-europeia. Podemos constatar
que a civilizao europeia
tem duas razes. Antes de
observarmos melhor como  que
o cristianismo se mistura
lentamente com a cultura greco-romana, vamos tratar dessas duas razes.
Os indo-europeus.

Designamos por indo-europeus todos os pases e
culturas onde se falam lnguas indo-europeias. Pertencem a este grupo 
todas as
lnguas europeias, excepto as
lnguas ugro-fnicas (lapo,
finlands, estnio e hngaro>>) e basco. A maior parte
das lnguas indianas e iranianas pertencem  famlia lingustica indo-
europeia.
H cerca de quatro mil
anos, os primeiros indo-europeus viviam provavelmente na
regio do mar Negro e do mar
Cspio. Pouco depois, essas

136
tribos indo-europeias comearam a migrar para o Sudeste,
para o Iro e para a ndia;
para o Sudoeste, para a
Grcia, Itlia e Espanha;
para Oeste, atravs da Europa Central, para Inglaterra e Frana; para 
Noroeste, para a Escandinvia; e
para o Norte, para a Europa
de Leste e Rssia. Por toda a parte, os indo-europeus
foram-se misturando com as
culturas anteriores, se bem
que a religio e a lngua
indo-europeias desempenhassem
um papel dominante.
Tanto os antigos escritos
indianos vdicos como a filosofia grega e inclusivamente
a mitologia de Snorri esto portanto escritos em lnguas aparentadas. 
Este parentesco no se limita s
lnguas. As lnguas aparentadas correspondem geralmente
a ideias aparentadas. Por
isso podemos falar de uma
cultura indo-europeia.
A cultura dos Indo-europeus era sobretudo caracterizada pela crena em 
vrios
deuses diferentes, ou seja,
pelo politesmo. Encontramos em toda a rea indo-europeia nomes de 
deuses,
muitos termos religiosos importantes e expresses semelhantes. Vou dar 
alguns
exemplos:
Os antigos hindus veneravam o deus Dyaus. Em grego, este deus chama-se
Zeus, em latim Jpiter
(na realidade Iovpater,
ou seja, "pai Iov">), e em
antigo nrdico Tyr. Os
nomes Dyaus, Zeus, Iov e
Tyr so portanto diferentes
variantes da mesma palavra.
Talvez ainda te lembres
que os Vikings no Norte da
Europa veneravam deuses a
que chamavam ases. Tambm
encontramos este termo para
"deuses" no conjunto do mbito indo-europeu. Em antigo
hindu (snscrito>), os deuses chamam-se asura, em antigo persa ahura. 
Uma outra palavra para deus em
snscrito  deva, em persa
daeva, em latim deus e em
antigo nrdico tivurr.
No Norte da Europa havia
ainda um grupo prprio de divindades da fertilidade (por
exemplo, Njrd, Freyr,
Freyja>). Estas divindades
eram designadas vanes. Esta palavra  aparentada com o
nome da deusa latina da fertilidade Vnus. Em snscrito h o termo 
aparentado
vani, que significa "prazer" ou "desejo".
Determinados mitos apresentam em toda a rea indo-europeia um claro 
parentesco. Quando Snorri fala
acerca dos antigos deuses
nrdicos, alguns mitos fazem
recordar mitos hindus que foram narrados dois ou trs mil
anos antes. Obviamente, os
mitos de Snorri esto relacionados com a natureza nrdica e os indianos 
com a natureza indiana. Mas muitos
dos mitos tm um ncleo que
aponta para uma origem comum.
Este ncleo  claramente visvel nos mitos sobre as poes da 
imortalidade e sobre
a luta dos deuses contra as
foras do caos.
Inclusivamente no prprio
pensamento vemos claras conexes entre as culturas indo-europeias. Uma 
semelhana
tpica reside no facto de

137
conceberem o mundo como um
combate eterno entre as foras do bem e as foras do
mal. Por isso, os indo-europeus procuraram predizer qual
seria o futuro do mundo.
Podemos afirmar que no 
por acaso que a filosofia
grega nasceu justamente no
mbito da cultura indo-europeia. As mitologias indiana,
grega e nrdica apresentam
claros princpios de um pensamento filosfico ou "especulativo". Os indo-
europeus
procuravam ter conhecimento
da evoluo do mundo. Podemos inclusivamente seguir em
toda a rea indo-europeia um
termo preciso para "conhecimento" ou "saber" de cultura
para cultura. Em snscrito,
este termo  vidya. Esta
palavra  idntica  palavra
grega idea, que como sabes,
desempenha um papel importante na filosofia de Plato.
Do latim conhecemos a palavra video, que para os romanos significava 
simplesmente "ver". (S nos nossos
dias  que "ver"  quase sinnimo de fixar o ecr da televiso>). Do 
ingls conhecemos as palavras wise e
wisdom (sabedoria>), em
alemo weise e Wissen.
Em noruegus temos a palavra
viten. A palavra norueguesa "viten" tem portanto as
mesmas razes que a palavra
indiana "vidya", a grega
"idea" e a latina "video".
Em traos largos, podemos
verificar que a viso era o
sentido mais importante para
os indo-europeus. Entre os
indianos e entre os gregos,
entre os iranianos e os germanos, a literatura  caracterizada por 
grandes vises
csmicas. (Temos de novo a
palavra "viso", que vem do
verbo latino "video".>) Alm
disso era costume nas culturas indo-europeias produzir
pinturas e esculturas dos
deuses e dos acontecimentos
mitolgicos.
Finalmente, os indo-europeus tinham uma concepo
cclica da histria. Significa que para eles a histria
decorre circularmente - ou
em "ciclos" - tal como as
estaes do ano alternam entre Vero e Inverno. No
h um verdadeiro comeo nem
um verdadeiro fim da histria. Trata-se de civilizaes diversas que 
nascem e
perecem na alternncia constante entre nascimento e morte.
Ambas as grandes religies
orientais - hindusmo e budismo - so de origem indo-europeia. O mesmo  
vlido
para a filosofia grega, e vemos claros paralelismos entre
o hindusmo e o budismo por
um lado e a filosofia grega
por outro. Ainda hoje o hindusmo e o budismo esto fortemente 
influenciados pela
reflexo filosfica.
Frequentemente se pe em
evidncia que no hindusmo e
no budismo o divino est presente em tudo (pantesmo>) e
que o homem pode alcanar a
unidade com Deus atravs do
conhecimento religioso. (Tu
lembras-te de Plotino, Sofia!>). Para isso,  geralmente necessria uma 
grande
concentrao e meditao. No
Oriente, a passividade e o
recolhimento so um ideal

138
religioso. Na Grcia, era
frequente pensar-se que o homem tinha de viver uma vida
de ascese - ou retiro religioso - para libertar a sua
alma. Alguns elementos da
vida monstica medieval remontam a essas concepes do
mundo greco-romano.
Em muitas culturas indo-europeias a crena na metempsicose era tambm 
muito
importante; assim, no hindusmo, o objectivo de cada
crente  ser libertado um dia
da migrao das almas. E sabemos que Plato tambm
acreditava na migrao das
almas.

138
Os semitas

E agora vamos aos semitas,
Sofia. Trata-se aqui de uma
cultura completamente diferente, com uma lngua tambm
completamente diferente.
Originariamente, os semitas
provinham da pennsula rabe,
mas a cultura semtica expandiu-se igualmente em diversas
regies do globo. Desde h
mais de dois mil anos, os judeus vivem afastados da sua
ptria original. A histria
e a religio semticas afastaram-se muito das suas razes geogrficas 
devido ao
cristianismo. Alm disso, a
cultura semtica estendeu-se
a todo o mundo atravs da expanso do islamismo.
As trs religies ocidentais - judasmo, cristianismo e islamismo - tm 
uma base semtica. O Alcoro, o
texto sagrado do islamismo, e
o Antigo Testamento esto
escritos em lnguas semticas
aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento
para "Deus" tem a mesma raiz
lingustica que o Al dos
muulmanos. (A palavra
"al" significa simplesmente
"Deus">).
No cristianismo, o quadro
 mais complicado. O cristianismo tambm tem uma base
semtica. Mas o Novo Testamento foi escrito em grego, e quando a 
teologia crist foi formulada, recebeu a
influncia das lnguas grega
e latina, e consequentemente
da filosofia grega.
Sabemos que os indo-europeus acreditavam em muitos
deuses. Os semitas adoptaram
muito cedo a crena num nico
Deus, que  designada por
monotesmo. No judesmo,
no cristianismo e no islamismo a existncia de um s
Deus  uma ideia fundamental.
Uma outra caracterstica
semtica  a concepo linear
da histria. Significa que a
histria era vista linearmente. Deus criou o mundo, e
nesse momento comeou a histria, que terminar no dia
do "juzo final", quando
Deus julgar os vivos e os
mortos.
Uma caracterstica importante das trs grandes religies ocidentais  
precisamente o papel da histria.
Deus intervm na histria e
esta existe apenas para que
Deus realize a sua vontade
no mundo. Tal como outrora

139
Deus conduziu Abrao 
Terra Prometida, dirige a
vida dos homens atravs da
histria at ao dia do juzo,
momento em que todo o mal do
mundo ser destrudo.
Devido  importncia da
aco divina na histria, os
semitas ocupam-se da historiografia desde h muitos milhares de anos. As 
razes
histricas esto no centro
dos seus escritos religiosos.
Ainda hoje, a cidade de
Jerusalm  um importante
centro religioso para judeus,
cristos e muulmanos. Isto
diz alguma coisa acerca da
base histrica comum a estas
trs religies. Existem em
Jerusalm importantes sinagogas (judias>>), igrejas
(crists>) e mesquitas
(muulmanas>). Por isso 
to trgico que esta cidade
se tenha tornado um pomo de
discrdia - que os homens se
matem aos milhares, porque
no conseguem chegar a acordo
acerca de quem deve ter o domnio da "cidade eterna".
Esperemos que a ONU consiga um dia que Jerusalm se
torne um ponto de encontro
religioso das trs religies!
(Sobre esta parte prtica
do curso de filosofia no vamos dizer mais nada por enquanto. Deixamos 
isso ao pai
de Hilde. Tu sabes que ele
 observador da ONU no
Lbano, no  verdade? Para
ser mais preciso, posso revelar-te que ele presta servio
como major. Se comeas a entrever uma relao,  porque
 correcta. Por outro lado,
no quero antecipar o curso
dos acontecimentos>).
Caracterizmos a viso
como o sentido mais importante para os indo-europeus. 
espantoso o importante papel
que a audio desempenha na
rea semtica. No  por
acaso que o acto de f judaico comea com as palavras
"Ouve, Israel!". No Antigo Testamento, lemos como os
homens "ouviam" as palavras
do Senhor, e os profetas judeus iniciavam as suas predies com a frmula 
"assim falou Jeov" (deus>). No
cristianismo, tambm se d
importncia a "ouvir" a palavra de Deus. As cerimnias
religiosas hebraicas, crists
e muulmanas so caracterizadas sobretudo pela leitura em
voz alta dos textos sagrados.
Mencionei tambm que os
indo-europeus produziam imagens e esculturas dos seus
deuses. Para os semitas, era
proibido representar Deus.
Isto significa que eles no
podiam produzir imagens ou
esculturas de Deus nem de
tudo o que fosse sagrado.
Tambm no Antigo Testamento se afirma que os homens
no podem criar nenhuma imagem de Deus. Esta norma 
ainda hoje vlida para o islamismo e para o judesmo.
No islamismo, existe uma
averso geral pela fotografia
e pela arte plstica. Os homens no devem competir com
Deus em "criar" algo.
Mas na Igreja Crist h
muitas imagens de Deus e de
Jesus, talvez estejas a pensar.  verdade, Sofia, e
isso  precisamente um exemplo do facto de o cristianismo ter sido 
influenciado pelo
mundo greco-romano.

140
(Na Igreja Ortodoxa - ou
seja, na Grcia e na Rssia
- existe ainda uma proibio
de criar imagens esculpidas,
isto , esculturas e crucifixos com cenas da histria bblica.>)
Ao contrrio das grandes
religies orientais, as trs
religies ocidentais defendem
uma separao entre Deus e a
sua Criao. O fim no  a
libertao da reencarnao,
mas ser-se libertado do pecado e da culpa. Alm disso, a
vida religiosa baseia-se mais
na orao, no sermo e na
leitura da Bblia do que na
concentrao e na meditao.

Israel

Agora, no quero entrar em
concorrncia com o teu professor de religio, cara
Sofia, mas vamos ainda observar rapidamente a influncia hebraica no 
cristianismo.
Tudo comeou quando Deus
criou o mundo. Podes ler na
primeira pgina da Bblia
como isso sucedeu. Mas depois, os homens insurgiram-se
contra Deus. O castigo no
foi apenas a expulso de
Ado e Eva do paraso. A
morte tambm surgiu no mundo.
A desobedincia dos hamens
em relao a Deus representa
o fio condutor de toda a
Bblia. Se continuarmos a
folhear o Gnesis, podemos
ler acerca do dilvio e da
arca de No. Depois lemos
que Deus fez um pacto com
Abrao e o seu povo. Este
pacto estabelecia que Abrao
e o seu povo respeitariam os
mandamentos de Deus. E
Deus prometeu proteger os
sucessores de Abrao. Mais
tarde, este pacto foi renovado, quando Moiss recebeu
as Tbuas da Lei no monte
Sinai (a lei mosaica!>).
Isto aconteceu cerca de
1200 a.C. Nessa poca, os
israelitas tinham vivido muito tempo no Egipto como escravos, mas com a 
ajuda de
Deus o povo foi reconduzido
a Israel.
Cerca do ano 1000 a.C.,
muito antes de existir algo
que se chamasse filosofia
grega - ouvimos falar de
trs grandes reis em Israel.
O primeiro foi Saul, seguiu-se-lhe David, e aps
David veio Salomo. Todo
o povo israelita estava unido
num reino e, sobretudo no
reinado do rei David, viveu
um perodo de prosperidade
poltica, militar e cultural.
Quando os reis eram consagrados, eram ungidos pelos
sacerdotes. Por isso, tinham
o ttulo de Messias, que significa "o ungido". No contexto religioso, os 
reis eram
vistos como intermedirios
entre Deus e o povo. Por
isso, os reis podiam ser
igualmente designados por
"filhos de Deus", e o pas
por "reino de Deus".
Mas o perodo de esplendor
no durou muito. O reino foi
dividido em duas partes: o
"reino do Norte" (Israel>)
e o "reino do Sul" (Judeia>). No ano de 722,

141
o reino do Norte foi ocupado
pelos assrios e perdeu toda
a importncia poltica e religiosa. No Sul, as coisas
no correram muito melhor. O
reino do Sul foi conquistado
pelos babilnios no ano 586.
O templo de Jerusalm foi
destrudo, e uma grande parte
do povo foi levada para a
Babilnia. Este cativeiro
babilnico s terminou no
ano de 539. O povo pde regressar a Jerusalm e reconstruir o grande 
templo.
Mas at ao incio da nossa
era, os judeus estiveram sempre sob domnio estrangeiro.
Os judeus perguntavam-se
porque  que o reino de David fora destrudo e porque 
que desgraas aps desgraas
se abatiam sobre o povo.
Deus tinha prometido proteger Israel. Mas o povo tambm prometera 
observar os
mandamentos divinos. Por
fim, difundiu-se a ideia de
que Deus castigara Israel
devido  desobedincia.
A partir aproximadamente
de 750 a.C. surgiu uma srie de profetas que anunciaram o castigo de 
Deus sobre
Israel, porque o povo no
observava os mandamentos do
Senhor. "Um dia, Deus julgar Israel", diziam. Esses
profetas so designados por
"profetas do dia do juzo".
Cedo surgiram tambm profetas que profetizavam que
Deus salvaria uma parte do
povo e enviaria um "prncipe
da paz", ou um rei da paz, da
estirpe de David. Este
prncipe da paz deveria erigir de novo o antigo reino de
David e assegurar ao povo um
futuro feliz.
"O povo que caminha na escurido, ver uma grande
luz", afirmou o profeta
Isaas, "aqueles que habitam
na terra da sombra da morte,
sobre eles brilhar a luz".
Esses profetas so designados por "profetas da salvao".
Vou ser mais conciso: o
povo de Israel viveu feliz
sob o reinado do rei David.
Quando as coisas comearam a
correr pior para os israelitas, os profetas profetizaram
a vinda de um novo rei da estirpe de David. Este "Messias", ou "filho de 
Deus",
havia de "salvar" o povo,
restaurar Israel como potncia, e construir um "reino de
Deus".

Jesus

Bom, Sofia. Parto do
princpio de que me estejas a
seguir. As palavras-chave
so "Messias", "Filho de
Deus", "salvao" e "Reino
de Deus". De incio, tudo
isto tinha um significado poltico. Mesmo na poca de
Jesus, muitos imaginavam o
novo messias como chefe poltico, militar e religioso do
mesmo calibre que o rei David. O salvador era portanto
visto sobretudo como libertador nacional, o qual poria
fim ao sofrimento dos judeus
sob o domnio romano.

142
Mas tambm se levantaram
outras vozes. J dois sculos antes do nascimento de
Cristo, outros profetas tinham anunciado que o messias
prometido seria o redentor de
todo o mundo. Ele no libertaria apenas os israelitas do
jugo estrangeiro, mas libertaria todos os homens do pecado e da culpa - e 
tambm
da morte. A esperana numa
salvao neste sentido da palavra tambm estava difundida
em todo o mundo helenstico.
E veio ento Jesus. Ele
no  o nico que surge como
o messias prometido e, tal
como outros, usa as palavras
"filho de Deus", "reino de
Deus", "Messias" e "salvao". Deste modo, parte das
antigas profecias. Vai para
Jerusalm e  venerado pelas
massas como salvador do povo.
Assim, faz lembrar os antigos reis que eram entronizados atravs de um 
"ritual de
elevao ao trono" caracterstico. Ele tambm  ungido
pelo povo. "O tempo est
completo", afirma, "o reino
de Deus chegou."
 importante notar tudo
isto. Mas agora tens de
prestar muita ateno: Jesus
distinguia-se dos outros que
se apresentavam como messias
por afirmar muito claramente
no ser um chefe militar ou
poltico. A sua tarefa era
muito maior. Anunciava a
salvao e o perdo de Deus
para todos os homens, por
isso podia andar entre os homens e dizer: "Os teus pecados so-te 
perdoados." Pronunciar isto era inaudito.
Por isso, tambm no foi
preciso muito tempo para os
escribas levantarem protestos
contra Jesus. Por fim, empenharam-se tambm na preparao do seu 
suplcio.
Vou explicar melhor: muitos homens no tempo de Jesus
esperavam um messias que havia de restabelecer o reino
de Deus com grande poder e
esplendor (isto , com a espada e com a lana>). A expresso "reino de 
Deus" est
presente como fio condutor na
mensagem de Jesus - alis
com um significado muito mais
alargado. Jesus apresentava
o reino de Deus como amor
pelo prximo, solicitude para
com os fracos e perdo para
todos os que erraram.
Encontramos aqui uma modificao drstica no significado de uma expresso 
antiga
e em parte militar. Os homens esperavam um lder militar que proclamasse 
o reino
de Deus. Chega ento Jesus
de tnica e sandlias e explica que o reino de Deus ou
o "Novo Testamento" significa: "Deves amar o prximo
como a ti mesmo." Alm disso, ele afirmou que devemos
amar os nossos inimigos. Se
nos do uma bofetada, no devemos pagar na mesma moeda,
mas apresentar a outra face.
E devemos perdoar - no
sete vezes, mas setenta vezes
sete.
Durante a sua vida, Jesus
mostrou que no desdenhava
falar com prostitutas, publicanos corruptos e indivduos
politicamente subversivos.
Mas ele ainda vai mais longe: afirma que um filho que
dissipou toda a herana - ou
um publicano corrupto que extraviou dinheiro -  perante

143
Deus justo desde que se dirija a Ele e pea perdo,
porque tal  a generosidade
de Deus na Sua graa.
Mas ele vai ainda mais
longe - e agora tens de te
segurar: Jesus dizia que esses "pecadores" eram perante
Deus mais justos -, e mereciam preferencialmente o seu
perdo - do que aqueles que
se orgulhavam da sua prpria
virtude.
Jesus insistia em que nenhum homem pode julgar por si
se  digno do perdo de
Deus. No nos podemos salvar a ns mesmos. (Muitos
gregos acreditavam nisto!>).
Quando Jesus apresenta as
suas severas exigncias ticas no "sermo da montanha"
no era apenas porque quisesse mostrar a vontade de
Deus. Ele quer tambm mostrar que nenhum homem  justo
perante Deus. O perdo de
Deus  ilimitado, mas devemos dirigir-nos a ele pela
orao para obtermos o perdo.
Deixo a cargo do teu professor de religio mais esclarecimentos acerca da 
personalidade de Jesus e da sua
mensagem. No  uma tarefa
fcil. Espero que ele tambm
vos possa esclarecer como
Jesus foi um homem nico.
De um modo genial, ele usa a
linguagem do seu tempo e d
simultaneamente s ideias antigas um contedo completamente novo e mais 
vasto. No
admira que ele tenha sido
crucificado. A sua radical
mensagem de salvao punha a
nu tantos interesses e jogos
de poder que tinha de ser
afastado.
No caso de Scrates, vimos como pode ser perigoso
apelar  razo dos homens.
No caso de Jesus vemos como
pode ser perigoso pedir um
amor incondicional pelo prximo e um perdo igualmente
incondicional. Ainda hoje
vemos como Estados poderosos
vacilam se so postos perante
pedidos simples de paz, amor
e alimento para os pobres e
perdo para os inimigos do
Estado.
Sabes ainda como Plato
ficou contrariado pelo facto
de o homem mais justo de
Atenas ter de pagar com a
vida. Para o cristianismo,
Jesus  o nico homem justo
que alguma vez viveu. Porm,
foi condenado  morte. Para
o cristianismo, ele morreu
pela humanidade. E isso 
frequentemente designado como
a "paixo" de Cristo. Jesus
foi o "servo sofredor" que
assumiu a culpa de todos os
pecados dos homens para nos
reconciliar com Deus e nos
salvar da Sua punio.

Paulo

Poucos dias aps a crucificao e o enterro de Jesus
surgiram rumores de que ele
havia ressuscitado dos mortos. Deste modo, mostrou que
era mais do que um homem, que
era verdadeiramente "filho de
Deus".

144
Podemos dizer que a Igreja crist teve incio nessa
manh de Pscoa, com o anncio da ressurreio de Jesus. J Paulo 
esclareceu
isto: "Se Jesus no ressuscitou, ento a nossa prdica
 v, v a nossa f."
A partir daquele momento,
todos os homens podiam ter
esperana na ressurreio da
carne. Jesus foi crucificado
para a nossa salvao. E
agora, querida Sofia, tens
de reparar que no se trata
da "mortalidade da alma" ou
de uma forma de reencarnao.
Essa era uma concepo grega
- consequentemente indo-europeia. Mas o cristianismo
ensina que no h nada no homem - por exemplo, nenhuma
"alma" - que fosse imortal
por si. A Igreja acredita
na ressurreio da carne e na
vida eterna, mas  justamente
graas a Deus que somos salvos da morte e da perdio.
No  nosso mrito, nem se
deve a nenhuma qualidade natural ou inata.
Os primeiros cristos comearam ento a anunciar a
"boa nova" da salvao atravs da f em Jesus Cristo.
Com a sua mensagem de redeno, o reino de Deus estava
iminente. Todo o mundo podia
ento ser conquistado por
Jesus. (a palavra "Cristo"
 uma traduo grega da palavra hebraica "messias" e significa portanto 
"o ungido">).
Poucos anos aps a morte
de Jesus, o fariseu Paulo
converteu-se ao cristianismo.
Atravs das suas muitas viagens de missionrio por todo
o mundo greco-romano, o cristianismo tornou-se uma religio universal. 
Tomamos conhecimento disso nos Actos
dos Apstolos. A pregao
de Paulo e as suas directivas fornecidas aos cristos
foram tambm difundidas por
meio das epstolas que enviou
s primeiras comunidades
crists.
Esteve tambm em Atenas.
Caminhava na gora da capital da filosofia. E estava
indignado, "de tal forma via
a cidade to idlatra", segundo se diz. Visitou a sinagoga de Atenas e 
falou com
os filsofos epicuristas e
esticos da cidade. Levaram-no ao Arepago. A, disseram: "tambm podemos 
saber
que doutrina nova  essa que
ensinas? Porque tu trazes
algo novo para os nossos ouvidos; por isso, gostaramos
muito de saber o que ."
Ests a imaginar isto,
Sofia? Aparece um judeu na
gora de Atenas e fala acerca de um redentor que foi
crucificado e que ressuscitou
dos mortos. J durante a visita de Paulo a Atenas podemos ter uma ideia 
do choque
entre a filosofia grega e a
doutrina crist da salvao.
Mas Paulo conseguiu ser ouvido pelos atenienses. Enquanto est no 
Arepago -
entre os imponentes templos
da Acrpole - faz o seguinte discurso:
"Atenienses", comea, "eu
vejo que sois em todos os aspectos muito religiosos. Indo a passar, vi os 
vossos
cultos e encontrei um altar

145
sobre o qual estava escrito:
Ao Deus desconhecido. Agora, anuncio-vos aquele ao
qual prestais culto sem saber. Deus, que fez o mundo e
tudo o que nele h, uma vez
que  o senhor do cu e da
terra, no habita nos templos
feitos pelos homens. Tambm
no  servido pelas mos dos
homens, como se precisasse de
algum, ele que d a todos a
vida e o alento por toda a
parte.
E de um s fez todo o gnero humano, para que habitasse em toda a face da 
terra, e colocou o limite para o
tempo e o lugar da habitao;
para que busquem o Senhor
como que s apalpadelas. E
na verdade, ele no est longe de cada um de ns. Pois
nele vivemos, nos movemos e
existimos; como tambm disseram alguns dos vossos poetas:
ns somos da sua linhagem.
Sendo ns da linhagem de
Deus, no devemos pensar que
a divindade  igual s imagens douradas, prateadas e de
pedra feitas pela arte dos
homens. E na verdade, Deus
no teve em conta o tempo da
ignorncia; mas ordena a todos os homens, por toda a
parte, que faam penitncia,
porque ele estabeleceu um dia
em que h-de julgar o mundo
com justia atravs de um homem que escolheu e no qual
todos tm f, depois de o ter
ressuscitado dos mortos."

Paulo em Atenas, Sofia.
Estamos a falar de como o
cristianismo se infiltra progressivamente no mundo greco-romano, como 
algo diferente, muito diferente da filosofia epicurista, estica ou
neoplatnica. Porm, Paulo
encontra nesta cultura um
apoio slido. Diz que a busca de Deus est presente em
todos os homens, o que no
era uma coisa nova para os
gregos. O que Paulo anuncia
de novo  que Deus se revelou aos homens e que foi verdadeiramente ao seu 
encontro.
No  apenas um "Deus filosfico" ao qual os homens podem aspirar com a 
razo.
Tambm no se assemelha a
nenhuma imagem de "ouro, prata ou pedra" - j era suficiente o que havia 
na Acrpole e na gora. Mas Deus
"no habita em templos feitos
pelos homens".  um Deus
pessoal que intervm na histria e morre na cruz pelos
homens.
Depois de Paulo ter feito
o seu discurso no Arepago,
os Actos dos Apstolos contam que alguns fizeram troa
dele por ele ter contado que
Cristo tinha ressuscitado
dos mortos. Mas alguns ouvintes afirmaram tambm:
"Queremos que nos voltes a
falar disso." Outros juntaram-se, por fim, a ele e tornaram-se cristos. 
Entre estes estava uma mulher, Dmaris, e devemos reparar nisso. Nessa 
altura, houve muitas mulheres que se converteram ao cristianismo.
Paulo prosseguiu a sua actividade missionria. Poucas
dcadas depois da morte de
Cristo existiam comunidades
crists em todas as cidades

146
gregas e romanas mais importantes - em Atenas, Roma,
Alexandria, feso, Corinto. No decorrer de trs,
quatro sculos, todo o mundo
greco-romano estava cristianizado.

A profisso de f

Mas a importncia de
Paulo para o cristianismo
no se limitou  sua importante actividade missionria.
Dentro das comunidades crists tambm teve uma grande
influncia. Havia uma grande
necessidade de instruo espiritual.
Nos primeiros anos aps a
morte de Jesus, levantou-se
uma questo: teriam os no-judeus de passar primeiro
pelo judesmo? Por exemplo,
teria um grego que observar
as leis de Moiss? Paulo
no achava isso necessrio.
O Cristianismo era mais do
que uma seita hebraica. Dirigia-se a todos os homens
com uma mensagem universal de
salvao. A Velha Aliana,
entre Deus e Israel, era
substituda pela Nova
Aliana, que Jesus conclura entre Deus e todos os homens.
Mas o cristianismo no era
a nica nova religio daquele
tempo. Vimos que o Helenismo
era caracterizado por uma
mistura de religies. Por
isso, a Igreja tinha de delinear claramente a doutrina
crist. Era importante evitar uma ciso na Igreja
Crist e a demarcao em relao a outras religies.
Deste modo surgiu a profisso de f, que teve como objectivo reunir os 
mais importantes "dogmas" cristos.
Um desses dogmas afirma
que Jesus foi simultaneamente Deus e homem. Portanto,
ele no foi "filho de Deus"
apenas pelos seus actos. Ele
prprio era Deus, mas foi
tambm um "verdadeiro" homem
que partilhou a vida dos homens e sofreu verdadeiramente
na cruz.
Isto pode parecer uma contradio. Mas a mensagem da
Igreja afirma ento que
Deus se tornou homem. Jesus
no era nenhum "semideus"
(ou seja, meio humano e meio
divino>). A crena em tais
semideuses estava bastante
difundida nas religies gregas e helensticas. A Igreja ensinava que 
Jesus  "inteiramente Deus, inteiramente homem".
Postscriptum

Estou a tentar explicar
como todas as coisas esto
relacionadas, cara Sofia. A
entrada do cristianismo no
mundo greco-romano significou
um confronto dramtico entre
duas culturas, mas tambm uma
das grandes transformaes
culturais da histria.

147
Estamos quase a deixar a
Antiguidade. Desde os primeiros filsofos gregos passaram-se quase mil 
anos. 
nossa frente est a Idade
Mdia crist, que tambm durou cerca de mil anos.
O poeta alemo Johann
Wolfgang Goethe escreveu:

Quem no sabe prestar contas
de trs milnios,
permanece nas trevas ignoran-

te,
e vive apenas o dia que pas sa

Mas no quero que pertenas a este tipo de pessoas.
Eu esforo-me o mximo para
que conheas as tuas razes
histricas. S assim te tornars um ser humano. S assim sers mais do 
que um macaco. S assim no flutuars
no espao vazio.

"S assim te tornars um
ser humano. S assim sers
mais do que um macaco..."
Sofia ficou ainda algum
tempo a olhar fixamente para
o jardim pelos pequenos orifcios da sebe. Nesse momento, comeou a 
perceber como
era importante conhecer as
suas razes histricas. Pelo
menos, tinha sido importante
para o povo de Israel.
Ela era simplesmente uma
pessoa qualquer. Mas se conhecesse as suas razes histricas, a sua 
existncia
tornar-se-ia um pouco menos
aleatria. Vivia h poucos
anos no planeta, mas se a
histria da humanidade era
tambm a sua prpia histria,
tinha num certo sentido muitos milhares de anos.
Sofia juntou todas as folhas e saiu da toca. Saltando alegremente 
atravessou o
jardim e foi para o seu quarto.

148

A Idade Mdia

... percorrer apenas uma
parte do caminho no significa
enganar-se...

Na semana seguinte, Sofia
no soube nada de Alberto
Knox. Tambm no recebeu
mais postais do Lbano, mas
continuou a falar com Jorunn
acerca dos postais que elas
tinham encontrado na cabana do
major. Jorunn ficara nervosssima, mas como depois nada
mais sucedera, o seu medo perdeu-se entre os trabalhos de
casa e o badminton.
Sofia leu as cartas de Alberto muitas vezes e procurou
uma referncia que pudesse explicar a questo de Hilde.
Assim, tambm podia assimilar
bem a filosofia antiga. Depressa deixou de confundir
Demcrito e Scrates, Plato e Aristteles.
Na sexta-feira, dia 25 de
Maio, estava junto ao fogo e
fazia o jantar porque a me
no tardaria a chegar a casa
vinda do trabalho. Era o
acordo habitual de sexta-feira. Nesse dia, Sofia cozinhava sopa de peixe 
com batatas e cenoura. Nada mais fcil.
L fora, levantara-se vento. Enquanto mexia a panela,
Sofia voltou-se e olhou pela
janela. As btulas baloiavam
como espigas.
De repente, algo bateu contra a vidraa. Sofia voltou-se de novo e 
descobriu ento
um bocado de carto colado 
janela.
Aproximou-se e viu que se
tratava de um postal ilustrado. Atravs do vidro, leu:
"Hilde Mller Knag, a/c de
Sofia Amundsen..."
Pensara imediatamente nisso. Abriu a janela e recolheu
o postal. Teria percorrido o
longo caminho desde o Lbano
transportada pelo vento?
Tambm este postal tinha a
data: "Sexta-feira, 15 de
Junho".
Sofia tirou a panela do fogo e sentou-se  mesa. No
postal, estava escrito:

Querida Hilde! No sei
se ainda estars a festejar o
teu aniversrio quando leres
este postal. Por um lado, espero que sim, de qualquer modo
tenho esperana que ainda no
tenham passado muitos dias.
Que passem

149
uma ou duas semanas para Sofia no significa que suceda o
mesmo connosco. Eu regresso a
casa na noite de S. Joo.
Nessa altura, ficaremos sentados no baloio e poderemos
olhar juntos para o mar, Hilde. Temos muito para conversar. Beijos do 
pai, a quem
por vezes o conflito milenar
entre judeus, cristos e muulmanos deprime. Tenho que
estar sempre a lembrar-me que
as trs religies remontam a
Abrao. Mas, nesse caso, no
tm de rezar ao mesmo Deus?
Aqui, a histria de Caim e
Abel repete-se todos os dias.

PS. Poderias dar cumprimentos  Sofia? Pobre criana, ela ainda no 
compreendeu
como as coisas esto relacionadas. Mas talvez tu j tenhas compreendido.

Sofia inclinou-se esgotada
sobre o tampo da mesa. Era
claro que no compreendia como
as coisas se relacionavam.
Ser que Hilde compreendia?
Se o pai de Hilde podia
pedir-lhe que apresentasse
cumprimentos  Sofia, era
porque Hilde sabia mais sobre
Sofia do que Sofia sobre
Hilde. Era tudo to complicado que Sofia preferiu voltar ao fogo.
Um postal que ia bater contra a janela da cozinha. Correio areo no 
verdadeiro sentido da palavra...
Mal Sofia colocou de novo
a panela no fogo, o telefone
tocou.
Se fosse o seu pai! Se ele
voltasse para casa, ela contar-lhe-ia tudo o que lhe
acontecera na semana anterior.
Mas devia ser apenas Jorunn
ou a me... Sofia correu para
o telefone.
- Sofia Amundsen.
- Sou eu -, respondeu uma
voz no outro lado da linha.
Sofia tinha a certeza de
trs coisas: no era o pai.
Mas era uma voz masculina. E
ela estava convencida de j
ter ouvido uma vez esta voz.
- Quem fala? - perguntou.
- Fala o Alberto.
- Ah...
Sofia no sabia o que havia
de responder. Reconheceu a
voz do vdeo de Atenas. -
Ests boa? - Sim...
- Mas a partir de agora j
no h mais cartas. - Mas eu
no te mandei nenhuma r!
- Temos de nos encontrar,
Sofia. E depressa, compreendes?
- Mas porqu?
- Estamos quase a ser encurralados pelo pai de Hilde.

150
- Encurralados como?
- Por todos os lados, Sofia. Temos de colaborar.
- Como...?
- Mas infelizmente, s me
podes ajudar quando eu te tiver falado da Idade Mdia.
Temos ainda de falar do Renascimento e do sculo XVII.
Alm disso, Berkeley desempenha um papel-chave.
- No havia um retrato dele na cabana do major?
- Sim, exactamente.
Talvez a batalha se trave
justamente por causa da sua
filosofia.
- Falas como se se tratasse de uma espcie de guerra.
- Eu diria que  uma guerra espiritual. Temos de tentar chamar a ateno 
de Hilde
e traz-la para o nosso lado,
antes que o seu pai regresse a
Lillesand.
- No estou a perceber
nada.
- Talvez os filsofos te
abram os olhos. Encontramo-nos amanh de madrugada s
quatro, na Igreja de Santa
Maria. Mas vem sozinha, minha filha.
- Tenho de ir a meio da
noite?
- ... clic.
- Est?
Que infame! Tinha desligado. Sofia voltou a correr para o fogo. Por 
pouco a sopa
no tinha vindo por fora. Ela
mexeu os pedaos de peixe e as
cenouras na panela e baixou o
lume.
Na Igreja de Santa Maria? Era uma velha igreja de
pedra da Idade Mdia. Sofia
achava que ali j s se realizavam concertos e missas muito
especiais. No Vero era
aberta por vezes para os turistas. Mas no estaria fechada a meio da 
noite?
Quando a me voltou para
casa, Sofia tinha posto o
postal do Lbano no armrio,
junto s outras coisas de Alberto e de Hilde. Depois do
jantar, foi a casa de Jorunn.
- Temos que ter um encontro um pouco especial - afirmou, quando a amiga 
abriu a
porta.
No disse mais nada at terem fechado a porta do quarto
de Jorunn.
-  um bocado complicado
- prosseguiu Sofia.
- Conta!
- Tenho de dizer  minha
me que hoje durmo em tua casa.
- Que bom!
- Mas isso  o que eu vou
dizer, compreendes? Vou estar
noutro local.
- Valha-me Deus! Isso
tem alguma coisa a ver com um
rapaz?

151
- No, tem a ver com
Hilde.
Jorunn assobiou baixo.
Sofia olhou fixamente para
ela.
- Venho c hoje  noite -
disse - mas tenho de sair por
volta das trs. Tens de me
encobrir at que eu esteja de
volta.
- Mas onde vais? Qual  o
teu plano?
- Desculpa. No posso dizer nada.

Dormir em casa de Jorunn
no era problema, pelo contrrio. Sofia tinha por vezes a
sensao de que a me gostava
de ter a casa para si.
- Mas vens amanh para o
pequeno-almoo? - foi a nica
pergunta que fez quando Sofia
saiu.
- Caso no venha, tu sabes
onde estou.
Porque  que dissera aquilo? Era esse precisamente o
ponto fraco do seu plano.
A visita de Sofia comeou
como a maior parte das visitas
quando se dorme fora de casa,
com conversas ntimas at alta
noite. A diferena  que desta vez Sofia ps o despertador para as trs e 
um quarto
quando elas se deitaram por
fim, cerca da uma.
Jorunn acordou quando Sofia desligou o despertador
duas horas mais tarde.
- Tem cuidado - pediu
ela.
Sofia saiu para a rua e
ps-se a caminho. A Igreja
de Santa Maria ficava a alguns quilmetros de distncia,
mas apesar de ter dormido apenas duas horas, sentia-se extremamente 
desperta. Por cima
das colinas, a oriente, o cu
estava vermelho.
Quando ela chegou  entrada
da velha igreja de pedra, eram
quase quatro. Sofia empurrou
a porta pesada. Estava aberta!
A igreja estava deserta e
imersa num profundo silncio.
Atravs dos vitrais penetrava
uma luz azulada que tornava
visveis milhares de particulazinhas de p que andavam no
ar. O p parecia concentrar-se em raios espessos que
atravessavam a nave da igreja.
Sofia sentou-se num banco,
no centro. Observou o altar e
um velho crucifixo de cores
desmaiadas.
Passaram-se alguns minutos.
Subitamente, o rgo comeou
a tocar. Sofia no se atrevia
a voltar-se. Parecia uma melodia muito antiga; certamente, medieval.
Pouco depois, voltou o silncio. Ouviu ento passos
atrs de si que se aproximavam. Deveria olhar para trs?
Preferiu continuar a fixar
Cristo na cruz.

152
Os passos passaram ao lado
dela, e viu ento uma figura
avanar pela igreja. O vulto
trazia um hbito castanho de
monge. Sofia podia ter jurado
que se tratava de um monge medieval.
Tinha medo, mas no ficou
em pnico. O monge fez uma
curva em frente  balaustrada
do altar e subiu ao plpito.
Inclinou-se sobre o parapeito, olhou para Sofia e disse
em latim:
- Gloria Patri et Filio
et Spiritui Sancto. Sicut
erat in principio et nunc et
semper in saecula saeculorum.
Amen.
- Fala em noruegus, imbecil! - exclamou Sofia.
As suas palavras ressoaram
na antiga igreja de pedra.
Ela sabia que o monge tinha
de ser Alberto Knox. Apesar
disso, arrependeu-se de se ter
exprimido de uma forma to irreverente numa igreja antiga.
Mas tivera medo e, quando se
tem medo,  por vezes reconfortante quebrar todos os tabus.
- Silncio!
Alberto levantou uma mo,
como um sacerdote que pede 
comunidade para se sentar.
- Que horas so, filha? -
perguntou.
- Cinco para as quatro -
respondeu Sofia, que j no
tinha medo.
- Ento j  a hora. Agora comea a Idade Mdia.
- A Idade Mdia comea
s quatro horas? - perguntou
Sofia surpreendida.
- Sim, cerca das quatro.
Depois eram cinco, seis e
sete. Mas o tempo parecia parado. Passaram as oito, as
nove e as dez. Mas estava-se
ainda na Idade Mdia, compreendes? Tempo, talvez penses, de nos 
levantarmos para
um novo dia. Eu percebo o que
queres dizer. Mas  fim-de-semana, se me entendes, um
longo fim-de-semana. Passaram
as onze, doze e treze. Chamamos a esta poca a baixa Idade Mdia. Foram 
ento construdas as grandes catedrais
na Europa. S cerca das catorze horas cantou aqui e ali
um galo. E s nessa altura
comeou o seu declnio.
- Ento a Idade Mdia
durou dez horas - concluiu
Sofia.
Alberto lanou a cabea para a frente espreitando pelo
capuz do hbito de monge, e
olhou para a sua comunidade,
que naquele momento era constituda apenas por uma rapariga de catorze 
anos.
- Se uma hora dura cem
anos, sim. Podemos pensar que
Jesus nasceu  meia-noite.
Paulo iniciou as suas viagens
missionrias pouco antes da
meia noite e meia e morreu um
quarto de hora mais tarde, em
Roma. At s trs horas, a
Igreja Crist era mais ou
menos proibida, e no ano de
313 o cristianismo foi reconhecido como

153
religio no Imprio Romano.
Isso sucedeu sendo imperador
Constantino, que s foi baptizado anos mais tarde no leito de morte. No 
ano de 380,
o Cristianismo tornou-se a
religio do Estado de todo o
Imprio Romano.
- Mas o Imprio Romano
no entrou em decadncia nessa
altura?
- Sim, j estava a ruir
por todos os lados. Estamos
perante uma das mais importantes transformaes culturais
da histria. No sculo IV,
Roma foi ameaada tanto pelas
tribos que se aproximavam vindas do Norte como por conflitos internos. No 
ano de 330,
o imperador Constantino
transferiu a capital do Imprio Romano para Constantinopla, cidade que 
ele prprio
fundara  entrada do mar
Negro. A nova cidade foi
considerada a partir de ento
como a "segunda Roma". No
ano de 395, o Imprio Romano foi dividido - passou a
haver o Imprio Romano do
Ocidente, com Roma no centro, e o Imprio Romano do
Oriente, cuja capital era a
cidade de Constantinopla. Em
410, Roma foi saqueada por
tribos brbaras, e em 476 todo o Imprio Romano do Ocidente caiu. O 
Imprio Romano do Oriente conservou-se
at ao ano de 1453, quando os
turcos conquistaram Constantinopla.
- E desde ento, a cidade
chama-se Istambul?
- Correcto. Uma outra data que devemos fixar  o ano
de 529. Nesse ano, a Academia de Plato em Atenas foi
encerrada. E nesse mesmo ano,
foi fundada a Ordem Beneditina, a primeira grande ordem
monstica. Deste modo, o ano
de 529 foi o ano em que a
Igreja Crist impediu a expanso da filosofia grega. A
partir dessa altura, os conventos detinham o monoplio do
ensino, da reflexo e da meditao. A hora avanava para
as cinco e meia...
Sofia j percebera h muito
tempo o que Alberto queria
dizer com as diversas horas.
A meia noite era o ano 0, a
uma era o ano 100 d.C., as
seis eram o ano 600 d.C., e
as catorze horas eram o ano de
1400 d.C...
Alberto prosseguiu:
- Por "Idade Mdia", entendemos na realidade o tempo
que medeia entre duas outras
pocas. Esta expresso surgiu
no Renascimento. Nessa poca, a Idade Mdia era tida
como uma longa "noite de mil
anos" que tinha obscurecido a
Europa entre a Antiguidade e
o Renascimento. Ainda hoje
utilizamos a expresso "medieval" pejorativamente para tudo
o que nos parece dogmtico e
retrgrado. Mas houve tambm
quem tivesse visto a Idade
Mdia como o "crescimento milenar". Foi na Idade Mdia,
por exemplo, que se formou o
ensino pblico. Muito cedo
surgiram as primeiras escolas
nos mosteiros.

154
No sculo XII, nasceram as
escolas nas catedrais, e a
partir do sculo XIII foram
fundadas as primeiras universidades. Ainda hoje, as disciplinas esto 
divididas em
diversos grupos ou "faculdades", como na Idade Mdia.
- Mas mil anos  muito
tempo.
- O cristianismo precisava
de tempo para ser aceite pelo
povo. Alm disso, durante a
Idade Mdia nasceram as diferentes naes - com cidades
e castelos, a msica e a poesia populares. O que seriam
as lendas e as canes populares sem a Idade Mdia? Sim,
o que seria a Europa sem a
Idade Mdia? Uma provncia
romana? Mas a ressonncia de
nomes como Noruega, Inglaterra ou Alemanha reside precisamente no abismo 
extraordinrio a que chamamos Idade
Mdia. Nesta profundidade h
muitos peixes grados, mesmo
que no os possamos encontrar.
Mas Snorri era um homem da
Idade Mdia. E Olaf, o
Santo. E Carlos Magno.
Para no falar de Romeu e
Julieta, os Nibelungos, a
Branca de Neve ou os gigantes das florestas norueguesas.
E ainda um conjunto de prncipes esplndidos e reis majestosos, 
cavaleiros corajosos
e belas donzelas, annimos
pintores de vitrais e geniais
construtores de rgos. E no
mencionei os monges, os cruzados e as bruxas.
- Tambm ainda no falaste
dos sacerdotes.
- Tens razo. O cristianismo s chegou  Noruega
aps a viragem do milnio, mas
seria um exagero se afirmssemos que a Noruega se tornou
um pas cristo aps a batalha
de Stiklestad. Antigas concepes pags coexistiam com a
doutrina crist, e muitos destes elementos pr-cristos
misturavam-se com os costumes
cristos. Nas festas de Natal norueguesas, por exemplo,
coabitam ainda hoje costumes
cristos e costumes nrdicos
antigos. Subsiste a antiga
norma segundo a qual os cnjuges tendem a assemelhar-se
cada vez mais. Apesar disso,
temos de sublinhar que o cristianismo se tornou por fim a
religio dominante, pelo que,
a Idade Mdia  considerada
um perodo dominado por uma
"cultura unitria crist".
- Ento no foi apenas um
perodo obscuro e triste?
- Os primeiros cem anos a
seguir ao ano 400 trouxeram,
de facto, uma decadncia cultural. A poca romana foi notvel pelo seu 
alto grau de
civilizao, com grandes cidades que dispunham de redes pblicas de 
esgotos, termas pblicas e bibliotecas. Para
no falar da arquitectura
grandiosa. Toda esta cultura
se desmoronou durante os primeiros sculos da Idade Mdia. O mesmo 
sucedeu com o
comrcio e a economia baseados
na moeda. Na Idade Mdia, a
economia de subsistncia e o
pagamento em gneros surgiram
de novo. O feudalismo

155
caracterizou a economia. Feudalismo significa que alguns
grandes senhores possuam a
terra que os camponeses tinham
de cultivar para ganhar o seu
sustento. Durante o primeiro
sculo, a densidade populacional tambm baixou fortemente.
Roma fora na Antiguidade uma
cidade com mais de um milho
de habitantes. J no sculo
VII, a populao da antiga
metrpole estava reduzida a
quarenta mil habitantes. Uma
populao modesta caminhava
entre os restos dos opulentos
edifcios da poca urea da
cidade. Quando os homens precisavam de materiais de construo, havia 
suficientes runas antigas de que se podiam
servir, motivo de grande desgosto para os arquelogos
actuais, que teriam preferido
que os homens da Idade Mdia
tivessem deixado em paz os monumentos antigos.
-  medida que o tempo
passa, sabe-se sempre mais.
- A poca de Roma como
potncia poltica terminara
por volta de finais do sculo
IV. Mas depressa o bispo de
Roma se tornou o chefe de
toda a Igreja catlica romana. Recebeu o nome de papa
- ou "pai" - e, por fim, foi
considerado o representante de
Jesus na terra. Por isso,
durante quase toda a Idade
Mdia, Roma foi a capital da
Igreja. E no havia muitas
pessoas que ousassem "elevar a
sua voz contra Roma". Mas,
pouco a pouco, os reis e os
prncipes dos novos Estados
nacionais ganharam tanto poder
que alguns deles tinham coragem para se oporem ao forte
poderio da Igreja.
Sofia fixava o erudito monge.
- Disseste que a Igreja
encerrou a Academia de Plato em Atenas. Os filsofos
gregos foram todos esquecidos
posteriormente?
- S em parte. Havia quem
conhecesse alguns escritos de
Aristteles, e quem conhecesse alguns de Plato. Mas o
antigo Imprio Romano dividiu-se progressivamente em
trs espaos culturais distintos. Na Europa Ocidental
difundiu-se uma cultura crist
de lngua latina, com a capital em Roma. Na Europa
Oriental, formou-se uma cultura crist de lngua grega,
com a capital em Constantinopla. Mais tarde, Constantinopla recebeu o 
nome grego
de Bizncio. Falamos portanto da "Idade Mdia bizantina", por oposio  
"Idade
Mdia catlica romana". Mas
tambm o Norte de frica e o
Mdio Oriente tinham pertencido ao Imprio Romano. Estas regies 
desenvolveram na
Idade Mdia uma cultura muulmana de lngua rabe. A
seguir  morte de Maom, no
ano de 632, o Mdio Oriente
e o Norte de frica foram
conquistados para o Islo.
Em seguida, tambm a Espanha
foi anexada ao domnio cultural islmico. O Islo obteve
por exemplo os seus lugares
sagrados em Meca, Medina,
Jerusalm e Bagdad. Do ponto de vista histrico-cultural
 importante

156
reparar que os rabes tambm
tomaram a antiga cidade helenstica de Alexandria. Herdaram, assim, uma 
grande parte
da cincia grega. Durante toda a Idade Mdia, os rabes
detiveram o papel cimeiro em
cincias como a matemtica, a
qumica, a astronomia e a medicina. Ainda hoje utilizamos
"algarismos rabes". Em algumas reas, a cultura rabe era
superior  cultura crist.
- Eu gostava de saber o
que  que se passou com a filosofia grega.
- Consegues imaginar um
rio que por algum tempo se reparte em trs cursos distintos
antes de se juntarem novamente
numa grande corrente?
- Estou a imaginar.
- Ento tambm consegues
imaginar como a cultura greco-romana foi transmitida, em
parte, atravs da cultura catlica romana no Ocidente, em
parte atravs da cultura romana no Oriente e em parte
atravs da cultura rabe, no
Sul. Mesmo que simplifiquemos muito, podemos dizer que o
neoplatonismo sobreviveu no
Ocidente, Plato no Oriente
e Aristteles no Sul, entre
os rabes.  importante o
facto de todos os trs cursos
terem confludo numa corrente
no final da Idade Mdia, no
norte de Itlia. Na Espanha, os rabes contribuam com
influncias rabes, a Grcia
e Bizncio com influncias
gregas. E comea ento o Renascimento, inicia-se o "renascer" da cultura 
antiga. De
certo modo, a cultura antiga
sobrevivera  longa Idade
Mdia.
- Compreendo.
- Mas no nos devemos antecipar ao curso dos acontecimentos. Primeiro, 
vamos conversar um pouco acerca da filosofia da Idade Mdia, minha filha. 
E no te vou falar
mais do plpito. Vou descer.
Sofia sentia os olhos pesados de sono. Ao ver o estranho monge descer do 
plpito da
Igreja de Santa Maria, parecia-lhe estar a sonhar.
Alberto dirigiu-se para a
balaustrada do altar. Primeiro, olhou para o altar com o
velho crucifixo. Depois, voltou-se para Sofia, foi ter
com ela a passos lentos e sentou-se ao seu lado no banco.
Era estranho estar to perto dele. Sob o capuz, Sofia
viu dois olhos castanhos de um
homem de meia-idade, de cabelos escuros e pra.
Quem s tu? pensou ela.
Porque  que apareceste na
minha vida?
- Havemos de nos conhecer
melhor - afirmou ele, como se
lhe tivesse lido os pensamentos.
Enquanto ali permaneciam, a
luz que entrava na igreja
atravs dos vitrais tornava-se
cada vez mais clara. Alberto
Knox comeou ento a falar da
filosofia medieval.

157
- Os filsofos medievais
aceitaram como um dado adquirido que o cristianismo era a
verdade - comeou ele. - As
questes principais eram outras: temos simplesmente que
acreditar na revelao crist
ou podemos tambm chegar s
verdades crists com o auxlio
da razo? Como era a relao
entre os filsofos gregos e as
doutrinas da Bblia? Existia
uma contradio entre a Bblia e a razo, ou a f e o
saber estavam de acordo? Quase toda a filosofia medieval
girava em torno desta questo.
Sofia acenou a cabea com
impacincia. J respondera a
esta questo da f e do saber
no seu trabalho de religio.
- Vamos ver como esta problemtica se situa nos filsofos mais 
importantes da Idade
Mdia e podemos comear com
Santo Agostinho, que viveu
entre 354 e 430. Na vida
deste homem podemos estudar a
passagem da Antiguidade tardia ao incio da Idade Mdia. Santo Agostinho 
nasceu
na vila de Tagaste, no norte
de frica, mas com dezasseis
anos foi estudar para Cartago. Mais tarde, visitou Roma
e Milo e passou os ltimos
anos da sua vida como bispo de
Hipona, a trinta ou quarenta
quilmetros a oeste de Cartago. Mas ele no foi sempre
cristo. Santo Agostinho conheceu muitas correntes filosficas e 
religiosas antes de
se converter ao cristianismo.
- Podes dar-me exemplos?
- Durante algum tempo, foi
maniqueu. Os maniqueus pertenciam a uma seita tpica da
Antiguidade tardia. Proclamavam uma teoria da salvao
em parte religiosa e em parte
filosfica. Dividiam o mundo
em bem e mal, luz e trevas,
esprito e matria. Atravs
do seu esprito, os homens podiam elevar-se acima do mundo
material e deste modo criar a
base para a salvao da sua
alma. Mas a rigorosa separao entre o bem e o mal no
dava descanso a Santo Agostinho. O jovem Agostinho
ocupava-se sobretudo com aquilo a que costumamos chamar "o
problema do mal". Por este
problema, devemos entender a
questo da origem do mal.
Durante algum tempo, ele foi
influenciado pela filosofia
estica, e os esticos negavam
uma separao clara entre o
bem e o mal. Mas acima de tudo, Santo Agostinho foi influenciado por uma 
outra corrente filosfica importante da
Antiguidade tardia - o neoplatonismo, que defendia que
tudo o que existia era de natureza divina.
- E tornou-se ento um
bispo neoplatnico?
- Sim, talvez o possas dizer assim. Primeiro que tudo,
tornou-se cristo, mas o cristianismo de Santo Agostinho
, em grande parte, influenciado pelo pensamento platnico. E por isso, 
Sofia, no
h uma ruptura dramtica com a
filosofia grega quando entramos na Idade

158
Mdia crist. Boa parte da
filosofia grega foi levada
para a nova poca por padres
da Igreja como Santo Agostinho.
- Queres dizer que Santo
Agostinho era cinquenta por
cento cristo e cinquenta por
cento neoplatnico?
- Ele achava-se obviamente
cem por cento cristo. Mas
no via nenhuma contradio
profunda entre o cristianismo
e a filosofia platnica. Os
paralelismos entre a filosofia
de Plato e a doutrina crist
pareciam-lhe to evidentes que
se questionava se Plato no
poderia ter conhecido pelo menos partes do Antigo Testamento, o que  
naturalmente
muito duvidoso. Podemos, pelo
contrrio, afirmar que Santo
Agostinho "cristianizou"
Plato.
- Pelo menos no rejeitou
tudo o que tinha a ver com filosofia, apesar de acreditar
no cristianismo?
- Mostrou que h limites
para o alcance da razo em
questes religiosas. O cristianismo  tambm um mistrio
divino ao qual s podemos chegar atravs da f. Mas quando
acreditarmos no cristianismo,
Deus "iluminar" a nossa
alma, e ento obteremos uma
espcie de saber sobrenatural
acerca de Deus. O prprio
Santo Agostinho sentira que
a filosofia no podia ser ilimitada. A sua alma s encontrou descanso 
quando ele se
tornou cristo. "Agitado est
o nosso corao, enquanto no
repousa em Ti" escreveu.
- Eu no compreendo bem
como  que a teoria das ideias
de Plato se pde conciliar
com o cristianismo - objectou
Sofia. - O que  que sucede
s ideias eternas?
- Santo Agostinho explica
que Deus criou o mundo do nada, e isso  uma ideia bblica. Os gregos 
inclinavam-se
mais para a ideia de que o
mundo existira sempre. Mas,
segundo S. Agostinho, antes
de Deus ter criado o mundo as
"ideias" existiam no pensamento de Deus. Ele atribuiu as
ideias eternas a Deus e salvou deste modo a concepo
platnica da ideia eterna.
- Muito inteligente!
- Mas isso tambm mostra
como Santo Agostinho e muitos outros padres da Igreja
se esforaram por conciliar o
pensamento grego e o hebraico.
De certo modo, eram cidados
de duas culturas. Na sua concepo do mal, tambm recorre
ao neoplatonismo. Achava, como Plotino, que o mal consistia na "ausncia" 
de Deus. O
mal no tem uma existncia
prpria,  algo que no ,
porque a Criao de Deus 
apenas boa. O mal surge atravs da desobedincia dos homens, segundo 
Santo Agostinho. Ou, usando as suas prprias palavras: a "boa vontade"  
"obra de Deus", a "m
vontade"  a "negao da obra
de Deus".

159
- Tambm acreditava que o
homem possui uma alma imortal?
- Sim e no. Santo Agostinho explica que entre Deus
e o mundo existe um abismo insupervel. Baseia-se no fundamento bblico e 
rejeita a
teoria de Plotino, segundo a
qual tudo  uno. Mas Santo
Agostinho tambm salienta que
o homem  um ser espiritual.
Possui um corpo material -
que pertence ao mundo fsico e
 corrompido pelos agentes naturais -, mas ele tambm tem
uma alma que pode conhecer
Deus.
- O que  que acontece 
alma quando morremos?
- Segundo Santo Agostinho, toda a gerao humana foi
condenada aps o pecado original. Apesar disso, Deus decidiu que alguns 
homens deviam
ser poupados  condenao
eterna.
- Mas ento tambm podia
ter decidido que ningum devia
estar condenado - objectou
Sofia.
- Mas, nesse ponto, Santo
Agostinho nega que o homem
tenha direito a criticar
Deus. Sustenta o que Paulo
escreveu na sua "Epstola aos
Romanos": " homem, quem s
tu para disputares com Deus?
Acaso uma obra tambm diz a
quem a fez: porque  que me
fizeste assim? Porventura um
oleiro no tem poder para fazer da mesma massa um vaso
para bom uso e outro para uso
vil?"
- Ento Deus est no cu
e brinca com os homens? Quando alguma coisa daquilo que
ele mesmo criou no lhe serve,
deita-a imediatamente fora?
-  que, para Santo
Agostinho, nenhum homem 
digno da salvao de Deus.
No entanto, Deus escolheu
alguns que devem ser salvos da
condenao. Para ele, no 
pois um segredo quem  que
deve ser salvo e quem  que
deve ser condenado. Isso est
determinado previamente. Logo, ns somos barro nas mos
de Deus. Estamos completamente dependentes da Sua graa.
- Ento ele voltou de certo modo  antiga crena no
destino.
- Talvez tenhas razo nisso. Mas Santo Agostinho no
retira ao homem a responsabilidade pela sua prpria vida.
Segundo o seu ponto de vista,
ns devemos viver de modo a
podermos saber que pertencemos
ao nmero dos eleitos. No
nega que tenhamos livre arbtrio. S que Deus j "previu" como  que 
vamos viver.
- Isso no  um pouco injusto? - perguntou Sofia -
Scrates acreditava que todos
os homens tinham as mesmas
possibilidades por partilharem
a mesma razo. Mas Santo
Agostinho separava os homens
em dois grupos. Um dos grupos
 salvo, o outro  condenado.
- Sim, com a teologia de
Santo Agostinho afastamo-nos
do humanismo de Atenas. Mas
no era Santo Agostinho que
dividia a

160
humanidade em dois grupos.
Ele baseia-se na doutrina da
Bblia acerca da salvao e
da condenao. Na sua grande
obra A Cidade de Deus, explica-o mais exactamente.
- Conta!
- A expresso "cidade de
Deus" ou "reino de Deus" vem
da Bblia e da mensagem de
Jesus. Santo Agostinho
acreditava que a histria trata do modo como o combate entre a "cidade de 
Deus" e a
"cidade terrena"  conduzido.
Estas duas cidades no so
Estados polticos distintos
um do outro. Lutam pelo poder
em cada homem. A cidade de
Deus est presente na Igreja
e a cidade terrena nos Estados polticos - por exemplo,
no Imprio Romano, que comeou a desagregar-se precisamente na poca de 
Santo
Agostinho. Esta concepo
tornou-se cada vez mais evidente  medida que a Igreja e
o Estado lutavam pelo poder
durante toda a Idade Mdia.
"No h salvao fora da
Igreja", dizia-se. A cidade
de Deus de Santo Agostinho
era inclusivamente comparada 
Igreja como instituio. S
durante a Reforma, no sculo
XVI, se levantou um protesto
contra a ideia de que o homem
tinha que percorrer o caminho
da Igreja para obter a graa
divina.
- J no era sem tempo.
- Tambm podemos notar que
Santo Agostinho foi o primeiro dos nossos filsofos a
incluir a histria na sua filosofia. A aceitao de um
combate entre o bem e o mal
no era nada de novo. A novidade em Santo Agostinho 
que este combate  disputado
na histria. Deste ponto de
vista, no encontramos nele
muito platonismo. Em vez disso, apoia-se firmemente na
concepo linear da histria
que encontramos no Antigo
Testamento.  que para Santo Agostinho Deus precisa de
toda a histria para erigir a
sua "cidade de Deus". A histria  necessria para instruir os homens e 
destruir o
mal. Em certo passo, Santo
Agostinho afirma que a providncia divina dirige a histria da humanidade 
desde Ado
at ao fim da histria, tal
como a histria de um nico
homem que se vai desenrolando
progressivamente desde a infncia at  velhice.
Sofia olhou para o relgio.
- J so oito horas -
afirmou - tenho de ir.
- Mas primeiro, vou falar-te do segundo grande filsofo da Idade Mdia. 
Vamos
sentar-nos l fora?
Alberto levantou-se do banco. Juntou as palmas das mos
e avanou pela nave. Parecia
rezar ou meditar em verdades
espirituais. Sofia seguia-o;
parecia-lhe no ter outra escolha.

161
L fora, uma fina camada de
neblina cobria ainda o solo.
O Sol nascera h muitas horas, mas ainda no conseguira
dissolver a neblina matinal.
A igreja de Santa Maria ficava junto ao bairro antigo.
Alberto sentou-se num banco
em frente da igreja. Sofia
pensou no que sucederia se algum passasse naquele momento.
J era bastante estranho estar ali sentada num banco, s
oito da manh; e o facto de
ter por companhia um monge da
Idade Mdia ainda era mais
estranho.
- So oito horas - comeou ele. - Desde Santo
Agostinho passaram quatro sculos, e agora comea o longo
dia de escola. At s dez horas, os mosteiros detm o monoplio do 
ensino. Entre as
dez e as onze, so estabelecidas as primeiras escolas nas
catedrais, e cerca das doze
horas so fundadas as primeiras universidades. Alm disso, so 
construdas as grandes
catedrais. Esta igreja tambm
foi construda cerca das doze
horas - ou na chamada baixa
Idade Mdia. Aqui, nesta
cidade, no podiam construir
catedrais maiores.
- Tambm no era preciso
- interrompeu Sofia. - Detesto ver as igrejas vazias.
- Mas as grandes catedrais
no foram construdas apenas
para acolherem grandes multides. Foram erigidas em honra
de Deus e tinham por si s
uma espcie de funo religiosa. Mas na baixa Idade Mdia sucedeu uma 
outra coisa
que  muito interessante para
filsofos como ns.
- Conta!
Alberto prosseguiu:
- Nessa altura, a influncia dos rabes era dominante
na Espanha. Os rabes tinham
conservado viva durante toda a
Idade Mdia uma tradio
aristotlica e, a partir aproximadamente de 1200, eruditos
rabes foram para o Norte de
Itlia a convite dos prncipes locais. Assim, muitos dos
seus escritos foram divulgados
e por fim traduzidos do grego
e do rabe para o latim. E
isso, por seu lado, criou um
novo interesse no que diz respeito s cincias da natureza.
Alm disso, foi de novo equacionada a relao entre a revelao crist e 
a filosofia
grega. Nas questes das cincias naturais, todos os caminhos passavam por 
Aristteles. Mas quando  que se devia escutar o "filsofo" - e
quando  que se devia ater exclusivamente  Bblia? Ainda
ests a seguir?
Sofia acenou vivamente que
sim e o monge prosseguiu:
- O maior e mais importante filsofo da baixa Idade
Mdia foi S. Toms de
Aquino, que viveu entre
1225 e 1274. Era natural da
pequena vila de Aquino entre
Roma e Npoles, mas ensinou
em Paris. Eu chamo-lhe filsofo, mas ele era igualmente
telogo. Nessa

162
altura, no havia uma verdadeira separao entre filosofia e teologia. 
Muito resumidamente, podemos dizer que S.
Toms "cristianizou" Aristteles, da mesma forma que
Santo Agostinho o fizera com
Plato no incio da Idade
Mdia.
- No era um pouco estranho cristianizar filsofos que
tinham vivido tantos sculos
antes de Cristo?
- Sim, mas por "cristianizao" dos dois grandes filsofos gregos 
entendemos que
eles foram interpretados e entendidos de forma a no constiturem uma 
ameaa para a
doutrina crist. Acerca de
S. Toms de Aquino, diz-se
que "agarrou o touro pelos
cornos".
- Eu realmente no sabia
que a filosofia tinha alguma
coisa a ver com tourada.
- S. Toms de Aquino fazia parte daqueles que queriam
conciliar a filosofia de
Aristteles com o cristianismo. Dizemos que ele realizou
a grande sntese entre f e
saber. E conseguiu-o porque
partiu da filosofia de Aristteles e a tomou  letra.
- Ou pelos cornos. Infelizmente, esta noite quase no
dormi e por isso receio que
tenhas de me explicar isso melhor.
- S. Toms de Aquino no
acreditava numa contradio
inevitvel entre o que a filosofia ou a razo, por um lado,
e a revelao crist ou a f,
por outro, nos dizem. Frequentemente, o cristianismo e
a filosofia dizem-nos o mesmo.
Por isso, podemos examinar
com a ajuda da razo as mesmas
verdades que lemos na Bblia.
- Mas como  que isso 
possvel? Pode a razo dizer-nos que Deus criou o mundo
em seis dias? Ou que Jesus
era filho de Deus?
- No, s podemos ter
acesso a essas "verdades de
f" atravs da f e da revelao crist. Mas S. Toms de
Aquino achava que havia tambm uma srie de "verdades
teolgicas naturais", ou seja,
verdades que podem ser alcanadas tanto atravs da revelao crist como 
atravs da
nossa razo inata ou "natural". Uma verdade dessas ,
por exemplo, dizer-se que
Deus existe. S. Toms acreditava portanto em dois caminhos que levam a 
Deus. Um
dos caminhos passa pela f e
pela revelao, o outro pela
razo e pelos sentidos. Das
duas vias, a que passa pela f
e pela revelao  a mais segura, porque podemos facilmente errar se 
confiarmos apenas
na razo. Mas para S. Toms
no  preciso haver nenhuma
contradio entre a doutrina
crist e um filsofo como
Aristteles.
- Ento podemos confiar
tanto em Aristteles como na
Bblia?
- No, no. Aristteles
s percorre uma parte do caminho, porque no conheceu a revelao crist. 
Mas percorrer
apenas uma parte do caminho
no significa enganar-se. Por
exemplo, no  falso dizer

163
que Atenas fica na Europa.
Mas tambm no  muito preciso. Quando um livro apenas te
informa que Atenas  uma cidade europeia, devias consultar ainda um 
atlas. E a ficas a saber toda a verdade:
Atenas  a capital da Grcia, um pequeno pas no sudeste da Europa. Se 
tiveres
sorte, talvez fiques ainda a
saber alguma coisa sobre a
Acrpole. Para no falar de
Scrates, Plato e Aristteles.
- Mas a primeira informao acerca de Atenas tambm
estava correcta.
- Exacto! S. Toms quer
mostrar que h apenas uma verdade. Quando Aristteles
apresenta algo que reconhecemos como verdadeiro por intermdio da razo, 
isso no entra
em contradio com a doutrina
crist. Podemos obter uma
parte da verdade com a ajuda
da razo e da observao - e
Aristteles fala acerca dessas verdades quando, por exemplo, descreve o 
reino vegetal
e o reino animal. Uma segunda
parte da verdade foi-nos revelada por Deus atravs da
Bblia. Mas as duas partes
da verdade coincidem em muitos
pontos importantes. H algumas perguntas a que a Bblia
e a razo nos respondem exactamente da mesma maneira.
- Por exemplo, que Deus
existe?
- Exacto. A filosofia de
Aristteles tambm pressupunha que Deus existe - ou uma
primeira causa que pe em movimento todos os processos naturais. Mas no 
descreve
Deus mais detalhadamente.
A, temos de nos basear na
Bblia e na mensagem de Jesus.
- Mas  mesmo verdade que
Deus exista realmente?
- Isso  obviamente discutvel. Mas, ainda hoje, a
maior parte das pessoas admitiria que pelo menos a nossa
razo no pode provar que
Deus no existe. S. Toms
foi mais longe. Acreditava
poder provar a existncia de
Deus com base na filosofia de
Aristteles.
- Nada mau!
- Segundo ele, com a razo
tambm podemos reconhecer que
tudo tem de ter uma "primeira
causa". Deus, para S. Toms, revelou-se aos homens por
meio da Bblia e por meio da
razo. Logo, h uma teologia
"revelada" e uma teologia "natural". O mesmo se passa no
domnio da moral. Podemos ler
na Bblia como  que devemos
viver segundo a vontade de
Deus. Mas Deus tambm nos
dotou de uma conscincia que
nos habilita a distinguir o
justo do injusto numa base
"natural". Tambm existem
"duas vias" para a vida moral.
Podemos saber que no devemos
maltratar os outros mesmo que
no tenhamos lido na Bblia
que devemos tratar os outros
como gostaramos de ser tratados por eles. Mas, tambm
neste caso, os mandamentos da
Bblia so a norma mais segura.

164
- Acho que estou a perceber - disse ento Sofia. -
Da mesma forma, podemos saber
que h uma trovoada quando vemos o relmpago e ouvimos o
trovo.
-  isso. Mesmo que sejamos cegos, podemos ouvir o
trovo. E mesmo que sejamos
surdos, podemos ver a trovoada.  bvio que o melhor 
poder ver e ouvir. Mas no h
nenhuma contradio entre
aquilo que vemos e o que ouvimos. Pelo contrrio - as
duas impresses enriquecem-se
mutuamente.
- Compreendo.
- Deixa-me dar mais um
exemplo. Quando ls um romance - por exemplo Vitria
de Knut Hamsun... ()
- De facto, j o li...
- ... no descobres tambm
alguma coisa acerca do autor,
s porque ls o romance escrito por ele?
- Pelo menos posso partir
do princpio de que h um autor que escreveu o livro.
- Podes saber algo mais
acerca dele?
- Acho que tem uma concepo bastante romntica do
...................
Knut Hamsun (1859-1952) - Escritor noruegus, autor de Fome
(1890), Pan (1894),
Vitria (1898) e Frutos da Terra (1917).
Recebeu em 1920 o Prmio
Nobel da Literatura.
amor.
- Ao leres esse romance -
uma criao de Hamsun -,
tambm ficas a saber qualquer
coisa acerca do prprio Hamsun. Mas no podes esperar
informaes muito pessoais sobre o autor. Podes, por exemplo, saber 
atravs de Vitria que idade tinha o autor
quando o escreveu, onde morava
ou quantos filhos tinha?
- Claro que no.
- Mas uma biografia acerca
de Knut Hamsun fornece-te
esse tipo de informaes. S
numa biografia - ou autobiografia - podes conhecer melhor a pessoa do 
autor.
- Sim,  verdade.
- A relao entre a Criao de Deus e a Bblia 
mais ou menos assim. Se observarmos a natureza, podemos
saber que Deus existe. Pode
mos ver que ele gosta de flores e de animais, de outra
forma no os teria criado.
Mas s encontramos informaes acerca de Deus na Bblia - ou seja, na 
autobiografia de Deus.
- Esse  um exemplo inteligente.
- Mm...
Pela primeira vez, Alberto
mergulhou nos seus pensamentos
e no deu resposta.

165
- Isso tem alguma coisa a
ver com Hilde? - perguntou
Sofia.
- Ns nem sequer sabemos
se Hilde existe.
- Mas descobrimos aqui e
ali vestgios dela. Postais e
um leno de seda, uma carteira
verde, uma meia...
Alberto acenou afirmativamente.
- E parece depender do pai
de Hilde o nmero de pistas
que quer deixar. Mas, at
agora, s sabemos que existe
uma pessoa que escreve os postais. Acho que ele devia tambm escrever 
qualquer coisa
acerca de si mesmo. Mas ainda
havemos de voltar a falar sobre isso.
- So doze horas. Eu tenho mesmo de voltar para casa
antes do fim da Idade Mdia.
- Vou concluir dizendo em
poucas palavras como  que S.
Toms de Aquino adoptou a
filosofia de Aristteles em
todos os domnios que no colidiam com a teologia da
Igreja. Isso  vlido para a
sua lgica, a sua filosofia do
conhecimento e ainda para a
sua filosofia da natureza.
Ainda te lembras do modo como
Aristteles descreveu uma escala ascendente da vida, desde
as plantas e os animais, at
ao homem?
Sofia acenou afirmativamente.
- J Aristteles acreditava que esta escala remetia
para um Deus que representava
uma espcie de vrtice mximo
da existncia. Este esquema
era facilmente adaptvel 
teologia crist. S. Toms
acreditava num grau de existncia crescente, desde as
plantas e os animais at aos
homens, dos homens at aos anjos, e dos anjos at Deus. O
homem, tal como os animais,
possui um corpo com rgos dos
sentidos, mas o homem tambm
possui uma razo que pensa.
Os anjos no tm corpo nem
rgos dos sentidos, mas em
vez disso tm uma inteligncia
directa e imediata. No precisam de "discorrer", como os
homens, no precisam de fazer
dedues. Sabem tudo o que os
homens podem saber, mas no
precisam de avanar progressivamente s apalpadelas como
ns. Uma vez que os anjos no
tm corpo, nunca vo morrer.
No so eternos como Deus,
visto que tambm eles foram
criados por Deus, mas no tm
um corpo do qual poderiam ser
separados, e por isso nunca
ho-de morrer.
- Isso soa maravilhosamente.
- Mas acima dos anjos reina Deus, Sofia. Ele pode
ver e saber tudo numa nica
viso de conjunto.
- Nesse caso, tambm nos
est a ver agora.
- Sim, talvez nos esteja a
ver. Mas no "agora". Para
Deus, o tempo no existe como
para ns. O nosso "agora" no
 o "agora" de Deus. O facto
de passarem algumas semanas
para ns no significa que
tambm passem para Deus.

166
- Mas isso  inquietante!
- exclamou Sofia, colocando
a mo na boca. Alberto olhou
para ela, e Sofia explicou:
- Recebi novamente um postal do pai de Hilde. Escreveu qualquer coisa 
assim: "Se
passa uma semana ou duas para
Sofia, no significa que passe o mesmo tempo para ns." 
quase o mesmo que disseste sobre Deus!
Sofia viu que o rosto no
capuz castanho se contorceu
num veemente trejeito.
- Ele devia ter vergonha!
Sofia no percebeu o que
Alberto queria dizer com
aquilo. Talvez fosse apenas
uma maneira de falar. E prosseguiu:
- Infelizmente, S. Toms
de Aquino tambm adoptou a
concepo aristotlica da mulher. Talvez ainda te lembres
que, para Aristteles, a mulher era uma espcie de homem
imperfeito. Ele achava ainda
que os filhos apenas herdavam
as caractersticas do pai,
porque a mulher era passiva,
enquanto o homem era activo.
Segundo S. Toms, estas reflexes estavam de acordo com
as palavras da Bblia - onde
est escrito, por exemplo, que
a mulher foi criada da costela
do homem.
- Que disparate!
- Talvez seja importante
acrescentar que os mecanismos
de ovulao nos mamferos s
foram descobertos em 1827.
Por isso, talvez no fosse de
surpreender que o homem fosse
considerado aquele que fornece
a forma e d a vida na reproduo. Podemos tambm notar
que para S. Toms a mulher
s era inferior ao homem enquanto criatura fsica. Para
ele, a alma da mulher  to
importante como a do homem.
No cu, h igualdade entre os
sexos, muito simplesmente porque j no h diferenas corporais entre os 
sexos.
- Mas isso  um fraco consolo. Na Idade Mdia no
havia filsofas?
- Na Idade Mdia, a
Igreja era fortemente dominada pelos homens. Mas isso no
significa que no tenha havido
pensadoras. Uma delas era
Hildegard von Bingen...
Sofia arregalou os olhos:
- Ela tem alguma coisa a
ver com Hilde?
- Que perguntas fazes!
Hildegard viveu entre 1098 e
1179 como freira na Rennia.
Era mulher, mas no entanto
foi pregadora, escritora, mdica, botnica e cientista.
Foi um exemplo de que na
Idade Mdia as mulheres eram
frequentemente mais prticas
- e mesmo mais cientficas -
que os homens.
- Eu perguntei se ela tem
alguma coisa a ver com Hilde!

167
- Existe uma antiga concepo crist e hebraica segundo a qual Deus no  
apenas homem. Ele tambm tem um
lado feminino ou "natureza maternal". Porque tambm a mulher foi criada  
imagem de
Deus. Em grego, este lado
feminino de Deus chamava-se
Sophia. "Sophia" ou "sofia" significa "sabedoria".
Sofia abanou a cabea perplexa. Porque  que nunca
ningum lho dissera? E porque
 que nunca fizera perguntas
acerca disso?
Alberto prosseguiu:
- Entre os Judeus e na
Igreja grega ortodoxa, "sophia" - ou a natureza maternal de Deus - 
desempenhou um
papel determinado durante a
Idade Mdia. No ocidente
caiu em esquecimento. Mas depois veio Hildegard. Ela
conta que Sofia lhe apareceu
em vises. Tinha uma tnica
dourada enfeitada de pedras
preciosas...
Nesse momento, Sofia levantou-se bruscamente do banco. Sophia mostrara-se 
a
Hildegard em vises...
- Talvez eu tambm aparea
a Hilde.
Voltou a sentar-se. Pela
terceira vez, Alberto colocou-lhe a mo no ombro.
- Isso  o que temos de
descobrir. Mas  quase uma
hora. Tens de ir para casa
almoar e ns temos  nossa
frente uma nova poca. Vou
marcar-te um encontro no Renascimento. Hermes ir buscar-te ao jardim.
E com isto o estranho monge
levantou-se e caminhou em direco  igreja. Sofia ficou
sentada pensando em Hildegard
e Sophia, Hilde e Sofia.
De repente, sentiu um calafrio na espinha. Levantou-se
de um pulo e chamou pelo professor de filosofia disfarado
de monge.
- Na Idade Mdia havia
algum Alberto?
Alberto retardou um pouco
os seus passos, virou a cabea
e disse:
- S. Toms de Aquino
teve um professor de filosofia
famoso. Chamava-se Alberto
Magno!
Com isto, inclinou a cabea
e desapareceu na entrada da
igreja de Santa Maria.
Sofia no se deu por satisfeita. Voltou tambm  igreja. Mas esta estava 
completamente vazia. Ter-se-ia ele
afundado no cho?
Ao deixar a igreja, o seu
olhar poisou numa imagem de
Nossa Senhora. Aproximou-se
e examinou-a com mincia. De
repente, descobriu uma gota de
gua por baixo de um dos olhos
da imagem. Seria uma lgrima?
Sofia precipitou-se para
fora da igreja e correu para
casa de Jorunn.

168
O Renascimento
...  estirpe divina em
vestes humanas...

Jorunn estava em frente 
casa amarela quando, por volta
da uma e meia, Sofia chegou
esbaforida ao porto do jardim.
- Estiveste fora mais de
dez horas - exclamou Jorunn.
Sofia abanou a cabea.
- Estive fora durante mais
de mil anos.
- Onde  que estiveste?
- Tive um encontro com um
monge da Idade Mdia. Uma
pessoa estranha.
- Ests doida. A tua me
telefonou h meia hora.
- E o que  que lhe disseste?
- Disse que tinhas ido ao
quiosque.
- O que  que ela respondeu?
- Disse que telefonasses
quando voltasses. Com os meus
pais, o caso foi mais grave.
Cerca das dez horas, levaram-nos o pequeno-almoo. E
nessa altura, uma das camas
estava vazia.
- O que  que disseste?
- Foi extremamente desagradvel. Disse que nos tnhamos zangado e que tu 
tinhas
voltado para casa.
- Nesse caso, temos de fazer rapidamente as pazes. E
durante alguns dias os teus
pais no podem falar com a minha me. Achas que vamos conseguir?
Jorunn encolheu os ombros.
Em seguida, o pai dela apareceu no jardim com um carrinho
de mo. Trazia um fato-macaco. Tinha decidido limpar do
jardim a folhagem que cara no
ltimo ano.
- Ento, de novo unha com
carne? - perguntou - J no
h uma nica folha em frente 
janela da cave.
- Que bom - respondeu
Sofia. - Assim, podemos tomar l o cacau em vez de o tomarmos na cama.
:,

169
O pai fez um sorriso forado e Jorunn estremeceu. Na
casa de Sofia nunca se dera
tanta ateno a uma linguagem
cuidada como na casa do conselheiro financeiro Ingebrigtsen e da sua 
esposa.
- Desculpa, Jorunn. Mas
achava que tambm tinha de entrar na histria.
- Vais contar-me alguma
coisa?
- Se me levares a casa. A
histria no diz respeito a
conselheiros financeiros ou a
Barbies crescidas.
- Tu s horrvel. Achas
que um casamento falhado que
leva uma das partes  vida do
mar  melhor?
- Claro que no. Esta
noite quase no dormi. E comeo a perguntar-me se Hilde
no estar ver tudo o que fazemos.
Caminharam lentamente para
Klverveien.
- Achas que ela  vidente?
- Talvez sim. Ou talvez
no.
Era evidente que Jorunn
comeava a fartar-se de todos
aqueles segredos.
- Mas isso no explica
porque  que o pai lhe envia
postais sem sentido para uma
cabana abandonada no bosque.
- Admito que esse seja um
ponto fraco.
- No me queres contar
onde estiveste?
Sofia contou. Falou tambm
do seu curso de filosofia secreto. Para isso, obteve de
Jorunn a promessa solene de
que tudo ficaria entre elas.
Caminharam algum tempo em
silncio lado a lado.
- No estou a gostar disto
- disse Jorunn,  medida que
se aproximavam de
Klverveien, 3. Parou em
frente do porto do jardim e
voltou para trs.
- Ningum te pediu que
gostasses. Mas a filosofia 
importante. Trata de quem somos e de onde viemos.
Aprendemos alguma coisa acerca disso na escola?
- Mas ningum pode responder a essas perguntas.
- Ns nem sequer aprendemos a pr estas questes.
Quando Sofia entrou na cozinha, o almoo j estava na
mesa. No se falou acerca do
facto de no ter telefonado da
casa de Jorunn.
Depois do almoo, quis fazer uma sesta. Confessou no
ter dormido quase nada em casa
de Jorunn. Mas isso no era
estranho para uma visita de
uma noite.
Antes de ir para a cama,
colocou-se em frente ao grande
espelho de lato que pendurara
na parede. Primeiro, apenas
viu o seu prprio

170
rosto cansado e plido. Mas
em seguida - por detrs do
seu prprio rosto, pareciam
emergir subitamente os contornos dbeis de um outro rosto.
Sofia respirou profundamente. Desta vez no podia estar
a imaginar nada. Em contornos
ntidos, via o seu rosto plido, que os cabelos negros
emolduravam, cabelos que apenas serviam para fazer o penteado "cabelos 
lisos" naturais. Mas por baixo ou por
detrs deste rosto aparecia o
rosto de uma outra pessoa.
De repente, a rapariga estranha do espelho piscou energicamente os olhos. 
Parecia
querer avisar que estava, de
facto, do outro lado do espelho. Poucos segundos depois,
desapareceu.
Sofia sentou-se na cama.
Tinha a certeza de ter visto
o rosto de Hilde no espelho.
Uma vez, durante alguns segundos, vira a fotografia de
Hilde num carto da escola,
na cabana do major. Tinha de
ser a mesma rapariga que surgira agora no espelho.
No era estranho que estas
coisas misteriosas lhe sucedessem sempre quando estava
exausta? Por isso se interrogava depois se no tinha sido
uma fantasia.
Sofia colocou a roupa sobre
a cadeira e enfiou-se na cama.
Adormeceu imediatamente.
Teve um sonho extremamente
intenso e claro.
Sonhou que estava num grande jardim que dava para um
barraco para barcos, vermelho. Na doca, junto ao barraco, estava 
sentada uma rapariga loira que olhava para o
lago. Sofia foi ter com ela e
sentou-se ao seu lado. Mas a
rapariga desconhecida no pareceu notar a sua presena.
Sofia apresentou-se. "Eu
chamo-me Sofia." Mas a desconhecida no a conseguia ver
nem ouvir. "Deves ser surda e
muda", afirmou Sofia. E a
desconhecida era na realidade
surda s palavras de Sofia.
De repente, Sofia ouviu uma
voz a chamar: "Hilde!". A
rapariga saltou da doca e correu em direco  casa. Era
evidente que no podia ser
cega nem surda. Um homem de
meia-idade foi em direco a
ela. Vestia um uniforme e
trazia uma bina azul. A desconhecida atirou-se ao pescoo
do homem e ele andou com ela 
roda. Sofia encontrou ento 
beira da doca, onde a rapariga
se sentara, um colar com um
pequeno crucifixo de ouro.
Apanhou-o e manteve-o na mo.
Depois, acordou.
Sofia olhou para o relgio.
Tinha dormido duas horas.
Sentou-se na cama e reflectiu
sobre aquele estranho sonho.
Tinha sido to intenso e claro como um acontecimento verdadeiro. Sofia 
tinha a certeza de que a casa e a doca do
seu sonho existiriam algures.
No havia uma semelhana com
o quadro que vira na cabana do
major? De qualquer modo, tinha a certeza de que a rapariga do seu sonho 
era

171
Hilde Mller Knag e o homem
o pai dela que voltava do
Lbano. No sonho, ele fazia
lembrar um pouco Alberto
Knox...
Quando Sofia se levantou
para fazer a cama descobriu
debaixo do travesseiro um colar com um crucifixo de ouro.
No lado de trs do crucifixo
estavam gravadas trs letras:
"HMK".
No era a primeira vez que
Sofia encontrava um tesouro
num sonho, mas nunca tinha
conseguido transportar um tesouro de um sonho para a realidade.
- Que diabo! - exclamou
alto para si mesma.
Estava to furiosa que
abriu violentamente a porta do
armrio e atirou o belo colar
para junto do leno de seda, a
meia branca e os postais do
Lbano.
No domingo de manh, Sofia
foi acordada para tomar um
grande pequeno-almoo com torradas, sumo de laranja, ovos e
salada. Aos domingos, a me
raramente se levantava antes
de Sofia. E quando isso
acontecia, era para ela uma
questo de honra preparar um
suculento pequeno-almoo de
domingo antes de acordar Sofia.
Ao pequeno-almoo, a me
disse:
- Est um co desconhecido
no jardim. Andou  volta da
sebe velha toda a manh. Tens
ideia de onde possa ter vindo?
- Sim, claro - exclamou
Sofia, e mordeu imediatamente
os lbios com fora.
- J esteve aqui outras
vezes?
Sofia j se tinha levantado
e ido  janela da sala de estar. Exacto - Hermes sentara-se  entrada da 
toca.
O que haveria de dizer agora? No conseguiu imaginar
nenhuma resposta antes de a
me j estar ao seu lado.
- Disseste que ele j esteve aqui outras vezes?
- Deve ter enterrado um
osso ali. E agora quer recuperar o seu tesouro. Os ces
tambm tm memria...
- Sim, talvez, Sofia. Tu
tens mais experincia com animais do que eu.
Sofia pensou um pouco.
- Eu levo-o a casa - disse ento.
- E sabes onde ele vive?
Sofia encolheu os ombros.
- Deve ter o endereo escrito na coleira.
Dois minutos mais tarde,
Sofia corria atravs do jardim. Quando Hermes a descobriu, ps-se a 
correr, abanou
a cauda desenfreadamente e
saltou para ela.

172
- Valente co, Hermes -
disse Sofia.
Ela sabia que a me estava
 janela. Oxal o co no
corresse para dentro da toca!
Mas ele percorreu o caminho
de saibro em frente  casa, e
correu pelo ptio e em direco ao porto do jardim.
Depois de fecharem o porto, Hermes continuou a correr, dois metros  
frente de
Sofia. Seguiu-se uma longa
caminhada pelas ruas do quarteiro. Sofia e Hermes no
eram os nicos na rua.
Famlias inteiras passeavam;
Sofia sentiu uma ponta de inveja.
Por vezes, Hermes farejava
um outro co ou alguma coisa
que encontrava na sarjeta,
mas, logo que Sofia o chamava, voltava imediatamente para
ela.
Pouco depois, j tinham
passado o jardim, o grande
campo de jogos e um recinto de
recreio. Chegaram a uma zona
mais frequentada. A, uma rua
larga calcetada e com trilhos
de elctrico seguia em direco  cidade.
Quando chegaram ao centro
da cidade, Hermes conduziu
Sofia pela praa principal e
pela rua da igreja. Chegaram
ao bairro antigo com os seus
edifcios de fim de sculo.
Era quase uma e meia.
Encontravam-se ento na outra extremidade da cidade.
Sofia no estivera ali muitas
vezes. Quando era pequena,
visitara uma vez uma velha tia
algures naquela zona.
Pouco depois, chegaram a
uma pequena praa entre as casas antigas. A praa chamava-se "Nytorget" - 
"Praa
Nova", apesar de parecer muito velha. A prpria cidade
era muito antiga; fora fundada
na Idade Mdia.
Hermes dirigiu-se para a
entrada da casa com o nmero
14, parou, e esperou que
Sofia abrisse a porta. Ela
sentiu o seu corao bater
mais depressa.
No vo da escada, havia uma
srie de caixas de correio
verdes. Sofia descobriu um
postal que estava colado a uma
das caixas. Um carimbo do
carteiro declarava que o destinatrio era desconhecido. A
destinatria era:
"Hilde Mller Knag,
Nytorget 14..." O postal
tinha o carimbo de 15 de
Junho. At essa data faltavam ainda duas semanas, mas
era bvio que o carteiro no
reparara nisso.
Sofia arrancou o postal da
caixa do correio e leu.

Querida Hilde: Agora,
Sofia est a entrar na casa
do professor de filosofia. Em
breve far quinze anos, enquanto o teu aniversrio j
foi ontem. Ou ser hoje,
Hilde? Se for hoje, j deve
ser muito tarde. Mas os

173
nossos relgios nem sempre andam a par. Uma gerao envelhece, enquanto 
outra gerao
cresce. Entretanto, a histria segue o seu curso. J alguma vez pensaste 
que a histria da Europa pode ser comparada  vida de uma pessoa? A
Antiguidade  a infncia da
Europa. Vem depois a longa
Idade Mdia -  a idade escolar da Europa. E depois
chega o Renascimento.
Termina o longo perodo escolar, e a jovem Europa quer
lanar-se finalmente na vida.
Talvez possamos designar o
Renascimento como o dcimo
quinto aniversrio da Europa.
Estamos a meio de Junho, minha filha - e "que bom estar
aqui! Oh quo bela  a vida!"
PS. Sinto muito que tenhas perdido o teu crucifixo
de ouro. Tens mesmo de prestar mais ateno s tuas coisas.

Beijos do pai - que regressar muito em breve

Hermes j estava a subir as
escadas. Sofia, levando o
postal, seguiu-o. Tinha de
correr para acompanhar o co
que abanava vigorosamente a
cauda. Passaram o primeiro, o
segundo, o terceiro e o quarto
andar. A partir da s uma
escada estreita seguia para
cima. Com certeza, no iriam
para o telhado! Mas Hermes
continuou a correr. Parou em
frente de uma porta estreita e
arranhou-a com a pata.
Em seguida, Sofia ouviu
passos de algum que se aproximava do outro lado. A porta
abriu-se e Alberto Knox estava  sua frente. Ele tinha
mudado de roupa, mas nesse dia
tambm estava disfarado.
Trazia meias brancas altas,
cales vermelhos largos e uma
jaqueta amarela com chumaos
grossos. Fazia lembrar a Sofia um joker de um baralho
de cartas. Se no estava enganada, tratava-se de um traje
tpico do Renascimento.
- Que palhao! - exclamou
Sofia, afastando-o para o lado, e entrou na residncia.
Ainda estava perturbada pelo
postal que encontrara no vo
da escada.
- Calma, minha filha -
afirmou ento Alberto, e fechou a porta atrs dela.
- Aqui est o correio -
disse Sofia, e deu-lhe o postal, como se ele fosse o responsvel.
Alberto leu a carta de p e
abanou a cabea.
- Est cada vez mais insolente. Digo-te que ele nos
usa como uma espcie de entretenimento para o aniversrio
da filha.
Ele rasgou o postal e deitou os pedaos no cesto dos
papis.
- Estava escrito no postal
que Hilde tinha perdido um
crucifixo de ouro - afirmou
Sofia.

174
- Eu li isso.
- Mas eu encontrei precisamente esse crucifixo hoje,
na minha cama. Como  que
achas que poder ter chegado
l?
Alberto fixou-a seriamente
nos olhos.
- Talvez tenha um efeito
persuasivo. Mas  apenas um
truque fcil, que no lhe custa nada.  melhor concentrarmo-nos no grande 
coelho que 
retirado da cartola do universo.
Entraram na sala de estar,
e Sofia nunca vira uma sala
de estar to estranha.
Alberto morava numa grande
casa nas guas-furtadas, com
tecto inclinado. Neste tecto,
havia uma janela que deixava
entrar a luz penetrante directamente do cu. Mas o quarto
tinha tambm uma janela com
vista para a cidade. Atravs
desta janela, Sofia podia ver
os telhados das muitas casas
antigas.
Mas o que mais surpreendeu
Sofia foi o recheio da grande
sala de estar. A sala estava
cheia de mveis e objectos das
mais variadas pocas. Um sof
devia ser dos anos 30, uma
escrivaninha antiga do final
de sculo, e uma das cadeiras
devia ter vrios sculos. Mas
os mveis eram apenas uma parte daquela maravilha! Nas estantes e nas 
prateleiras havia
bibels antigos, relgios e
jarros, almofarizes e retortas, facas e bonecas, penas e
encostos para livros, octantes
e sextantes, bssolas e barmetros. Uma parede inteira
estava coberta de livros, mas
no era o tipo de livros que
se encontram numa livraria. A
biblioteca tambm parecia uma
seleco da produo de livros
ao longo de muitos sculos.
Nas paredes, estavam pendurados desenhos e quadros.
Alguns seriam certamente de
dcadas mais recentes, mas
muitos deviam ser muito antigos. Nas paredes havia tambm
alguns mapas antigos. Um dos
mapas representava o fiorde de
Sogne entre a regio de
Trndelag e o fiorde de
Trondheim, que ficam a quase
300 quilmetros para norte
daquele.
Sofia ficou parada alguns
minutos, sem fala. Voltou-se
e no parou at ter visto a
sala de todos os ngulos.
- Tu coleccionas muita
tralha - afirmou por fim.
- Bem, bem. Imagina quantos sculos de histria esto
guardados nesta sala. Eu no
lhe chamaria tralha.
- Tens uma loja de antiguidades, ou alguma coisa do
gnero?
Alberto fez uma expresso
triste.
- Nem todos podem deixar-se levar pela corrente da
histria, Sofia. Alguns tm
de se deter e conservar o que
fica nas margens do rio.
- Dizes isso de uma forma
to estranha!

175
- Mas  a verdade, minha
filha. Ns no vivemos apenas
na nossa prpria poca. Tambm transportamos a nossa histria connosco. 
No te esqueas de que tudo o que vs aqui
foi outrora novo em folha.
Esta pequena boneca de madeira do sculo XVI talvez tenha sido feita para 
o quinto
aniversrio de uma menina.
Talvez pelo seu velho av...
Depois, chegou  adolescncia, Sofia. Depois, tornou-se adulta e casou-
se. Talvez
ela prpria tenha tido uma filha que herdou esta boneca.
Depois, envelheceu, e um dia
morreu. Talvez tenha tido uma
vida longa, mas deixou de
existir. E nunca mais regressar. No fundo, ela fez aqui
apenas uma curta visita. Mas
a boneca est na estante.
- Tudo se torna to triste
e srio quando falas assim.
- Mas a vida  triste e
sria. Entramos num mundo
lindssimo, encontramo-nos
aqui, apresentamo-nos uns aos
outros - e caminhamos juntos
mais um pouco. Depois, perdemo-nos e desaparecemos to
sbita e inexplicavelmente
como viemos.
- Posso fazer-te uma pergunta?
- J no brincamos s escondidas.
- Porque  que foste morar
para a cabana do major?
- Para que no estivssemos muito longe um do outro
quando nos comunicvamos apenas por carta. Eu sabia que a
velha cabana estava vazia.
- E foste simplesmente
para l?
- Fui simplesmente para
l.
- Ento talvez possas tambm explicar como  que o pai
de Hilde soube que moravas
l.
- Se no estou em erro,
ele sabe quase tudo.
- Mas continuo sem perceber como  que ele conseguiu
convencer o carteiro a ir entregar correspondncia no meio
do bosque.
Alberto esboou um sorriso
astuto.
- Mesmo isso  apenas uma
ninharia para o pai de Hilde.
Charlatanice barata, um jogo
desprezvel. Talvez vivamos
sob a mais apertada vigilncia.
Sofia reparou que estava a
ficar irritada.
- Se ele passar alguma vez
no meu caminho, arranco-lhe os
olhos.

Alberto dirigiu-se para o
sof e sentou-se. Sofia seguiu-lhe o exemplo e afundou-se numa poltrona.
- A filosofia pode levar-nos mais perto do pai de
Hilde - afirmou Alberto -
Hoje, vou falar-te acerca do
Renascimento.
- Comea.
- Poucos anos aps a morte
de S. Toms de Aquino, a
unidade cultural crist comeou a apresentar fissuras. A
filosofia e a cincia

176
libertavam-se cada vez mais da
teologia crist, e isso proporcionou tambm  religio
uma relao mais livre com a
razo. Cada vez mais pensadores acentuaram que ns no podemos 
compreender Deus com o
entendimento, porque Deus 
sempre inconcebvel para o
nosso pensamento. Para os homens, o importante no  compreender o 
mistrio cristo,
mas submeterem-se  vontade
divina.
- Compreendo.
- O facto de a religio e
a cincia terem desenvolvido
uma relao mais livre entre
si levou a um novo mtodo cientfico e a um novo fervor
religioso. Deste modo, lanaram-se as bases para duas importantes 
revolues dos sculos XV e XVI, a saber, o
Renascimento e a
Reforma.
- Vamos ver uma de cada
vez.
- Pelo termo
Renascimento, entendemos um
perodo histrico de grande
prosperidade cultural que teve
incio por volta do final do
sculo XIV. Comeou em
Itlia mas difundiu-se rapidamente para norte. Aquilo
que devia renascer eram a arte
e a cultura da Antiguidade.
Tambm se fala frequentemente
de humanismo renascentista,
porque o homem voltou a ser o
centro de tudo, aps a longa
Idade Mdia, em que todos os
aspectos da vida tinham sido
interpretados  luz de Deus.
O mote era: "Regresso s
fontes!", e a fonte mais importante era o humanismo da
Antiguidade. Tornou-se quase
um desporto popular desenterrar esculturas e manuscritos
da Antiguidade. Tambm se
tornou moda aprender grego, o
que levou a um interesse renovado pela cultura grega. O
interesse pelo humanismo grego
tinha tambm uma finalidade
pedaggica: o estudo das disciplinas humansticas proporcionava uma 
"formao clssica" que fomentava o desenvolvimento das "qualidades 
humanas". "Os cavalos nascem",
dizia-se, "mas os homens no
nascem, formam-se".
- Temos ento de ser
educados para sermos seres
humanos?
- Sim, pensava-se assim
naquela poca. Mas antes de
observarmos mais de perto as
ideias do humanismo renascentista vamos falar do pano de
fundo poltico e cultural do
Renascimento.
Alberto levantou-se e comeou a dar voltas pela sala.
Depois parou e apontou para
um instrumento muito antigo
numa estante. - O que 
isto? - perguntou.
- Parece uma bssola antiga.
- Certo.
Apontou ento para uma espingarda antiga na parede,
acima do sof.
- E isto?

177
-  uma espingarda antiga.
- Est certo - e isto?
Alberto tirou um grande livro da estante.
- Isso  um livro antigo.
- Para ser mais preciso,
um incunbulo.
- Um incunbulo?
- A palavra significa na
realidade "bero". Assim se
chamam os livros que foram impressos na infncia da tipografia. Isto , 
antes de
1500.
-  assim to antigo?
- Sim, muito antigo. E
precisamente estes trs inventos que vemos  nossa frente
- bssola, plvora e tipografia -, so importantes condies para a nova 
poca a que
chamamos Renascimento.
- Tens de me explicar isso
melhor.
- A bssola facilitava a
navegao. Era, noutras palavras, uma importante condio
para as grandes viagens de
descobrimento. O que tambm
era vlido para a plvora. As
novas armas trouxeram aos europeus superioridade em relao s culturas 
americanas e
asiticas, mas a plvora tambm teve uma grande importncia na Europa. E 
a tipografia era importante para difundir as novas ideias do 
Renascimento. Ela contribuiu inclusivamente para que a
Igreja perdesse o seu antigo
monoplio como propagadora do
saber. Posteriormente, seguiram-se novos instrumentos e
novos recursos. Um importante
instrumento era por exemplo o
telescpio. Criou condies
completamente novas para a astronomia.
- E, por fim, vieram os
foguetes e as naves espaciais
que nos permitiram chegar 
Lua?
- Agora ests a avanar um
pouco depressa de mais. Mas,
no Renascimento, iniciou-se
um processo que havia de levar
finalmente os homens  Lua,
embora tambm a Hiroshima e a
Chernobyl. Mas primeiro houve uma srie de transformaes
no domnio cultural e econmico. Um pressuposto fundamental foi a 
passagem de uma economia de subsistncia para uma
economia monetria. No final
da Idade Mdia, desenvolveu-se nas cidades uma slida
manufactura e um comrcio activo de novas mercadorias que
levaram a uma notvel circulao de dinheiro e  criao de
um sistema bancrio. Deste
modo, surgiu uma burguesia que
alcanara pelo trabalho uma
certa independncia das condies impostas pela natureza.
Aquilo que era necessrio
para viver comprava-se com dinheiro. Este desenvolvimento
fomentou a iniciativa, a fantasia e a criatividade do indivduo, ao qual 
foram colocadas exigncias novas.

178
- Isso faz lembrar um pouco o aparecimento das cidades
gregas dois mil anos antes.
- Talvez, sim. Falei do
modo como os filsofos gregos
se tinham libertado da concepo mtica do mundo relacionado com a 
cultura rural. Do
mesmo modo, os burgueses comearam a libertar-se dos senhores feudais e 
do poder da
Igreja. Simultaneamente, a
cultura grega foi redescoberta
devido a um contacto mais estreito com os rabes na Espanha e a cultura 
bizantina no
Oriente.
- Os trs rios da
Antiguidade confluram numa
nica grande corrente.
- Tu s uma discpula
atenta. Portanto isto deve
ser o suficiente como pano de
fundo do Renascimento. Vou
falar-te agora acerca do novo
modo de pensar.
- Despacha-te, porque tenho de ir para casa  hora do
jantar.
S ento  que Alberto se
sentou de novo, fixando Sofia
nos olhos.
- Antes de mais, o Renascimento trouxe consigo uma nova concepo do 
homem. Os
humanistas renascentistas tinham uma confiana totalmente
nova no homem e no seu valor,
o que estava em ntido contraste com a Idade Mdia, na
qual se realara apenas a natureza pecaminosa do homem. O
homem foi ento visto como um
ser infinitamente grande e
precioso. Uma das figuras
principais do Renascimento
foi Marsilio Ficino. Ele
exclamou: "Conhece-te a ti
mesma,  estirpe divina em
vestes humanas!". Outro,
Giovanni Pico della Mirandola, escreveu uma orao
sobre a "dignidade do homem".
Uma coisa deste gnero teria
sido impensvel na Idade Mdia. Durante todo o perodo
medieval, tudo se movia em
torno a Deus. O ponto de
partida para os humanistas do
Renascimento foi o prprio
homem.
- Mas isso j os filsofos
gregos tinham feito.
- Por isso falamos tambm
de um "renascimento" do humanismo antigo. No entanto, o
humanismo do Renascimento estava mais marcado pelo
individualismo do que o humanismo da Antiguidade. No
somos apenas homens, somos
tambm indivduos nicos.
Esta ideia deu origem a uma
venerao do gnio. O ideal
tornou-se aquilo a que chamamos o homem renascentista,
ou seja, um homem que se ocupa
com todos os domnios da vida,
da arte e da cincia. A nova
concepo do homem tambm estava patente no interesse pela
anatomia do corpo humano. Tal
como na Antiguidade, comeou-se a dissecar cadveres para
se descobrir como o corpo 
constitudo. Isso foi importante tanto para a medicina
como para a arte. Na arte,
tornou-se novamente habitual
representar o homem nu. Pode
dizer-se

179
que isto sucedeu passados
mil anos de pudor. O homem
ousou de novo ser ele mesmo,
j no tinha nada de que se
envergonhar.
- Isso parece ter sido um
perodo de grande entusiasmo,
- comentou Sofia, apoiando-se na mesinha que estava entre ela e o seu 
professor de
filosofia.
- Sem dvida. A nova imagem do homem levou a uma concepo de vida 
totalmente nova. O homem no existia apenas para Deus. Deus tambm
criara o homem em funo do
homem. Por isso, o homem podia alegrar-se com a vida presente. E uma vez 
que o homem
se podia desenvolver livremente, tinha possibilidades ilimitadas. O seu 
objectivo era
ultrapassar todos os limites,
o que tambm era diferente do
humanismo da Antiguidade. Os
humanistas antigos tinham insistido na serenidade, temperana e 
autodomnio.
- Mas os homens do Renascimento perderam o autodomnio?
- Pelo menos, no foram
particularmente moderados.
Tinham a sensao de que o
mundo despertara de novo.
Surgiu ento a conscincia da
poca contempornea e foi introduzida a designao "Idade
Mdia" para o perodo entre a
Antiguidade e a sua prpria
poca. Iniciou-se uma poca
nica de desenvolvimento em
todos os domnios, na arte e
na arquitectura, na literatura
e na msica, na filosofia e na
cincia. Vou dar um exemplo
concreto. Ns falamos da Roma da Antiguidade, que tinha
eptetos imponentes como "cidade das cidades", e "centro
do mundo". No decurso da
Idade Mdia, a cidade entrou
em decadncia e, em 1417, a
antiga cidade de mais de um
milho de habitantes tinha
apenas dezassete mil.
- Pouco mais do que
Lillesand.
- Para os humanistas, reconstruir Roma era um objectivo cultural e 
poltico. A
grande Baslica de S. Pedro
foi erigida ento sobre o tmulo do apstolo Pedro. E no
caso da Baslica de S.
Pedro, no se pode mesmo falar de moderao. Vrios nomes importantes do 
Renascimento se empenharam no maior
projecto arquitectnico do
mundo. Os trabalhos comearam
no ano de 1506 e duraram cento e vinte anos, e s aps outros cinquenta 
anos, ficava
terminada a grande Praa de
S. Pedro.
- Deve ser uma igreja muito grande.
- Tem mais de duzentos metros de comprimento e cento e
trinta de altura e uma superfcie de dezasseis mil metros
quadrados. Mas com isto, j
falei o suficiente sobre a ousadia dos homens do Renascimento. Tambm foi 
muito importante o facto de o Renascimento ter levado a uma nova
concepo da natureza, de o
homem sentir alegria em viver
- e de no ver a vida na
Terra apenas como preparao
para a

180
vida no cu. Isso deu origem a uma posio totalmente
nova em relao ao mundo fsico. A natureza era j tida
como positiva. Muitos acreditavam tambm que Deus estava
presente na Criao. Ele 
infinito e, nesse caso, tambm
tem de estar em toda a parte.
Esta concepo  designada
por pantesmo. Os filsofos
da Idade Mdia tinham apontado reiteradamente para o
abismo insupervel entre Deus
e a Criao. Agora, a natureza podia ser caracterizada
como divina - sim, inclusivamente como "manifestao de
Deus". Estas novas ideias
nem sempre foram acolhidas com
simpatia pela Igreja. O destino de Giordano Bruno
mostrou-o de forma dramtica.
Ele no afirmava apenas que
Deus estava presente na natureza, defendia que o universo
era infinito. Por isso, foi
severamente punido.
- Como?
- Morreu na fogueira no
ano de 1600, no mercado das
flores em Roma...
- Isso  terrvel -  estpido.  a isso que chamas
humanismo?
- No, isso no. Bruno
era o humanista, no os seus
carrascos. Mas durante o Renascimento tambm se desenvolveu uma coisa a 
que podemos
chamar "anti-humanismo", isto
, um poder autoritrio da
Igreja e do Estado. Durante
o Renascimento, tambm houve
processos contra bruxas e autos de f, magia e superstio, guerras de 
religio sangrentas - e ainda a conquista
brutal da Amrica. O humanismo sempre teve um lado brutal. Nenhuma poca 
 apenas
boa ou apenas m. O bem e o
mal so como dois fios que
atravessam toda a histria da
humanidade. Frequentemente,
entrelaam-se. Isso  ainda
vlido para a nossa prxima
palavra-chave. Vou falar do
modo como o Renascimento desenvolveu um novo mtodo
cientfico.
- Foram construdas tambm
as primeiras fbricas?
- Ainda no. Mas uma condio para todo o desenvolvi
mento tcnico que se iniciou
aps o Renascimento foi o novo mtodo cientfico. Este
mtodo consiste numa nova atitude em relao  natureza da
cincia. Os frutos tcnicos
do novo mtodo surgiram pouco
a pouco.
- Em que  que consistia
esse novo mtodo?
- Sobretudo, tratava-se de
investigar a natureza com os
sentidos. J desde o incio
do sculo XIV, cada vez mais
pessoas criticavam a confiana
cega nas autoridades antigas.
Essas autoridades eram tanto
os dogmas da Igreja como a
filosofia natural de Aristteles. Tambm se negou que um
problema se pudesse resolver
apenas por reflexo. Essa
confiana exagerada na importncia da razo predominara
durante toda a Idade Mdia.
Dizia-se que a investigao

181
da natureza tinha de se basear
na observao, na experincia
e na experimentao.  o chamado mtodo emprico.
- O que  que significa?
- Significa simplesmente
que obtemos o conhecimento das
coisas atravs de experincias
nossas - e no de pergaminhos
poeirentos ou fantasias. Na
Antiguidade, tambm se fez
cincia emprica, e Aristteles fez muitas experincias
importantes para o conhecimento da natureza. Mas experimentaes 
sistemticas eram
algo completamente novo.
- No havia instrumentos
tcnicos como hoje, pois no?
- Obviamente no havia mquinas de calcular nem balanas electrnicas. 
Mas havia a
matemtica e havia balanas.
Foi particularmente realada
a importncia de exprimir as

observaes cientficas numa
linguagem matemtica exacta.
"Deve medir-se aquilo que
pode ser medido, e tornar mensurvel o que no pode ser medido", segundo 
Galileu
Galilei, um dos cientistas
mais importantes do sculo
XVII. Ele afirmou tambm
que o livro da natureza estava
escrito em caracteres matemticos.
- E atravs de muitas experimentaes e medies estava aberto o caminho 
para novas
invenes?
- A primeira fase foi um
novo mtodo cientfico, que
possibilitou a revoluo tcnica, e o desenvolvimento tcnico 
possibilitou todas as invenes que se realizaram desde ento. Podemos 
dizer que
os homens comearam a libertar-se das imposies da natu
reza. O homem j no era apenas uma parte da natureza. A
natureza era uma coisa que podia ser usada e explorada.
"Saber  poder", afirmou o
filsofo ingls Francis Bacon. Com isso, chamava a
ateno para a utilidade prtica do saber - e isso era
algo novo. Os homens comeavam a intervir na natureza e a
domin-la.
- Mas isso no foi apenas
positivo, pois no?
- No, e assim estamos de
novo na questo do fio bom e
do fio mau que se esto sempre
a entrelaar em tudo o que fazemos. O desenvolvimento tcnico que se 
iniciou no Renascimento deu origem  mquina
de fiar e ao desemprego, a medicamentos e a novas doenas,
ao desenvolvimento da agricultura e  destruio da natureza, a novos 
recursos prticos
como mquinas de lavar e frigorficos, mas tambm  poluio do meio 
ambiente e ao problema dos resduos. industriais. Vendo hoje que o nosso 
ambiente est terrivelmente
ameaado, muitos vem a prpria revoluo tcnica como um
afastamento perigoso das condies de vida que nos so dadas pela 
natureza. Ns homens, devido a esta concepo,
pusemos em marcha um

182
processo que j no conseguimos controlar. Os optimistas
acreditam que ainda vivemos na
infncia da tcnica. A civilizao tcnica, segundo eles,
tem de facto as suas doenas
infantis, mas, por fim, os homens ho-de aprender a dominar
a natureza sem a ameaar de
morte.
- O que  que tu pensas?
- Que talvez ambos os pontos de vista estejam certos.
Em alguns domnios, os homens
j no devem intervir na natureza, noutros, podemos faz-lo
com confiana. O certo  que
nenhum caminho nos leva de
volta  Idade Mdia. Desde
o Renascimento, o homem j
no  uma mera parte da Criao. O homem intervm na natureza e forma-a 
segundo as
suas prprias ideias. Isso
diz-nos alguma coisa acerca da
admirvel criatura que  o homem.
- J fomos  Lua. Nenhum
homem da Idade Mdia achou
isso possvel?
- No, podes ter a certeza. E isso leva-nos  nova
concepo do mundo. Durante
toda a Idade Mdia, os homens olharam para o Sol e para a Lua, estrelas e 
planetas. Mas ningum duvidara de
que a Terra fosse o centro do
universo. Nenhuma observao
introduzira a dvida de que a
Terra estava imvel e os
"corpos celestes" circulavam
em seu redor. Chamamos a esta
concepo a teoria geocntrica do universo. A ideia
crist de que Deus governa
todos os corpos celestes tambm contribuiu para que esta
concepo do universo se mantivesse.
- Eu gostaria que fosse
assim to simples.
- Mas, no ano de 1543,
foi publicada uma obra intitulada Seis livros sobre as
revolues das esferas celestes, escrita pelo astrnomo
polaco Coprnico que morreu
no prprio dia em que foi publicada a sua revolucionria
obra. Coprnico afirmava que
no era o Sol que girava 
volta da Terra, mas a Terra
 volta do Sol. Achava-o
possvel com base nas observaes dos corpos celestes que
havia at ento. Se os homens
tinham acreditado que o Sol
girava  volta da Terra, era,
segundo ele, apenas porque a
Terra girava sobre o seu prprio eixo. Ele apontou para o
facto de todas as observaes
dos corpos celestes serem muito mais fceis de compreender
se se pressupuser que a Terra
e os outros planetas se movem
em trajectrias circulares 
volta do Sol. Chamamos a
esta concepo teoria heliocntrica do universo, que
significa que tudo gira em
volta do Sol.
- E essa teoria est certa?
- No totalmente. O postulado mais importante de
Coprnico - o facto de a
Terra girar  volta do Sol
- est obviamente correcto.
Ele pensava que o Sol era o
centro do universo. Hoje, sabemos que o

183
Sol  apenas uma entre inumerveis estrelas - e que todas as estrelas  
nossa volta
constituem apenas uma entre
muitos milhes de galxia.
Coprnico acreditava tambm
que a Terra e os outros planetas se moviam em trajectrias circulares em 
torno do
Sol.
- E isso no est certo?
- No, ele no tinha nenhuma prova para os movimentos
circulares alm da antiga
ideia segundo a qual os corpos
celestes eram redondos como
esferas e descreviam trajectrias circulares apenas porque
eram "celestes". J desde o
tempo de Plato, a esfera e o
crculo eram considerados as
figuras geomtricas mais perfeitas. Mas no incio do sculo XVII, o 
astrnomo alemo Johannes Kepler conseguiu apresentar os resultados
de observaes pormenorizadas
que provavam que os planetas
se moviam em trajectrias
elpticas - ou ovais - 
volta do Sol como um dos focos. Ele provou tambm que os
planetas se movem tanto mais
rapidamente quanto mais prximos esto do Sol. Finalmente, provou ainda 
que um planeta se move tanto mais lentamente quanto mais afastado
est do Sol. S atravs de
Kepler se tornou claro que
a Terra  um planeta como todos os outros. Kepler sublinhou ainda que as 
mesmas leis
fsicas so vlidas para todo
o Universo.
- Como  que ele tinha a
certeza disso?
- Tinha a certeza porque
investigou os movimentos dos
planetas com os seus prprios
sentidos, em vez de confiar
cegamente na tradio da
Antiguidade. O famoso cientista italiano Galileu
Galilei viveu aproximadamente na mesma altura que
Kepler. Tambm ele observava
os corpos celestes com o telescpio. Estudou as crateras
na Lua e verificou que l
existem montes e vales tal
como na terra. Galileu descobriu tambm que o planeta
Jpiter tem quatro luas.
Logo, a Terra no era o nico planeta com Lua. Mas o
mais importante foi o facto de
Galileu ter descoberto a chamada Lei da Inrcia.
- E o que  que diz essa
lei?
- "Todos os corpos conservam o estado de repouso ou de
movimento constante em trajecto rectilneo desde que no
sejam constrangidos por foras
exteriores a alterar esse estado". Mas ele ainda no o
formulara assim. Quem o fez,
posteriormente, foi Isaac
Newton.
- Est bem.
- Desde a Antiguidade, um
dos mais importantes argumentos contra a ideia de que a
terra girava em torno do seu
prprio eixo dizia que, nesse
caso, a terra teria de se mover to rapidamente que uma
pedra lanada ao ar na vertical cairia a muitos metros de
distncia.
- E por que  que no 
assim?

184
- Quando ests no comboio
e deixas cair uma ma, a ma
no cai longe de ti pelo facto
de o comboio estar em movimento. Ela cai em linha recta ao
teu lado. Isso deve-se  lei
da inrcia. A ma conserva a
mesma velocidade que tinha antes de tu a teres deixado
cair.
- Acho que estou a perceber.
- Mas no tempo de Galileu
no havia comboios. Mas se
tu, de repente, fazes rolar
uma esfera pelo cho...
... continua a rolar...
... porque a velocidade se
mantm mesmo depois de teres
largado a esfera.
- Mas no fim ela pra,
caso a sala seja suficientemente grande.
- Isso  porque outras
foras travam a velocidade, em
primeiro lugar, o pavimento, e
sobretudo soalhos de madeira
no tratada. Mas a fora da
gravidade tambm provoca a paragem da esfera mais cedo ou
mais tarde. Espera, vou mostrar-te uma coisa.
Alberto levantou-se e dirigiu-se para a velha escrivaninha. Retirou uma 
coisa de uma
gaveta, e colocou-a na mesa do
sof. Era simplesmente uma
placa de madeira que numa das
extremidades tinha alguns milmetros de espessura e na outra era muito 
fina. Junto 
placa de madeira, que cobria
quase toda a mesa, ele colocou
um berlinde.
- Chama-se a isto "plano
inclinado" - afirmou ento.
- O que te parece que vai
acontecer se eu largar o berlinde aqui em cima, onde a
placa  mais espessa?
Sofia suspirou.
- Aposto dez coroas em
como rola para a mesa e vai
cair no cho.
- Vamos ver.
Alberto largou o berlinde,
e este portou-se exactamente
como Sofia anunciara. Rolou
para a mesa, continuou a rolar
sobre o tampo da mesa, tocou
no solo com um rudo surdo e
por fim foi de encontro ao limiar da porta.
- Impressionante - afirmou Sofia.
- , no ? E Galileu
fez estas experincias.
- Ele era assim to parvo?
- No te precipites. Ele
queria investigar tudo com os
prprios sentidos, e ns mal
comemos. Diz-me primeiro
porque  que o berlinde rola
para baixo no plano inclinado.
- Ele comea a rolar porque  pesado.
- Est bem. E o que 
verdadeiramente o peso?
- Agora ests mesmo a fazer perguntas parvas.

185
- Eu no estou a fazer
perguntas parvas se tu no
consegues responder. Porque 
que o berlinde rolou para o
cho?
- Por causa da fora da
gravidade.
- Exactamente - ou da
gravitao, como tambm se
diz. Logo, o peso tem algo a
ver com a fora da gravidade.
E foi esta fora que ps o
berlinde em movimento.
Alberto levantara o berlinde do cho e curvou-se sobre o
plano inclinado.
- Agora, vou tentar fazer
rolar o berlinde pelo plano
inclinado na diagonal - afirmou - observa bem como ele se
move.
Ele curvou-se e apontou o
berlinde. Depois, f-lo rolar
pelo plano inclinado. Sofia
viu que o berlinde se desviou
imediatamente e rolou para
baixo.
- O que  que aconteceu?
- Ele fez um desvio porque
se trata de um plano inclinado.
- Vou pint-lo com uma caneta de feltro... depois talvez possamos ver 
exactamente o
que tu querias dizer com
"desvio".
Pegou numa caneta de feltro
e pintou o berlinde de preto.
Depois, f-lo rolar de novo.
Sofia podia ver exactamente o
trajecto do berlinde no plano
inclinado, visto que deixara
um trao negro.
- Como  que descreverias
o movimento deste berlinde? -
perguntou Alberto.
- Como uma curva... parece
uma parte de um crculo.
- Acertaste em cheio!
Alberto olhou para ela e
ergueu as sobrancelhas.
- Apesar de no ser exactamente um crculo. Esta figura chama-se 
parbola.
- Sim.
- Mas porque  que a esfera se move exactamente assim?
Sofia reflectiu um pouco.
Por fim, afirmou:
- Visto que a placa tem
uma inclinao, a esfera  arrastada para o cho pela fora
da gravidade.
- , no ? Isso  sensacional. Eu trago uma rapariga
qualquer a minha casa e, aps
uma nica experincia, ela
chega imediatamente  mesma
concluso que Galileu.
Alberto bateu palmas, e
Sofia receou por um momento
que ele pudesse ter perdido o
juzo. Ele prosseguiu:
- Viste o que sucede quando duas foras actuam simultaneamente sobre o 
mesmo objecto. Galileu descobriu que
isto tambm  vlido, por
exemplo, para uma bala de canho. Ela  disparada para o
ar e continua a voar. mas por
fim tambm  atrada para o
solo. E descreve

186
ento uma trajectria que
corresponde  do nosso berlinde no plano inclinado. E isso
foi verdadeiramente uma nova
descoberta no tempo de
Galileu. Aristteles acreditava que um projctil lanado
ao ar descreveria primeiro uma
ligeira curva e cairia depois
no solo em linha recta. Mas
isso no era verdade, e s se
poderia saber que Aristteles
estava errado quando fosse demonstrado.
- Est bem. Mas isto 
mesmo importante?
- Se  importante!  de
uma importncia csmica, minha
filha. De todas as descobertas cientficas na histria da
humanidade esta  uma das mais
importantes.
- Ento calculo que me
vais explicar imediatamente
porqu.
- Mais tarde, veio o fsico ingls Isaac Newton, que
viveu entre 1642 e 1727.
Devemos-lhe a descrio definitiva do sistema solar e dos
movimentos dos planetas. Ele
no conseguiu apenas descrever
como os planetas se movem 
volta do Sol, conseguiu ainda
explicar exactamente porque
 que o fazem. Conseguiu-o
atravs, entre outras coisas,
dos estudos de Galileu e da
sua lei da inrcia, que ele,
como sabemos, formulou definitivamente.
- E os planetas so berlindes num plano inclinado?
- Mais ou menos, sim. Mas
espera mais um pouco, Sofia.
- No tenho outra escolha.
- J Kepler apontara para
o facto de que tem de haver
uma fora que provoque a
atraco entre os planetas.
Do Sol, por exemplo, tem de
partir uma fora que mantenha
os planetas nas suas rbitas.
Essa fora tambm pode explicar porque  que os planetas
na proximidade do Sol se movem mais depressa do que os
mais distantes do Sol.
Kepler defendia tambm que a
mar baixa e a mar alta, ou
seja, a subida e a descida da
superfcie do mar - esto dependentes de uma fora da
Lua.
- Isso tambm est certo.
- Sim, est certo. Mas
Galileu contestou isso. Ele
fazia troa de Kepler e da
sua ideia fixa de que "a Lua
domina o mar". Galileu contestou a hiptese de que essas
foras pudessem ter efeito a
uma grande distncia e consequentemente entre os planetas.
- Nisso, ele estava errado.
- Sim, neste ponto ele estava errado. E isso  quase
cmico, visto que ele se preocupou muito com a fora da
gravidade da Terra e a queda
dos corpos ao solo. Alm disso, ele mostrou como diversas
foras podem dirigir os movimentos de um corpo.
- Mas tu falaste de
Newton.
- Sim, em seguida veio
Newton. Ele formulou a chamada lei da Gravitao
Universal. Esta lei afirma
que qualquer objecto atrai outro

187
objecto com uma fora que aumenta em proporo com o tamanho dos objectos 
e que diminui
com o crescente distanciamento
entre eles.
- Acho que estou a perceber. Entre dois elefantes,
por exemplo, existe uma maior
fora de atraco do que entre
dois ratos. E entre dois elefantes no mesmo jardim zoolgico h maior 
fora de atraco do que entre um elefante
indiano na ndia e um elefante africano em frica.
- Nesse caso compreendeste
tudo. E agora, vem o mais importante. Newton sublinhou
que esta fora de atraco -
ou gravitao -  universal.
Quer dizer que  vlida em
toda a parte, inclusivamente
no espao entre os corpos celestes. Diz-se que ele chegou
a esta concluso certo dia,
quando estava sentado debaixo
de uma macieira. Ao ver uma
ma cair da rvore, deve ter
perguntado a si mesmo se a
Lua  atrada para a Terra
pela mesma fora e se, consequentemente, a Lua gira 
volta da Terra para toda a
eternidade.
- Isso foi inteligente,
mas no muito inteligente.
- Como no, Sofia?
- Se a Lua fosse atrada
para a Terra pela mesma fora
que faz cair a ma, a Lua
acabaria por cair na Terra,
em vez de andar  volta.
- Agora, estamos a aproximar-nos da lei dos movimentos
dos planetas de Newton.
Naquilo que dizes acerca do
modo como a fora da gravidade
da Terra atrai a Lua, tens
apenas cinquenta por cento de
razo. Porque  que a Lua
no cai sobre a Terra,
Sofia? A fora da gravidade
da Terra atrai a Lua com uma
fora poderosa. Pensa bem
como so necessrias foras
potentes para fazer subir o
mar um ou dois metros durante
a mar alta.
- No, isso eu no entendo.
- Pensa no plano inclinado
de Galileu. O que  que sucedeu quando eu fiz rolar para
baixo o berlinde no plano inclinado?
- Mas ento h duas foras
diferentes que agem sobre a
Lua?
- Exacto. No aparecimento
do sistema solar, a Lua foi
lanada da rbita com muita
fora - logo, para longe da
Terra. Esta fora continuar
a agir para toda a eternidade,
dado que a Lua se move sem
resistncia no vcuo...
- Mas  simultaneamente
atrada para a Terra pela
fora da gravidade desta?
- Exacto. Ambas as foras
so constantes, e ambas agem
simultaneamente. Por isso, a
Lua vai continuar a girar 
volta da Terra.
- Isso  assim to simples?

188
-  muito simples, e justamente esta "simplicidade"
era para Newton o mais importante. Ele tambm provou que
algumas leis fsicas, tal como
a lei da inrcia, so vlidas
para todo o universo. E nos
movimentos dos planetas, ele
aplicou apenas duas leis da
natureza, que Galileu j indicara: a lei da inrcia e a
que afirma que um corpo no
qual agem simultaneamente duas
foras se mover numa trajectria elptica, tal como o
mostravam as esferas de
Galileu no plano inclinado.
- E com isso, Newton conseguiu explicar porque  que
todos os planetas giram  volta do Sol.
- Exacto. Todos os planetas giram  volta do Sol em
rbitas elpticas, devido a
dois movimentos diferentes:
primeiro, o movimento rectilneo que eles seguiram durante
o aparecimento do sistema solar, e em segundo lugar um movimento em 
direco ao Sol
devido  gravitao.
- Muito inteligente.
- Bem podes diz-lo.
Newton provou que as mesmas
leis para os movimentos dos
corpos so vlidas em todo o
universo. Com isto, ele destruiu tambm antigas concepes medievais, 
segundo as
quais "no cu" so vlidas
leis diferentes das nossas na
terra. A teoria heliocntrica
teve a sua confirmao e a sua
explicao definitiva.
Alberto levantou-se e voltou a pr o plano inclinado na
gaveta. Baixou-se e levantou
o berlinde do cho, mas colocou-o na mesa, entre ele e
Sofia. Ela achou inacreditvel o quanto tinham retirado
de uma placa de madeira inclinada e de um berlinde. Ao observar agora o 
berlinde verde
- que ainda estava parcialmente negro de tinta -, pensou imediatamente no 
globo
terrestre. Perguntou:
- E os homens tiveram de
se conformar com o facto de
viverem num planeta ao acaso
no Universo?
- Sim, e a nova teoria era
em muitos aspectos um duro
golpe. Talvez possa ser comparado com a situao em que
Darwin provou que o homem
descende dos animais. Em ambos os casos, o homem perdeu
algo da sua posio especial
na Criao. Em ambos os casos, a Igreja ops-se energicamente.
- Isso eu consigo perceber. Onde  que fica Deus em
toda esta histria? De certo
modo, tudo era mais fcil
quando a Terra estava no centro e Deus e todos os corpos
celestes viviam um piso acima.
- Mas isso ainda no era o
maior desafio. Quando Newton
provou que as mesmas leis fsicas eram vlidas para todo o
Universo, podia ter-se pensado que ele perdera a f na omnipotncia de 
Deus. Mas a f
pessoal de Newton no foi
abalada. Ele via as leis da
natureza

189
como prova da grandeza e omnipotncia de Deus. O mais
grave era a questo da imagem
que os homens tinham de si
prprios.
- O que queres dizer com
isso?
- Desde o Renascimento, o
homem tivera que se habituar 
ideia de viver num planeta ao
acaso no Universo. Mas eu
no sei se nos habitumos completamente a isso. J no
Renascimento havia quem afirmasse que o homem passara a
ocupar uma posio mais central do que anteriormente.
- No compreendo.
- Anteriormente, a Terra
tinha sido o centro do mundo.
Mas quando os astrnomos explicaram que no Universo no
h nenhum centro absoluto,
concluiu-se que eram tantos os
centros quantos os homens.
- Compreendo.
- O Renascimento tambm
trouxe consigo uma nova concepo de Deus.  medida
que a filosofia e a cincia se
separavam da teologia, surgiu
uma nova religiosidade crist.
Comeou ento o Renascimento
com a sua nova concepo do
homem, e isso tambm foi importante para a prtica religiosa. Mais 
importante do que
a relao com a Igreja como
instituio, tornou-se a relao pessoal do indivduo com
Deus.
- A orao da noite, por
exemplo?
- Sim, isso tambm. Na
Igreja Catlica da Idade
Mdia, a liturgia latina da
Igreja e as suas oraes tinham formado a verdadeira coluna vertebral do 
culto religioso. Apenas sacerdotes e
monges liam a Bblia, porque
esta s existia em latim. Mas
durante o Renascimento a
Bblia foi traduzida do hebraico e do grego para as lnguas populares. 
Isso foi importante para a Reforma...
- Martinho Lutero...
- Sim, Lutero foi importante, mas ele no foi o nico
reformador. Tambm havia reformadores da Igreja que,
apesar de pertencerem 
Igreja Catlica Romana,
queriam agir. Um deles foi
Erasmo de Roterdo.
- Lutero rompeu com a
Igreja Catlica porque no
queria pagar indulgncias?
- Sim, tambm, mas tratava-se de algo muito mais importante. Para Lutero, 
o homem no precisava de fazer o
desvio pela Igreja ou pelos
seus sacerdotes para obter o
perdo de Deus. E o perdo
de Deus no estava dependente
de uma quantia para a indulgncia paga  Igreja. O chamado trfico de 
indulgncias
tambm foi proibido na Igreja
Catlica em meados do sculo
XVI.

190
- De certeza que Deus se
alegrou com isso.
- Lutero distanciou-se de
um modo geral de muitos costumes religiosos e dogmas que a
Igreja desenvolvera na Idade
Mdia. Ele queria voltar ao
cristianismo original tal como
o encontramos no Novo Testamento. "Apenas as Escrituras" - afirmava ele. 
Com
este mote, Lutero queria regressar "s fontes" do cristianismo, tal como 
os humanistas
do Renascimento queriam voltar s fontes antigas da arte
e da cultura. Ele traduziu a
Bblia para o alemo e criou
assim a base para a lngua escrita do alemo padro. Cada
qual poderia ler a Bblia e,
de certo modo, ser o seu prprio pastor.
- Como assim? Isso no
vai demasiado longe?
- Ele achava que os sacerdotes no ocupam nenhuma posio privilegiada em 
relao a
Deus. As comunidades luteranas tambm empregavam pastores
por razes prticas, e eles
celebravam o servio religioso
e realizavam as tarefas religiosas dirias. Mas ele achava que o homem 
no alcana o
perdo de Deus e a remisso
dos seus pecados pelos rituais
eclesisticos. A salvao 
dada ao homem totalmente "grtis", apenas atravs da f,
afirmava ele. Ele chegara a
esta concluso por meio da sua
leitura da Bblia.
- Lutero tambm era um homem tpico do Renascimento?
- Sim e no. Um trao tpico do Renascimento era a
importncia que se dava ao indivduo e  sua relao pessoal com Deus. 
Ele aprendeu
grego com trinta e cinco anos
e lanou-se  morosa tarefa de
traduzir a Bblia para o alemo. O facto de a lngua popular substituir o 
latim tambm era tpico do Renascimento. Mas Lutero no era um
humanista como Ficino ou
Leonardo da Vinci. Alguns
humanistas, como Erasmo de
Roterdo, criticaram-no devido  sua concepo demasiado
negativa do homem. Lutero
sublinhou nomeadamente que o
homem estava completamente
corrompido pelo pecado original e a humanidade s podia
ser salva atravs da graa divina. Porque a recompensa do
pecado  a morte.
- Isso  realmente um pouco triste.
Alberto Knox levantou-se.
Tirou o berlinde da mesa e
p-lo no bolso do peito.
- J passa das quatro! -
exclamou Sofia.
- E a prxima grande poca
na histria da humanidade  o
Barroco. Mas vamos guardar
isso para um outro dia, querida Hilde.
- O que  que disseste?
Sofia levantou-se de um
pulo.
- Querida Hilde foi o
que tu disseste.

191
- Ento foi um lapso.
- Mas os lapsos tm sempre
um motivo.
- Talvez tenhas razo.
Certamente o pai de Hilde j
nos anda a colocar palavras na
boca. Acho que ele se aproveita da situao quando ns
estamos cansados. Nessa altura, no podemos defender-nos
com tanta facilidade.
- Tu disseste que no s o
pai de Hilde. Juras-me que
isso  verdade?
Alberto acenou afirmativamente.
- Mas ento eu sou Hilde?
- Estou cansado, Sofia.
Tens de compreender. J estamos aqui h mais de duas horas e eu falei 
durante quase
todo o tempo. No tens de ir
para casa jantar?
Sofia teve a sensao de
que ele a queria pr na rua.
A caminho da sada, perguntava-se incessantemente porque 
que ele tivera aquele lapso.
Alberto vinha atrs dela.
Debaixo de uma pequena fila
de cabides, onde estavam pendurados muitos fatos estranhos
que pareciam trajes de teatro,
Hermes estava deitado e dormia. Alberto apontou com a
cabea para o co e afirmou:
- Ele vai buscar-te.
- Obrigada pela lio de
hoje - disse Sofia.
Ela ps-se nos bicos dos
ps e abraou Alberto.
- Tu s o professor mais
competente e mais querido que
eu j tive.
Em seguida, abriu a porta.
Antes de fechar a porta,
Alberto afirmou:
- Ver-nos-emos em breve,
Hilde.
E com estas palavras deixou
Sofia entregue a si mesma.
De novo, Alberto tivera um
lapso, aquele patife. Sofia
teria batido de novo  porta,
mas algo a impediu de o fazer.
Na rua, lembrou-se de que
no tinha dinheiro nenhum.
Deste modo, tinha que fazer a
p todo o caminho para casa.
Que diabo! A me ia ficar
furiosa e preocupada se no
conseguisse chegar a casa s
seis.
Mas alguns metros adiante,
descobriu de repente no passeio uma moeda de dez coroas.
Um bilhete de transbordo custava exactamente dez coroas.
Sofia foi para a paragem e
esperou pelo autocarro seguinte para a praa principal. De
l, partia um outro que ia
quase at sua casa.

192
S na praa principal reflectiu na sorte que tivera em
encontrar a moeda de dez coroas precisamente no momento
em que precisava tanto dela.
O pai de Hilde nunca poderia t-la colocado ali. Mas
ele era sem dvida um mestre
na arte de colocar todo o gnero de coisas nos lugares
mais estranhos.
Mas como  que o conseguia,
se estava no Lbano?
E porque  que Alberto tivera aqueles lapsos? No apenas uma vez, mas 
duas de seguida.
Sofia sentiu um calafrio
percorrer-lhe as costas.

193
O Barroco

... da mesma matria de que
so feitos os sonhos...

Durante alguns dias, Sofia
no teve mais notcias de Alberto, mas procurou por Hermes no jardim 
vrias vezes ao
dia. Dissera  me que o co
fora sozinho para casa, e o
seu dono, um velho professor
de fsica, a convidara para
tomar caf. Ele falara a Sofia acerca do sistema solar e
da nova cincia que nascera no
sculo XVI.
Contou mais a Jorunn. Falou-lhe da sua visita a Alberto, do postal no vo 
da escada e da moeda de dez coroas
que encontrara no caminho para
casa. Mas guardou para si o
sonho com Hilde e a histria
do crucifixo de ouro.
Na tera-feira, dia 29 de
Maio, Sofia estava na cozinha e enxugava a loua, enquanto a me via as 
notcias
na sala de estar. Quando a
msica de abertura esmoreceu,
Sofia ouviu na cozinha que um
major do contingente noruegus
da ONU fora morto por uma
granada.
Sofia deixou cair o pano da
loua no lava-loua e correu
para a sala de estar. Durante
alguns segundos tremeluziu uma
fotografia do soldado da
ONU no ecr - depois, as
notcias continuaram.
- Oh, no! - exclamou
Sofia.
A sua me voltou-se.
- Sim, a guerra  terrvel...
Sofia desfez-se em lgrimas.
- Mas, Sofie. No  assim to grave.
- Disseram o nome dele?
- Sim... mas j no me recordo. Ele era de Grimstad.
- Isso no  o mesmo que
Lillesand?
- No, ests a brincar?
- Mas quando se  de
Grimstad, tambm se pode ir 
escola em Lillesand.
J no chorava. Por sua
vez, a me reagiu. Levantou-se e desligou o televisor.
- Mas que excessos so estes, Sofia?

194
- Ah, nada...
- Sim, tem de haver alguma
coisa! Tu tens um namorado, e
eu comeo a acreditar que ele
 muito mais velho que tu.
Responde-me agora: conheces
algum homem no Lbano?
- No, no  bem isso...
- Conheces o filho de algum que esteja no Lbano?
- No, ouve. Eu nem sequer conheo a filha dele!
- De quem  que ests a
falar?
- No tens nada a ver com
isso.
- Ah, no?
- Talvez devesse ser antes
eu a interrogar. Porque  que
o pai nunca est em casa?
Talvez porque vocs sejam demasiado cobardes para se separarem? Ters um 
namorado do
qual o pai e eu nada sabemos?
E assim por diante. Ambas
temos as nossas perguntas.
- De qualquer modo, acho
que temos de conversar uma com
outra.
- Talvez. Mas agora estou
to cansada que prefiro ir para a cama. E alm disso estou
com o perodo.
Saiu da sala a correr com
um n na garganta.
Mal sara da casa de banho
e se enfiara nos lenis, a
me entrou no quarto.
Sofia fingiu que dormia,
apesar de saber que a me no
acreditava. Tambm sabia que
a me sabia que Sofia sabia
que ela no acreditava nisso.
No entanto, a me fez como se
Sofia j estivesse a dormir.
Sentou-se ao canto da cama e
acariciou-lhe a cabea.
Sofia pensou como era difcil levar uma vida dupla.
Comeava a alegrar-se com o
fim do curso de filosofia.
Talvez terminasse at ao dia
dos seus anos - ou pelo menos
at  noite de S. Joo,
quando o pai de Hilde regressasse do Lbano...
- Eu queria fazer uma festa no meu aniversrio - afirmou ento.
-  uma boa ideia. E quem
queres convidar?
- Muitas pessoas... posso?
- Claro. Temos um jardim
grande. E talvez o bom tempo
se mantenha.
- Mas, de preferncia, eu
gostaria de festejar s na
noite de S. Joo.
- Est bem, ento fazemos
isso.
-  um dia importante -
afirmou Sofia, e no estava a
pensar apenas no seu aniversrio.
- Ah...
- Acho que me tornei to
adulta nos ltimos tempos.

195
- Sim, no  bom?
- No sei.
Sofia mantivera a cabea
enterrada na almofada enquanto
falavam. A me sondou ento:
- Mas Sofia, tens de me
contar porque  que... porque
 que agora ests to desequilibrada.
- Tu no eras assim com
quinze anos?
- Certamente. Mas tu sabes o que quero dizer.
Sofia voltou-se para a me.
- O co chama-se Hermes
- afirmou.
- Sim?
- Pertence a um homem chamado Alberto.
- Ah.
- Ele mora na parte antiga
da cidade.
- Foste to longe atrs do
co?
- Mas no  perigoso.
- Tu disseste que o co j
tinha estado aqui outras vezes.
- Sim!
Sofia tinha de reflectir.
Ela queria revelar o mximo
que lhe era possvel, mas no
podia contar tudo.
- Tu quase nunca ests em
casa - comeou.
- No, estou muito ocupada.
- Alberto e Hermes j estiveram aqui muitas vezes.
- Mas porqu? Tambm j
estiveram dentro de casa?
- Podes fazer uma pergunta
de cada vez? Eles no estiveram na casa. Mas vo frequentemente passear 
no bosque.
Achas isso estranho?
- No, isso no  nada estranho.
- Como todos os outros,
passam pelo nosso porto ao
passearem. Uma vez em que eu
vinha da escola, Hermes farejava aqui  volta. Foi deste
modo que eu conheci o Alberto.
- E quanto ao coelho branco e todas as outras coisas?
- Foi o Alberto que falou
nisso.  que ele  um verdadeiro filsofo. Falou-me dos
filsofos.
- Assim por cima da vedao do jardim?
- No, sentmo-nos. Mas
ele tambm me escreveu cartas,
bastantes. Por vezes, vieram
pelo correio, outras vezes ele
p-las na nossa caixa do correio ao passar.
- Essas eram ento as
"cartas de amor" de que falmos.
- S que no eram cartas
de amor.
- Ele s escreveu sobre
filsofos?

196
- Sim, imagina tu. E j
aprendi mais com ele do que em
oito anos de escola. J ouviste falar, por exemplo, de
Giordano Bruno, que morreu
na fogueira em 1600? Ou da
lei da gravitao de Newton?
- No, h muita coisa que
eu no sei...
- Se bem te conheo, nem
sequer sabes porque  que a
Terra gira  volta do Sol, e
no o contrrio.
- Que idade  que ele tem,
aproximadamente?
- No fao ideia. Pelo
menos cinquenta.
- E o que  que ele tem a
ver com o Lbano?
Isso era mais complicado.
Sofia pensou em dez respostas
possveis ao mesmo tempo. Depois escolheu a nica que lhe
parecia credvel:
- O irmo do Alberto 
major na ONU. E ele  de
Lillesand. Deve ter morado a
certa altura na cabana do major.
- Alberto no  um nome um
pouco estranho?
- Talvez.
- Soa a italiano.
- Eu sei. Quase tudo o
que  importante vem da Grcia ou da Itlia.
- Mas ele fala noruegus?
- Sim, fluentemente.
- Sabes o que acho, Sofia? Acho que devias convidar
o Alberto para nossa casa.
Nunca estive com um verdadeiro filsofo.
- Vamos ver.
- Talvez o possamos convidar para a tua grande festa.
 divertido misturar as geraes. E nessa altura, eu podia estar tambm 
presente. Eu
poderia servir  mesa. Achas
uma boa ideia?
- Sim, se ele quiser. De
qualquer modo,  muito mais
interessante conversar com ele
do que com os rapazes da minha
turma. Mas... nesse caso, todos acharo que o Alberto  o
teu namorado.
- Ento, dizes-lhes que
isso no  verdade.
- Vamos ver.
- Sim, vamos ver. E Sofia -  verdade que nem tudo
foi fcil entre mim e o pai.
Mas eu nunca tive um namorado...
- Agora, quero dormir.
Tenho uma dor de barriga horrvel.
- Queres uma aspirina?
- Est bem.
Quando a me voltou com um
comprimido e um copo de gua,
Sofia j tinha adormecido.
O dia 31 de Maio era uma
quinta-feira. Sofia esteve
preocupada durante as ltimas
aulas. Em algumas disciplinas
tinha melhorado desde que o
curso de Filosofia comeara.
Na maioria das disciplinas

197
estivera sempre entre "bom" e
"muito bom"; mas nos ltimos
meses tinha conseguido um
"muito bom" num trabalho escrito de cincias humanas e
numa composio de casa. Na
matemtica as coisas no estavam to bem...
Na ltima aula, o professor
entregou uma composio que
tinha corrigido. Sofia tinha
escolhido o tema "O homem e a
tcnica". Escrevera sobre o
Renascimento e o desenvolvimento cientfico, sobre a nova
viso da natureza, sobre
Francis Bacon, que afirmara
"saber  poder", e sobre o novo mtodo cientfico.
Explicara detalhadamente que
o mtodo emprico era mais antigo do que as invenes tcnicas. Escrevera 
depois o que
lhe ocorrera acerca das desvantagens da tcnica. Tudo o
que os homens faziam podia resultar no bem ou no mal, escrevera no fim. 
Bem e mal
eram como um fio branco e um
fio preto que se estavam sempre a entrelaar. Por vezes,
ambos os fios esto to unidos
que  impossvel separar um do
outro.
Ao entregar as composies,
o professor olhou para Sofia
e piscou-lhe o olho.
Teve um cinco, e o professor perguntou: - Como  que
sabes isso tudo?
Sofia agarrou numa caneta
de feltro e escreveu em maisculas na folha: "Eu Estudo
Filosofia".
Ao fechar o livro de exerccios, algo caiu das pginas
do meio. Era um postal ilustrado do Lbano.
Sofia debruou-se sobre a
mesa e leu:

Querida Hilde: Quando
leres isto, j teremos falado
ao telefone acerca da trgica
morte ocorrida aqui. Por vezes, pergunto-me se a guerra e
a violncia no poderiam ser
evitadas se os homens pudessem
pensar de outro modo. Talvez
o melhor meio contra a guerra
e a violncia fosse um pequeno
curso de filosofia. Que tal
um "Pequeno livro de filosofia da ONU" - de que cada
novo cidado do mundo receberia um exemplar na lngua materna? Vou expor 
esta ideia
ao secretrio-geral.
Ao telefone, contaste que
agora j prestas mais ateno
s tuas coisas. Isso  bom,
porque s realmente a maior
cabea de vento que eu conheo. Depois, disseste que desde a nossa ltima 
conversa
apenas perdeste uma moeda de
dez coroas. Farei o possvel
para te compensar. Eu estou
muito longe de casa, mas ainda
tenho uma mo amiga na velha
ptria. (Se encontrar a moeda de dez coroas, junto-a ao
teu presente de aniversrio.)

Beijos do pai, que tem a
sensao de j ter iniciado a
longa viagem de regresso.

198
Sofia acabara de ler o postal quando a aula terminou.
De novo se desencadeou uma
forte tempestade de pensamentos na sua mente.
No ptio da escola, Jorunn
esperava por ela como sempre.
A caminho de casa, Sofia
abriu a sua pasta da escola e
mostrou  amiga o postal.
- De quando  o carimbo?
- perguntou Jorunn.
- De certeza que  de 15
de Junho...
- No, espera... aqui est
30-5-1990.
- Isso foi ontem... ou seja, no dia a seguir  tragdia
no Lbano.
- No acredito que um postal leve apenas um dia do Lbano at  Noruega - 
reflectiu Jorunn.
- Pelo menos no com esta
direco: Hilde Mller
Knag, a/c Sofia Amundsen,
Escola Secundria Furulia...
- Achas que veio pelo correio? E o professor meteu-o
simplesmente no livro?
- No fao ideia. E tambm no sei se me atrevo a
perguntar.
No falaram mais acerca do
postal.
- Na noite de S. Joo,
vou fazer uma grande festa no
jardim - contou Sofia.
- Com rapazes?
Sofia encolheu os ombros.
- No precisamos de convidar os mais parvos.
- Mas vais convidar Jrgen?
- Se quiseres. Talvez
convide o Alberto Knox.
- Deves estar doida.
- Eu sei.
No falaram mais, e separaram-se no supermercado.
A primeira coisa que fez
quando chegou a casa foi procurar Hermes no jardim. E
nesse dia, ele andava de facto
entre as macieiras.
- Hermes!
O co ficou parado por um
momento. Sofia sabia exactamente o que se iria passar
nesse segundo. O co ouvira-a
chamar, reconhecera a sua voz
e decidira verificar se ela
estava ali, e de onde viera o
rudo. S ento a descobriu e
decidiu correr para ela. As
suas quatro pernas desataram a
agitar-se.
Era de facto muito para um
s segundo.
Foi ter com ela a correr,
abanou a cauda energicamente e
saltou para ela.
- Bonito co, Hermes!
No... no, pra de lamber,
ests a ouvir? Senta... assim, sim!

199
Sofia abriu a porta de casa. Sherekan surgiu ento dos
arbustos. O animal estranho
era um pouco sinistro para o
gato. Mas Sofia colocou comida no prato dele, ps sementes no comedouro 
dos pssaros,
deixou  tartaruga uma folha
de alface e escreveu um bilhete  me.
Escreveu que queria levar
Hermes para casa e que telefonaria caso no pudesse estar
em casa antes das sete.
Depois, puseram-se a caminho pela cidade. Desta vez,
Sofia tinha trazido dinheiro.
Pensou em apanhar o autocarro
com Hermes, mas depois lembrou-se que Alberto podia no
estar de acordo.
Ao andar atrs de Hermes,
comeou a pensar no que era um
animal. Qual era a diferena
entre um co e um homem? Ela
ainda sabia o que Aristteles
dissera a esse respeito. Afirmara que homens e animais
eram seres vivos com muitas
semelhanas importantes. Mas
havia tambm uma diferena essencial entre um homem e um
animal, a razo.
Como  que ele tinha a certeza desta diferena?
Demcrito, por seu lado,
no vira uma grande diferena
entre homens e animais, visto
que ambos so compostos por
tomos. Tambm no acreditava
que homens ou animais tivessem
almas imortais. Acreditava
que a alma era formada por pequenos tomos que se separavam
em todas as direces quando
as pessoas morriam. Para ele,
a alma do homem estava indissociavelmente ligada ao crebro.
Mas como  que a alma podia
ser constituda por tomos? 
que a alma no podia ser tocada, ao contrrio de todas as
outras partes do corpo. Era
algo "espiritual".
Tinham atravessado a praa
principal e aproximavam-se da
parte antiga da cidade. Quando chegaram ao local onde
Sofia encontrara a moeda de
dez coroas, o seu olhar dirigiu-se instintivamente para o
cho. E ali - precisamente
ali, onde j se inclinara uma
vez para apanhar uma moeda de
dez coroas - estava agora,
com a fotografia virada para
cima, um postal ilustrado. A
fotografia mostrava um jardim
com palmeiras e laranjeiras.
Sofia baixou-se e apanhou o
postal. Simultaneamente,
Hermes comeou a rosnar. Parecia no gostar que Sofia
tivesse agarrado no postal.

No postal estava escrito:

Querida Hilde! A vida
consiste numa cadeia interminvel de coincidncias. No 
totalmente inverosmil que as
dez coroas que perdeste tenham
chegado aqui. Talvez uma senhora idosa, que esperava pelo

200
autocarro para Kristiansand,
a tenha encontrado na praa
principal de Lillesand. Em
Kristiansand, apanhou o comboio para visitar os seus netos, e muitas 
horas mais tarde
pode ter perdido aqui a moeda
de dez coroas. Em seguida, 
possvel que essa moeda tenha
sido apanhada mais tarde por
uma rapariga que precisava de
dez coroas para poder ir para
casa de autocarro. Nunca se
pode saber, Hilde, mas se foi
mesmo assim temos de nos questionar de facto se no h uma
providncia divina por trs de
tudo.
Beijos do pai que em pensamento j est sentado na doca
em Lillesand.

PS. Eu bem disse que ia
ajudar-te a procurar as dez
coroas.

Como endereo, estava escrito no postal: "Hilde Mller Knag, a/c de uma 
transeunte acidental..." O postal
tinha o carimbo do dia 15 de
Junho.
Sofia subiu os degraus
atrs de Hermes. Quando Alberto abriu a porta, disse:
- Sai do caminho, velhote.
Aqui vem o correio!
Ela achava que naquele preciso momento tinha uma boa razo para estar um 
pouco irritada.
Ele deixou-a entrar. Hermes deitou-se debaixo dos cabides, como na vez 
anterior.
- O major deixou um novo
carto de visita, minha filha?
Sofia olhou para Alberto.
S ento descobriu que ele
trazia um traje novo.
Reparou primeiro numa comprida peruca encaracolada.
Alm disso, trazia um fato
comprido largo com muitas rendas.  volta do pescoo tinha
um vistoso leno de seda e sobre o fato uma capa vermelha.
Trazia meias brancas e, nos
ps, elegantes sapatos de verniz, com laos. No conjunto,
fazia lembrar aqueles quadros
representando a corte de Lus
XIV que Sofia j tinha visto.
- Que pavo! - comentou,
entregando-lhe o postal.
- Hm... e tu encontraste
de facto as dez coroas precisamente no local onde o postal
estava hoje?
- Precisamente ali.
- Ele est cada vez mais
atrevido. Mas talvez isto seja bom.
- Porqu?
- Assim ser mais fcil
desmascar-lo. Esta encenao
 realmente empolada e repugnante. Cheira a perfume barato.
- Perfume?

201
- Tem um efeito indiscutivelmente elegante, mas  apenas uma brincadeira. 
Vs como
ele ousa comparar os seus fracos mtodos de vigilncia com
a providncia divina?
Ergueu o postal. Depois
rasgou-o em pedaos tal como o
anterior. Para no perturbar
ainda mais o seu estado de esprito, Sofia no mencionou o
postal que encontrara no livro
da escola.
- Vamos sentar-nos na sala
de estar, cara discpula. Que
horas so?
- Quatro.
- Hoje vamos falar sobre o
sculo XVII.
Foram para a sala que tinha
o tecto inclinado e a clarabia. Sofia reparou que Alberto substitura 
alguns objectos desde a ltima vez.
Na mesa via-se um antigo
cofre com uma coleco de diversas lentes. Ao lado, estava um livro 
aberto. Era muito
antigo.
- O que  isto? - perguntou Sofia.
-  uma primeira edio do
famoso livro de Ren Descartes, O Discurso do Mtodo.  do ano de 
1637 e 
um dos meus objectos mais estimados.
- E o cofre...
- ... contm uma coleco
exclusiva de lentes - ou vidros pticos. Foram polidos
por volta de meados do sculo
XVII pelo filsofo holands
Espinosa. Ficaram-me caras, mas tambm so das minhas
preciosidades mais valiosas.
- Eu compreenderia sem dvida melhor o valor do livro e
do cofre se soubesse alguma
coisa sobre Descartes e Espinosa.
- Claro. Mas vamos tentar
primeiro familiarizar-nos um
pouco com a sua poca.
Sentemo-nos.
E sentaram-se como na vez
anterior, Sofia numa poltrona
grande e Alberto no sof.
Entre eles estava a mesa com
o livro e o cofre. Quando se
sentaram, Alberto tirou a peruca e p-la na escrivaninha.
- Vamos falar agora sobre
o sculo XVII - ou a poca
que  designada por Barroco.
- Barroco? No  um nome
estranho?
- A designao "barroco"
provm de uma palavra que significa na realidade "prola
irregular". Tpico da arte do
Barroco eram as formas exuberantes e com muitos contrastes, ao contrrio 
da arte do
Renascimento, mais simples e
harmoniosa. O sculo XVII 
caracterizado pela tenso entre opostos inconciliveis.
Por um lado, continuava a haver a viso optimista do mundo
como no Renascimento - por
outro, muitos se agarraram ao
extremo oposto e levavam uma
vida de recusa do mundo e retiro religioso. Na arte e na
vida real encontramos uma

202
ostentao pomposa de vida.
Simultaneamente, surgiram os
movimentos monsticos que renunciavam ao mundo.
- Palcios imponentes e
mosteiros escondidos, portanto.
- Sim, podes diz-lo assim. Um chavo do Barroco
era o provrbio latino "carpe
diem" - que significa: "goza
o dia!". Um outro provrbio
latino muito evocado diz: "memento mori" - e significa:
"Recorda que tens de morrer!". Na pintura, o mesmo
quadro podia mostrar simultaneamente uma grande exuberncia enquanto num 
canto inferior estava pintada uma caveira.
Em muitos aspectos, o Barroco caracteriza-se pela frivolidade e a 
afectao, mas
tambm pela conscincia da
efemeridade de todas as coisas, ou seja, pelo facto de
que tudo o que  belo tem de
perecer e decompor-se um dia.
-  verdade, mas  uma
ideia triste pensar que nada 
estvel.
- Nesse caso, pensas exactamente como muitas pessoas no
sculo XVII. No domnio poltico, o Barroco tambm foi
a poca de grandes conflitos.
Primeiro, a Europa foi devastada por guerras. A mais
grave foi a Guerra dos Trinta Anos, que assolou quase
toda a Europa de 1618 a
1648. Na realidade, consistiu em muitas guerras pequenas, que atingiram 
sobretudo a
Alemanha. Como consequncia
da Guerra dos Trinta Anos,
a Frana tornou-se pouco a
pouco a potncia dominante na
Europa.
- Porque  que eles combatiam?
- Era sobretudo uma guerra
entre protestantes e catlicos. Mas tambm se tratava do
poder poltico.
- Mais ou menos como no
Lbano.
- Alm disso, o sculo
XVII estava marcado por
enormes diferenas de classes.
Com certeza j ouviste falar
da nobreza francesa e da corte
de Versalhes. No sei se
tambm estudaste a misria do
povo. Mas toda a ostentao
do luxo assenta sobre a ostentao do poder. Diz-se que a
situao poltica do Barroco
pode ser comparada com a arte
e a arquitectura contemporneas. Os edifcios do Barroco estavam 
sobrecarregados de
volutas, estuques e decoraes. E a poltica estava
cheia de assassnios, intrigas
e tramas.
- No houve um rei sueco
que foi assassinado no teatro
nessa altura?
- Ests a pensar em Gustavo III, e tens a um verdadeiro exemplo daquilo 
a que
me refiro. O assassnio de
Gustavo III deu-se j no
ano de 1792, mas em circunstncias muito barrocas. Ele
foi assassinado num grande
baile de mscaras.
- E eu pensava que tinha
sido no teatro.

203
- O baile de mscaras teve
lugar na pera. O Barroco
sueco, no fundo, s terminou
com o assassnio de Gustavo
III. Durante o seu reinado
dominou o despotismo esclarecido, mais ou menos como quase
cem anos antes com Lus
XIV. Alm disso, Gustavo
III era um homem muito frvolo, que adorava todas as cerimnias e 
cortesias francesas. E repara que tambm gostava muito de teatro...
- E isso foi-lhe fatal.
- Mas o teatro no Barroco
era mais do que uma mera forma
artstica. Era o smbolo mais
importante da sua poca.
- E o que  que simbolizava?
- A vida, Sofia. No sei
quantas vezes se disse durante
o sculo XVII: "A vida 
teatro". Certamente muitas
vezes. E foi durante o barroco que surgiu o teatro moderno
- com a sua maquinaria e cenografia. No teatro, punha-se
em cena uma iluso - que era
desmascarada como mera fico.
Deste modo, o teatro tornou-se a imagem da vida humana em
geral. O teatro podia mostrar
que "quanto mais alto  o voo,
maior  a queda", oferecendo
uma representao impiedosa da
fragilidade humana.
- William Shakespeare
viveu no perodo do Barroco?
- Ele escreveu os seus
grandes dramas por volta do
ano de 1600. Desse modo, tem
um p no Renascimento e o outro no Barroco. Mas j em
Shakespeare se encontram muitas reflexes sobre a vida como teatro. 
Gostarias de ouvir
alguns exemplos?
- Sim, muito.
- No drama As You Like
It, ele afirma:

O mundo  um palco e todos
os homens e mulheres meros actores. Entram e saem de cena,
e cada um representa muitos
papis no seu tempo...

E em Macbeth diz-se:

A vida  apenas uma sombra

inconstante;
Um pobre comediante que se
pavoneia e se agita
Durante a sua hora em cena, e

depois nada mais
Se ouve dele;  uma histria,

contada
Por um idiota, cheia de som e
de fria,
Que nada significa.

- Isso  mesmo pessimista.
- Mas a brevidade da vida
preocupou-o. Provavelmente j
ouviste a mais famosa citao
de Shakespeare:

204
- Ser ou no ser - eis a
questo.
- Sim, foi Hamlet que o
disse. Num dia estamos na
terra - no dia seguinte desaparecemos.
- Obrigada, isso eu j
compreendi.
- Quando no comparam a
vida com o teatro, os escritores barrocos comparam-na com
um sonho. J Shakespeare
afirmava, por exemplo: "Somos
feitos da mesma matria que os
sonhos, e esta breve vida
abrange um sono..."
- Que potico.
- O poeta espanhol
Caldern, que nasceu por
volta de 1600, escreveu um
drama com o ttulo A vida 
sonho. A afirma "O que  a
vida? Loucura! O que  a vida? Uma iluso, uma sombra,
uma fico. E o maior dos
bens tem pouco valor, pois a
vida  um sonho."
- Talvez ele tenha razo.
Ns lemos uma pea na escola.
Chamava-se Jeppe de Bjerget.
- De Ludvig Holberg,
sim. Aqui no Norte uma grande figura de transio entre o
Barroco e o Iluminismo.
- Jeppe adormece num fosso
de estrada... e depois acorda
na cama do baro. E pensa ter
sonhado ser apenas um pobre
campons. Depois,  levado de
volta para o fosso, a dormir
- e acorda de novo. E acha
nessa altura ter sonhado que
estivera deitado na cama do
baro.
- Holberg retirou este motivo de Caldern, como Caldern o fizera a 
partir dos
contos rabes das Mil e Uma
Noites. Mas a comparao
entre vida e sonho  ainda
mais antiga, e encontramo-la
inclusivamente na ndia e na
China. J o antigo sbio
chins Tchuang Tsu (cerca
de 350 a.C.) sonhou uma vez
que era uma borboleta e, aps
ter acordado perguntou se era
um homem que sonhara ser uma
borboleta ou uma borboleta que
estava nesse momento a sonhar
que era um homem.
- De qualquer modo,  impossvel provar qual est certo.
- Na Noruega tivemos um
poeta barroco tpico, de nome
Petter Dass. Viveu entre
1647 e 1707. Por um lado,
queria retratar a vida como 
realmente, por outro sublinhava que apenas Deus  eterno e
constante.
- Deus  Deus, mesmo se
tudo fosse deserto, Deus 
Deus, mesmo se todos estivessem mortos...
- Mas no mesmo hino ele
descreve tambm a cultura norueguesa - escrevendo sobre
todos os tipos de peixe que se
encontram nesta zona. Isso 
tpico do Barroco. Num mesmo
texto  descrito o terreno,
imanente - e o celestial,
transcendente. O conjunto
pode

205
fazer-nos lembrar a separao
platnica entre o mundo sensvel concreto e o mundo imutvel das ideias.
- E a filosofia?
- Tambm a filosofia era
caracterizada por duras lutas
entre modos de pensar contraditrios. Como j ouvimos,
para alguns filsofos, a realidade era fundamentalmente de
natureza mental ou espiritual.
Designamos essa perspectiva
por idealismo. A concepo
oposta  o materialismo, uma
filosofia que defende que a
realidade se reduz a substncias materiais concretas. O
materialismo tambm teve no
sculo XVII muitos defensores. O mais influente talvez
tenha sido o filsofo ingls
Thomas Hobbes. Segundo
ele, todos os seres - logo,
tambm homens e animais -
consistem exclusivamente em
partculas de matria. Mesmo
a conscincia do homem - ou a
alma humana - nasce atravs
do movimento de partculas minsculas no crebro.
- Ento ele pensava o mesmo que Demcrito dois mil
anos antes.
- Idealismo e materialismo
so como fios condutores atravs de toda a histria da filosofia. Mas 
muito raramente
as duas concepes surgiram
to claramente numa mesma poca como no Barroco. O materialismo 
consolidou-se progressivamente atravs das novas cincias da natureza.
Newton mostrou que as mesmas
leis para o movimento so vlidas em todo o universo, e
que as leis da gravitao e
dos movimentos dos corpos so
responsveis por todas as
transformaes na natureza -
tanto na terra como no espao.
Portanto, tudo  governado
com a mesma regularidade constante - ou com a mesma mecnica. Assim, em 
princpio,
podemos calcular qualquer
transformao na natureza com
exactido matemtica. Deste
modo, Newton forneceu os ltimos elementos para a chamada
concepo mecanicista do mundo.
- Ele imaginava o mundo
como uma grande mquina?
- Exactamente. O termo
"mecnico" provm da palavra
grega mchan, que significa
mquina. Mas devemos ter em
ateno que nem Hobbes nem
Newton viam uma contradio
entre uma concepo mecanicista do mundo e a crena em
Deus. Isto no  vlido para
todos os materialistas dos sculos XVIII e XIX. O mdico e filsofo 
francs La
Mettrie escreveu em meados
do sculo XVIII um livro com
o ttulo L'homme machine.
Significa: "o homem mquina".
Tal como a perna tem msculos
para andar, assim o crebro,
escreveu ele, tem "msculos"
para pensar. Posteriormente,
o matemtico francs Laplace exprimiu com o seguinte
pensamento uma concepo mecanicista extrema: se uma inteligncia 
conhecesse a posio
de todas as

206
partculas de matria num certo momento, nada seria incerto, e tanto o 
futuro como o
passado seriam evidentes. Estaria "nas cartas" o que haveria de suceder. 
Designamos
esta concepo por determinismo.
- Nesse caso, o homem no
pode ter livre arbtrio.
- No, tudo  produto de
processos mecnicos - inclusivamente os nossos pensamentos e sonhos. No 
sculo
XIX, materialistas alemes
afirmaram que os processos de
pensamento se comportam em relao ao crebro tal como a
urina em relao aos rins e a
blis em relao ao fgado.
- Mas a urina e a blis
so materiais. Os pensamentos
no.
- Ests a dizer uma coisa
importante. Posso contar-te
uma histria que diz o mesmo.
Certa vez, um cosmonauta e um
neurocirurgio russos discutiam sobre religio. O cirurgio era cristo, 
o cosmonauta
no. "Eu j estive vrias vezes no espao", gabava-se o
cosmonauta, "mas no vi nem
Deus nem anjos". "E eu j
operei muitos crebros inteligentes", respondeu o cirurgio, "e tambm 
no encontrei
em lado algum um nico pensamento".
- O que no significa que
os pensamentos no existam.
- No. Apenas esclarece
que os pensamentos so algo
completamente diferente de
tudo o que pode ser amputado
ou dividido em partes cada vez
mais pequenas. Por exemplo,
no  fcil remover uma alucinao com uma operao. Um
importante filsofo do sculo
XVII, chamado Leibniz,
referiu que a grande diferena
entre tudo o que  feito de
matria e tudo o que  feito
de esprito consiste precisamente no facto de a matria
poder ser dividida em partes
cada vez mais pequenas. Mas a
alma no pode ser cortada em
pedaos.
- Pois no, que tipo de
faca se usaria?
Alberto abanou a cabea.
Depois, apontou para a mesa
entre ambos e afirmou:
- Os dois filsofos mais
importantes do sculo XVII
foram Descartes e Espinosa.
Tambm eles se preocuparam
com questes como a relao
entre alma e corpo. Vamos observar mais pormenorizadamente
estes filsofos.
- Conta. Mas, se no estivermos despachados at s
sete, tenho de telefonar  minha me.

207

Descartes

... ele queria remover todos os velhos materiais do
terreno de construo...

Alberto levantara-se e despira a capa vermelha. P-la
numa cadeira e voltou a sentar-se confortavelmente no
sof.
- Ren Descartes nasceu
em 1596 e viveu em vrios
pases da Europa ao longo da
vida. J na sua juventude,
sentia o forte desejo de tomar
conhecimento da natureza do
homem e do universo. Mas depois de ter estudado filosofia
tornou-se consciente sobretudo
da sua prpria ignorncia.
- Mais ou menos como Scrates?
- Sim, mais ou menos assim. Tal como Scrates, estava convencido de que 
s a
razo nos pode dar conhecimento seguro. Nunca podemos confiar no que est 
escrito em
livros antigos. Nem sequer
podemos confiar no que os nossos sentidos nos transmitem.
- Plato era da mesma opinio. Ele achava que s a razo nos pode dar um 
saber slido.
- Exacto. De Scrates e
Plato, atravs de S. Agostinho, h uma linha directa
at Descartes. Todos eles
eram racionalistas convictos.
Para eles, a razo era a nica fonte segura de conhecimento. Aps muitos 
estudos,
Descartes reconheceu que no
era foroso confiar no saber
transmitido na Idade Mdia.
Podes fazer uma comparao
com Scrates, que no confiava nas concepes mais difundidas com que se 
defrontava na
gora em Atenas. E o que 
que se faz neste caso, Sofia?
Sabes responder-me?
- Comea-se a filosofar
por si mesmo.
- Exacto. Descartes decidiu ento viajar pela Europa
- tal como Scrates, que
passou a vida em dilogo com
homens de Atenas. Ele prprio relata que a partir dessa
altura s queria procurar o
saber que podia encontrar em
si mesmo ou "no grande livro
do mundo". Por isso, entrou
para o exrcito e pde permanecer em diversos locais da
Europa Central. Mais tarde,
passou alguns anos em Paris.
Em Maio

208
de 1629, viajou para os Pases Baixos, onde viveu durante quase vinte 
anos, enquanto
trabalhava nos seus escritos
filosficos. Em 1649, a rainha Cristina convidou-o a viver na Sucia. Mas 
esta estadia "no pas dos ursos, do
gelo e dos rochedos", como ele
lhe chamou, provocou-lhe uma
pneumonia, e morreu no Inverno de 1650.
- Ento s tinha 54 anos!
- Mas ainda havia de ser
muito importante para a filosofia, mesmo aps a sua morte.
Sem exagero, podemos dizer
que Descartes foi o fundador
da filosofia da poca moderna.
Depois da imponente redescoberta do homem e da natureza
no Renascimento, surgiu de
novo a necessidade de reunir
todas as ideias contemporneas
num nico sistema filosfico
coerente. O primeiro grande
construtor de sistema foi
Descartes, e seguiram-se-lhe Espinosa e Leibniz,
Locke e Berkeley,
Hume e Kant.
- O que  que entendes por
"sistema filosfico"?
- Entendo uma filosofia
construda desde a base e que
procura encontrar uma resposta
para todas as questes filosficas importantes. A Antiguidade teve 
grandes construtores de sistemas como Plato
e Aristteles. A Idade Mdia teve S. Toms de Aquino, que queria fazer 
uma ponte
entre a filosofia de Aristteles e a teologia crist.
Veio depois o Renascimento
- com uma mistura de velhas e
novas ideias sobre a natureza
e a cincia, Deus e os homens. S no sculo XVII a
filosofia tentou de novo pr
em sistema as novas ideias. O
primeiro a fazer esta tentativa foi Descartes. Ele deu o
sinal de partida para aquilo
que se tornaria o projecto filosfico mais importante para
as geraes seguintes. Antes
de mais, preocupava-o o que
ns podemos saber, ou seja, a
questo da solidez do nosso
conhecimento. A segunda
grande questo que o preocupava era a relao entre corpo
e alma. Estas duas problemticas determinariam a discusso filosfica 
dos cento e
cinquenta anos seguintes.
- Ento ele estava adiantado em relao  poca.
- Mas as questes j andavam no ar na poca. Na questo de como podemos 
alcanar
saber seguro, alguns exprimiram o seu total cepticismo
filosfico. Achavam que os
homens tinham de se conformar
com o facto de nada saberem.
Mas Descartes no se conformou com isso. Se o tivesse
feito, no teria sido um verdadeiro filsofo. De novo,
podemos fazer um paralelismo
com Scrates, que no se contentou com o cepticismo dos
sofistas. Justamente na poca
de Descartes, a nova cincia
da natureza desenvolvera um
mtodo que havia de fornecer
uma descrio totalmente segura e exacta dos processos naturais. 
Descartes interrogou-se se no havia um mtodo
igualmente seguro e exacto
para a reflexo filosfica.

209
- Entendo.
- Mas esse era apenas um
dos problemas. A nova fsica
colocara tambm a questo sobre a natureza da matria, ou
seja, sobre o que determina os
processos fsicos na natureza.
Cada vez mais pessoas defendiam uma compreenso materialista da natureza. 
Mas quanto
mais o mundo fsico era concebido de forma mecanicista,
mais urgente se tornava a
questo da relao entre corpo
e alma. Antes do sculo
XVII, a alma fora descrita
geralmente como uma espcie de
"esprito vital" que percorria
todos os seres vivos. Alis,
o significado original de
"alma" e "esprito"  tambm
"sopro vital" ou "respirao".
 esse o caso em quase todas
as lnguas europeias. Para
Aristteles, a alma  algo
que est presente em todo o
organismo como "princpio vital" desse organismo - e que
 inconcebvel separada do
corpo. Por isso tambm podia
falar de uma "alma vegetativa"
e de uma "alma sensitiva".
Foi s no sculo XVII que
os filsofos estabeleceram uma
separao radical entre alma e
corpo, porque todos os objectos fsicos - tambm um corpo
animal ou humano - eram explicados como processos mecnicos. Mas a alma 
humana no
podia ser uma parte desta
"mquina fisiolgica"? O que
era ento? Tinha que se esclarecer como  que algo "espiritual" podia dar 
origem a
um processo mecnico.
- Essa  realmente uma
ideia bastante estranha.
- O que queres dizer com
isso?
- Eu decido levantar o meu
brao - e o brao eleva-se.
Ou eu decido correr para o
autocarro e imediatamente as
minhas pernas comeam a mover-se. Por vezes, penso numa
coisa triste: as lgrimas
vm-me logo aos olhos. Assim,
tem de haver alguma ligao
misteriosa entre o corpo e a
conscincia.
- Foi precisamente este
problema que levou Descartes
a reflectir. Tal como Plato, ele estava convencido de
que h uma diviso rgida entre esprito e matria. Mas
Plato no conseguiu dar resposta ao problema de como o
esprito influencia o corpo,
ou a alma o corpo.
- Eu tambm no, por isso
estou desejosa de saber o que
Descartes descobriu.
Ouamos as suas prprias
reflexes.
Alberto indicou o livro que
estava entre eles na mesa e
prosseguiu:
- Neste pequeno livro,
Discurso do Mtodo, Descartes levanta a questo de
qual o mtodo filosfico que
um filsofo deve utilizar para
resolver um problema filosfico. As cincias da natureza
j tinham desenvolvido o seu
novo mtodo...
- J falaste nisso.

210
- Descartes explica em seguida que no podemos dar nada
como verdadeiro enquanto no
tivermos reconhecido claramente que  verdadeiro. Para
conseguirmos isso, temos que
decompor um problema complexo
em tantas partes simples quanto possvel. Podemos comear
ento pela ideia mais simples.
Talvez se possa dizer que cada ideia  "pesada e medida"
- mais ou menos do mesmo modo
que Galileu queria medir tudo
e tornar mensurvel o no mensurvel. Descartes achava que
o filsofo podia prosseguir do
simples para o complexo. Deste modo poderia ser construdo
um novo conhecimento. At ao
final,  necessrio verificar
que no se omitiu nada, por
meio de um controlo e de uma
verificao constantes. S
assim se pode atingir concluses filosficas.
- Isso parece um problema
matemtico.
- Sim, Descartes queria
aplicar o "mtodo matemtico"
 reflexo filosfica. Queria
provar verdades filosficas
aproximadamente do mesmo modo
que um teorema matemtico.
Queria usar exactamente o
mesmo instrumento que usamos
ao trabalhar com nmeros, a
razo, porque s a razo nos
fornece conhecimento seguro.
No estabelece de modo algum
que se possa confiar nos sentidos. J referimos a sua
afinidade com Plato. Tambm
este dissera que a matemtica
e as relaes numricas fornecem conhecimento mais seguro
do que os testemunhos dos nossos sentidos.
- Mas  possvel responder
desse modo a questes filosficas?
- Voltemos ao raciocnio
de Descartes. O seu objectivo  portanto obter conhecimentos seguros 
acerca da natureza da realidade, e ele torna
claro em primeiro lugar que no
incio devemos duvidar de tudo. Ele no queria edificar o
seu sistema filosfico sobre
areia.
- Porque se o fundamento
cede, toda a casa se desmorona.
- Obrigado pela ajuda,
Sofia. Descartes no achava
sensato duvidar de tudo, mas
pensava que, em princpio, podemos duvidar de tudo. Em
primeiro lugar, no  certo
que faamos progressos na nossa busca filosfica pela leitura de Plato 
ou Aristteles. Talvez alarguemos
com isso o nosso saber histrico, mas no descobrimos
mais acerca do mundo. Descartes achava importante lanar
ao mar o patrimnio intelectual antigo antes de iniciar a
sua prpria investigao filosfica.
- Ele queria remover todos
os velhos materiais do terreno
de construo, antes de iniciar a construo da nova casa?
- Sim, para ter a certeza
de que o novo edifcio de
ideias era estvel, ele queria
usar apenas material de construo novo e slido. Mas as
dvidas de Descartes vo ainda mais longe. Segundo ele,

211
nunca podemos confiar no que
os nossos sentidos nos transmitem, porque podemos ser enganados por eles.
- Como  que isso  possvel?
- Mesmo quando sonhamos,
acreditamos estar a viver uma
situao real. E haver alguma coisa que distinga as nossas sensaes, 
quando estamos
despertos, das sensaes "sonhadas"? "Quando reflicto
cuidadosamente nesta questo,
no encontro nenhum indcio
pelo qual possa distinguir com
segurana a viglia do sono",
escreve Descartes. E ele
prossegue: "So ambos to semelhantes que eu fico totalmente perplexo e 
no sei se
no estarei a sonhar neste momento".
- Jeppe tambm achava que
tinha sonhado ter estado deitado na cama do baro.
- E enquanto estava deitado na cama do baro achava que
a sua vida como campons pobre
era um sonho. Assim, Descartes duvida de tudo. Muitos
filsofos antes dele j tinham
terminado as suas reflexes
filosficas neste ponto.
- Nesse caso, no foram
muito longe.
- Mas Descartes tentou
continuar a trabalhar a partir
do zero. Ele chegou  concluso de que duvidava de tudo e
que isso  a nica coisa de
que se pode ter uma certeza
absoluta. E em seguida, h
algo que se lhe torna claro:
h um facto, do qual ele pode
ter toda a certeza: duvida.
Mas se duvida, tem que concluir que pensa, e se pensa
tem de concluir que  um ser
pensante. Ou, como ele prprio diz: "cogito, ergo sum".
- E o que significa?
- Penso, logo existo.
- No me surpreende que
ele tenha chegado a essa concluso.
- Est bem. Mas no te
esqueas com que certeza intuitiva ele se concebe subitamente como um eu 
pensante.
Talvez ainda te lembres que
para Plato  mais real o que
compreendemos com a razo do
que o que obtemos dos sentidos. Com Descartes, passava-se exactamente o 
mesmo. Ele
no compreende apenas que  um
eu pensante, entende simultaneamente que este eu pensante
 mais real do que o mundo fsico, que apreendemos com os
sentidos. E a partir daqui,
ele prossegue, Sofia. Ainda
no concluiu de modo algum a
investigao filosfica.
- Prossegue tu tambm com
calma.
- Descartes interrogou-se
ento sobre se havia algo mais
que ele pudesse apreender com
a mesma evidncia intuitiva,
alm do facto de ser um ser
pensante. Ele descobre que
tem tambm uma ideia clara e
ntida de um ser perfeito.
Teve sempre essa ideia e,
para Descartes, 

212
evidente que essa ideia no
pode provir dele mesmo. A
ideia de um ser perfeito no
pode provir de um ser imperfeito. Por isso, a ideia de
um ser perfeito tem de provir
desse mesmo ser perfeito -
por outras palavras, de Deus.
Que Deus existe  deste modo
to imediatamente evidente
para Descartes como o facto
de algum que pensa ter de ser
um eu pensante.
- Agora, acho que ele precipita um pouco as concluses.
E era to atento no princpio!
- Sim, houve quem afirmasse ser este o ponto mais fraco
de Descartes. Mas tu ests a
falar de dedues. Na verdade, no se trata aqui de uma
demonstrao. Descartes queria apenas dizer que todos ns
temos uma ideia de um ser perfeito, e que esta ideia implica que este ser 
perfeito existe. Porque um ser perfeito
no seria perfeito se no
existisse. Alm disso, no
teramos a ideia de um ser
perfeito se esse ser no existisse. Ns somos imperfeitos
e, por isso, a ideia do perfeito no pode provir de ns.
A ideia de um Deus , segundo Descartes, uma ideia inata
que nos foi implantada ao nascermos - "tal como a marca
que o artista imprimiu na sua
obra", como ele escreve.
- Mas mesmo que eu tenha
uma ideia de um crocofante,
isso no significa que existam
crocofantes.
- Descartes teria dito que
o conceito de "crocofante" no
implica que ele exista. Mas o
conceito de "ser perfeito" implica que este ser exista.
Para Descartes isto  to
certo como o facto de a ideia
de crculo implicar que todos
os pontos do crculo esto 
mesma distncia do centro do
crculo. Logo, no podes falar de um crculo se ele no
preenche estes requisitos. E
tambm no podes falar de um
ser perfeito se lhe falta a
mais importante de todas as
qualidades, a existncia.
-  um modo de pensar muito especial.
- Isto  um modo de pensar
claramente "racionalista".
Tal como Scrates e Plato,
Descartes via uma conexo entre pensamento e existncia.
Quanto mais evidente uma coisa  para o pensamento, mais
certa  a sua existncia.
- At aqui, ele reconheceu
que  um ser pensante, e que
existe um ser perfeito.
- E, a partir destas certezas, prossegue. Todas as
ideias que temos da realidade
exterior - por exemplo, Sol
e Lua -, podiam tambm ser
apenas vises onricas. Mas a
realidade exterior tambm tem
algumas caractersticas que
podemos conhecer com a razo.
Por exemplo, as relaes matemticas, ou seja, aquilo que
pode ser medido,

213
o comprimento, a altura e a
profundidade. Estas propriedades quantitativas so to
claras para a razo como o
facto de eu ser um ser pensante. Propriedades qualitativas como cor, 
cheiro e sabor
esto por seu lado relacionadas com os nossos sentidos e
no descrevem nenhuma realidade exterior.
- Ento afinal a natureza
no  um sonho?
- No. E, neste ponto,
Descartes recorre novamente 
nossa ideia de um ser perfeito. Se a nossa razo conhece
algo muito clara e distintamente - que  o caso das relaes matemticas 
na realidade exterior -  porque 
assim mesmo. Um Deus perfeito no faria pouco de ns.
Descartes recorre a Deus
como garantia de que aquilo
que conhecemos com a nossa razo corresponde a uma coisa
real.
- Est bem. Ele descobriu
que  um ser pensante, que
Deus existe e ainda que existe uma realidade exterior.
- Mas entre a realidade
exterior e a realidade das
ideias h uma diferena essencial. Descartes pressupe que
existem duas formas diferentes
de realidade - ou duas substncias. Uma substncia  o
pensamento ou a alma, a outra a extenso ou a matria.
A alma  apenas consciente,
no ocupa espao e, por isso,
tambm no pode ser dividida
em partes mais pequenas. A
matria, por seu lado,  extensa, ocupa espao e pode ser
dividida em partes cada vez
mais pequenas - mas no 
consciente. Descartes afirma
que ambas as substncias provm de Deus, porque apenas
Deus existe independentemente
de todas as outras coisas.
Mas mesmo provindo pensamento
e extenso de Deus, as duas
substncias so completamente
independentes uma da outra. O
pensamento  livre na sua relao com a matria - e vice-versa: os 
processos materiais
operam de forma totalmente independente do pensamento.
- E assim, a Criao ficou dividida em dois.
- Exacto. Dizemos que
Descartes  dualista, e
isso significa que ele traa
uma clara linha de separao
entre a realidade espiritual e
a realidade em extenso. Por
exemplo, apenas o homem tem
alma. Os animais pertencem
totalmente  realidade em extenso. A sua vida e os seus
movimentos so puramente mecnicos. Descartes via os animais como uma 
espcie de autmatos complexos. Em relao 
realidade em extenso, ele tem
dela uma concepo mecanicista
- tal como os materialistas.
- Mas eu duvido muito que
Hermes seja uma mquina ou um
autmato. Certamente, Descartes nunca gostou de um animal. E em relao a 
ns?
Tambm somos autmatos?

214
- Sim e no. Descartes
chegou  concluso de que o
homem  um ser duplo que pensa
e ocupa espao. O homem tem
uma alma e um corpo extenso.
S. Agostinho e S. Toms de
Aquino j tinham afirmado algo semelhante. Acreditavam
que o homem tem corpo tal como
os animais, mas tambm esprito como os anjos. Para Descartes, o corpo  
um mecanismo
muito sofisticado. Mas o homem tem tambm alma que pode
operar independentemente do
corpo. Os processos corporais
no tm essa liberdade, seguem
as suas prprias leis. Mas
aquilo que pensamos com a razo no acontece no corpo.
Acontece na alma, que  independente da realidade extensa.
Eu posso ainda acrescentar
que Descartes no queria excluir a possibilidade de tambm os animais 
pensarem. Mas,
se possurem essa faculdade,
tambm tem de existir neles a
mesma diviso entre pensamento
e extenso.
- J falmos sobre isso.
Quando eu decido correr para
o autocarro, todo o "autmato"
se pe em movimento. E se
perco o autocarro, vm-me as
lgrimas aos olhos.
- Nem Descartes podia
contestar que existe sempre
esse efeito recproco entre
alma e corpo. Enquanto a alma
est no corpo, segundo ele,
est ligada ao corpo atravs
de um rgo do crebro muito
especial, uma glndula, na
qual se d uma reaco constante entre o esprito e a matria. Deste 
modo, segundo
Descartes, a alma pode ser
permanentemente confundida com
os sentimentos e sensaes que
tm a ver com as necessidades
do corpo. O objectivo 
transmitir  alma a ordem:
Seja qual for a gravidade das
minhas dores de barriga, a
soma dos ngulos num tringulo
 sempre cento e oitenta
graus. Deste modo, o pensamento pode elevar-se acima das
necessidades do corpo e proceder "racionalmente". Deste
ponto de vista, a alma  totalmente independente do corpo. As nossas 
pernas podem
ficar velhas e fracas, as nossas costas tortas, e os nossos
dentes podem cair - mas dois
mais dois sero sempre quatro,
enquanto ainda houver razo em
ns. Porque a razo no fica
velha e caduca. Os nossos
corpos  que envelhecem. Para
Descartes, a prpria razo 
a alma. Paixes e humores inferiores como a concupiscncia
e o dio esto estreitamente
ligados s funes corporais
- e consequentemente  realidade extensa.
- Eu no me conformo com o
facto de Descartes ter comparado o corpo com uma mquina
ou um autmato.
- O motivo da comparao 
o facto de as pessoas, no tempo de Descartes, estarem completamente 
fascinadas com as
mquinas e os mecanismos dos
relgios, que aparentemente
funcionavam por si mesmos. A
palavra "autmato" designa
precisamente algo que se

215
move por si mesmo. Mas eles
moverem-se por si era apenas
uma iluso. Por exemplo, os
homens construram nessa poca
um relgio astronmico e deram-lhe corda. Descartes
acentua que estes mecanismos
artificiais so compostos muito simplesmente por poucas
partes, em comparao com as
quantidades de ossos, msculos, nervos, artrias e veias
que compem os corpos de homens e animais. Mas porque 
que Deus no havia de produzir um corpo animal ou humano
com base nas leis mecnicas?
- Hoje fala-se muito de
"inteligncia artificial".
- Ests a pensar nos nossos autmatos actuais. Construmos mquinas que 
por vezes
nos podem convencer realmente
da sua inteligncia. Essas
mquinas teriam certamente
posto Descartes em pnico.
Talvez ele se interrogasse se
a razo humana  realmente to
livre e autnoma como ele tinha pensado. H filsofos que
pensam que a vida espiritual
humana  to pouco livre como
os processos corporais. A
alma de um homem  infinitamente mais complexa do que
qualquer programa de computador, mas h tambm quem pense
que em princpio somos to
pouco livres como esses programas. Mas olha para aqui,
Sofia. Quero mostrar-te uma
coisa.
Alberto indicou ento uma
grande secretria no outro extremo da sala. Havia ali um
pequeno ecr. Ele levantou-se
e foi at l, seguido por Sofia.
Alberto ligou o computador
e em breve apareceu escrito no
canto superior c:. Ele escreveu "Laila" e disse:
- Este  um programa avanado de conversao.
Em seguida apareceu um texto no ecr:
- Ol, eu chamo-me Laila.
Ests comodamente sentada?
Sofia escreveu trs letras:
"Sim", apesar de ainda no se
ter sentado. Alberto empurrou
uma cadeira para ela.
"Como te chamas?", estava
agora escrito no ecr.
"Sofia Amundsen", escreveu
Sofia, e o computador respondeu:
"Klverveien 3.  um prazer conhecer-te, Sofia. Ests entusiasmada com o 
teu
aniversrio?"
Sofia sobressaltou-se. Alberto colocou-lhe a mo no ombro e disse:
- Eu apenas dei a Laila o
teu nome, a tua morada e a tua
data de nascimento.  como
quando algum se apresenta a
um novo amigo. Gostamos de
saber antecipadamente alguns
dados sobre o outro.
"Bem" - escreveu ento
Sofia.
- Sim, ests mesmo bem,
Sofia? Tens de tentar conversar com frases completas.
"Obrigada, estou muito bem.
Posso fazer-te uma pergunta?"

216
"Por favor, faz uma pergunta".
"Que idade tens?" - perguntou Sofia.
"Fui construda em Atlanta
a 8 de Agosto de 1988, e
traduzida para noruegus a 28
de Maro de 1990 na Escola
Superior Tcnica Norueguesa."
"Bolas!"
"Eu disse que tinhas de falar com frases completas".
"Eu disse: bolas".
"No percebo calo. Conheo mais de cem mil palavras,
mas a palavra "bolas" s conheo em relao a bola. De
que  que ests a falar exactamente?"
"No sei".
"No saber alguma coisa 
em geral um estdio na via
para um novo conhecimento".
"Scrates teria certamente
dito o mesmo. Ou Descartes".
"Scrates era um filsofo
grego que viveu entre 470 e
399 antes de Cristo. Se
queres saber mais, toca em
F7. Descartes era um filsofo francs que viveu entre
1596 e 1650. Se quiseres
saber mais toca em F8".
"Obrigada,  suficiente.
Posso perguntar-te outra coisa?"
"Pergunta outra coisa".
Alberto sorria. Sofia escreveu:
"Quem  Hilde Mller
Knag?"
"Hilde Mller Knag mora
em Lillesand e tem a mesma
idade que Sofia Amundsen".
"Como  que sabes isso?"
"Eu no sei como sei, mas
encontrei-o no meu disco rgido".
Sofia sentiu uma mo sobre
o ombro.
- Eu dei-lhe o pouco que
sabemos sobre Hilde.
"Sabes mais alguma coisa
sobre Hilde?" - escreveu
Sofia.
"O pai de Hilde  observador da ONU no Lbano. 
major e envia postais  filha.
"Quero que o encontres".
"No consigo. No o encontro em nenhum arquivo, e no
estou ligada a mais nenhum
terminal".
"Eu disse para o encontrares!!!!!!!"
"Ests irritada, Sofia?
Tantos pontos de exclamao
so um indcio de sentimentos
violentos".
"Eu quero falar com o pai
de Hilde!"
"Tens problemas em controlar a tua vontade. Se quiseres falar sobre a tua 
infncia, toca em F9".

217
Alberto colocou de novo a
mo no ombro de Sofia.
- Ela tem razo. Isto no
 nenhuma bola de cristal, minha filha. Laila  apenas um
programa de computador.
"Cala o bico" - escreveu
Sofia.
"Como queiras, Sofia. As
nossas relaes duraram apenas
treze minutos e cinquenta e
dois segundos. Vou recordar
tudo o que ns dissemos. Agora, vou interromper o programa."
De novo, surgiu o sinal c:
no ecr.
- Agora, podemos voltar ao
trabalho - disse Alberto.
Mas Sofia j tinha escrito
mais algumas letras. Escrevera "Knag". No momento seguinte, apareceu a 
seguinte
informao no ecr:
- Aqui estou!
Alberto estremeceu.
"Quem s tu?" - escreveu
Sofia.
"Major Albert Knag, s
ordens. Venho directamente do
Lbano. O que ordenam os senhores"?
- Nunca me aconteceu nada
to terrvel - gemeu Alberto. - Agora, o malvado j se
introduziu no disco rgido.
Afastou Sofia da cadeira e
sentou-se em frente ao teclado.
"Como diabo entraste no meu
PC?", escreveu ele.
"Isto no  nada, caro colega. Eu estou exactamente
onde desejo estar."
"Seu vrus de computador
repugnante!"
"Ento, ento! De momento,
apresento-me como vrus de
aniversrio. Posso enviar uma
saudao muito especial?"
"Obrigado, j temos que
cheguem".
"Mas eu vou ser rpido:
tudo acontece apenas em tua
honra, querida Hilde. Eu
dou-te os parabns pelo teu
aniversrio. Tens de perdoar
as circunstncias, mas gostaria que as minhas felicitaes
te seguissem por toda a parte
onde estejas. Beijos do pai
que gostaria tanto de te ter
nos braos!"
Antes de Alberto poder escrever mais, apareceu de novo
o c: no ecr.
Alberto escreveu "dir
knag." e obteve a seguinte
informao:

knag.lib 147.643 15-06-90
1247
knag.lil 326.439 23-06-90
2234

Escreveu "erase knag." e
desligou o computador.
- Agora, apaguei-o -
afirmou, - mas  impossvel
dizer onde surgir de novo.

218
Olhou fixamente para o
ecr, depois acrescentou: -
O mais grave  o nome. Albert Knag... Sofia s ento
se apercebeu da semelhana dos
nomes. Albert Knag e Alberto Knox. Mas Alberto estava
to irritado, que ela no se
atreveu a abrir a boca. Sentaram-se novamente  mesa.

219

ESPINOSA

... Deus no  um titereiro...

J estavam sentados em silncio h algum tempo. Por
fim, Sofia disse, apenas para
distrair Alberto:
- Descartes deve ter sido
um homem estranho. Ele era
famoso?
Alberto respirou fundo por
duas vezes com dificuldade antes de responder:
- Ele obteve progressivamente uma grande influncia.
A mais importante foi talvez
a exercida noutro grande filsofo. Estou a pensar no filsofo holands 
Baruch Espinosa, que viveu entre 1632 e
1677.
- Tambm vais falar sobre
ele?
- Sim, tinha essa inteno. E no nos vamos deixar
atrasar por provocaes militares.
- Sou toda ouvidos.
- Espinosa pertencia  comunidade judaica de Amesterdo, mas foi 
excomungado devido s suas supostas heresias.
Poucos filsofos da poca moderna foram to escarnecidos e
perseguidos por causa dos seus
pensamentos como este homem.
Tentaram inclusivamente assassin-lo, s por ter criticado a religio 
oficial. Ele
achava que apenas dogmas rgidos e rituais exteriores mantinham o 
cristianismo e o judasmo vivos. Foi o primeiro
a fazer uma interpretao
"histrico-crtica" da Bblia.
- Tens que explicar isso
melhor.
- Ele contestou que a
Bblia fosse inspirada por
Deus at  mais pequena palavra. Quando lemos a Bblia,
segundo ele, temos de ter em
conta a poca em que teve origem. Esta leitura "crtica"
permite-nos reconhecer uma srie de contradies entre os
diversos Livros e Evangelhos
da Bblia. Sob a superfcie
dos textos do Novo Testamento encontramos Jesus, o qual
podemos designar por porta-voz
de Deus. A mensagem de Jesus significava precisamente
uma libertao

220
do judasmo rgido. Jesus
anunciou uma "religio racional", para a qual o amor era o
valor mais elevado. Espinosa
refere-se aqui tanto ao amor a
Deus como ao amor ao prximo.
Mas tambm o cristianismo se
cristalizara rapidamente em
dogmas e rituais rgidos.
- Eu compreendo que essas
ideias fossem muito indigestas
para as igrejas e para as sinagogas.
- Quando a situao se
tornou mais grave, Espinosa
foi inclusivamente abandonado
pela famlia. Queriam deserd-lo por heresia. O paradoxo
disto era que poucas pessoas
tinham defendido to energicamente a liberdade de opinio e
a tolerncia religiosa como
Espinosa. As numerosas oposies com que teve de lutar
levaram-no por fim a escolher
uma vida tranquila, inteiramente dedicada  filosofia.
Ganhava o seu sustento a polir vidros pticos. Algumas
destas lentes, como disse, foram adquiridas por mim.
- Impressionante.
- O facto de ele viver de
polir lentes  quase simblico. Os filsofos devem ajudar
os homens a ver a realidade
segundo uma perspectiva nova.
E  fundamental para a filosofia de Espinosa o desejo de
ver as coisas sob a "perspectiva da eternidade".
- A perspectiva da eternidade?
- Sim, Sofia. Achas que
poderias conseguir ver a tua
prpria vida num contexto csmico? Nesse caso, terias de
certo modo de te ver a ti mesma e  tua vida com os olhos
semicerrados...
- Hm... no  fcil.
- Pensa que s apenas uma
partcula minscula de toda a
vida da natureza. Fazes parte
de um todo muito grande.
- Acho que percebo o que
queres dizer.
- Tambm consegues entender isso? Consegues abarcar
toda a natureza de uma s vez
- sim, todo o universo - num
nico relance?
- Depende. Talvez eu precise de um par de vidros pticos.
- E eu no estou apenas a
pensar no universo infinito.
Penso tambm num espao de
tempo infinito. H trinta mil
anos vivia um menino na Rennia. Era uma partcula minscula de toda a 
natureza,
um pequeno encrespar num mar
infinitamente grande. Assim,
tambm tu vives uma parte minscula da vida da natureza.
Entre ti e esse jovem no h
nenhuma diferena.
- Em todo o caso, eu vivo
agora.
- Pois, era sobre isso que
eu queria que reflectisses.
Mas quem s tu daqui a trinta
mil anos?
- Isso  que era a heresia?

221
- Bom, Espinosa no disse
apenas que tudo o que existe 
natureza. Ele colocou tambm
um sinal de igual entre Deus
e a natureza. Ele via Deus
em tudo o que existe e tudo o
que existe em Deus.
- Ento era pantesta.
- Sim. Para Espinosa,
Deus no  algum que criou
outrora o mundo e est desde
ento junto  sua Criao.
No, Deus  o mundo. Ele
refere o discurso de Paulo no
arepago. "Porque nele vivemos, nele nos movemos e existimos" dissera 
Paulo. Mas
vamos prosseguir no pensamento
de Espinosa. A sua obra mais
importante chama-se A tica
Demonstrada Segundo o Mtodo Geomtrico.
- tica... e mtodo geomtrico?
- Isso soa talvez um pouco
estranho aos nossos ouvidos.
Por tica, os filsofos entendem a teoria de como devemos conduzir-nos 
para termos
uma vida feliz. Neste sentido, falamos por exemplo acerca
da tica de Scrates ou de
Aristteles. Apenas na nossa
poca a tica foi de certo
modo reduzida a algumas regras
segundo as quais podemos viver
sem pisarmos os ps dos nossos
prximos.
- Porque pensarmos na nossa prpria felicidade  tido
como egosmo?
-  mais ou menos assim.
Quando Espinosa utiliza a
palavra tica, ela pode ser
traduzida igualmente por arte
de viver ou conduta moral.
- Mas ento... Arte de
viver demonstrada segundo o
mtodo geomtrico?
- O mtodo geomtrico diz
respeito  linguagem ou  forma de exposio. Ainda te
lembras que Descartes queria
aplicar o mtodo matemtico 
reflexo filosfica. Por
isso, ele entendia uma reflexo filosfica que  formada a
partir de dedues exactas.
Espinosa situa-se na mesma
tradio racionalista. Na sua
tica, queria demonstrar como
a vida humana  dirigida pelas
leis da natureza. Para isso,
temos de nos libertar dos nossos sentimentos e sensaes,
porque s assim podemos encontrar a tranquilidade e sermos
felizes, segundo ele.
- Mas ns no somos apenas
governados pelas leis da natureza, pois no?
- Bom, Espinosa no  fcil de compreender, Sofia.
Ainda tens presente que Descartes achava que a realidade
era constituda por duas substncias claramente separadas
uma da outra, o pensamento e a
extenso.
- Como  que eu poderia
ter esquecido isso?
- A palavra "substncia"
pode ser traduzida aproximadamente do seguinte modo: aquilo
em que uma coisa consiste, o
que  no

222
fundo, ou a que pode ser reduzida. Tudo  ou pensamento ou
extenso, segundo ele.
- No era preciso repetir.
- Mas Espinosa no aceitou esta separao. Ele acreditava que havia uma 
nica
substncia. Tudo o que existe
pode ter origem na mesma coisa, segundo ele. E designou-a
simplesmente por substncia.
Noutras passagens chama-lhe
"Deus" ou "natureza".
Portanto, Espinosa no tem
uma concepo dualista da realidade como Descartes.
Dizemos que  monista.
Significa que, segundo ele,
toda a realidade se reduz a
uma nica substncia.
- Dificilmente poderiam
estar menos de acordo um com o
outro.
- Mas a diferena entre
Descartes e Espinosa no 
to profunda como se diz muitas vezes. Descartes tambm
aponta para o facto de s
Deus existir por si mesmo.
S quando Espinosa pe no
mesmo plano Deus e a natureza
- ou Deus e a Criao - 
que se afasta consideravelmente de Descartes e tambm da
concepo hebraica e crist.
- Porque a, a natureza
 Deus, e basta.
- Mas quando Espinosa usa
o termo "natureza", no est
apenas a pensar na natureza
extensa. Como substncia,
Deus ou a natureza, entende
tudo o que existe, incluindo
tudo o que  espiritual.
- Ento, tanto pensamento
como extenso.
- Tal qual! Segundo Espinosa, ns homens conhecemos
duas das qualidades ou manifestaes de Deus. Espinosa
designa estas qualidades por
atributos de Deus, e estes
dois atributos so justamente
o pensamento e a extenso de
Descartes. Deus, ou a natureza, surge portanto ou como
pensamento ou como uma coisa
no espao.  possvel que
Deus possua ainda outras qualidades alm do pensamento e
da extenso, mas os homens conhecem apenas estes dois atributos.
- Sim, mas ele exprime-se
de um modo bastante complicado.
- Sim, quase precisamos de
martelo e cinzel para penetrarmos na linguagem de Espinosa. Podemos 
consolar-nos ao
encontrar no fim uma ideia que
 to cristalina como um diamante.
- Estou  espera.
- Tudo o que h na natureza,  ou pensamento ou extenso. Os fenmenos 
particulares, com que deparamos na vida
quotidiana - por exemplo, uma
flor ou um poema de Henrik
Wergeland () -, so diversos modi dos atributos
pensamento e extenso. Com
modus

223
plural "modi" - entendemos um
determinado modo no qual a
substncia, Deus ou a natureza, se manifestam. Uma flor 
...................
() Henrik WERGELAND
(1808-1845) - Poeta no ruegus, defensor de uma cul tura especificamente 
norue guesa foi um dos fundadores
da literatura do seu pas.
um modo do atributo extenso,
e um poema sobre a mesma flor
um modo do atributo pensamento. Mas no fundo, ambos so
expresso da mesma coisa: a
substncia, Deus ou a natureza.
- Meu Deus, que complicao!
- Mas em Espinosa s a
linguagem  realmente complicada. Sob as suas formulaes
rgidas esconde-se um conhecimento admirvel, que  to
simples que a linguagem quotidiana no o consegue traduzir.
- Mas eu acho que prefiro
a linguagem quotidiana.
- Est bem. Ento vou comear justamente por ti.
Quando tens dores de barriga,
quem  que tem dores de barriga?
- Tu prprio o dizes. Eu.
- Certo. E quando mais
tarde pensas que tiveste dores
de barriga, quem  que pensa?
- Eu, tambm.
- Porque tu s uma pessoa
que pode ter hoje dores de
barriga e amanh estar dominada por outro estado de esprito. E Espinosa 
pensava do
mesmo modo que todas as coisas
fsicas que nos rodeiam ou sucedem  nossa volta manifestam
Deus ou a natureza. Isso 
tambm vlido para todos os
pensamentos que so pensados.
Assim, todos os pensamentos
que so pensados so os pensamentos de Deus ou da natureza. Porque tudo  
uno.
Existe apenas um Deus, uma
natureza ou uma substncia.
- Mas quando eu penso em
alguma coisa, ento sou eu
que penso. E quando me mexo,
sou eu que me mexo. Porque
 que queres meter Deus no
assunto?
- O teu entusiasmo agrada-me. Mas tu quem s? s a
Sofia Amundsen, mas s tambm expresso de algo infinitamente maior. Bem 
podes dizer que tu pensas, ou que
tu te mexes, mas no podes
afirmar tambm que a natureza
pensa os teus pensamentos e
que a natureza se move em ti?
 j uma questo das lentes
com que queres ver o problema.
- Queres dizer que eu no
disponho de mim mesma?
- Bom, talvez tenhas uma
espcie de liberdade de mover
o teu polegar como desejas.
Mas o polegar s se pode mover de acordo com a sua natureza. No pode 
saltar da tua
mo e correr pela sala. E
deste modo tens o teu lugar no
todo, minha filha. s a Sofia, mas s tambm um dedo no
corpo de Deus.
- Ento Deus determina
tudo o que eu fao?

224
- Ou a natureza, ou as
leis da natureza. Para Espinosa, Deus, ou as leis da
natureza, so a causa imanente de tudo o que acontece.
No  uma causa exterior,
porque Deus manifesta-se
atravs das leis da natureza,
e apenas atravs delas.
- No sei se estou a ver a
diferena.
- Deus no  um titereiro,
que mexe os fios e determina o
que sucede. Um titereiro dirige os fantoches de fora e 
assim a "causa exterior". Mas
Deus no dirige o mundo deste
modo. Deus governa o mundo
por meio das leis da natureza.
Assim, Deus - ou a natureza
-  a causa "imanente" de
tudo o que sucede. Isso quer
dizer que tudo na natureza
acontece necessariamente.
Espinosa tinha uma concepo
determinista da vida natural.
- Acho que j uma vez disseste uma coisa parecida.
- Ests a pensar nos esticos. Eles tambm afirmaram que tudo sucede 
por necessidade. Por isso era to importante para eles encarar todos os 
acontecimentos com uma
"serenidade estica". O homem
no se devia deixar arrebatar
pelos seus sentimentos.  o
que diz tambm a tica de
Espinosa, se a quisermos explicar muito sinteticamente.
- Acho que percebo o que
ele quer dizer. Mas no me
agrada a ideia de no escolher
por mim mesma.
- Regressemos a este jovem
da Idade da Pedra, que viveu
h trinta mil anos. Quando
ele cresceu, caou animais,
amou uma mulher, que se tornou
a me dos seus filhos, e podes
ter a certeza de que ele adorava os deuses dos seus antepassados. Em que 
 que ests
a pensar quando afirmas que
ele decidiu tudo isto por si
mesmo?
- No sei.
- Ou imagina um leo em
frica. Achas que escolhe
uma vida de animal predador?
 por isso que ele se atira a
um antlope fraco? Ser que
ele devia ter escolhido uma
vida de vegetariano?
- No, o leo vive de
acordo com a sua natureza.
- Ou de acordo com as leis
da natureza. Tu tambm o fazes, Sofia, porque tu tambm
s natureza. Agora, podes naturalmente - com base em
Descartes - objectar afirmando que o leo  um animal e
no um homem com faculdades
mentais livres. Mas pensa
numa criana recm-nascida.
Ela chora e agita-se, e quando no recebe leite chucha no
dedo. Esta criana tem livre
arbtrio?
- No.
- E quando  que esta criana tem livre arbtrio? Com
dois anos, esta criana corre
por todo o lado e aponta para
tudo o que v. Com trs anos
choraminga, e com quatro tem
repentinamente medo do escuro.
Onde  que est a liberdade,
Sofia?

225
- No sei.
- Com quinze anos est em
frente ao espelho e experimenta cosmticos. Est a tomar
as suas decises pessoais e
faz o que quer?
- Eu percebo o que queres
dizer.
- Ela  a Sofia Amundsen, est certa disso. Mas
tambm vive de acordo com as
leis da natureza. Mas no o
reconhece porque, por detrs
de cada coisa que faz, escondem-se causas numerosas e complexas.
- Acho que no quero ouvir
mais.
- Mas tens de responder a
uma ltima pergunta: duas rvores da mesma idade crescem
num grande pomar. Uma das rvores est num local com muito
sol e recebe gua e est num
solo com muitos nutrientes. A
outra rvore cresce na sombra
e em solo de m qualidade.
Qual destas rvores produz
mais frutos?
- Obviamente aquela que
tem melhores condies para
crescer.
- Segundo Espinosa, esta
rvore  livre. Tinha toda a
liberdade de desenvolver todas
as possibilidades que lhe eram
inerentes. Mas, se se trata
de uma macieira, no tem a
possibilidade de produzir pras ou ameixas. Passa-se
exactamente o mesmo com os homens. Por exemplo, certas
condies polticas podem pr
obstculos ao nosso desenvolvimento e ao nosso crescimento
pessoal. Circunstncias exteriores podem constituir obstculos. S quando 
podemos desenvolver livremente as capacidades que possumos  que
vivemos como homens livres.
Mas, apesar disso, somos dirigidos por aptides interiores e condies 
exteriores tal
como o jovem da Idade da Pedra na Rennia, o leo em
frica ou a macieira no pomar.
- Acho que daqui a pouco
no suporto mais.
- Espinosa afirma que apenas um nico ser  totalmente
"causa de si mesmo" e pode
agir com toda a liberdade. S
Deus ou a natureza apresentam
este desenvolvimento livre e
"no-acidental". Um homem
pode ansiar por liberdade para
poder viver sem obrigao exterior. Mas nunca alcanar o
"livre arbtrio". No determinamos tudo o que se passa no
nosso corpo, porque o nosso
corpo  um modo do atributo
extenso. E tambm no "escolhemos" os nossos pensamentos.
Logo, o homem no possui uma
alma livre. Ela encontra-se
presa num corpo mecnico.
-  isso que  um pouco
difcil de compreender.
- Espinosa achava que as
paixes humanas - por exemplo, a ambio e a cobia -
nos impedem de atingir a verdadeira felicidade e harmonia.
Mas, quando reconhecemos que
tudo acontece por necessidade,
podemos obter um conhecimento
intuitivo da natureza como

226
totalidade. Podemos ter uma
experincia muito clara de que
tudo est relacionado, de que
tudo  uno. O nosso objectivo
 compreender tudo o que existe numa viso de conjunto coerente. Espinosa 
chamava a
isto: ver tudo sub specie
aeternitatis.
- E o que  que significa?
- Ver tudo sob a perspectiva da eternidade. No foi
por a que comemos?
- E  por a que temos de
terminar. Tenho de ir para
casa agora, sem falta.
Alberto levantou-se e foi
buscar uma grande fruteira 
estante. Colocou a fruteira
na mesa.
- No queres comer alguma
coisa antes de te ires embora?
Sofia tirou uma banana.
Alberto escolheu uma ma
verde.
Ela partiu o p da banana e
comeou a descasc-la.
- H aqui qualquer coisa
- disse.
- Onde?
- Aqui, dentro da casca da
banana. Parece escrito com
caneta de feltro preta.
Sofia inclinou-se para
Alberto e mostrou-lhe a banana. Ele leu alto:
"Aqui estou de novo, Hilde. Estou por toda a parte,
minha filha. Parabns pelo
aniversrio!"
- Muito estranho - afirmou Sofia.
- Est cada vez mais refinado.
- Mas isto ... completamente impossvel. Sabes se se
cultivam bananas no Lbano?
Alberto abanou a cabea.
- Seja como for, no a vou
comer.
- Ento deixa-a ficar a.
Uma pessoa que envia os parabns pelo aniversrio  filha
no interior de uma banana por
descascar tem de estar mentalmente perturbada. Mas, ao
mesmo tempo, deve ser muito
esperta.
- Tens razo em ambas as
coisas.
- Podemos ento declarar
que Hilde tem um pai esperto?
Ele  tudo menos parvo.
- Eu j tinha dito isso.
Do mesmo modo, pode ter-te
obrigado a chamares-me Hilde.
 bem possvel que ele nos
ponha todas as palavras na
boca.
- No podemos excluir
nada. Mas tambm temos de duvidar de tudo.
- Porque toda a realidade
pode ser um sonho.

227
- No nos devemos precipitar. Afinal, tambm pode haver uma explicao 
mais simples.
- De qualquer modo, tenho
mesmo de ir agora para casa.
A minha me est  espera.
Alberto levou Sofia  porta. Quando ela se ia embora,
ele disse:
- At  prxima, querida
Hilde!
Em seguida, a porta fechou-se atrs dela.

228

LOCKE

... to vazia como um quadro antes de o professor entrar na sala de 
aula...

Sofia chegou a casa s oito
e meia. Uma hora e meia mais
tarde do que o combinado. Na
verdade no tinham combinado
nada. Sofia tinha simplesmente saltado a refeio e escrito  me numa 
folha que estaria em casa s sete, o mais
tardar.
- Isto no pode continuar
assim, Sofia. Tive de telefonar para as informaes e
perguntar se havia um Alberto
no bairro antigo. Riram-se na
minha cara.
- No foi fcil vir-me embora. Acho que nos falta pouco para a resoluo 
de um
grande mistrio.
- Que disparate.
- No, isto  mesmo verdade.
- Convidaste-o para a festa no jardim?
- No, esqueci-me.
- Mas agora eu quero conhec-lo sem falta. E j amanh. No  bom para 
uma rapariga nova encontrar-se to
frequentemente com um homem
mais velho.
- Mas no precisas de ter
medo do Alberto. O pai de
Hilde  que  talvez mais perigoso.
- Qual Hilde?
- A filha daquele que est
no Lbano. Esse parece ser
um grande patife. Talvez controle o mundo inteiro...
- Se no me apresentas
imediatamente esse Alberto,
no te deixo encontrares-te
mais com ele. No tenho descanso enquanto no souber pelo
menos qual  o seu aspecto.
Sofia teve uma ideia.
Correu para o quarto.
- O que  que te deu? -
gritou-lhe a me.
Pouco depois, Sofia entrava de novo na sala de estar.
- Podes ver imediatamente
qual  o aspecto dele. Mas
espero que depois me deixes em
paz.

229
Acenou com a cassete de vdeo que trazia na mo e foi
para junto do leitor de cassetes.
- Ele ofereceu-te uma cassete de vdeo?
- De Atenas...
Em breve surgiram as imagens da Acrpole no ecr. A
me estava muda de espanto
quando Alberto se apresentou
e falou directamente para Sofia.
E, nessa altura, Sofia viu
uma coisa em que j tinha reparado da primeira vez, mas de
que se esquecera: no meio de
um dos grupos de turistas na
Acrpole, um pequeno cartaz
estava erguido - e no cartaz
estava escrito "HILDE"...
Alberto avanava pela
Acrpole. Em seguida, estava
no Arepago, onde o apstolo
Paulo falara aos Atenienses.
E da antiga gora, Alberto
dirigia-se a Sofia.
A me comentava o vdeo com
breves interjeies:
"Inacreditvel... este  o
Alberto?... L est de novo
o coelho... mas, sim, ele est
mesmo a falar contigo, Sofia... Eu nem sabia que Paulo esteve em 
Atenas...
O vdeo aproximava-se do
ponto em que a antiga Atenas
se erguia subitamente das runas. No ltimo segundo, Sofia parou a 
cassete a tempo.
J tinha mostrado Alberto 
me, e no tinha de lhe apresentar tambm Plato. A sala
ficou completamente silenciosa.
- No achas que ele tem um
ar distinto? - disse Sofia
num tom de provocao.
- Mas deve ser uma pessoa
muito estranha, se se faz filmar em Atenas s para enviar
o vdeo a uma rapariga que mal
conhece. E quando  que ele
esteve l?
- No fao ideia.
- Mas h mais...
- Sim?
- Ele  parecido com o major que morou durante alguns
anos na pequena cabana do bosque.
- Talvez seja ele mesmo,
mam.
- Ningum o v h mais de
quinze anos.
- Talvez se tenha mudado
vrias vezes. Para Atenas,
por exemplo.
A me abanou a cabea.
- Quando o vi uma vez nos
anos 70, no parecia nem um
bocadinho mais velho do que
este Alberto no vdeo. Tinha
um apelido estrangeiro...
- Knox?
- Sim, talvez, Sofia.
Talvez se chamasse Knox.
- Ou Knag?

230
- No, realmente j no
sei... De que Knox ou Knag
ests a falar?
- Um  Alberto, o outro 
o pai de Hilde.
- Estou a ficar completamente confusa.
- Ainda h alguma coisa
para comer?
- Podes aquecer as almndegas.
Depois disto, passaram-se
exactamente duas semanas sem
Sofia ter notcias de Alberto. Recebeu mais um postal de
aniversrio para Hilde, mas,
apesar de o dia se aproximar,
no veio nenhuma felicitao
para ela.
Numa tarde, Sofia foi ao
bairro antigo e bateu  porta
de Alberto. Ele no estava
em casa, mas na porta estava
pendurada uma pequena folha,
onde se lia:

Parabns, Hilde! Agora,
o grande momento est  porta.
O momento da verdade, minha
filha. Todas as vezes em que
penso nisso rio-me tanto que
quase no consigo parar. Tem
a ver com Berkeley, segura-te
bem!

Sofia arrancou a folha e
enfiou-a na caixa do correio
de Alberto ao sair do prdio.
Que diabo! Teria ido novamente para Atenas? Como podia deixar Sofia 
sozinha com
todas as perguntas por responder?
Quando chegou da escola na
quinta-feira, dia 14 de Junho, Hermes vadiava pelo jardim. Sofia correu 
para ele e
ele saltou para ela. Ps o
brao  sua volta, como se o
co pudesse resolver todos os
mistrios.
De novo escreveu um bilhete
para a me, mas indicou tambm
o endereo de Alberto.
Enquanto andavam pela cidade, Sofia pensava no dia seguinte. No pensava 
tanto no
seu aniversrio, que s seria
verdadeiramente festejado na
noite de S. Joo. Mas, no
dia seguinte, Hilde fazia
anos. Sofia estava convencida
de que nesse dia sucederia
qualquer coisa de completamente inslito. Em todo o caso,
as muitas felicitaes do Lbano tinham que terminar.
Depois de atravessarem a
praa principal e quando se
aproximavam do bairro antigo,
passaram por um parque com um
campo de jogos. A, Hermes
parou em frente de um banco;
parecia querer que Sofia se
sentasse nele.
Ela sentou-se e acariciou o
co amarelo no pescoo, enquanto o olhava nos olhos. De
imediato, um forte estremecimento percorreu o co. "Vai
comear a ladrar", pensou Sofia.

231
As suas maxilas comearam a
vibrar, mas Hermes no rosnava nem ladrava. Abriu a boca
e disse:
- Parabns, Hilde!
Sofia ficou petrificada. O
co tinha realmente falado com
ela?
No, devia ter imaginado,
por estar sempre a pensar em
Hilde. Mas, no fundo do corao, ela estava convencida
de que Hermes pronunciara
aquelas duas palavras, num tom
grave, sonoro.
Em seguida, tudo estava
como antes. Hermes ladrou
duas vezes - como que para
disfarar que acabara de falar
com voz humana - e continuou
a andar em direco  casa de
Alberto. Durante todo o dia
tinha estado bom tempo, mas
nesse momento concentravam-se
nuvens pesadas ao longe.
Quando Alberto abriu a
porta, Sofia disse:
- Por favor, no quero
discursos. Tu s um imbecil e
sabe-lo muito bem.
- O que  que aconteceu,
minha filha?
- O major ensinou Hermes
a falar!
- Meu Deus! As coisas j
chegaram a esse ponto?
- Sim, imagina tu.
- E o que disse?
- Adivinha.
- Ele deve ter dito
"parabns!", ou uma coisa do
gnero.
- Acertaste.
Alberto deixou Sofia entrar em casa. Nesse dia, tinha-se mascarado de 
novo. No
estava muito diferente da ltima vez, mas o seu traje quase no 
apresentava laos, fitas e rendas.
- Mas no  tudo - afirmou ento Sofia.
- O que queres dizer?
- No encontraste a folha
na caixa do correio?
- Ah, isso - deitei-a
fora imediatamente.
- Por mim, ele pode rir-se
sempre que pensa em Berkeley.
Mas o que tem este filsofo
que provoque isso?
- Vamos ver j.
- Mas vais falar dele
hoje, no vais?
- Hoje, sim.
Alberto acomodou-se.
Depois disse:
- Na ltima vez que estivemos aqui, falei sobre Descartes e Espinosa.
Concordmos que tm uma coisa
importante em comum, so ambos
racionalistas tpicos.
- E um racionalista  uma
pessoa que acredita na importncia da razo.

232
- Sim, um racionalista
acredita na razo como fonte
do saber. Acredita frequentemente em certas ideias inatas
do homem - que existem no homem independentemente de qualquer 
experincia. E quanto
mais clara  essa ideia ou
concepo, mais certo  que
corresponda a um dado real.
Ainda te lembras que Descartes tinha uma ideia clara e
ntida de um "ser perfeito".
A partir desta ideia, ele
conclui que Deus existe realmente.
- Eu no sou uma pessoa
esquecida.
- Este pensamento racionalista era tpico da filosofia
do sculo XVII. Na Idade
Mdia, tambm estava fortemente implantado e conhecemo-lo ainda de Plato 
e de
Scrates. Mas, no sculo
XVIII, foi exposto a uma
crtica cada vez mais forte.
Vrios filsofos defenderam a
ideia de que no temos contedos na conscincia, enquanto
no temos nenhuma experincia
sensvel. Esta ideia  designada por empirismo.
- E tu queres falar hoje
sobre estes empiristas?
- Vou tentar. Os empiristas mais importantes foram
Locke, berkeley e Hume,
todos eles britnicos. Os
principais racionalistas do
sculo XVII foram o francs
Descartes, o holands Espinosa e o alemo Leibniz.
Por isso, costumamos fazer a
distino entre o empirismo
ingls e o racionalismo continental.
- Por mim, est bem, mas
so muitas palavras. Podes
repetir o que  que se entende
por empirismo?
- Um empirista defende que
todo o saber acerca do mundo
provm daquilo que os sentidos
nos transmitem. A formulao
clssica de uma posio empirista provm de Aristteles,
que afirmava que nada estava
na conscincia que no tivesse
estado primeiro nos sentidos.
Esta ideia contm uma crtica
clara a Plato, que defendia
que o homem trazia ideias inatas do mundo das ideias.
Locke repete as palavras de
Aristteles e, quando Locke
as utiliza,  contra Descartes.
- No h nada na conscincia que no tenha estado primeiro nos sentidos?
- No temos ideias ou concepes inatas sobre o mundo.
No sabemos absolutamente
nada sobre o mundo em que somos postos antes de o termos
percepcionado. Quando temos
uma opinio ou uma ideia que
no podemos relacionar com dados percepcionados, trata-se
de uma ideia falsa. Quando,
por exemplo, usamos palavras
como "Deus", "eternidade" ou
"substncia", a nossa razo
move-se no vazio. Porque nunca ningum percepcionou Deus,
a eternidade, ou aquilo a que
os filsofos chamam "substncia". Assim se escrevem tratados eruditos que 
no fundo
no contm nenhum conhecimento

233
novo. Essa filosofia reflectida com rigor pode impressionar, mas  apenas 
devaneio.
Os filsofos dos sculos
XVII e XVIII tinham herdado muitos desses tratados eruditos. Agora, eram 
examinados
 lupa. Era necessrio excluir deles as ideias vazias.
Podemos comparar isso  lavagem do ouro. A maior parte 
areia e argila, mas de vez em
quando encontramos uma pepita.
- E essas pepitas so experincias verdadeiras?
- Ou pelo menos ideias que
podem ser relacionadas com as
experincias. Para os empiristas britnicos era importante examinar todas 
as opinies humanas para verificar se
podem ser comprovadas com verdadeiras experincias. Mas
vamos falar de um filsofo de
cada vez.
- Fala.
- O primeiro foi o ingls
John Locke, que viveu entre 1632 e 1704. A sua obra
mais importante chama-se An
Essay Concerning Human
Understanding, Ensaio Sobre
o Entendimento Humano, e
foi publicada em 1690. Nessa
obra, ele procura esclarecer
duas questes. Em primeiro
lugar, pergunta de onde  que
os homens recebem os seus pensamentos e ideias. Em segundo
lugar, se podemos confiar naquilo que os nossos sentidos
nos dizem.
-  um grande projecto!
- Vamos tratar de um problema de cada vez. Locke est
convencido de que todos os
nossos pensamentos e ideias
so apenas um reflexo daquilo
de que j tivemos sensaes.
Antes de sentirmos alguma
coisa, a nossa conscincia 
como uma "tabula rasa" - uma
"ardsia em branco".
- Podes deixar o latim!
- Antes de sentirmos alguma coisa, a nossa conscincia
est to vazia como um quadro
antes de o professor entrar na
sala de aula. Locke compara
tambm a conscincia a uma
sala no mobilada. Mas, depois, vm as nossas sensaes.
Vemos o mundo  nossa volta,
cheiramos, saboreamos, tacteamos e ouvimos. E ningum o
faz de forma mais intensiva do
que as crianas pequenas.
Deste modo, surgem ideias
simples. Mas a conscincia
no recebe estas impresses
exteriores passivamente. Na
conscincia tambm sucede alguma coisa. As ideias simples
so trabalhadas por meio de
reflexo e meditao, crena e
dvida. Deste modo, surge
aquilo a que Locke chama
ideias reflexivas. Ele distingue portanto "sensao" e
"reflexo", porque a conscincia no  apenas um receptor
passivo. Ordena e trabalha
todas as sensaes que recebe.
E  precisamente aqui que devemos estar alerta.
- Alerta?

234
- Locke sublinha que atravs dos sentidos recebemos
unicamente sensaes simples. Quando, por exemplo,
como uma ma, sinto toda a
ma numa nica sensao simples. Na realidade, recebo
toda uma srie dessas sensaes simples - que uma coisa
 verde, cheira bem,  suculenta e tem um sabor cido.
S depois de eu ter comido
muitas mas  que penso: agora, estou a comer "uma ma".
Locke afirma que ns formmos
ento uma ideia complexa de
uma ma. Quando ramos pequenos e comemos pela primeira
vez uma ma, no tnhamos
essa ideia complexa. Mas vamos uma coisa verde, provvamos uma coisa 
fresca e suculenta, ... bom, tambm era um
pouco cida. A pouco e pouco,
ligamos muitas sensaes e
formamos conceitos como "ma", "pra" e "laranja". Mas
devemos aos nossos sentidos
todo o material para o nosso
saber sobre o mundo. O conhecimento que no tem na origem
impresses sensveis simples 
portanto falso conhecimento e
deve ser rejeitado.
- Pelo menos podemos ter a
certeza de que aquilo que vemos e ouvimos, cheiramos e
provamos  tal como o percepcionamos.
- Sim e no. Essa  a segunda questo a que Locke
procura dar resposta. Ele explicou em primeiro lugar de
onde retiramos as nossas
ideias e opinies. Mas, em
seguida, pergunta tambm se o
mundo  realmente tal como o
percepcionamos.  que isso
no  nada evidente, Sofia.
No devemos precipitar-nos.
 a nica coisa proibida a um
verdadeiro filsofo.
- Estou muda como um peixe.
- Locke fazia a distino
entre o que designava por qualidades "primrias" e "secundrias". 
Reconhecia assim a
sua dvida perante os grandes
filsofos - incluindo Descartes - que o tinham precedido.
- Explica-me isso!
- Por qualidades primrias, ele entende a dimenso,
o peso, a forma, o movimento e
o nmero das coisas. Nestas
qualidades, podemos ter a certeza de que os sentidos reproduzem as 
qualidades reais das
coisas. Mas tambm percepcionamos outras qualidades das
coisas. Dizemos que uma coisa
 doce ou amarga, verde ou
vermelha, quente ou fria. A
isto, Locke chama qualidades
secundrias. E essas impresses sensveis - como cor,
cheiro, sabor ou som - no
reproduzem qualidades reais
que residem nas prprias coisas. Reproduzem apenas o
efeito das qualidades exteriores nos nossos sentidos.
- Justamente, gostos no
se discutem.
- Exacto. Sobre as qualidades primrias - como extenso e peso - podemos 
estar
todos de acordo, porque residem nas prprias coisas.

235
Mas as qualidades secundrias
- como cor e sabor - podem
variar de animal para animal e
de pessoa para pessoa, dependendo da natureza das sensaes de cada 
indivduo.
- Quando Jorunn come uma
laranja, faz exactamente a
mesma cara que outras pessoas
quando comem um limo.
Geralmente, nunca consegue
comer mais do que um gomo. "
cida", diz ela. E, normalmente, eu acho que exactamente
a mesma laranja  doce e saborosa.
- E nenhuma das duas tem
razo, mas tambm nenhuma est
errada. Vocs descrevem apenas o efeito desta laranja nos
vossos sentidos. O mesmo se
passa com a experincia das
cores. Admitamos, por hiptese, que um certo tom de vermelho no te 
agrada. Se Jorunn
tiver comprado um vestido justamente dessa cor, talvez devesses guardar a 
tua sensibilidade para ti mesma. Vocs
tm uma sensibilidade diferente em relao a esta tonalidade, mas o 
vestido no  bonito
nem feio.
- Mas todos esto de acordo em que uma laranja  redonda.
- Sim, se tens uma laranja
redonda, no a podes ver como
se fosse cbica. Podes ach-la doce ou cida, mas no podes "achar" que 
pesa oito quilos se pesa apenas duzentas
gramas. Podes talvez "acreditar" que pesa vrios quilos,
mas, nesse caso, ests completamente enganada. Quando vrias pessoas tm 
de adivinhar
o peso de um objecto, h sempre uma que est mais perto da
verdade do que as outras.
Isso tambm se aplica ao nmero de coisas. Ou h novecentas e oitenta e 
seis ervilhas no frasco ou no. O mesmo se passa com o movimento.
O carro est em movimento, ou
est parado.
- Compreendo.
- No que diz respeito 
"realidade extensa", Locke
tem a mesma opinio que Descartes, isto , ela apresenta
certas qualidades que o homem
pode compreender com o seu entendimento.
- Estar de acordo com isso
tambm no  difcil.
- Em outros domnios,
Locke tambm admite o que designa por conhecimento "intuitivo" ou 
"demonstrativo". Ele
considerava, por exemplo, que
certas regras fundamentais da
tica so dadas a todos.
Assim ele defende a chamada
concepo do direito natural
e isso  uma caracterstica
racionalista. Uma outra caracterstica racionalista clara  o facto de 
Locke achar
que  inerente  razo humana
saber que Deus existe.
- Talvez tivesse razo.
- Em qu?
- Em dizer que Deus existe.

236
- Sim,  concebvel. Mas
ele no deixa que isso seja
simplesmente uma questo de
f. Ele acha que o conhecimento que o homem tem de Deus
tem origem na razo humana.
Isso  uma caracterstica
racionalista. Devo acrescentar que ele defendia a liberdade de opinio e 
a tolerncia. Defendia tambm a igualdade de direitos de ambos os
sexos. Segundo ele, a posio
subordinada da mulher tinha
sido criada pelos seres humanos. E, por isso, podiam
transform-la.
- Estou totalmente de
acordo.
- Locke foi um dos primeiros filsofos da poca moderna
que se preocupou com a questo
dos papis dos sexos. Ele foi
posteriormente muito importante para o seu homnimo John
Stuart Mill, que por sua vez
foi muito importante na luta
pela igualdade de direitos entre os sexos. Locke manifestou muito cedo 
ideias liberais
que foram retomadas durante o
Iluminismo francs do sculo
XVIII. Por exemplo, foi ele
o primeiro a defender o chamado princpio da separao dos
poderes...
- Isso significa que o poder do Estado est repartido
em diversas instituies.
- Ainda te lembras de que
instituies se trata?
- H o poder legislativo,
ou o parlamento. Depois h o
judicial, ou os tribunais.
Por fim, h o executivo, ou o
governo.
- Essa tripartio provm
do filsofo iluminista francs
Montesquieu. Locke realara que o poder legislativo e o
executivo tinham de estar separados se se quisesse evitar
a tirania. Ele foi contemporneo de Lus XIV, que reunira todo o poder em 
si. "Eu
sou o Estado", afirmou ele.
Era um monarca absoluto, e
hoje diramos que governava de
modo arbitrrio. Locke defendia, pelo contrrio, que para
garantir um Estado de direito, os representantes do povo
tm de criar leis, que so em
seguida implementadas pelo rei
e pelo governo.

237

Hume

... ento lanai-o  fogueira...

Alberto olhava fixamente
para a mesa entre os dois.
Por fim voltou-se e olhou
pela janela.
- O cu est a ficar nublado - afirmou Sofia.
- Sim, est carregado.
- Vais falar agora de
Berkeley?
- Ele foi o segundo dos
trs empiristas britnicos.
Mas uma vez que em muitos aspectos ele  um caso  parte,
vamos concentrar-nos primeiro
em David Hume, que viveu entre 1711 e 1776. A sua filosofia  hoje tida 
como a
mais importante filosofia emprica. Ele tambm foi de importncia 
essencial por ter
inspirado o grande filsofo
Immanuel Kant para a sua
prpria filosofia.
- E no tem importncia o
facto de a filosofia de Berkeley me interessar muito
mais?
- Isso no tem importncia, no. Hume cresceu perto
de Edimburgo, na Esccia, e
a famlia queria fazer dele um
jurista. Mas ele afirmava
sentir "uma insupervel averso a tudo menos  filosofia e
ao conhecimento em geral".
Viveu, como os grandes pensadores franceses Voltaire e
Rousseau, em plena poca do
Iluminismo e realizou longas
viagens pela Europa, antes de
se fixar novamente em Edimburgo. A sua obra mais importante, Tratado 
Sobre a Natureza Humana, foi publicada
quando Hume tinha vinte e
oito anos. Ele mesmo afirmou
que j tivera a ideia para
esse livro aos quinze anos.
- Estou a ver que tenho de
me apressar.
- J falta pouco.
- Mas se fizer a minha
prpria filosofia, ser completamente diferente de tudo o
que ouvi at agora.
- Sentes a falta de alguma
coisa em particular?
- Primeiro, todos os filsofos dos quais ouvi falar at
agora eram homens. E os homens parecem viver no seu prprio mundo. A mim 
interessa-me mais o mundo real. Flores, animais e crianas que

238
nascem e crescem. Os teus filsofos esto constantemente a
falar do homem, e est sempre
a aparecer um tratado sobre a
natureza do ser humano. Mas
este ser humano parece ser
quase sempre um homem de
meia-idade. Afinal, a vida
comea com a gravidez e o nascimento. Acho que at agora
no houve suficientes fraldas
e gritos de crianas. Talvez
tambm tenha havido muito pouco amor e amizade.
- A, tens toda a razo.
Mas talvez Hume seja justamente um filsofo que pensa de
forma um pouco diferente.
Mais do que qualquer outro,
ele tem como ponto de partida
o mundo quotidiano. Acho que
Hume tinha um sentido muito
apurado para o modo como as
crianas - ou seja, os novos
cidados do mundo - vivem a
realidade.
- Eu vou conter-me.
- Enquanto empirista,
Hume via como sua tarefa a
supresso de todos os conceitos e construes especulativas pouco claros 
que os teus
homens tinham concebido at
ento. Nessa altura, estava
em circulao na escrita e em
conversas todo o tipo de conceitos da Idade Mdia e dos
filsofos racionalistas do sculo XVII. Hume queria regressar  
sensibilidade humana
original do mundo. Segundo
ele, nenhuma filosofia pode
alguma vez ignorar as experincias quotidianas ou dar-nos regras de 
comportamento
diferentes daquelas que obtemos por meio da nossa reflexo
sobre a vida quotidiana.
- At agora isso parece
aliciante. Podias dar exemplos?
- Na poca de Hume, estava muito difundida a ideia de
que existem anjos. Por anjo,
entendemos uma figura humana
com asas. Alguma vez viste um
ser desses, Sofia?
- No.
- Mas j viste uma figura
humana?
- Que pergunta to parva.
- E tambm j viste asas?
- Claro, mas nunca num homem.
- Segundo Hume, os "anjos" so uma ideia complexa.
Esta ideia  constituda por
duas experincias diferentes
que no esto juntas na realidade, mas foram ligadas na
fantasia humana. Por outras
palavras, a ideia  falsa e
deve ser rejeitada. Do mesmo
modo, temos de fazer uma arrumao em todos os nossos pensamentos e 
ideias. Tal como
Hume afirmou: "Pegando ao
acaso em qualquer volume acerca de teologia ou filosofia da
escola, devemos perguntar:
Contm algum raciocnio abstracto acerca da grandeza ou
dos nmeros? No. Contm algum raciocnio sobre factos e
sobre a realidade

239
baseado na experincia? No.
Ento, lanai-o  fogueira
porque s contm iluso e aparncia."
- Bastante drstico.
- Mas h o mundo, Sofia.
Mais fresco e ntido nos seus
contornos do que anteriormente. Hume queria regressar ao
modo como uma criana v o
mundo - antes de ideias e reflexes ocuparem espao na
mente. No disseste que muitos filsofos, dos quais ouviste falar, vivem 
no seu prprio mundo e que o mundo real
te interessa mais?
- Sim, mais ou menos isso.
- Hume poderia ter dito
exactamente o mesmo. Mas observemos mais exactamente o
seu raciocnio.
- Estou a ouvir.
- Hume verifica em primeiro lugar que o homem possui
por um lado impresses, e
por outro ideias. Por impresso, ele entende a sensao imediata da 
realidade exterior. Por ideia ele entende
a recordao dessa sensao.
- Exemplos, por favor.
- Se te queimas num fogo
quente, tens uma impresso
imediata. Mais tarde, podes
recordar que te queimaste. 
a isso que Hume chama ideia.
A diferena  que a impresso
 mais forte e viva do que a
recordao posterior da impresso. Podes dizer que a
impresso sensvel  o original e a ideia ou recordao a
cpia plida. Porque, afinal,
a impresso  a causa directa
da ideia que  conservada na
mente.
- At agora estou a acompanhar bem.
- Mais adiante, Hume sublinha que tanto uma impresso
como uma ideia podem ser ou
simples ou complexas. Ainda
te lembras que em Locke falmos de uma ma. A experincia imediata de 
uma ma 
tambm uma impresso complexa.
Assim, a ideia de uma ma 
tambm uma ideia complexa.
- Desculpa a interrupo,
mas isso  muito importante?
- Se ! Apesar de os filsofos se terem preocupado
com uma srie de problemas
aparentes, no podes agora desistir quando se trata de
construir um raciocnio. Hume
teria certamente dado razo a
Descartes quanto  importncia de se construir um raciocnio a partir da 
base.
- Rendo-me.
- Para Hume, a questo 
que, por vezes, podemos juntar
coisas sem que exista um objecto composto correspondente
na realidade. Assim, surgem
ideias falsas de coisas que
no existem na natureza. J
mencionmos os anjos. E, antes disso, j se tinha falado
de crocofantes.

240
Um outro exemplo  o Pgaso,
um cavalo com asas. Em todos
estes exemplos, temos de reconhecer que a nossa mente fez
uma construo no vazio. Retirou as asas de uma impresso
e os cavalos de outra. Todos
os elementos foram percepcionados uma vez e por isso entraram no palco da 
mente como
impresses verdadeiras. No
fundo, a mente no inventou
nada. A mente agarrou na tesoura e na cola e construiu
ideias falsas.
- Entendo. E agora tambm
compreendo que isso pode ser
importante.
- Ainda bem. Hume quer
examinar cada ideia e descobrir se ela  composta de um
modo que no encontramos na
realidade. Ele pergunta: em
que impresses tem origem esta
ideia? Em primeiro lugar, ele
tem que determinar de que
ideias simples  composto um
conceito. Deste modo, obtm
um mtodo crtico para analisar as ideias humanas. E 
assim que quer organizar os
nossos pensamentos e ideias.
- Tens um ou dois exemplos?
- Na poca de Hume, muitas pessoas tinham uma ideia
clara do paraso. Talvez ainda te lembres que Descartes
explicara que ideias claras e
evidentes em si podiam ser uma
garantia de que existe uma
correspondncia na realidade.
- Como j disse, no sou
esquecida.
- -nos imediatamente claro que "paraso"  uma ideia
extremamente complexa. Vou
referir apenas alguns elementos: no "paraso" h um "porto de prolas", 
h "estradas
de ouro" e "exrcitos de anjos" - e assim por diante.
Mas ainda no examinmos tudo
nos seus elementos particulares. Porque tambm "porto de
prolas", "estradas de ouro" e
"exrcitos de anjos" so
ideias compostas. S quando
verificamos que a nossa ideia
complexa de paraso  constituda por ideias simples como
"prola", "porto", "estrada",
"ouro", "figura vestida de
branco" e "asa",  que podemos
perguntar se j tivemos de
facto alguma vez "impresses
simples" correspondentes.
- E temos. Mas depois
montmos todas as impresses
simples numa iluso.
- Sim, exacto, porque
quando sonhamos, usamos, por
assim dizer, tesoura e cola.
Mas Hume sublinha que toda a
matria, a partir da qual formamos as nossas iluses, chega
 nossa mente na forma de impresses simples. Uma pessoa
que nunca tenha visto ouro
tambm no poder imaginar nenhuma estrada de ouro.
- Ele  muito esperto. E
quanto a Descartes e a sua
ideia clara de Deus?

241
- Hume tambm tem uma resposta para isso. Digamos que
imaginamos Deus como um ser
infinitamente inteligente, sbio e bom. Temos ento uma
ideia complexa que  constituda por algo infinitamente
sbio, infinitamente inteligente e infinitamente bom. Se
nunca tivssemos tido a experincia da inteligncia, sabedoria e bondade, 
nunca poderamos ter esse conceito de
Deus. Talvez a nossa ideia
de Deus implique que ele seja
um pai severo, mas justo - ou
seja, uma ideia que  composta
por "severo", "justo" e "pai".
A partir de Hume, muitos
crticos da religio apontaram
precisamente para este facto:
a saber, que esta ideia de
Deus pode provir do modo como
vamos o nosso prprio pai
quando ramos crianas. A
ideia de um pai teria levado 
ideia de um pai do cu, conforme dizem alguns.
- Talvez seja verdade.
Mas eu nunca aceitei que
Deus fosse forosamente um
homem. Em compensao, a minha me diz por vezes "Graas
a Deusa", ou uma coisa do gnero.
- Hume quer atacar todas
as concepes e ideias que no
provm de impresses sensveis
correspondentes. Ele afirmava
que queria afugentar a algaraviada sem sentido que dominara
durante tanto tempo o pensamento metafsico e o desacreditara. Mas tambm 
usamos
conceitos complexos no quotidiano sem nos questionarmos se
possuem de facto legitimidade.
 o caso da ideia de um eu ou
de um ncleo da personalidade.
Esta ideia constitua o fundamento da filosofia de Descartes. Era a ideia 
clara e
evidente sobre a qual edificou
toda a sua filosofia.
- Espero que Hume no tenha negado que eu sou eu. Seno falava por falar.
- Sofia, se h uma coisa
que eu quero que tu aprendas
neste curso de filosofia, 
que no podes tirar concluses
precipitadas.
- Continua.
- No, tu podes usar o mtodo de Hume para analisares
o que entendes pelo teu "eu".
- Ento tenho de perguntar
primeiro se a ideia do eu 
simples ou complexa.
- E a que concluso chegas?
- Tenho de admitir que me
sinto bastante complexa. Por
exemplo, sou bastante bem humorada.  difcil decidir-me
em relao a certas coisas.
Alm disso, posso gostar e
no gostar da mesma pessoa.
- Nesse caso, a tua ideia
do eu  complexa.
- Est bem. Agora tenho
de perguntar se tenho uma impresso complexa correspondente a eu. E 
tenho-a mesmo?
Tenho-a sempre?
- No tens a certeza?

242
- Estou sempre a mudar.
Hoje j no sou a mesma que
h quatro anos. A minha disposio e a minha ideia de mim
prpria mudam de minuto para
minuto. Por vezes, sinto-me
de repente uma pessoa totalmente nova.
- Ento a sensao de se
ter um ncleo de personalidade
inaltervel  uma ideia falsa.
A nossa ideia do eu consiste
numa longa srie de impresses
particulares que tu nunca experimentaste simultaneamente. Hume fala de 
um "conjunto de diversos contedos da
conscincia que se seguem uns
aos outros com uma rapidez
inacreditvel e esto constantemente em fluxo e movimento".
A nossa conscincia seria
"uma espcie de teatro", em
que esses diversos contedos
"entram em cena uns a seguir
aos outros, vo e vm e se
misturam entre si numa variedade infinita de situaes e
disposies". Para Hume no
temos qualquer personalidade
de base formada em que essas
opinies e disposies vm e
vo.  como as imagens numa
tela de cinema: pelo facto de
mudarem to depressa, no vemos que o filme  composto por
imagens individuais. Na realidade, estas imagens no esto ligadas, ou 
seja, na realidade, o filme  um conjunto
de instantes.
- Acho que desisto.
- Isso quer dizer que desistes da ideia de teres um
ncleo de personalidade imutvel?
- Sim, significa isso.
- E ainda h pouco tinhas
uma opinio completamente diferente! Tenho de acrescentar
ainda que a anlise de Hume
da conscincia humana e a sua
negao de um ncleo imutvel
da personalidade j tinham sido expostas dois mil e quinhentos anos antes 
no outro
extremo do planeta.
- Por quem?
- Por Buda.  quase
inquietante a semelhana do
modo como ambos se exprimem.
Buda via a vida humana como
uma srie ininterrupta de processos mentais e fsicos que
alteram o homem a cada instante. O beb no  o mesmo que
o adulto, e eu no sou o mesmo
que ontem. Buda afirmava:
"Nada h de que eu possa dizer "isto  meu", nada de que
possa dizer "isto sou eu".
No h, portanto, nenhum eu
nem nenhum ncleo constante da
personalidade."
- Sim, isso tem uma semelhana surpreendente com
Hume.
- Como continuao da
ideia de um eu imutvel, muitos racionalistas tinham por
evidente que o homem tem uma
alma imortal.
- Mas essa tambm  uma
ideia falsa?
- Pelo menos  o que dizem
Hume e Buda. Sabes o que se
conta que Buda disse aos seus
discpulos imediatamente antes
da sua morte?

243
- No, como  que posso
saber?
- "Todas as coisas compostas esto sujeitas  corrupo." Hume poderia 
ter dito o
mesmo. Ou Demcrito. Sabemos que Hume recusou qualquer
tentativa de provar a imortalidade da alma ou a existncia
de Deus. Isso no significa
que achasse ambas as coisas
impossveis, mas achava um absurdo racionalista acreditar
que  possvel provar a f religiosa com a razo humana.
Hume no era cristo; mas
tambm no era um ateu convicto. Ele era um homem a quem
chamamos agnstico.
- E o que significa isso?
- Um agnstico  uma pessoa que no sabe se Deus
existe. Ao receber a visita
de um amigo no leito de morte,
o amigo perguntou-lhe se acreditava na vida aps a morte.
Diz-se que Hume respondeu
que tambm era possvel que um
bocado de carvo atirado ao
fogo no ardesse.
- Ah...
- A resposta foi tpica da
sua incondicional ausncia de
preconceitos. Ele apenas
aceitava como verdade aquilo
de que tinha experincias sensveis seguras. Deixava todas
as outras possibilidades abertas. Ele no rejeitou nem a
crena em Cristo nem a crena
em milagres. Mas em ambos os
casos se trata justamente de
f e no de razo. Podes
dizer que a ltima ligao entre f e saber foi desfeita
com a filosofia de Hume.
- Disseste que ele no negou categoricamente os milagres.
- Mas isso tambm no
significa que tenha acreditado
em milagres. Ele sublinha que
os homens tm uma forte necessidade de acreditar naquilo a
que hoje chamaramos "acontecimentos sobrenaturais". Mas
todos os milagres que se narram aconteceram muito longe de
ns ou h muito tempo. Hume
recusava os milagres simplesmente porque no tinha visto
nenhum. Mas ele tambm no
viu que no pode haver milagres.
- Tens que ser mais preciso.
- Hume caracteriza um milagre como uma ruptura das
leis da natureza. Mas tambm
no podemos afirmar que percepcionmos as leis da natureza. Vemos que 
uma pedra cai
no cho quando a largamos, e
se no casse tambm o veramos.
- Eu chamaria a isso um
milagre - ou algo sobrenatural.
- Acreditas ento em duas
naturezas, uma natureza e uma
"natureza" sobrenatural. No
estars a voltar ao absurdo
nebuloso dos racionalistas?
- Talvez, mas acho que a
pedra cai sempre ao cho quando a largamos.

244
- E porqu?
- Ests a ser insistente.
- Eu no sou insistente,
Sofia. Para um filsofo,
nunca  errado fazer perguntas. Talvez estejamos a falar
do ponto mais importante da
filosofia de Hume. Responde
agora: como  que podes ter
tanta certeza de que a pedra
cai sempre ao cho?
- Eu vi-o tantas vezes que
tenho a certeza.
- Hume diria que viste
muitas vezes uma pedra cair ao
cho, mas nunca viste que
cair sempre. Normalmente
diz-se que a pedra cai ao cho
devido  lei da gravitao.
Mas ns nunca vimos essa lei.
S vimos que as coisas caem.
- No  a mesma coisa?
- No  bem a mesma coisa.
Disseste que achas que a pedra vai cair ao cho porque
viste isso muitas vezes. 
precisamente esse o problema
de Hume. Ests to habituada
a que uma coisa se siga  outra que esperas que, cada vez
que deixas cair uma pedra, suceda o mesmo. Deste modo,
surgem ideias daquilo a que
chamamos "leis constantes da
natureza".
- Ele quer dizer que se
pode pensar que a pedra no
caia ao cho?
- Ele estava to convencido como tu de que a pedra vai
cair ao cho sempre, mas diz
que no percepcionou porque 
que  assim.
- No nos afastmos das
crianas e das flores?
- No, muito pelo contrrio. Podes consultar as
crianas como testemunhas para
as asseres de Hume. Quem
te parece que ficaria mais
surpreendido se uma pedra ficasse no ar uma ou duas horas
- tu ou uma criana de um
ano?
- Eu ficaria mais surpreendida.
- E porqu, Sofia?
- Provavelmente porque eu
compreendo melhor do que uma
criana pequena que isso no
seria natural.
- E porque  que a criana
no entenderia?
- Porque ainda no aprendeu o que  a natureza.
- Ou porque a natureza no
se tornou para ela uma coisa
habitual.
- Eu percebo o que queres
dizer. Hume queria levar as
pessoas a tomarem mais ateno.
- Agora, dou-te a seguinte
tarefa: se tu e uma criana
pequena vem juntas um grande
ilusionista - que por exemplo
pe alguma coisa suspensa no
ar -, qual das duas se divertiria mais durante o espectculo?
- Eu diria que era eu.

245
- E porqu?
- Porque eu compreenderia
o que estava errado.
- Est bem. A criana no
se alegra por ver as leis da
natureza violadas porque ainda
no as conhece.
- Tambm podes diz-lo
dessa maneira.
- Ainda estamos a tratar
do cerne da filosofia emprica
de Hume. Ele teria acrescentado que a criana ainda no
se tornou escrava das suas expectativas. A criana pequena
tem menos preconceitos que tu.
Resta saber se a criana no
 tambm o maior filsofo.
Uma criana no tem opinies
preconcebidas. E isso, minha
querida Sofia,  a primeira
virtude em filosofia. A
criana vive o mundo tal como
ele , sem acrescentar s coisas mais do que o que v.
- Eu nunca gosto de ter
preconceitos.
- Quando Hume trata do
poder do hbito, refere-se 
chamada lei da causalidade.
Esta lei diz que tudo o que
acontece tem que ter uma causa. Hume usa como exemplo
duas bolas de bilhar. Se lanas uma bola de bilhar preta
contra uma bola branca parada,
o que  que acontece  bola
branca?
- Quando a preta toca na
branca, esta move-se.
- Sim, e porque  que faz
isso?
- Porque foi atingida pela
bola preta.
- Neste caso, dizemos que
o choque da bola preta  a
causa do movimento da bola
branca. Mas no podemos esquecer que s podemos dizer
que uma coisa  totalmente
certa quando a experiencimos.
- Eu j experienciei isso
vrias vezes. Jorunn tem uma
mesa de bilhar na cave.
- Hume afirma que tu apenas viste que a bola preta
atinge a branca e que a branca
rola pela mesa. Tu no conheceste pela experincia a causa
pela qual a bola branca rola.
Conheceste pela experincia
que um acontecimento se segue
ao outro temporalmente, mas
no que o segundo acontecimento sucede por causa do primeiro.
- Isso no  um pouco sofstico?
- No,  importante. Hume
sublinha que a expectativa de
que uma coisa se siga  outra
no est nos objectos, mas na
nossa conscincia. Uma criana pequena no teria esbugalhado os olhos se 
uma bola tivesse atingido a outra e ambas
ficassem totalmente imveis.
Quando falamos de "leis da
natureza", ou de "causa e
efeito", estamos na realidade
a falar dos hbitos humanos e
no do que  racional. As
leis da natureza no so nem
racionais nem irracionais,
so, simplesmente. A expectativa de a bola de bilhar
branca ser posta em movimento
quando a preta choca contra
ela, no  uma ideia inata.
Ns nascemos

246
sem quaisquer expectativas sobre o mundo ou sobre o comportamento das 
coisas. O mundo 
como  e ns apreendemo-lo
progressivamente pela experincia.
- Tenho de novo a sensao
de que isso no  assim to
importante.
- Pode ser importante se
as nossas expectativas nos levam a concluses precipitadas.
Hume no contesta que h leis
da natureza constantes, mas
uma vez que no podemos ter
experincia das leis da natureza, podemos tirar as concluses erradas.
- Podes dar-me exemplos?
- O facto de eu ver um
conjunto de cavalos pretos no
significa que todos os cavalos
sejam pretos.
- Tens toda a razo.
- E mesmo que durante toda
a minha vida tenha visto apenas corvos pretos no significa que no haja 
corvos brancos. Para um filsofo e para
um cientista, pode ser importante provar que no existem
corvos brancos. Quase podes
dizer que a caa ao corvo
branco  a tarefa mais importante da cincia.
- Compreendo.
- Quando se trata da relao de causa e efeito, muitos
imaginam o relmpago como causa do trovo, porque o trovo
se segue sempre ao relmpago.
Este exemplo no  muito diferente do das bolas de bilhar. Mas ser o 
relmpago
realmente a causa do trovo?
- No, na realidade relampeja e troveja exactamente ao
mesmo tempo.
- Porque relmpago e trovo so efeitos de uma descarga elctrica. Mesmo 
que vejamos sempre que o trovo se segue ao relmpago, no significa que 
o relmpago seja a causa do trovo. Na realidade h
um terceiro factor que provoca
os dois.
- Compreendo.
- Um empirista do nosso
sculo, Bertrand Russell,
deu um exemplo um pouco mais
grotesco: um pintainho que tem
a experincia de receber todos
os dias comida quando o avicultor passa pela capoeira,
tirar a concluso de que h
uma relao entre a passagem
do avicultor pela capoeira e a
comida no comedouro.
- Mas um dia o pintainho
no  alimentado, pois no?
- Um dia, o avicultor passa pela capoeira e torce-lhe o
pescoo.
- Que horror!
- O facto de as coisas se
seguirem umas s outras no
tempo no significa necessariamente que exista um nexo
causal. Impedir os homens de
tirar concluses precipitadas
 uma das tarefas mais

247
importantes da filosofia.
Alm disso, concluses precipitadas podem levar a muitas
formas de superstio.
- Como assim?
- Vs um gato preto andar
pela rua. Um pouco mais tarde
nesse dia tropeas e partes um
brao. Mas isso no significa
que haja um nexo causal entre
os dois acontecimentos. Em
contextos cientficos tambm 
importante no se tirar concluses muito rpidas. Apesar
de muitas pessoas ficarem ss
depois de terem tomado um determinado remdio, isso no
significa que o remdio as curou. Por isso, precisamos de
um grande grupo de controlo de
pessoas que acreditam receber
o mesmo remdio quando na realidade recebem farinha com
gua. Se estas pessoas so
curadas, tem de haver um terceiro factor que as cura -
por exemplo, a confiana na
eficcia deste remdio.
- Acho que comeo a perceber o que  o empirismo.
- Em relao  tica e 
moral, Hume tambm se ops ao
pensamento racionalista. Os
racionalistas achavam que era
inerente  razo humana a distino entre o justo e o injusto. Esta 
concepo do direito natural apareceu-nos em
muitos filsofos de Scrates
a Locke. Mas Hume no acredita que seja a razo a determinar aquilo que 
dizemos e fazemos.
- Ento  o qu?
- Os nossos sentimentos.
Quando decides ajudar um necessitado, so os teus sentimentos que te 
levam a isso,
no a tua razo.
- E se eu no tiver vontade nenhuma de ajudar?
- Tambm nesse caso tudo
depende dos teus sentimentos.
No ajudar um necessitado no
 racional nem irracional, mas
pode ser maldoso.
- Mas tem de haver um limite algures. Toda a gente
sabe que no  correcto matar uma pessoa.
- Segundo Hume, todos os
homens tm sensibilidade para
o bem-estar dos outros. Temos
portanto uma capacidade de
compaixo. Mas nada disso tem
a ver com razo.
- No sei se estou de
acordo.
- Nem sempre  assim to
irracional assassinar uma pessoa, Sofia. Quando se quer
atingir alguma coisa, pode at
ser uma grande ajuda.
- Isso  demais! Eu discordo!
- Nesse caso, podes tentar
explicar-me porque  que no
se deve matar uma pessoa importuna.
- A outra pessoa tambm
ama a vida. Por isso no a
podes matar.
- Isso  uma demonstrao
lgica?

248
- No fao ideia.
- O que tu fizeste foi, de
uma frase descritiva - "a
outra pessoa tambm ama a vida" deduzir uma frase normativa - "por isso 
no a podes
matar". Do ponto de vista puramente lgico, isso  um absurdo. Poderias 
da mesma forma deduzir, do facto de muitas
pessoas fugirem aos impostos,
que tu tambm devias fazer o
mesmo. Hume explicou que nunca se pode deduzir proposies de dever de 
proposies
de realidade. Contudo, isso
sucede com muita frequncia -
inclusivamente em artigos de
jornais, programas de partidos
e discursos no parlamento.
Queres que d alguns exemplos?
- Sim.
- "Cada vez mais pessoas
preferem viajar de avio. Por
isso,  preciso construir mais
aerdromos." Achas este argumento convincente?
- No, isso  um disparate. Temos que pensar tambm
no ambiente. Eu acho que devamos antes construir novas
vias frreas.
- Ou ento, diz-se: "a ampliao dos campos petrolferos aumentar o 
nvel de vida
do pas em dez por cento. Por
isso, temos que explorar o
mais depressa possvel novos
campos petrolferos".
- Que absurdo! Nesse caso, tambm temos que pensar no
ambiente. Alm disso, o nvel
de vida na Noruega j  suficientemente elevado.
- Por vezes, diz-se tambm: "Esta lei foi deliberada
pelo parlamento, e por isso
todos os cidados do pas tm
que agir de acordo com ela."
Mas muitas vezes, seguir essas leis vai contra as convices mais 
profundas de um povo.
- Compreendo.
- Verificmos portanto que
no podemos provar com a nossa
razo o modo como devemos proceder. Um comportamento consciente da 
responsabilidade no
significa que temos de apurar
a nossa razo, mas que temos
de apurar os nossos sentimentos pelo bem-estar dos outros.
Para Hume, no era irracional preferir a destruio de
todo o mundo a uma arranhadela
no dedo.
- Que afirmao horrvel!
-  ainda mais horrvel se
baralhares as cartas. Sabes
que os nazis assassinaram milhes de judeus. O que  que
dirias que no estava certo
nestes homens, a razo ou os
sentimentos?
- Antes de mais, alguma
coisa estava errada com os
seus sentimentos.
- Muitos deles tinham uma
ideia muito clara do que estavam a fazer. Por detrs das
resolues sem sentimentos
pode justamente

249
ocultar-se um calculismo extremamente frio. Depois da
guerra, muitos nazis foram
condenados, mas no por terem
sido irracionais. Foram condenados pela sua crueldade.
Sucede tambm que pessoas que
no sabem bem o que esto a
fazer so absolvidas apesar do
seu crime. Dizemos que "no
esto em plena posse das faculdades mentais no momento do
crime" ou "no esto em plena
posse das faculdades por tempo
ilimitado". Mas ainda ningum
foi absolvido por falta de
sentimentos.
- Pois no, era melhor!
- Mas no precisamos sequer de recorrer aos exemplos
mais grotescos. Quando, aps
uma cheia, muitos homens precisam de ajuda, so os nossos
sentimentos que decidem se intervimos. Se ns fssemos insensveis e 
deixssemos esta
deciso  "razo fria", talvez
reflectssemos que  bom se
alguns milhes de homens morressem, num mundo que sofre j
de excesso demogrfico.
- Fico furiosa com o facto
de algum poder pensar assim.
- E nesse caso no  a tua
razo que fica furiosa.
- Obrigada, j chega.

250

Berkeley

... como um planeta que gira vertiginosamente  volta de
um sol incandescente...

Alberto ps-se  janela que
dava para a cidade e Sofia
foi ter com ele. Passado um
pouco viram um pequeno avio a
hlice aparecer por cima dos
telhados. Uma longa faixa estava presa ao avio.
Sofia esperava publicidade
a um grande concerto ou uma
coisa do gnero na faixa que
esvoaava ao vento como uma
grande cauda atrs do avio.
Mas quando este se aproximou,
ela viu que o que estava escrito era completamente diferente:
"PARABNS PELO TEU ANIVERSRIO, HILDE!"
- Importuno - foi o nico
comentrio de Alberto.
Nuvens escuras revolviam-se
nas colinas a sul em direco
 cidade. O pequeno avio desapareceu numa destas nuvens
pesadas.
- Receio que haja um temporal - afirmou Alberto.
- Nesse caso, eu vou de
autocarro para casa.
- Se ao menos o major no
estivesse por detrs do temporal!
- Mas ele no  omnipotente, pois no?
Alberto no deu resposta.
Voltou para junto da mesa e
sentou-se na cadeira.
- Temos que falar ainda um
pouco de Berkeley - disse
ele.
Sofia j voltara a sentar-se. Deu-se ento conta de
que tinha comeado a roer as
unhas.
- George Berkeley era
um bispo irlands que viveu
entre 1685 e 1753 - comeou
Alberto, e em seguida calou-se por muito tempo.
- Berkeley era um bispo
irlands... - Sofia retomou
o fio.
- Mas tambm era filsofo...
- Sim?
- Ele acreditava que a filosofia e a cincia do seu
tempo constituam uma ameaa
para a concepo crist do
mundo. Alm disso, via o materialismo, cada vez mais difundido, como uma 
ameaa 
crena crist de que Deus
cria e mantm vivas todas as
coisas na natureza.
:,

251
- Sim?
- Ao mesmo tempo Berkeley
era um dos empiristas mais
coerentes.
- Ele achava que no podemos saber mais acerca do mundo
do que o que sentimos?
- No apenas isso. Berkeley achava que as coisas no
mundo so exactamente como ns
as sentimos mas no so "coisas".
- Tens de explicar isso
melhor.
- Ainda te lembras que
Locke tinha apontado para o
facto de ns no podermos dizer nada sobre as "qualidades
secundrias" das coisas. No
podemos afirmar que uma ma 
verde e cida. Somos ns
que sentimos essa ma desse
modo. Mas Locke dissera tambm que as "qualidades primrias" - como 
solidez, peso e
gravidade - pertencem de facto  realidade exterior  nossa volta. Esta 
realidade exterior tem portanto uma "substncia" fsica.
- Eu continuo a ter uma
memria boa. E pensava que
Locke tinha apontado uma diferena importante.
- Ah, Sofia, se fosse s
isso!
- Continua!
- Para Locke - como para
Descartes e Espinosa - o
mundo fsico era uma realidade.
- Sim?
- E  precisamente isso
que Berkeley pe em dvida e
para isso ele recorre a um empirismo consequente. Ele
afirma que a nica coisa que
existe  o que ns sentimos.
Mas no sentimos "matria" ou
"substncia". No sentimos as
coisas como "coisas" palpveis. Quando pressupomos que
aquilo que sentimos tem uma
"substncia" subjacente, estamos a tirar concluses precipitadas. No 
temos nenhuma
prova emprica para essa afirmao.
- Que disparate! Observa
isto.
Sofia bateu com o punho na
mesa.
- Au! - exclamou, tal foi
a fora com que bateu - Isto
no  uma prova de que a mesa
 uma mesa verdadeira e  matria ou substncia?
- O que  que sentiste?
- Uma coisa dura.
- Tiveste uma clara percepo sensvel de uma coisa
dura, mas no sentiste a verdadeira matria da mesa. Da
mesma forma, podes sonhar que
bates em algo duro, mas no teu
sonho no h nada duro, pois
no?
- No sonho no.
:,

252
- Alm disso uma pessoa
pode ser persuadida de que
"sente" todas as coisas. Uma
pessoa pode ser hipnotizada e
sentir calor e frio, carcias
suaves e socos duros.
- Mas se no era a mesa
que era dura, o que me levou a
senti-la?
- Segundo Berkeley,  a
vontade ou esprito. Ele
tambm achava que todas as
nossas ideias tm uma causa
exterior  nossa conscincia,
mas que esta causa no  de
natureza material. Ela , segundo Berkeley, espiritual.
Sofia voltou a roer as
unhas. Alberto prosseguiu.
- Segundo Berkeley, a minha alma pode ser causa dos
meus pensamentos - como quando sonho -, mas s uma outra
vontade ou esprito pode ser
causa das ideias que constituem o nosso mundo material.
Tudo vem do esprito, "que
realiza tudo em tudo e atravs
do qual tudo subsiste", afirma
ele.
- E que esprito  esse?
- Berkeley est naturalmente a pensar em Deus. Ele
achava que ns poderamos
afirmar que sentimos a existncia de Deus mais claramente do que a de 
qualquer homem.
- Mas no  bvio que
existimos?
- Bom... tudo o que vemos
e sentimos , segundo Berkeley, um efeito do poder de
Deus.  que Deus est intimamente presente na nossa
conscincia e provoca nela
toda a multiplicidade de
ideias e sensaes s quais
estamos constantemente expostos. Toda a natureza  nossa
volta e toda a nossa existncia residem em Deus.  a
nica causa de tudo o que
existe.
- Para dizer a verdade,
estou espantada.
- "Ser ou no ser" no 
toda a questo. A questo 
tambm o que ns somos.
Somos realmente pessoas de
carne e osso? O nosso mundo 
constitudo por coisas reais
- ou estamos apenas rodeados
pela conscincia?
Sofia comeou mais uma vez
a roer as unhas. Alberto
prosseguiu:
- Berkeley no pe apenas
a realidade material em dvida. Ele duvida tambm de que
o tempo e o espao tenham uma
existncia absoluta ou autnoma. Mesmo a experincia do
tempo e do espao pode residir
apenas na nossa conscincia.
Uma ou duas semanas para ns
no tm de ser uma ou duas semanas para Deus...
- Disseste que para Berkeley este esprito, no qual
tudo repousa,  o Deus cristo.
- Sim, foi o que eu disse.
Mas para ns...

253
- Sim?
- ... para ns esta vontade
ou espirito que realiza tudo
pode ser tambm o pai de Hilde.
Sofia emudeceu. A sua expresso parecia um grande ponto de interrogao. 
E, simultaneamente, uma coisa tornou-se-lhe clara.
- Acreditas nisso? - perguntou.
- No consigo ver nenhuma
outra possibilidade. Esta 
talvez a nica explicao possvel para tudo o que presencimos. Estou a 
pensar nos
diversos postais e notcias
que surgiram nos mais diversos
locais. Estou a pensar no
facto de Hermes falar de repente e estou a pensar nos
meus lapsos involuntrios.
- Eu...
- A ideia de eu te ter
chamado Sofia, Hilde! Eu
sempre soube que tu no te
chamavas Sofia.
- O que ests a dizer?
Ests a enlouquecer de vez!
- Sim, tudo gira e gira,
minha filha. Como um planeta
que gira vertiginosamente 
volta de um sol incandescente.
- E esse sol  o pai de
Hilde?
- Podes dizer isso.
- Achas que ele se tornou
uma espcie de deus para ns?
- Para ser sincero, sim.
Mas devia ter vergonha!
- E quanto a Hilde?
- Ela  um anjo, Sofia.
- Um anjo?
-  a ela que se dirige
este "esprito".
- Achas que Alberto Knag
fala a Hilde sobre ns?
- Ou escreve sobre ns.
Ns no podemos sentir a matria da qual a nossa realidade  feita. Pelo 
menos foi o
que aprendemos. No podemos
saber se a nossa realidade exterior  constituda por ondas
sonoras ou por papel e letras.
Segundo Berkeley, s podemos
saber que somos feitos de esprito.
- E Hilde  um anjo...
-  um anjo, sim. E com
isto, terminmos por hoje.
Parabns, Hilde!
Uma luz azulada invadiu ento a sala. Passados poucos
segundos, ouviram um trovo a
ribombar, e a casa foi abalada.
Alberto estava com um olhar
ausente.
- Tenho de ir para casa -
disse Sofia. Levantou-se de
um pulo e correu em direco 
porta de entrada. Ao abrir
violentamente a

254
porta, Hermes, que dormia debaixo dos cabides, acordou.
Quando Sofia saiu, parecia
dizer:
- Adeus, Hilde!
Sofia desceu as escadas
precipitadamente e correu para
a rua. A, no se via ningum. Entretanto chovia a
cntaros.
Dois carros passaram pelo
asfalto molhado, mas Sofia
no conseguia encontrar um autocarro. Correu at  praa
principal e continuou a correr
pela cidade. Enquanto isso,
um nico pensamento se revolvia na sua cabea.
"Amanh fao anos", pensava
ela. E no era extremamente
duro ter de reconhecer, um dia
antes de fazer quinze anos,
que a vida  um sonho? Era
como sonhar ter ganho um milho e, pouco antes de o grande prmio ser 
pago, compreender que tudo fora apenas um
sonho.
Sofia correu pelo campo de
jogos molhado. Nessa altura
viu uma pessoa a correr na sua
direco. Era a me. Relmpagos potentes rasgavam o cu.
A me abraou Sofia.
- O que se passa connosco,
minha filha?
- No sei - Sofia chorava. -  como um pesadelo.

255

Bjerkely

... um espelho mgico antigo que a bisav comprara a uma
cigana...

Hilde Mller Knag acordou
na mansarda na antiga moradia
do capito perto de Lillesand. Olhou para o relgio;
eram apenas seis horas. Porm, j era de dia. Uma larga
faixa de sol matinal iluminava
o quarto.
Hilde levantou-se e foi 
janela. A caminho, inclinou-se para sua escrivaninha e
para uma folha do calendrio
da mesa. Quinta-feira, 14 de
Junho de 1990. Amarrotou a
folha e deitou-a no cesto dos
papis.
"Sexta-feira, 15 de Junho
de 1990" era o que estava escrito no calendrio; o algarismo brilhava 
para ela. J
em Janeiro escrevera nesta
folha do calendrio "15
anos". Achava que fazer quinze anos num dia quinze fazia
um efeito especial. Nunca haveria de viver isso de novo.
Quinze anos! No era o seu
primeiro dia na sua vida
"adulta"? Ela no conseguia
voltar para a cama; alm disso, era o ltimo dia de aulas
antes das frias. Nesse dia
os alunos s tinham de ir 
igreja  uma. E alm disso,
dentro de uma semana o seu pai
regressaria do Lbano. Ele
prometera estar em casa para a
noite de S. Joo.
Hilde assomou  janela e
olhou para o jardim, para a
pequena ponte e para o barraco vermelho dos barcos. O
barco  vela ainda no fora
arranjado para a poca do
Vero, mas o velho barco a
remos estava amarrado  doca.
No se podia esquecer de tirar a gua, depois da forte
chuvada.
Enquanto observava a pequena enseada, lembrou-se de que
uma vez, com seis ou sete
anos, trepara para o barco a
remos e remara sozinha no fiorde. Em seguida, cara 
gua e s a custo conseguira
voltar a terra. Arrastara-se
por entre os espessos arbustos
completamente molhada. Ao
chegar ao jardim em frente 
casa, a me veio a correr.
Vira o barco e os remos flutuarem l fora no fiorde.

256
Hilde ainda sonhava por vezes
com o barco, que boiava l
fora s voltas, completamente
abandonado. Tinha sido uma
experincia horrvel.
O jardim no era nem particularmente frondoso nem cuidado. Mas era grande 
e pertencia a Hilde. Uma macieira
maltratada pelas intempries e
algumas groselheiras que j
quase no produziam frutos tinham sobrevivido s violentas
tempestades do Inverno.
Entre os rochedos e o matagal estava o velho baloio, no
relvado.  brilhante luz matinal parecia completamente
abandonado. Parecia mais
triste porque as almofadas estavam em casa. A me de Hilde sara 
precipitadamente 
tarde para as salvar do temporal.
Todo aquele grande jardim
estava rodeado de btulas.
Deste modo, ficava um pouco
protegido das rajadas de vento
mais fortes. Devido a estas
rvores - bjrketreer -, o
terreno recebera o nome de
Bjerkely h mais de cem anos.
O bisav de Hilde mandara
construir a casa pouco antes
da viragem do sculo. Ele
fora capito de um dos ltimos
grandes navios  vela. Ainda
hoje, muita gente chamava 
casa a "moradia do capito".
Nessa manh, ainda se notava pelo jardim que na tarde
anterior chovera violentamente. Hilde fora acordada vrias vezes por 
troves. Mas
agora j no se via uma nica
nuvem no cu.
Aps os aguaceiros estivais, o tempo ficava sempre
bastante fresco. Nas ltimas
semanas, o tempo estivera
quente e seco, e as btulas
tinham ficado com feias manchas amarelas na parte exterior da folhagem. 
Agora, o
mundo parecia lavado de fresco. Nessa manh, toda a sua
infncia parecia tambm ter-se
extinguido com o trovo.
"Claro, di quando os botes desabrocham..." No fora
uma poetisa sueca que dissera
uma coisa do gnero? Ou fora
uma finlandesa?
Hilde ps-se em frente do
espelho de lato que estava
pendurado sobre a velha cmoda
da av.
Era bonita? Pelo menos no
era feia... Estava talvez no
meio termo...
Tinha longos cabelos loiros. Hilde tinha sempre desejado ter os cabelos 
mais claros ou mais escuros. Esta cor
de cabelo intermdia no tinha
graa. Mas gostava dos seus
caracis suaves. Muitas das
suas amigas tratavam dos cabelos para conseguirem ondulaes, mas Hilde 
nunca precisara disso. Tambm gostava
dos seus olhos verdes, de um
verde esmeralda. "So de facto verdes?", perguntavam sempre as tias e os 
tios quando
se inclinavam para ela.
Hilde reflectiu sobre se a
imagem que estava a examinar
era o reflexo de uma rapariga
ou de uma jovem mulher. Chegou  concluso de que no era
nenhuma das duas. O seu corpo
j se assemelhava

257
muito ao de uma mulher; o rosto, pelo contrrio, fazia lembrar uma ma 
ainda verde.
Algo no velho espelho fazia
Hilde pensar no pai. Anteriormente, tinha estado pendurado em baixo, no 
atelier. O
atelier ficava por cima do
barraco dos barcos e servia
ao pai de biblioteca, local de
inspirao para escrever e um
refgio para se isolar quando
estava irritado. Albert, como
Hilde lhe chamava quando ele
estava em casa, quisera sempre
escrever uma grande obra.
Tentara uma vez um romance,
mas tinha-se ficado pela tentativa. Alguns poemas e descries inspiradas 
na paisagem
que o rodeava tinham sido publicados regularmente no jornal local. Hilde 
ficava quase
to orgulhosa como ele quando
via o seu nome impresso. Alberto Knag. Pelo menos em
Lillesand, este nome tinha
uma ressonncia especial. O
bisav tambm se chamava Albert.
O espelho, sim. H muitos
anos, o seu pai dissera na
brincadeira que talvez fosse
possvel piscar os olhos para
si mesma no espelho, mas com
ambos os olhos isso no seria
possvel de todo. A nica excepo era este espelho de lato por ser um 
espelho mgico
antigo que a bisav comprara a
uma cigana logo a seguir ao
seu casamento.
Hilde tentara durante muito
tempo, mas piscar ambos os
olhos para si mesma era to
difcil como fugir da sua prpria sombra. Por fim, recebera de presente a 
velha pea
herdada. Durante toda a sua
infncia, tentara esta habilidade impossvel regularmente.

No admirava que estivesse
um pouco pensativa nesse dia.
No admirava que pensasse s
em si. Quinze anos...
S ento deitou um olhar 
sua mesa de cabeceira. Estava
l um grande embrulho. Com
papel de um lindssimo azul
celeste e uma fita de seda
vermelha. Devia ser um presente de aniversrio!
Seria esse o "presente"?
Seria o grande PRESENTE do
seu pai, o presente  volta do
qual fizera tanto mistrio?
Nos seus postais do Lbano,
ele fizera repetidamente aluses estranhas. Mas submetera-se a si mesmo a 
"uma censura rigorosa".
Era um presente que crescia, escrevera ele. E depois
fizera aluses a uma rapariga
que havia de conhecer em breve
- e  qual ele enviara uma
cpia de cada postal. Hilde
procurara saber pela me o que
queria ele dizer com aquilo,
mas ela tambm no fazia
ideia.
O mais estranho de tudo tinha sido a indicao de que o
presente podia talvez ser partilhado com outras pessoas.
No era por acaso que trabalhava na ONU: se o pai de
Hilde tinha uma ideia fixa -
e ele tinha muitas -, ento
era a de que a ONU devia
assumir a seu cargo

258
uma espcie de responsabilidade governativa em todo o mundo. "Possa a ONU 
um dia
aproximar de facto a humanidade". escrevera ele num postal.
Poderia ela abrir o embrulho antes de a me subir com
po de passas e limonada, a
cano dos parabns e a bandeira norueguesa? Podia, certamente, por isso 
 que estava
ali.
Hilde atravessou o quarto
de mansinho e levantou o embrulho da mesa de cabeceira.
Era pesado! Tinha um carto:
"Para Hilde, do pai, pelos
seus quinze anos."
Ela sentou-se na cama e
desfez com cuidado o n da fita de seda vermelha. Em seguida, j podia 
remover o papel.
Era um grande dossier.
Era este o presente? Era
este o presente para o seu
aniversrio do qual se falara
tanto? Era este o presente
que crescera e que alm disso
podia ser partilhado com outros?
Um olhar rpido mostrou que
o dossier estava cheio de
folhas escritas  mquina.
Hilde reconheceu o tipo de
letra da mquina de escrever
que o seu pai levara consigo
para o Lbano.
Teria ele escrito um livro
para ela?
Na primeira folha estava
escrito  mo, em maisculas:
O MUNDO DE SOFIA
Um pouco mais abaixo
lia-se, em letra de mquina:

AQUILO QUE A LUZ DO SOL 
PARA A TERRA FRTIL  O VERDADEIRO SABER PARA OS AMIGOS DA
TERRA
N. F. S. Grundtvig

Hilde folheou o dossier.
No cimo da pgina seguinte
comeava o primeiro captulo.
O ttulo dizia: "O jardim do
den". Sentou-se comodamente
na cama, apoiou o dossier
nos joelhos e comeou a ler:

Sofia Amundsen regressava
da escola. Percorrera com
Jorunn o primeiro troo do
caminho. Tinham conversado
sobre robs. Para Jorunn, o
crebro humano era um computador complexo. Sofia no estava de acordo. Um 
homem deveria ser algo mais do que uma
mquina.

Hilde continuou a ler, e
pouco depois esqueceu-se de
todas as outras coisas; esqueceu-se inclusivamente de que
fazia anos. De vez em quando,
uma ideia ainda conseguia introduzir-se entre as linhas:

259
Teria o pai escrito um romance? Teria retomado a tentativa de escrever o 
grande romance e queria termin-lo no Lbano? Tinha-se queixado tanto
de que o tempo demorava a passar.
Sofia tambm viajava na
histria universal. Era com
certeza a rapariga que Hilde
devia conhecer...

S quando se apercebia que
um dia teria desaparecido,
compreendia claramente que a
vida era infinitamente valiosa... De onde vem o mundo?...
Afinal, alguma coisa teria de
ter surgido do nada a certa
altura. Mas seria isso possvel? Este pensamento no seria to impossvel 
como o de o
mundo ter sempre existido?

Hilde continuou a ler, e
sentiu-se surpresa ao saber
que Sofia Amundsen recebera
um postal do Lbano. "Hilde
Mller Knag, a/c Sofia
Amundsen. Klverveien 3..."

Querida Hilde! Parabns
pelos teus 15 anos! Como
compreendes, quero dar-te um
presente, que te ajudar a
crescer. Peo desculpa por
mandar o postal pela Sofia.
Era mais fcil deste modo.

Saudades, do pai

Este malvado! Hilde sempre
achara o seu pai um maroto,
mas nesse dia surpreendeu-a
completamente. Em vez de colocar o postal no embrulho,
escrevera-o no prprio presente.
Pobre Sofia! Estava totalmente perplexa.

Porque  que um pai enviaria um postal de aniversrio
para a morada de Sofia, se
era bvio que devia ser enviado para outro local? Que tipo
de pai enviaria um postal de
aniversrio para o endereo
errado, impedindo que a filha
o recebesse? Como  que poderia ser "mais fcil" deste
modo? E sobretudo, como poderia ela encontrar Hilde?

No, como  que Sofia havia de conseguir? Hilde virou
a folha e comeou a ler o segundo captulo. Chamava-se
"A cartola". Pouco depois,
chegou a uma longa carta que
essa pessoa misteriosa escrevera a Sofia. Hilde reteve a
respirao.

Interessarmo-nos pela razo
da nossa existncia no  um
interesse ocasional, como o
interesse em coleccionar selos. Quem se interessa por

260
tais problemas, preocupa-se
com tudo aquilo que os homens
discutem desde que apareceram
neste planeta...

"Sofia estava exausta".
Hilde tambm. O pai no lhe
escrevera apenas um livro para
o aniversrio; ele escrevera
um livro muito estranho e misterioso.
Breve sumrio: um coelho
branco  retirado de uma cartola vazia. Dado que  um
coelho muito grande, este truque leva muitos bilies de
anos.
Na extremidade dos plos finos nascem todas as crianas
humanas. Por isso, podem admirar-se com a inacreditvel
arte da magia. Mas  medida
que envelhecem, deslizam cada
vez mais para a pele do coelho. E permanecem ali...

No era s Sofia a ter a
sensao de ter estado  procura de um lugar para si muito
em baixo na pelagem do coelho
branco. Nesse dia, Hilde fazia quinze anos. Tambm ela
tinha a sensao de ter de se
decidir quanto  orientao a
seguir.
Leu acerca dos filsofos da
natureza gregos. Hilde sabia
que o pai se interessava por
filosofia. Escrevera no jornal que a filosofia tinha de
ser introduzida como disciplina escolar. "Porqu inserir a
filosofia nos programas escolares?", era o ttulo do artigo. O pai at 
levara o tema 
discusso na reunio dos pais
e professores da turma de
Hilde. Para Hilde, isso
fora extremamente embaraoso.
Olhou ento para o relgio.
J eram sete e meia. Mas a
me s subiria da a uma hora
com o pequeno-almoo. Felizmente, porque Hilde estava
completamente concentrada em
Sofia e nas questes filosficas. Leu o captulo sobre
Demcrito. Primeiro, Sofia
tinha de reflectir acerca de
uma questo: "Porque  que as
peas do Lego so o brinquedo
mais genial do mundo?". Em
seguida, encontrou "um grande
envelope amarelo" na caixa do
correio.

Demcrito concordava com os
seus predecessores ao afirmar
que as transformaes observveis na natureza no significavam que algo 
se alterasse
realmente. Admitiu, portanto,
que tudo tinha de ser composto
de elementos pequenos e invisveis, eternos e imutveis.
Demcrito designava estas pequenas partculas por tomos.

Hilde inquietou-se quando

Sofia encontrou o seu leno
de seda vermelho debaixo da
cama. Ento era ali que fora
parar? Mas como  que um leno podia cair numa histria?
Tinha de estar noutro lugar...

261
O captulo sobre Scrates
comeava com Sofia a ler num
jornal "algumas linhas sobre o
contingente noruegus da
ONU no Lbano". Tpico do
pai! Ele tinha muita pena que
as pessoas na Noruega se interessassem to pouco pelo
trabalho dos soldados da
ONU de conservar a paz. E
se mais ningum se preocupava
com isso, pelo menos Sofia
devia faz-lo. Deste modo,
era possvel atrair a si uma
certa ateno dos media.
Hilde no pde deixar de
sorrir quando leu na carta do
professor de filosofia endereada a Sofia um "PS2".

PS2. Se encontrares um
leno de seda, quero pedir-te
que o conserves cuidadosamente. Acontece, por vezes, que
os objectos so trocados, sobretudo na escola e em locais
semelhantes, e esta  na verdade uma escola de filosofia.

Hilde ouviu passos na escada. Devia ser a me com o pequeno-almoo do dia 
de anos.
Antes de ela bater  porta,
Hilde leu ainda que Sofia
tinha encontrado um vdeo de
Alberto no seu esconderijo no
jardim.
- Parabns a voc, nesta
data querida...
A me comeara a cantar nas
escadas.
- Muitas felicidades...
- Entra! - disse Hilde.
Estava a ler sobre o professor de filosofia que falava a
Sofia directamente da Acrpole. Ele era fisicamente
muito parecido com o pai de
Hilde - com uma "barba negra
bem tratada" e uma bina azul.
- Parabns, Hilde!
- Mmm...
- Hilde?
- Deixa-o a.
- No queres...
- No vs que estou ocupada?
- Pensa que j tens quinze
anos!
- J estiveste em Atenas,
mam?
- No, porqu?
-  bastante estranho que
os templos antigos ainda estejam de p. Tm dois mil e
quinhentos anos. O maior chama-se "Partnon".
- Abriste o embrulho do
pai?
- Que embrulho?
- Olha para mim, Hilde!
Ests completamente nas nuvens!
Hilde deixou cair o grande
dossier nos joelhos.

262
A me inclinou-se para a
cama. No tabuleiro havia velas, sanduches e sumo de laranja. Havia 
tambm um pacote. Mas a me s tinha duas
mos e por isso tinha entalado
a bandeira norueguesa debaixo
do brao.
- Muito obrigada, mam. 
muito amvel da tua parte, mas
no tenho mesmo tempo.
- S tens de estar na
igreja  uma.
Hilde s nesse momento se
apercebeu onde estava. A me
ps o tabuleiro na mesa de cabeceira.
- Desculpa. Estava to
concentrada nisto...
Hilde mostrou o dossier e
prosseguiu:
- Isto  do pai...
- Mas o que  que ele escreveu, Hilde? Estou to curiosa como tu. H 
meses que
no se lhe ouve uma palavra
sensata.
Por algum motivo, Hilde
sentiu-se subitamente embaraada.
- Ah,  apenas uma histria.
- Uma histria?
- Sim, uma histria. E
tambm um livro de filosofia,
mais ou menos.
- No queres abrir o meu
pacote?
Hilde achava que no podia
fazer distino entre os presentes e por isso abriu tambm
o da me. Era uma pulseira de
ouro.
- Que bonita! Muito obrigada!
Hilde deu um beijo  me.
Conversaram um pouco.
- Agora tens de ir embora
- disse Hilde depois. -
Ele est mesmo no cimo da
Acrpole, percebes?
- Quem?
- Bom, no fao ideia, e a
Sofia tambm no. O problema
 esse.
- Eu tenho de ir para o
escritrio. Tens de comer
qualquer coisa. O teu vestido
est l em baixo.
Por fim, a me foi-se embora. E o professor de filosofia de Sofia fez o 
mesmo;
desceu as escadas da Acrpole
e subiu para a elevao do
Arepago, para aparecer pouco
depois na antiga gora de
Atenas. Hilde sobressaltou-se ao ler que os antigos edifcios se elevavam 
subitamente
das runas. O pai tinha a
ideia fixa de que todos os
pases da ONU deviam fazer
em conjunto uma cpia fiel da
antiga gora de Atenas. A
se poderia trabalhar em questes filosficas e hipteses
de desarmamento. Um projecto
gigantesco desses havia de
unir a humanidade, segundo
ele.

263
Em seguida leu sobre Plato. "A alma deseja voar nas
asas do amor de 'volta' ao
mundo das ideias. Deseja ser
libertada da 'priso do corpo...'"
Sofia tinha passado atravs
da sebe e seguira Hermes, mas
perdera-o de vista depois.
Aps ter lido sobre Plato,
caminhou pelo bosque e chegou
a uma cabana vermelha junto a
um pequeno lago. Havia ali
uma fotografia de Bjerkely.
Pela descrio, era evidente
que tinha de se tratar de
Bjerkely de Hilde. E ali
estava tambm um retrato de um
homem chamado Berkeley.
"Berkeley e Bjerkely... No
era estranho?"
Hilde pousou o volumoso
dossier na cama, foi  estante e consultou a enciclopdia em trs 
volumes que recebera de presente quando fizera
catorze anos. Berkeley... l
estava!

Berkeley, George, 1685-1753, filsofo anglo-saxnico, bispo de Cloyne. 
Nega
a existncia de um mundo material exterior  conscincia
humana. As nossas percepes
sensoriais provm de Deus.
B.  tambm famoso pela sua
crtica s ideias universais
abstractas. Obra principal:
A Treatise Concerning the
Principles of Human Knowledge - Tratado Sobre os
Princpios do Conhecimento
Humano (1710).

Sim, era estranho. Hilde
ficou alguns segundos parada e
pensativa, antes de voltar 
cama e ao dossier.
Teria sido o pai a pendurar
aqueles dois quadros? Poderia
haver uma outra relao alm
da semelhana entre os nomes?
Berkeley era um filsofo
que negara a existncia de um
mundo material exterior 
conscincia humana. Era possvel fazer-se muitas afirmaes estranhas, 
mas nem sempre
era fcil invalidar essas
afirmaes. Essa descrio
prestava-se ao mundo de Sofia. As suas "sensaes" eram
provocadas pelo pai de Hilde.
Mas saberia mais se continuasse a ler. Hilde levantou
os olhos do dossier e riu-se
ao ler que Sofia vira o reflexo de uma rapariga no espelho que piscava os 
dois olhos.
"A rapariga do espelho parecia piscar os olhos para Sofia. Parecia querer 
dizer: eu
estou a ver-te, Sofia. Estou
aqui do outro lado."
L, encontrou tambm a carteira verde - com dinheiro e
o resto! Como teria ido l
parar?
Que disparate! Por um ou
dois segundos, Hilde acreditara que Sofia tinha encontrado de facto a 
carteira.
Mas mesmo depois, tentou compreender como tudo acontecia
do ponto de vista de Sofia.
Devia ser muito insondvel e
misterioso.
:,

264
Pela primeira vez, Hilde
sentiu um forte desejo de conhecer Sofia pessoalmente.
Gostaria de discutir com ela
a relao entre todas as coisas.
Mas agora, Sofia tinha de
sair da cabana se no queria
ser surpreendida em flagrante.
Era bvio que o barco andava
 deriva no lago. Ele no resistira a referir a velha histria do barco.
Hilde bebeu um gole de sumo
e trincou uma sanduche com
salada de maionese e camaro
enquanto lia sobre Aristteles, que criticara a teoria
das ideias de Plato.

Aristteles aponta para o
facto de que nada existe na
conscincia que no tenha
existido primeiro nos sentidos. Plato poderia ter dito
que no h nada na natureza
que no tenha existido primeiro no mundo das ideias. Desta
forma, Plato duplicou o nmero de coisas, segundo Aristteles.

Hilde no sabia que fora
Aristteles a inventar o jogo
do "reino vegetal, reino animal, reino mineral".

Aristteles queria fazer
uma arrumao profunda no
quarto da natureza. Procurou
provar que todas as coisas na
natureza pertencem a diversos
grupos e subgrupos.

Ao ler a concepo de
Aristteles sobre a mulher,
ficou simultaneamente admirada
e irritada. Como  que algum
pode ser um filsofo to competente e ao mesmo tempo um
ignorante!
Sofia deixara-se inspirar
por Aristteles ao arrumar o
seu prprio quarto. E a, no
meio do caos completo, encontrou a meia branca que desaparecera h um ms 
do armrio de
Hilde. Sofia reunira todas
as folhas que Alberto lhe escrevera num dossier. "Agora
j tem mais de cinquenta pginas". Hilde, por seu lado, j
tinha chegado  pgina cento e
setenta e oito, porque ainda
tinha de ler, alm das cartas
filosficas de Alberto Knox,
toda a histria de Sofia.
O captulo seguinte chamava-se "O Helenismo". Nesse
captulo, Sofia encontrava um
postal com a fotografia de um
jipe da ONU. O postal tinha o carimbo do contingente
da ONU do dia 15 de Junho. Mais um "postal" dirigido a Hilde que o pai 
integrara no dossier em vez de o
enviar pelo correio.

Querida Hilde: imagino
que deves estar a festejar o
teu aniversrio. Ou j passa
um dia? De qualquer modo, no
faz diferena para o teu

265
presente; desfrutars dele durante toda a tua vida. Dou-te
os parabns mais uma vez.
Talvez compreendas agora porque  que mando o postal para
a Sofia. Tenho a certeza de
que ela to dar.
PS. A me contou-me que
perdeste a carteira. Prometo
reembolsar-te das 150 coroas.
Recebers certamente um novo
carto de estudante na escola
antes que ela feche para o
Vero.

Um abrao do pai

Nada mau, pensou Hilde,
com isso tinha ficado com mais
cento e cinquenta coroas. Ele
achava com certeza que um presente de fabrico caseiro no
era suficiente.
Descobriu que o dia 15 de
Junho era tambm o dia de
aniversrio de Sofia. Mas o
calendrio de Sofia ainda estava na primeira metade de
Maio. Nessa altura, o pai de
Hilde devia ter acabado de
escrever esse captulo e dera
uma data posterior ao "postal
de aniversrio" para Hilde.
Entretanto, a pobre Sofia
corria para o supermercado,
onde Jorunn esperava por ela.

Quem era Hilde? Como 
que o pai dela achava evidente
que Sofia a encontraria? No
fazia sentido nenhum que ele
lhe enviasse os postais em vez
de os enviar directamente 
filha...

Tambm Hilde se sentira
suspensa no ar enquanto estava
a ler acerca de Plotino.

Em tudo o que vemos h algo
do mistrio divino. Vemos que
ele cintila num girassol ou
numa papoila. Temos uma ideia
mais clara desse mistrio impenetrvel numa borboleta que
levanta voo de um ramo - ou
num peixe dourado que nada no
seu aqurio. Mas estamos mais
prximos de Deus na nossa
prpria alma. S a podemos
unir-nos ao grande mistrio da
vida. Em momentos raros podemos sentir que ns mesmos somos esse mistrio 
divino.

At ento, isto era do mais
vertiginoso que ela tinha
lido. Mas era ao mesmo tempo
o mais fcil. Tudo  uno, e
este "uno"  um mistrio divino no qual todos participam.
No era nada que fosse difcil de acreditar.  assim,
pensava Hilde. E depois,
cada um pode acrescentar a palavra "divino", ou o que lhe
agradar.

266
Folheou rapidamente o dossier para chegar ao captulo
seguinte. Sofia e Jorunn
queriam ir acampar na noite de
17 de Maio. E depois foram
para a cabana do major...
Hilde ainda no lera muitas
pginas quando saltou da cama
agitada e deu alguns passos
pelo quarto com o dossier
nos braos.
Raramente vira um truque
to descarado como aquele! Na
pequena cabana do bosque o pai
fez com que ambas as raparigas
encontrassem cpias de todos
os postais que enviara a Hilde na primeira metade de
Maio. E as cpias eram autnticas. Hilde tinha lido
vrias vezes todos os postais
do pai. Reconheceu cada palavra:

Querida Hilde! Estou
quase a rebentar com todos os
segredos que tm a ver com o
teu aniversrio, e vrias vezes por dia tenho de me conter
para no telefonar e contar
tudo.  uma coisa que no
pra de crescer. E tu sabes
que quanto mais uma coisa
cresce mais difcil  guard-la para ns...

Sofia recebeu uma nova lio de Alberto. Tratava de
Judeus e Gregos e das duas
grandes culturas. Hilde ficou
contente com esta ampla panormica da histria. Na escola, nunca tinham 
aprendido
nada assim. Eram s pormenores e mais pormenores. Quando
acabou de ler a carta, o pai
transmitira-lhe uma perspectiva completamente nova de Jesus e do 
Cristianismo. Gostou da citao de Goethe:
"Quem no sabe prestar contas
de trs milnios, permanece
nas trevas ignorante, vive
apenas o dia que passa."
O captulo seguinte comeava com um bocado de carto que
ficara colado na janela da cozinha de Sofia. Era obviamente mais uma 
felicitao
para Hilde.

Querida Hilde! No sei
se ainda estars a festejar o
teu aniversrio quando leres
este postal. Por um lado, espero que sim, de qualquer modo
tenho esperana que ainda no
tenham passado muitos dias.
Que passem uma ou duas semanas para Sofia no significa
que suceda o mesmo connosco.
Eu regresso a casa na noite
de S. Joo. Nessa altura,
ficaremos sentados no baloio
e poderemos olhar juntos para
o mar, Hilde. Temos muito
para conversar...

Em seguida, Alberto telefona a Sofia e ela ouve a sua
voz pela primeira vez.

"Falas como se se tratasse
de uma espcie de guerra."
"Eu diria que  uma guerra
espiritual. Temos de tentar
chamar a ateno de Hilde e
traz-la para o nosso lado,
antes que o seu pai regresse a
Lillesand."

267
E depois, Sofia encontra-se com Alberto Knox disfarado de monge da Idade 
Mdia
numa antiga igreja de pedra do
sculo XII.
Numa igreja, sim. Hilde
olhou para o relgio. Um
quarto para a uma. Tinha-se
esquecido completamente do
tempo.
Talvez no fosse to grave
faltar  escola no seu dia de
anos, mas havia uma coisa que
a enervava nesse aniversrio.
Os colegas no festejariam
com ela. Bom, no fundo no
houvera falta de felicitaes.
Em seguida, Hilde teve de
ouvir um longo sermo.
Alberto no parecia ter grandes problemas em pisar o plpito. Ao ler 
sobre Sophia,
que se mostrara a Hildegard
em vises, teve de recorrer
novamente  enciclopdia. Mas
no encontrou nem Hildegard
nem Sophia. Era tpico.
Quando se tratava de mulheres
ou de alguma coisa relativa a
mulheres, a enciclopdia era
to omissa como uma cratera da
Lua. Haveria uma comisso de
homens a censurar as enciclopdias?
Hildegard von Bingen tinha
sido pregadora, escritora, mdica, botnica e cientista. E
alm disso era um "exemplo de
que na Idade Mdia as mulheres eram frequentemente mais
prticas - e mesmo mais cientficas - que os homens".
Mas na enciclopdia no havia
uma nica slaba sobre ela.
Que vergonha!
Hilde nunca ouvira dizer
que Deus tambm tinha "um
lado feminino", ou uma "natureza maternal". E esse lado
chamava-se Sophia - mas tambm no valia um grama de tinta para os 
autores da enciclopdia.
O mais prximo que encontrou foi a igreja Hagia
Sophia em Constantinopla.
"Hagia Sophia" queria dizer
"santa sabedoria". Uma capital e inmeras rainhas eram
conhecidas por esta "sabedoria", mas na enciclopdia no
vinha nada a dizer que tal sabedoria fosse feminina. Se
aquilo no era censura...
Hilde continuou a ler e
achou que Sofia lhe "aparecia" de facto. Achava poder
ver  sua frente a rapariga de
cabelos negros...
Quando Sofia chegou a
casa, depois de ter passado
quase toda a noite na igreja
de Santa Maria, ps-se em
frente do espelho de lato que
trouxera da cabana no bosque.

Em contornos ntidos, via o
seu rosto plido, que os cabelos negros emolduravam, cabelos que apenas 
serviam para
fazer o penteado "cabelos lisos" naturais. Mas por baixo
ou por detrs deste rosto aparecia o rosto de uma outra
pessoa.
De repente, a rapariga estranha do espelho piscou energicamente os olhos. 
Parecia
querer avisar que estava, de
facto, do outro lado do espelho. Poucos segundos depois,
desapareceu.

268
Quantas vezes Hilde j tinha estado em frente ao espelho como se 
procurasse a imagem de outra? Mas como  que
o pai podia saber isso? No
procurara com os olhos uma rapariga de cabelos negros? A
sua bisav tinha comprado o
espelho a uma cigana...
Hilde sentiu que as suas
mos tremiam ao segurar no volumoso dossier. Estava convencida de que 
Sofia existia
de facto algures "no outro lado".
Depois, Sofia sonhava com
Hilde e Bjerkely. Hilde no
a conseguia ver nem ouvir, mas
em seguida Sofia encontrou na
doca o crucifixo de ouro de
Hilde. E este crucifixo, com
as iniciais de Hilde - estava na cama de Sofia quando
ela acordou do sonho.
Hilde tinha que reflectir.
No podia ter perdido tambm
o seu crucifixo de ouro. Foi
 cmoda e tirou a sua caixa
de jias. O crucifixo de ouro
- que a av lhe dera de presente pelo seu baptizado -
tinha desaparecido!
Ento tinha mesmo perdido a
jia! Bom! Mas como  que o
pai podia saber se nem ela reparara nisso?
E mais: Sofia tinha sonhado que o pai de Hilde regressara do Lbano. Mas 
at l
faltava uma semana inteira.
Teria Sofia tido um sonho
proftico? Pensava o pai que,
quando chegasse a casa, Sofia
tambm estaria presente? Ele
tinha escrito uma coisa a respeito de ela encontrar uma
nova amiga...
Numa viso clara mas tambm
extremamente breve, Hilde teve a convico de que Sofia
era mais do que papel e tinta.
Ela existia!

269
O Iluminismo

... desde a produo de
agulhas at  fundio de canhes...

Hilde comeara com o captulo sobre o Renascimento,
mas ouviu ento a me entrar
em casa. Olhou para o relgio. Eram quatro horas.
A me subiu as escadas precipitadamente e abriu a porta
com violncia.
- No estiveste na igreja?
- Sim, claro.
- Mas... o que  que tinhas vestido?
- O mesmo que agora.
- A tua camisa de noite?
- Mmm... eu estive na
igreja de Santa Maria.
- Na igreja de Santa
Maria?
-  uma igreja medieval de
pedra.
- Hilde!
Hilde deixou cair o dossier nos joelhos e levantou
os olhos para a me.
- Eu esqueci-me totalmente
do tempo, mam. Desculpa, mas
v se compreendes, estou a ler
uma coisa empolgante.
A me no pde deixar de
sorrir.
- Isto  um livro mgico
- acrescentou Hilde.
- Est bem, pronto. E
mais uma vez: parabns, Hilde!
- No sei se consigo suportar mais felicitaes.
- Mas eu no... Olha, vou
s descansar um bocadinho e
depois fao um jantar ptimo.
Comprei morangos.
- E eu vou continuar a
ler.
A me desapareceu novamente, e Hilde continuou a ler.
Sofia passeava com Hermes
pela cidade. No vo da escada
de Alberto encontrou novamente um postal do Lbano. Tambm tinha o 
carimbo de 15 de
Junho.
S ento compreendeu o sistema de todas as datas: os
postais que eram datados de
antes de 15 de Junho eram
"cpias" de postais que

270
Hilde j recebera. Os que
eram datados de 15 de Junho
s os recebia pelo dossier.

Querida Hilde: Agora,
Sofia est a entrar na casa
do professor de filosofia. Em
breve far quinze anos, enquanto o teu aniversrio j
foi ontem. Ou ser hoje,
Hilde? Se for hoje, j deve
ser muito tarde. Mas os nossos relgios nem sempre andam
a par...

Hilde leu o que Alberto
contara a Sofia acerca do
Renascimento e da nova cincia, sobre os racionalistas do
sculo xvii e o empirismo britnico.
Sobressaltou-se vrias vezes quando chegavam novos postais e felicitaes 
que o pai
inclura na histria. Fizera-as cair de um livro, fizera-as surgir no 
interior da
casca de uma banana, e fizera
inclusivamente com que se introduzissem num computador.
Sem o mnimo esforo, conseguia levar Alberto a "ter
lapsos" e a chamar Hilde a
Sofia. Mas o cmulo de tudo
era ter posto Hermes a dizer:
"Parabns, Hilde!".
Hilde estava de acordo com
Alberto em que o pai estava a
ir um pouco longe demais ao
comparar-se com Deus e com a
providncia divina. Mas com
quem  que ela estava de acordo? O pai colocara estas palavras 
repreensivas - ou autocrticas - na boca de Alberto! Ela reconheceu que a
comparao com Deus talvez
no fosse to estpida. O pai
era para o mundo de Sofia uma
espcie de Deus omnipotente.
Quando Alberto ia falar de
Berkeley, Hilde estava to
empolgada como Sofia. O que
aconteceria a partir da? J
se previa h muito tempo que
algo de extraordinrio sucederia quando chegasse a vez deste filsofo, 
que negara a
existncia de um mundo material exterior  conscincia
humana, como Hilde j vira na
enciclopdia.
Comeava com Alberto e
Sofia  janela a verem o pai
de Hilde enviar um avio com
uma longa faixa com felicitaes. Simultaneamente, nuvens
escuras avanavam em direco
 cidade.
- "Ser ou no ser" no 
toda a questo. A questo 
tambm o que ns somos.
Somos realmente pessoas de
carne e osso? O nosso mundo 
constitudo por coisas reais
- ou estamos apenas rodeados
pela conscincia?
No admirava que Sofia comeasse a roer as unhas. Hilde nunca tivera esse 
hbito,
mas tambm ela estava muito
nervosa.

271
E veio o momento em que
Alberto disse que, para eles,
a vontade ou o esprito que
realizava tudo podia ser o pai
de Hilde.

- Achas que ele se tornou
uma espcie de deus para ns?
- Para ser sincero, sim.
Mas devia ter vergonha!
- E quanto a Hilde?
- Ela  um anjo, Sofia.
- Um anjo?
-  a ela que se dirige
este "esprito".

Depois disso, Sofia correra para a chuva. Mas nunca
podia ter sido o mesmo temporal que se abatera na noite
anterior sobre Bjerkely -
alguns segundos depois de
Sofia ter corrido pela cidade!

"Amanh fao anos", pensava
ela. E no era extremamente
duro ter de reconhecer, um dia
antes de fazer quinze anos,
que a vida  um sonho? Era
como sonhar ter ganho um milho e, pouco antes de o grande prmio ser 
pago, compreender que tudo fora apenas um
sonho.
Sofia correu pelo campo de
jogos molhado. Nessa altura
viu uma pessoa a correr na sua
direco. Era a me. Relmpagos potentes rasgavam o cu.
A me abraou Sofia.
- O que se passa connosco,
minha filha?
- No sei - Sofia chorava. -  como um pesadelo.

Hilde sentiu que os olhos
se lhe tinham humedecido. "To
be, or not to be - that is
the question".
Hilde atirou o dossier
para os ps da cama e levantou-se de um pulo. Andou de
um lado para o outro no quarto. Por fim, ps-se em frente
do espelho de lato e ficou
parada, at que a me a chamou
para comer. Quando ela bateu
 porta, Hilde no fazia
ideia de h quanto tempo j
estava ali. Mas tinha a certeza, toda a certeza, de que o
reflexo do espelho lhe piscara
ambos os olhos.

Durante a refeio, Hilde
procurou ser uma aniversariante grata. Mas estava sempre a
pensar em Sofia e Alberto.
O que seria deles agora,
que sabiam que o pai de Hilde
determinava tudo? Mas - sabiam-no realmente? Era provavelmente um absurdo 
acreditar
que soubessem o que quer que
fosse. Era o pai de Hilde
que fazia com que soubessem
alguma coisa. Porm, o problema era
:,

272
sempre o mesmo: quando Sofia
e Alberto conhecessem toda a
verdade, estariam de certo
modo no fim da viagem.
Hilde quase ficara engasgada com um grande bocado de batata na garganta 
quando se
apercebeu de que a mesma hiptese podia ser vlida para o
seu prprio mundo. Os homens
tinham sem dvida chegado cada
vez mais longe na compreenso
das leis da natureza. Mas poderia a histria continuar
quando a filosofia e a cincia
tivessem colocado as ltimas
peas do puzzle no local
respectivo? Ou a histria da
humanidade aproximar-se-ia do
fim? No haveria uma relao
entre o desenvolvimento do
pensamento e da cincia por um
lado, e realidades como o
efeito de estufa e as florestas tropicais desarborizadas
por outro? Talvez no fosse
estpido designar o desejo de
conhecimento do homem por
"pecado original".
A questo era to importante e to assustadora que Hilde tentou esquec-
la. Alm
disso, compreenderia mais se
continuasse a ler o presente
de aniversrio do seu pai.
- Minha querida, queres
mais? - disse a me, depois
de terem comido gelado com morangos italianos. - Agora
fazemos aquilo que te apetecer.
- Eu sei que parece estranho, mas o que eu gostaria de
fazer era continuar a ler o
presente do pap.
- No podes deixar que ele
te d volta ao juzo.
- No, no.
- Podemos descongelar uma
pizza e ver o "Derrick" na
televiso...
- Sim, pode ser.
Hilde lembrou-se de como
Sofia falara com a me. O
pai atribura certamente  outra me algo da sua. Por precauo, decidiu 
no dizer nada
sobre o coelho branco que 
retirado da cartola do universo, pelo menos no nesse
dia...
- Ah, a propsito - disse, ao levantar-se.
- Sim?
- No consigo encontrar o
meu crucifixo de ouro.
A me olhou para ela com
uma expresso enigmtica.
- Encontrei-o h semanas
l em baixo na doca. Deves
t-lo deixado l, minha tonta!
- Contaste isso ao pap?
- Deixa c ver. Sim, contei...
- E onde est agora?
- Espera.

273
A me levantou-se e, pouco
depois, Hilde ouviu um grito
de admirao vindo do quarto.
Depois, a me voltou  sala
de estar.
- De momento no o consigo
encontrar.
- J estava  espera disso.
Hilde deu um beijo  me e
correu novamente para a sua
mansarda. Finalmente - agora
podia continuar a ler sobre
Sofia e Alberto. Deitou-se
na cama e apoiou o pesado
dossier sobre os joelhos.

Sofia acordou de manh,
quando a me entrou no quarto,
trazendo nas mos um tabuleiro
cheio de presentes. Tinha
posto uma bandeira numa garrafa de limonada vazia.
- Parabns, Sofia!
Sofia esfregou os olhos.
Tentou lembrar-se do que
acontecera no dia anterior.
Mas tudo se assemelhava s
peas soltas de um puzzle.
Uma pea era Alberto, outra
Hilde e o major. Uma era
Berkeley, outra Bjerkely. E
a mais escura era o terrvel
temporal. Sofia quase ficara
em estado de choque. A me
enxugara-a e metera-a na cama
depois de lhe ter levado uma
caneca de leite quente com
mel. Sofia adormecera imediatamente.
- Acho que estou viva -
balbuciou ento.
- Claro que ests viva. E
hoje fazes quinze anos.
- Tens a certeza absoluta?
- Tenho a certeza absoluta, sim. Achas que uma me
no sabe quando nasceu a nica
filha? Foi no dia 15 de
Junho de 1975, s...  uma e
meia. Foi sem dvida o momento mais feliz da minha vida.
- Tens a certeza de que
tudo isto no  apenas um sonho?
- Seja como for, tem que
ser um bom sonho, se acordas
com po de passas, limonada e
presentes de aniversrio.
Ela pousou o tabuleiro com
os presentes numa cadeira e
saiu do quarto por pouco tempo. Quando voltou, trazia
mais um tabuleiro com po de
passas e limonada. Pousou-o
aos ps da cama de Sofia.
Seguiu-se uma manh normal
de aniversrio a abrir os presentes, enquanto a me lhe
falava das dores de parto h
quinze anos. Da me, Sofia
recebeu uma raquete de tnis.
Nunca tinha jogado tnis, mas
havia um campo a dois minutos
de Klverveien. O pai enviara-lhe um minitelevisor e um
rdio de ondas curtas. O ecr
no era maior do que uma fotografia normal. Havia ainda
presentes de velhas tias e
amigos da famlia.
Por fim, a me disse:
- Achas que hoje devo tirar folga?
- No, porqu?

274
- Ontem estavas bastante
transtornada. Se isto continua assim, acho que devemos
marcar uma consulta para um
psiclogo.
- Deixa estar.
- Foi apenas o temporal -
ou esse Alberto tambm tem
algo a ver com isto?
- E o que  que se passa
contigo? Tu perguntaste passa
connosco, minha filha?".
- Eu estava a pensar no
facto de andares pela cidade
para te encontrares com gente
estranha. Talvez seja culpa
minha...
- No  "culpa" de ningum
eu fazer um curso de filosofia
no meu tempo livre. Vai para
o escritrio. Tenho de estar
na escola s dez. Hoje entregam as notas, e depois ficamos
livres.
- J sabes que notas vais
ter?
- Em todo o caso, mais
cincos do que no ltimo semestre.
Pouco depois de a me se
ter ido embora, o telefone tocou.
- Sofia Amundsen.
- Daqui fala Alberto.
- Oh...
- Ontem o major no poupou
nas munies.
- No percebo o que queres
dizer.
- A trovoada, Sofia.
- No sei em que  que devo acreditar.
- Essa  a primeira virtude de uma verdadeira filsofa.
Estou orgulhoso por teres
aprendido tanto em to pouco
tempo.
- Tenho medo que nada disto seja real.
- Isso chama-se angstia
existencial, e em geral  apenas uma fase no caminho para
uma nova tomada de conscincia.
- Acho que preciso de uma
pausa no curso.
- H muitas rs no teu
jardim nesta altura?
Sofia sorriu. Alberto
prosseguiu:
- Eu acho que devemos continuar. A propsito, parabns! Temos de terminar 
o
curso at  noite de S.
Joo.  a nossa ltima esperana.
- A nossa ltima esperana
de qu?
- Ests bem sentada? Isto
vai levar o seu tempo, percebes? Ainda te lembras de
Descartes?
- Penso, logo existo.
- No que diz respeito 
nossa dvida metdica, estamos
de mos vazias. Nem sequer
sabemos se pensamos. Talvez
se venha a verificar que ns
somos pensamentos, e isso 
completamente diferente de ns
mesmos pensarmos. Pelo menos
temos todo o motivo para supor
que o
:,

275
pai de Hilde nos criou, que
representamos uma espcie de
entretenimento de aniversrio
para a Filha do major em
Lillesand. Ests a acompanhar-me?
- Sim...
- Mas tambm h uma contradio nisso. Se somos inventados, no temos o 
direito
de supor o que quer que seja.
Nesse caso, toda esta conversa ao telefone  pura iluso.
- E ns no temos nem um
bocadinho de livre arbtrio.
Nesse caso, o major planeia
tudo o que dizemos ou fazemos.
Assim, podamos at desligar.
- No, ests a simplificar
demasiado.
- Explica-te!
- Queres afirmar que as
pessoas planeiam tudo o que
sonham? Pode ser verdade que
o pai de Hilde saiba exactamente tudo o que fazemos.
Fugir  sua omniscincia 
to difcil como fugirmos da
nossa prpria sombra. Mas -
e eu comecei a elaborar um
plano - no  claro que o major tenha decidido previamente
tudo o que vai acontecer.
Talvez ele o decida s no ltimo momento - no instante da
criao, portanto. Precisamente nessa altura, pode-se
pensar que temos uma iniciativa prpria que determina o que
dizemos e fazemos. Essa iniciativa  muito fraca em comparao com o 
enorme poder que
o major exerce. Talvez estejamos indefesos em relao a
coisas exteriores importunas
como ces que falam, avies a
hlice, mensagens em bananas e
trovoadas por encomenda. Mas
no devemos excluir termos a
nossa prpria vontade, embora
fraca.
- Mas como  que isso seria possvel?
- O major sabe tudo do
nosso pequeno mundo, mas isso
no quer dizer que tambm seja
omnipotente. Pelo menos, temos de tentar viver como se
ele no o fosse.
- Acho que percebo onde
queres chegar.
- O truque seria conseguirmos fazer alguma coisa sozinhos, em segredo, 
uma coisa
que o major no conseguisse
descobrir.
- Mas como  que isso 
possvel, se no existimos?
- Quem diz que no existimos? A questo no  se existimos, mas o que 
ns somos e
quem somos. Mesmo que se
verificasse que somos apenas
impulsos na mente dividida do
major, isso no significa que
no tenhamos nenhuma conscincia.
- E tambm no nos retira
o nosso livre arbtrio?
- Estou a trabalhar no
caso, Sofia.
- Mas o pai de Hilde deve
ter plena conscincia de que
tu "ests a trabalhar no caso".
:,

276
- Sem dvida. Mas ele no
conhece o meu plano. Estou a
tentar encontrar um ponto de
Arquimedes.
- Um ponto de Arquimedes?
- Arquimedes era um cientista do perodo helenstico. Ele afirmou - 
"Dem-me
um ponto fixo e eu moverei a
terra". Temos de encontrar um
ponto como esse para sermos
lanados para fora do universo
interior do major.
- No ser fcil.
- Tens razo. E s podemos escapar-nos quando tivermos terminado o curso 
de filosofia. At l, ele controla-nos.  obvio que decidiu
que eu te devo orientar atravs dos sculos at  nossa
poca. Mas s faltam poucos
dias, depois ele senta-se num
avio algures no Mdio
Oriente. Se no nos tivermos
libertado da sua pegajosa fantasia antes de ele chegar a
Bjerkely estamos perdidos.
- Ests a assustar-me...
- Em primeiro lugar, tenho
de te contar o indispensvel
acerca do Iluminismo francs.
Depois, temos de tratar a filosofia de Kant em traos
gerais, antes de podermos falar do Romantismo. E, para
ns, Hegel  uma ajuda importante. Ao tratarmos dele,
no podemos ignorar a crtica
indignada de Kierkegaard 
filosofia hegeliana. Temos de
falar um pouco sobre Marx,
Darwin e Freud. Se conseguirmos ainda algumas observaes finais sobre 
Sartre e
o Existencialismo, podemos
pr o nosso plano em prtica.
-  muita coisa para uma
semana.
- Por isso temos de comear imediatamente. Podes vir
at c agora?
- Tenho de ir  escola.
Temos uma pequena festa de
turma, e depois recebemos os
diplomas.
- Esquece a festa! Se somos mera imaginao, ento 
pura iluso que limonada e doces saibam bem.
- Mas o diploma...
- Sofia, ou vives num universo extraordinrio de um pequeno planeta numa 
de centenas
de milhes de galxias - ou
s apenas um punhado de impulsos electromagnticos na conscincia de um 
major. E perante esta situao falas-me de
um diploma! Devias ter vergonha!
- Desculpa.
- Mas podes passar pela
escola antes de vires ter comigo. Poderia exercer uma m
influncia em Hilde tu faltares ao ltimo dia de aulas.
Ela vai certamente  escola
mesmo no dia de anos, porque 
um anjo.
- Ento eu vou logo a seguir  escola.
- Podemos encontrar-nos na
cabana do major.
- Na cabana do major?
- ... clic!

277

???

Hilde deixou o dossier
cair nos joelhos. O pai tinha
feito com que ela se sentisse
de facto um pouco arrependida
por ter faltado ao ltimo dia
de aulas. Que maroto!
Ficou algum tempo sentada,
tentando imaginar que plano
Alberto iria tramar. Deveria
ver a ltima pgina do dossier? No, isso era batota;
devia antes despachar-se a
ler.
Ela estava convencida de
que Alberto tinha razo num
ponto fundamental. Uma coisa
era o seu pai ter uma ideia
geral do que sucedia a Sofia
e a Alberto, mas, enquanto
escrevia, no sabia certamente
tudo o que ia suceder. Talvez
escrevesse a grande velocidade
alguma coisa por descuido, que
s descobrisse muito mais tarde. E era justamente neste
"descuido" que Sofia e Alberto tinham uma certa liberdade.
Mais uma vez, Hilde tinha
quase a ntida sensao de que
Sofia e Alberto existiam
realmente. Mesmo quando o mar
est calmo, isso no significa
que nas profundezas no suceda
alguma coisa, pensou.
Mas porque  que pensava
assim?
Em todo o caso, no era um
pensamento claro.

Na escola, Sofia recebeu
felicitaes e foram-lhe cantados os parabns, como  habitual quando se 
trata de uma
aniversariante. Talvez recebesse muita ateno porque,
diante dos diplomas e da limonada, todos estavam agitados.
Depois de o professor se
ter despedido dela com votos
de um bom Vero, Sofia correu para casa. Jorunn procurou ret-la, mas 
Sofia gritou-lhe que tinha de tratar de
uma coisa sem falta.
Na caixa do correio encontrou dois postais do Lbano.
Em ambos estava escrito:
"Happy Birthday - 15
Years". Eram postais de aniversrio comprados.
Um dos postais vinha dirigido a "Hilde Mller Knag,
a/c Sofia Amundsen...". O
outro, pelo contrrio, era
mesmo para Sofia. Ambos os
postais tinham o carimbo:
"Contingente da Onu, 15 de
Junho".
Sofia leu primeiro o seu
prprio postal:

Cara Sofia Amundsen!
Hoje tambm quero felicitar-te pelo teu aniversrio.
Muitos parabns, Sofia!
Muito obrigado por tudo o que
fizeste at agora por Hilde.

Cumprimentos,

Albert Knag, major

278



Sofia no sabia bem como
havia de reagir ao facto de o
pai de Hilde lhe ter finalmente enviado um postal. De
certo modo, achou isso comovente.
No postal de Hilde estava
escrito:

Querida Hilde! No sei
nem que dia  nem que horas
so agora em Lillesand. Mas,
como disse, isso no  muito
importante. Se bem te conheo, no estou muito atrasado
para uma ltima ou pelo menos
penltima felicitao. Mas
tambm no podes levantar-te
muito tarde! O Alberto vai
falar-te dentro em pouco do
pensamento do Iluminismo
francs, concentrando-se em
sete pontos. Esses pontos
so:
1. Revolta contra as autoridades
2. Racionalismo
3. Pensamento do iluminismo
4. Optimismo cultural
5. Regresso  natureza
6. Cristianismo humanista
7. Direitos humanos

Era evidente que o major os
tinha debaixo de olho.
Sofia abriu a porta de casa
e ps o diploma com muitos
cincos na mesa da cozinha. Em
seguida, enfiou-se pela sebe e
correu para o bosque.
Novamente, teve de remar no
pequeno lago. Alberto estava
sentado na soleira da porta
quando ela chegou e fez-lhe
sinal para ela se sentar ao
seu lado.
Estava bom tempo, mas do
pequeno lago subia uma corrente de ar fresco e cortante em
direco a eles. O lago parecia no ter recuperado ainda
do temporal.
- Vamos directamente ao
assunto - comeou Alberto.
- Aps Hume, o alemo Kant
foi o grande sistemtico seguinte. Mas tambm a Frana
teve no sculo XVIII muitos
pensadores importantes. Podemos dizer que, na primeira metade do sculo 
XVIII, o centro filosfico da Europa estava em Inglaterra, a meio do
sculo na Frana, e cerca do
final do sculo na Alemanha.
- Uma deslocao de oeste
para leste.
- Exacto. Vou apresentar
resumidamente algumas ideias
que eram comuns a muitos filsofos franceses do Iluminismo, nomes 
importantes como
Montesquieu, Voltaire,
Rousseau e muitos, muitos
outros. Concentrei-me em sete
pontos principais.

279
- Obrigada. Infelizmente,
j sei.
Sofia deu-lhe o postal do
pai de Hilde. Alberto suspirou profundamente.
- No era preciso isto...
Um primeiro mote  portanto a
revolta contra as autoridades.
Vrios filsofos franceses do
Iluminismo tinham visitado
Inglaterra, que em alguns aspectos era mais liberal do que
a sua ptria. A cincia da
natureza inglesa fascinava-os,
sobretudo Newton e a sua fsica universal. Mas os filsofos ingleses 
tambm os inspiravam, sobretudo Locke e a
sua filosofia poltica. De
volta a Frana, comearam a
opor-se a pouco e pouco s velhas autoridades. Achavam importante mostrar 
cepticismo em
relao a todas as verdades
herdadas, e pensavam que o indivduo tinha de encontrar por
si mesmo a resposta para todas
as perguntas. Neste ponto, a
influncia de Descartes era
evidente.
- Porque ele construiu
tudo a partir da base.
- Exacto. A insurreio
contra as velhas autoridades
dirigia-se tambm contra o poder da Igreja, do rei e da
nobreza. Estas instituies
eram, no sculo XVIII, muito
mais poderosas em Frana do
que em Inglaterra.
- E depois veio a Revoluo.
- Em 1789, sim. Mas as
novas ideias vieram mais cedo.
A prxima palavra chave  o
racionalismo.
- Eu julgava que o racionalismo tivesse desaparecido
com Hume.
- Hume s morreu em 1776,
cerca de vinte anos depois da
morte de Montesquieu e apenas
dois anos antes da morte de
Voltaire e Rousseau, em
1778. Talvez te lembres que
Locke no era um empirista
radical. Ele achava, por
exemplo, que a f em Deus e
certas normas morais eram elementos constituintes da razo
humana. Esse  tambm o cerne
da filosofia iluminista francesa.
- Tambm disseste que os
franceses foram sempre um pouco mais racionalistas do que
os britnicos.
- Essa diferena remonta 
Idade Mdia. Quando os ingleses falam de "common sense", os franceses 
falam de
"vidence". A expresso inglesa pode ser traduzida por
"senso comum", a francesa por
"evidncia".
- Compreendo.
- Tal como os humanistas
da Antiguidade - como Scrates e os esticos - a
maior parte dos iluministas
tinham uma f inabalvel na
razo humana. Essa caracterstica era to marcada que
muitos tambm designam a poca
do Iluminismo francs simplesmente por "racionalismo".
A nova cincia da natureza
tinha mostrado que a natureza
estava organizada racionalmente. Para os filsofos do
Iluminismo, a sua tarefa

280
era criar um fundamento para a
moral, a tica e a religio
que estivesse de acordo com a
razo imutvel do homem. E
isso conduziu ao verdadeiro
pensamento do Iluminismo.
- O nosso terceiro ponto
- Em primeiro lugar, dizia-se, amplos estratos do
povo tinham de ser "iluminados". Isso era a condio absoluta para uma 
sociedade melhor. Mas o povo era dominado
pela ignorncia e pela superstio. Foi, portanto, dada
muita ateno  educao. No
 por acaso que a pedagogia
como cincia tenha sido fundada na poca do Iluminismo.
- Ento a noo de escola
provm da Idade Mdia, e a
pedagogia do Iluminismo.
- Podes dizer isso. O
grande monumento do Iluminismo  uma enciclopdia. Estou
a pensar na Enciclopdia,
que foi publicada entre 1751
e 1772, em vinte e oito volumes, com contributos de todos
os grandes filsofos iluministas. "Aqui h de tudo", dizia-se, "desde a 
produo de
agulhas at  fundio de canhes".
- O ponto seguinte  o optimismo cultural.
- Podes pr de lado esse
postal enquanto eu falo, por
favor?
- Desculpa.
- S quando razo e saber
fossem difundidos, segundo os
iluministas,  que a humanidade faria grandes progressos.
Era apenas uma questo de
tempo, e o irracionalismo e a
ignorncia desapareceriam, e
haveria uma humanidade esclarecida. Esta ideia era dominante na Europa 
Ocidental
at h algumas dcadas. Hoje
j no estamos to convencidos
de que mais saber leve a condies de vida melhores.
Alis, esta crtica da "civilizao" j tinha sido apresentada pelos 
filsofos franceses do Iluminismo.
- Nesse caso, talvez devssemos t-los ouvido.
- "Regresso  natureza!"
era o lema da crtica da civilizao. Mas, por natureza,
os filsofos do Iluminismo
entendiam quase o mesmo que
por razo. Porque a razo 
dada ao homem pela natureza -
ao contrrio da Igreja ou da
civilizao. Dizia-se que os
"povos primitivos" viviam de
uma forma mais saudvel e feliz do que os europeus, justamente porque no 
tinham civilizao. O estribilho "regresso  natureza!" provm de
Jean-Jacques Rousseau. Ele
explicou que a natureza era
boa e por isso o homem tambm
era bom "por natureza". Todo
o mal residia na sociedade civilizada que afastava o homem
da sua natureza. Por isso,
Rousseau queria tambm deixar
viver as crianas no seu estado "natural" de inocncia tanto tempo quanto 
possvel. Podemos dizer que a ideia de um
valor prprio da infncia provm do tempo do Iluminismo.
Antes disso, a infncia era
vista sobretudo como preparao para a vida

281
de adulto. Mas ns somos seres humanos e j estamos a viver quando somos 
crianas.
-  o que eu acho.
- E, finalmente, para os
Iluministas era importante
uma religio "natural".
- O que queriam dizer com
isso?
- A religio tambm tinha
de ser posta em harmonia com a
"razo natural" dos homens.
Muitos lutavam por aquilo a
que podemos chamar um cristianismo humanista, e este 
o sexto ponto da lista. Naturalmente, havia tambm materialistas 
coerentes que no
acreditavam em Deus e se reconheciam como ateus. Mas a
maior parte dos filsofos iluministas achavam irracional
pensar num mundo sem Deus.
Consideravam que o mundo tinha uma ordem demasiado racional. Tambm 
Newton, por
exemplo, defendera o mesmo
ponto de vista. Da mesma forma, a crena na imortalidade
da alma era para eles racional. Tal como para Descartes, para os 
iluministas, a
questo da imortalidade da
alma humana era mais uma questo de razo do que uma questo de f.
-  justamente isso que me
admira um pouco. Para mim,
isso  um exemplo tpico daquilo em que se pode acreditar, mas no saber.
- Tu no vives no sculo
XVIII. Os iluministas queriam libertar o cristianismo
dos dogmas irracionais que, no
decorrer da histria da Igreja, tinham sido enxertados na
mensagem simples de Jesus.
- Ento entendo-os.
- Muitos professavam o
chamado desmo.
- Explica-te!
- Por "desmo" entendemos
uma concepo segundo a qual
Deus criou o mundo h muito
tempo, mas no se revela ao
mundo desde ento. Deste
modo, Deus  o Ser supremo
que se d a conhecer aos homens apenas por meio da natureza e das suas 
leis - mas
que no se revela de modo sobrenatural. Este "Deus filosfico" j nos 
aparecia em
Aristteles. Para ele, Deus
era a primeira causa ou o primeiro motor do universo.
- Agora, j s nos resta
um ponto, os direitos humanos.
- Mas, em compensao, esse  talvez o mais importante.
Podes dizer de um modo geral
que a filosofia iluminista
francesa tinha uma orientao
mais prtica do que a inglesa.
- Tiraram as consequncias
da sua filosofia e agiram de
forma coerente com ela?
- Sim, os filsofos franceses do Iluminismo no se
contentaram com concepes tericas sobre o lugar do homem
na sociedade. Lutavam activamente por aquilo a que chamavam os "direitos 
naturais" dos

282
cidados. Tratava-se sobretudo da luta contra a censura -
ou seja, pela liberdade de imprensa. Em relao  religio, moral e 
poltica tinha
de se assegurar ao indivduo o
direito de pensar livremente e
de exprimir livremente as suas
ideias. Alm disso, lutou-se
contra a escravatura, e por um
tratamento mais humano dos
criminosos.
- Acho que estou de acordo
com quase tudo.
- O princpio da "inviolabilidade do indivduo" culminou finalmente na 
"Declarao
dos Direitos do Homem e do
Cidado", que foi adoptada em
1789 pela Assembleia Nacional Francesa. Esta Declarao dos Direitos 
Humanos foi
uma base importante para a
nossa Constituio Norueguesa de 1814.
- Mas ainda h muitos homens que tm de lutar por esses direitos.
- Sim, infelizmente. Mas
os filsofos iluministas queriam estabelecer determinadas
leis a que todos os homens tinham direito simplesmente por
serem homens. Era o que entendiam por direitos "naturais". Falamos ainda 
hoje de
"direito natural", que pode
estar em contradio com as
leis oficiais de qualquer
pas. Ainda vemos indivduos
- ou populaes inteiras -
que reivindicam a escravatura
e a opresso para estes "direitos naturais", quando se
defendem contra a anarquia.
- E o que  que se passava
com os direitos das mulheres?
- A Revoluo de 1789
estabeleceu uma srie de direitos que deviam valer para
todos os cidados. Mas, no
fundo, s os homens eram considerados cidados. Porm,
justamente durante a Revoluo Francesa, vemos os primeiros exemplos de 
um movimento feminista.
- E no era sem tempo.
- J em 1787, o filsofo
iluminista Condorcet publicou
um tratado sobre os direitos
da mulher. Nele concedia s
mulheres os mesmo direitos naturais que aos homens. Durante a Revoluo 
de 1789, as
mulheres participaram activamente na luta contra a aristocracia. Por 
exemplo, foram as
mulheres que dirigiram as manifestaes que obrigaram o
rei a abandonar o seu palcio
em Versalhes. Em Paris,
formaram-se diversos grupos de
mulheres. Alm dos mesmos direitos polticos que os homens, as mulheres 
exigiam tambm novas leis do matrimnio e
outras condies de vida.
- Obtiveram esses direitos?
- No. Como veio a suceder tantas vezes mais tarde, a
questo dos direitos das mulheres foi levantada com uma
revoluo. Mas logo que tudo
voltou a acalmar com um novo
regime, o velho domnio dos
homens foi restabelecido.
-  tpico.

283
- Uma das mulheres que
mais lutou pelos direitos das
mulheres durante a Revoluo
Francesa foi Olympe de Gouges. Em 1791 - ou seja,
dois anos aps a Revoluo -
publicou uma declarao dos
direitos das mulheres. A declarao dos direitos dos cidados no 
dedicara propriamente muitos pargrafos aos
direitos naturais das mulheres. Olympe de Gouges exigia
para as mulheres exactamente
os mesmo direitos que para os
homens.
- E qual foi o resultado?
- Foi decapitada. As mulheres foram proibidas de ter
qualquer actividade poltica.
- Que horror!
- S no sculo XIX  que
o feminismo comeou verdadeiramente - na Frana e por
toda a Europa. E, muito lentamente, essa luta comeou
tambm a produzir frutos. Mas
na Noruega, por exemplo, as
mulheres s obtiveram o direito de voto em 1913. E em
muitos pases, as mulheres lutam ainda pela igualdade de
direitos.
- Podem contar com o meu
apoio.
Alberto olhou para o pequeno lago. Passado um pouco,
disse:
- Acho que era tudo o que
eu tinha a dizer sobre a filosofia do Iluminismo.
- O que queres dizer com
"acho"?
- No me parece que haja
mais alguma coisa.
Enquanto ele dizia isto,
algo sucedeu subitamente no
meio do lago. A gua borbulhava vinda do fundo. E, em
seguida, uma criatura enorme e
monstruosa ergueu-se acima da
superfcie da gua.
- Uma serpente marinha! -
exclamou Sofia.
O escuro monstro contorceu-se vrias vezes para a
frente e para trs, depois
mergulhou de novo. E o lago
ficou to calmo como anteriormente.
Alberto desviara a vista.
- Vamos entrar - disse.
Levantaram-se e entraram na
cabana.
Sofia parou em frente s
imagens de Berkeley e Bjerkely. Apontou para o quadro
de Bjerkely e afirmou:
- Acho que Hilde mora algures nesta imagem.
Entre as imagens estava
agora pendurado um bordado
onde se lia: Liberdade,
Igualdade, Fraternidade.
Sofia voltou-se para Alberto.
- Foste tu que penduraste
isto aqui?
Ele abanou a cabea com uma
expresso triste.

284
Sofia encontrou ento um
envelope na consola da lareira. "Para Hilde e Sofia",
estava escrito. Sofia compreendeu imediatamente quem era o
remetente. Abriu o envelope e
leu alto:

Minhas queridas Hilde e
Sofia! O professor de filosofia da Sofia devia ter ainda sublinhado como 
a filosofia
francesa do Iluminismo foi
importante para os ideais e
princpios sobre os quais assenta a ONU. H duzentos
anos, o slogan "Liberdade,
Igualdade, Fraternidade"
ajudou a unir a nao francesa. Hoje, estas palavras tm
de unir todo o mundo. A humanidade  hoje uma grande famlia como nunca 
foi antes. Os
nossos descendentes so os
nossos filhos e netos. Que
tipo de mundo herdam de ns?

A me de Hilde chamou-a,
porque "Derrick" comeava
dentro de dez minutos e ela
pusera a pizza no forno.
Hilde sentia-se esgotada por
ter lido tanto. J estava a
p desde as seis horas.
Decidiu passar o resto da
tarde a festejar o aniversrio
com a me. Mas, antes de tudo, tinha de consultar a enciclopdia.
Gouges... no. De Gouges?
Tambm no. Talvez Olympe
de Gouges? No havia nada!
A enciclopdia no escrevera
uma nica palavra sobre a mulher que fora decapitada devido  actividade 
poltica a favor das mulheres. No era escandaloso?
Seria apenas uma inveno
do pai de Hilde?
Hilde correu para o piso
trreo para consultar a enciclopdia maior.
- Tenho de ver uma coisa
rapidamente - explicou  me,
que a olhava estupefacta.
Retirou o volume de Forv a
Gp e correu de novo para o
quarto com ele.
Gouges... l estava!

Gouges, Marie Olympe
(1748-93), escritora francesa, teve um papel importante
durante a Revoluo francesa,
atravs de numerosos opsculos
sobre questes sociais e uma
srie de peas de teatro. Defendeu a opinio de que os direitos humanos 
tambm deviam
ser vlidos para as mulheres e
publicou em 1791 "A Declarao dos Direitos das Mulheres". Decapitada em 
1793
por ter ousado defender Lus
XVI e criticado Robespierre. (Lit: L. Lacour: "Les
Origines du fminisme contemporain", 1900).

285

Kant
... o cu estrelado acima de
mim e a lei moral dentro de
mim...

O major Albert Knag s
telefonou para casa por volta
da meia noite, para dar os parabns a Hilde.
A me de Hilde atendeu o
telefone.
- Para ti, Hilde.
- Est?
- Aqui  o pai.
- Diz - J  quase meia-noite!
- Eu s te queria dar os
parabns...
- Tens feito isso todo o
dia.
... mas eu queria telefonar
s quando o dia j tivesse
passado.
- Porqu?
- No recebeste o presente?
- Ah, isso! Sim, muito
obrigada!
- No me aflijas. O que
dizes?
-  fantstico. No comi
nada quase todo o dia.
- Tens de comer.
- Mas  to excitante.
- At onde j chegaste?
- Eles foram para dentro
de casa porque tu brincavas
com uma serpente marinha...
- O Iluminismo.
- E Olympe de Gouges.
- Ento no me enganei.
- O que queres dizer com
isso?
- Acho que s falta uma
felicitao. Mas essa tem msica, em compensao.
- Eu vou continuar a ler
at adormecer.
- Ento ests a compreender?

286
- Hoje aprendi mais coisas
do que... em toda a minha
vida.  inacreditvel que no
tenha passado um nico dia
desde que Sofia chegou a casa
e encontrou a primeira carta.
-  estranho o pouco tempo
que  necessrio...
- Mas eu tenho alguma pena
dela.
- De quem?
- Da Sofia, obviamente.
- Ah...
- Ela est completamente
confusa, a pobrezinha.
- Mas ela  apenas... quero dizer...
- Queres dizer que foste
tu que a criaste.
- Sim, mais ou menos isso.
- Eu acho que a Sofia e o
Alberto existem.
- Falaremos sobre isso
quando eu voltar para casa.
- Sim.
- E desejo-te uma boa noite.
- O que disseste?
- Boa noite!
- Boa noite!
Quando Hilde foi para a
cama, meia hora mais tarde, l
fora havia ainda tanta claridade que podia ver o jardim e
a enseada. Nessa estao do
ano, no escurecia.
Divertia-a a ideia do que
seria viver num quadro pendurado na parede de uma pequena
cabana no bosque. Poderia
sair da imagem e observar o
que havia c fora?
Antes de adormecer, leu
mais algumas pginas do grande
dossier.

Sofia voltou a pr a carta
do pai de Hilde na consola da
lareira.
- O que ele diz sobre a
ONU pode ser importante -
afirmou Alberto - mas no
gosto que ele interfira na minha exposio.
- Acho que no devias preocupar-te tanto com isso.
- A partir de agora, no
vou dar ateno a qualquer fenmeno extraordinrio como
serpentes marinhas e coisas
semelhantes. Vamo-nos sentar
 janela, e eu falo-te sobre
Kant.
Sofia reparou num par de
culos que estava numa pequena
mesa entre duas poltronas.
Tambm reparou que as lentes
eram vermelhas. Seriam culos
de sol fortes?
- So quase duas - disse
ela. - Tenho de estar em
casa o mais tardar s cinco.
A minha me tem provavelmente
planos para o meu dia de anos.

287
- Ento temos trs horas.
- Comea.
- Immanuel Kant nasceu em
1724 em Knigsberg, uma cidade da Prssia Oriental, e
era filho de um seleiro.
Passou a quase toda a sua
vida at morrer com a idade de
oitenta anos. Vinha de uma
famlia extremamente crist.
A sua f crist foi uma base
importante para a sua filosofia. Tal como Berkeley, tambm ele queria 
salvar as bases
da f crist.
- Eu sei o bastante sobre
Berkeley, obrigada.
- Kant foi tambm o primeiro dos filsofos que tratmos que leccionava 
filosofia
numa universidade. Era professor de filosofia.
- Professor?
- A palavra "filsofo" 
usada hoje em dois sentidos
diferentes. Por filsofo, entendemos primeiro que tudo uma
pessoa que procura encontrar
as suas prprias respostas
para as questes filosficas.
Mas um filsofo pode tambm
ser um conhecedor da histria
da filosofia, sem desenvolver
necessariamente uma filosofia
prpria.
- E Kant era um conhecedor?
- Era ambas as coisas. Se
ele tivesse sido apenas um
professor brilhante - ou
seja, um conhecedor das ideias
dos outros - nunca teria tido
um lugar to importante na
histria da filosofia. Mas
tambm  importante o facto de
Kant ter conhecido realmente
a tradio filosfica como nenhum outro. Ele estava to
familiarizado com racionalistas como Descartes e Espinosa como com 
empiristas como
Locke, Berkeley e Hume.
- J te disse que parasses
de falar de Berkeley.
- Sabemos que os racionalistas consideravam que o fundamento de todo o 
conhecimento
humano residia na razo. E
sabemos ainda que os empiristas achavam que todo o conhecimento sobre o 
mundo provinha
da experincia sensvel. Hume
tinha apontado para o facto de
existirem claros limites no
que diz respeito s concluses
a que podemos chegar com a
ajuda das nossas impresses
sensveis.
- E com quem  que Kant
estava de acordo?
- Ele achava que todos tinham de certa forma razo, mas
tambm que todos estavam parcialmente errados. A questo
que os preocupava era aquilo
que podemos saber sobre o mundo. Esse foi o projecto filosfico comum a 
todos os filsofos depois de Descartes.
Estavam em debate duas possibilidades: o mundo  exactamente como o 
percepcionamos -
ou como a nossa razo o representa?
- E o que achava Kant?
- Kant achava que tanto as
sensaes como a razo tinham
um papel importante no nosso
conhecimento do mundo. Ele
defendia que os racionalistas

288
davam demasiada importncia 
razo e que os empiristas defendiam de forma parcial a experincia 
sensvel.
- Se no me deres imediatamente um bom exemplo, fica
tudo no ar.
- Kant est de acordo com
Hume e com os empiristas ao
defender que devemos todos os
nossos conhecimentos s sensaes. Mas - e nisto concorda
com os racionalistas - na
nossa razo tambm h condies importantes para o modo
como compreendemos o mundo 
nossa volta. Por conseguinte,
h certas condies em ns
mesmos que contribuem para a
nossa concepo do mundo.
- E isso  que  um exemplo?
- Vamos antes fazer uma
pequena experincia. Podes
trazer os culos daquela mesa?
Isso. Agora, pe-os.
Sofia ps os culos. Tudo
o que estava  sua volta se
tornou vermelho. As cores
claras ficaram vermelho claro,
as escuras vermelho escuro.
- O que  que vs?
- Vejo exactamente o mesmo
que antes, mas agora  tudo
vermelho.
- Isso deve-se ao facto de
as lentes determinarem o modo
como vs a realidade. Tudo o
que vs  uma parte de um mundo exterior a ti mesma; mas o
modo como a vs est relacionado com as lentes. No podes
dizer que o mundo  vermelho,
mesmo que te parea vermelho.
- No, claro que no...
- Se tu andasses agora
pelo bosque - ou se estivesses em casa na Curva do
Capito -, verias tudo aquilo que sempre viste. Mas tudo
o que visses seria vermelho.
- Desde que eu no tirasse
os culos, sim.
- Os culos so a condio
do modo como vs o mundo. E
do mesmo modo, segundo Kant,
tambm existem condies na
nossa razo que influenciam
todas as nossas experincias.
- De que condies  que
estamos a falar?
- Tudo o que vemos,  visto primeiro como fenmeno no
tempo e no espao. Segundo
Kant, o tempo e o espao eram
as duas "formas da intuio"
do homem. E ele sublinha que
estas duas formas na nossa
conscincia so anteriores a
qualquer experincia. Isso
significa que podemos saber,
antes de percepcionarmos alguma coisa, que a vamos ver como
fenmeno no tempo e no espao.
No conseguimos, por assim
dizer, tirar os culos da razo.
- Ento ele considerava
que compreender as coisas no
tempo e no espao era uma propriedade inata em ns.
- De certo modo, sim. O
que vemos depende ainda de
termos crescido na ndia ou
na Gronelndia. Mas em toda
a parte a nossa experincia do

289
mundo  de uma coisa no tempo
e no espao, e sabemo-lo antecipadamente.
- Mas o tempo e o espao
no existem fora de ns?
- No. Kant explica que o
tempo e o espao pertencem 
prpria condio humana. Tempo e espao so sobretudo
propriedades da nossa conscincia e no propriedades do
mundo.
- Isso  um modo de ver
completamente diferente.
- A conscincia do homem
no , portanto, uma "cera"
passiva que apenas regista as
sensaes exteriores.  uma
instncia que se exerce criativamente. A prpria conscincia contribui 
para determinar a nossa concepo do
mundo. Podes comparar com o
que se passa quando deitas
gua num jarro de vidro. A
gua toma a forma do jarro.
Do mesmo modo, as nossas sensaes ajustam-se s nossas
"formas da intuio".
- Acho que percebo o que
queres dizer.
- Kant afirma que no 
apenas a conscincia que se
adapta s coisas. As coisas
tambm se adaptam  conscincia. O prprio Kant chamava
a isto a "revoluo copernicana" na questo do conhecimento
humano. Com isso, queria dizer que esta ideia  to nova
e diferente em relao  tradio como a afirmao de Coprnico de que a 
terra gira 
volta do sol e no o inverso.
- Agora entendo o que ele
queria dizer ao afirmar que
tanto os racionalistas como os
empiristas tinham uma parte da
razo. Os racionalistas tinham esquecido a importncia
da experincia, e os empiristas no queriam admitir que a
nossa razo influencia a nossa
concepo do mundo.
- Tambm a lei da causalidade - que, segundo Hume, os
homens no podiam percepcionar
-  para Kant um elemento da
razo humana.
- Explica-me isso!
- Ainda te lembras que
Hume afirmou que apenas vemos
um nexo causal necessrio por
detrs de todos os fenmenos
da natureza devido ao hbito.
Hume achava que no podemos
ver que a bola de bilhar preta
 causa do movimento da bola
branca. Por isso, tambm no
podemos provar que a bola preta provoque sempre o movimento
da bola branca.
- Ainda me lembro disso.
- Mas justamente aquilo
que segundo Hume no podemos
provar  visto por Kant como
uma propriedade da razo humana. A lei da causalidade 
sempre e absolutamente vlida
pelo facto de a razo humana
ver tudo o que acontece como
relao entre causa e efeito.

290
- De novo, eu diria que a
lei da causalidade est na natureza e no no homem.
- Kant diz que est em
ns. Ele est de acordo com
Hume em no podermos saber
com segurana o que o mundo 
"em si". Apenas podemos saber
como o mundo  "para mim" -
logo, para todos os homens. A
distino que Kant faz entre
as "coisas em si" e as "coisas
para ns"  o seu contributo
mais importante para a filosofia. Nunca podemos saber com
segurana como as coisas so
"em si". Em compensao, podemos, sem qualquer experincia, dizer como as 
coisas so
compreendidas pela razo humana.
- E  mesmo assim?
- Antes de sares de casa
de manh, no podes saber o
que vais ver nesse dia. Mas
podes saber que apreenders
como fenmenos no tempo e no
espao tudo aquilo que vires.
Alm disso, podes ter a certeza de que a lei da causalidade  vlida 
porque faz parte
da tua conscincia.
- Mas tambm podamos ter
outra estrutura?
- Sim, podamos ter uma
outra estrutura sensvel. E,
nesse caso, podamos ter tambm uma outra percepo do
tempo e do espao, ou ser
constitudos de tal modo que
no procurssemos as causas
dos fenmenos.
- Podes dar um exemplo?
- Imagina um gato que est
deitado no cho da sala.
Imagina que uma bola rola
para dentro do quarto. O que
faz o gato nessa altura?
- Eu j experimentei isso
vrias vezes. O gato vai a
correr atrs da bola.
- Sim. E agora imagina
que tu ests na sala em vez do
gato. Se vs de repente uma
bola que vem a rolar, tambm
corres imediatamente atrs
dela?
- Em primeiro lugar, volto-me para ver de onde vem a
bola.
- Sim, por seres um ser
humano, procurars forosamente a causa de cada acontecimento. A lei da 
causalidade
faz parte do que te constitui.
- E  de facto assim?
- Hume diria que no podemos sentir nem provar as leis
da natureza, mas Kant no se
conformava com isso. Acreditava poder provar a validade
absoluta das leis da natureza
ao mostrar que na realidade
estamos a falar de leis do conhecimento humano.
- Uma criana pequena tambm voltaria a cabea para saber quem tinha 
tocado na bola?
- Talvez no. Mas Kant
afirma que a razo no est
completamente desenvolvida
numa criana porque ainda no
pde trabalhar com material

291
sensvel. Por um lado, temos
as condies exteriores, das
quais nada podemos saber antes
de as termos percepcionado.
Podemos dizer que so a matria do conhecimento. Por outro lado, temos as 
condies
interiores no prprio homem -
por exemplo, vermos tudo como
fenmenos no tempo e no espao
e tambm como processos que
seguem uma lei causal imutvel. Podemos dizer que isso 
a forma do conhecimento.
Alberto e Sofia ficaram um
tempo parados olhando pela janela. De repente, Sofia viu
surgir uma rapariga por entre
as rvores, na outra margem do
lago.
- Olha! - disse Sofia.
- Quem ?
- No fao ideia.
Viram a rapariga durante
mais alguns segundos, mas depois desapareceu. Sofia reparara que ela 
trazia um chapu
vermelho.
- De qualquer modo, no
nos podemos distrair.
- Continua.
- Kant tambm apontou para
o facto de existirem claros
limites para o que os homens
podem conhecer. Podes dizer
que os culos da razoo nos impem limites.
- Como assim?
- Talvez ainda recordes
quais foram as verdadeiras
"grandes" questes filosficas
dos filsofos anteriores a
Kant: se o homem possui uma
alma imortal; se Deus existe;
se a natureza  constituda
por partes indivisveis; e se
o universo  finito ou infinito.
- Sim.
- Kant achava que o homem
nunca poderia atingir um conhecimento seguro destas questes. Isso no 
quer dizer que
no se preocupasse com estes
problemas. Muito pelo contrrio. Se ele tivesse simplesmente rejeitado 
estas perguntas, dificilmente lhe poderamos chamar filsofo.
- E ento o que  que ele
fez?
- Tens de ter um pouco de
pacincia. Kant achava que
nestas grandes questes filosficas, a razo operava fora
dos limites daquilo que o homem pode conhecer. Por outro
lado, era inerente  natureza
humana, ou  razo humana, a
necessidade de colocar essas
questes. Quando, por exemplo, perguntamos se o universo
 finito ou infinito, perguntamos sobre um todo do qual
ns mesmos somos uma parte extremamente pequena. E nunca
podemos conhecer este todo
completamente.
- Porque no?
- Quando puseste os culos
vermelhos, ns sabamos que,
segundo Kant, h dois elementos que contribuem para o nosso conhecimento.
- Experincia sensvel e
razo.

292
- Sim, recolhemos a matria para o nosso conhecimento
atravs dos sentidos, mas esta
matria tambm se ajusta s
caractersticas da nossa razo. Por exemplo,  inerente
 nossa razo perguntarmos
quais as causas de um fenmeno.
- Por exemplo, porque 
que uma bola rola pelo cho.
- Sim. Mas quando nos
questionamos sobre de onde vem
o mundo - e discutimos respostas possveis -, a razo
move-se de certo modo no vazio. Nessa altura, no pode
"trabalhar" nenhuma matria
dos sentidos; no tem experincias s quais se possa agarrar, porque 
nunca tivemos experincia da realidade total
da qual somos uma pequena parte.
-  como se fssemos uma
nfima parte da bola que rola
pelo cho. E por isso no podemos saber de onde vem.
- Mas reside na razo humana a necessidade de perguntar de onde vem esta 
bola.
Por isso, perguntamos constantemente e esforamo-nos
para encontrar respostas s
grandes questes. Mas como
no temos matria concreta com
que possamos trabalhar, nunca
obtemos respostas seguras porque a razo discorre no vazio.
- Obrigada, conheo bem
essa sensao.
- Nas grandes questes,
que dizem respeito  realidade
no todo, haver sempre dois
pontos de vista exactamente
opostos, igualmente provveis
e improvveis.
- D-me exemplos, por favor.
- Faz tanto sentido dizer
que o mundo tem um comeo no
tempo como dizer que no tem
comeo. A razo no pode decidir entre as duas possibilidades; por isso 
no pode afirm-las. Podemos naturalmente
afirmar que o mundo existiu
sempre - mas pode alguma coisa ter existido sempre sem ter
tido comeo algum? E consideremos o ponto de vista oposto,
dizendo que o mundo tem de ter
um incio - nesse caso, o
mundo tem de ter surgido do
nada, porque de outro modo
apenas poderamos falar de uma
passagem de um estado para outro. Pode alguma coisa vir do
nada, Sofia?
- No, ambas as possibilidades so problemticas. Mas
uma tem de ser verdadeira e a
outra falsa.
- E sabes que Demcrito e
os materialistas tinham explicado que a natureza era constituda por 
partculas minsculas, de que tudo  composto.
Outros - por exemplo, Descartes - defendiam que a
realidade extensa era divisvel em partes cada vez mais
pequenas. Qual deles tinha
razo?
- Ambos... nenhum.
- Muitos filsofos tinham
tambm afirmado que a liberdade do homem era um dos seus
mais importantes atributos.
Ao mesmo tempo,

293
deparmos com filsofos - por
exemplo, os esticos e Espinosa -, que explicavam que
tudo no mundo acontecia apenas segundo as leis necessrias da natureza. 
Tambm neste ponto, Kant achava que a
razo no podia pronunciar um
juzo seguro.
- Ambos os pontos de vista
so plausveis.
- E, por fim, tambm no
podemos provar com a nossa razo a existncia de Deus.
Nesta questo, os racionalistas - por exemplo, Descartes
- tinham tentado provar que
Deus existe porque temos a
ideia de um ser perfeito.
Outros - por exemplo, Aristteles e S. Toms de Aquino - eram da opinio 
que
Deus tinha de existir porque
tudo tem de ter uma primeira
causa.
- E o que  que Kant pensava?
- Ele rejeitou ambas as
provas da existncia de Deus.
Nem a razo nem a experincia
tm um fundamento seguro para
afirmarem que Deus existe.
Para a razo  to provvel
como improvvel que Deus
exista.
- Mas tu disseste primeiro
que Kant queria defender as
bases da f crist.
- Sim, e ele deixa de facto espao para a religio, a
saber, onde a nossa experincia e a nossa razo no alcanam, a religio 
pode preencher
este espao.
- E foi assim que ele salvou o Cristianismo?
- Podes dizer isso. Mas
temos de ter em conta que
Kant era protestante. Desde
a Reforma, o nfase na f foi
uma das caractersticas do
Cristianismo protestante. A
Igreja Catlica, pelo contrrio, confiara mais na razo
como um pilar da f, desde o
incio da Idade Mdia.
- Estou a ver.
- Mas Kant fez mais do
que verificar que estas questes importantes tinham de ser
deixadas no domnio da f.
Para ele, a suposio de que
o homem tem uma alma imortal, que Deus existe e que o
homem tem livre arbtrio era
uma condio imprescindvel
para a moral.
-  quase como em
Descartes. Primeiro,  muito
crtico em relao quilo que
podemos compreender. E depois
faz entrar novamente Deus e o
resto pela porta traseira.
- Mas, ao contrrio de
Descartes, Kant sublinha expressamente que no foi a razo que o levou 
at a, mas a
f. Ele mesmo afirmava que a
crena numa alma imortal e inclusivamente a crena na existncia de Deus 
e no livre arbtrio do homem eram postulados prticos.
- O que significa isso?
- Postular significa afirmar uma coisa que no pode ser
provada. Por postulado prtico, Kant entende algo que tem
de ser afirmado para a "praxis" do homem, ou seja, para a
sua aco e por conseguinte
para a

294
sua moral. " moralmente necessrio pressupor a existncia de Deus" 
afirmou.

Subitamente, algum bateu 
porta. Sofia levantou-se imediatamente, e como Alberto
ficasse sentado impassvel,
disse:
- No devamos abrir a
porta?
Alberto encolheu os ombros,
mas acabou por se levantar
tambm. Sofia abriu a porta,
e l fora estava uma rapariga
novinha com um vestido branco
de Vero e um pequeno capuz
vermelho. Era a mesma que
Sofia vira na outra margem do
lago. Reparou que trazia um
cesto com comida.
- Ol - disse Sofia. -
Quem s tu?
- O Capuchinho Vermelho,
no vs?
Sofia olhou para Alberto e
este acenou afirmativamente.
- Estou  procura da casa
da minha av - explicou a pequena. Ela est velha e doente, mas eu levo-
lhe comida e
vinho.
- No  aqui - disse
Alberto. - Portanto, segue
o teu caminho.
Ao dizer isto, fez um gesto
com a mo como se estivesse a
enxotar uma mosca.
- Mas eu tambm tenho de
entregar uma carta - explicou
a rapariga do capuz vermelho.
Tirou um pequeno envelope
da algibeira e entregou-o a
Sofia. Feito isto, retomou o
seu caminho.
- Tem cuidado com o lobo!
- exclamou Sofia.
Alberto j ia novamente a
caminho da sua poltrona. Sofia seguiu-o e sentou-se  sua
frente como anteriormente.
- O Capuchinho Vermelho,
imagina - disse Sofia abanando a cabea.
- E no faz sentido avis-la. Ela vai para casa da
av e l ser comida pelo lobo. No aprende nada; tudo se
repete para toda a eternidade.
- Mas eu nunca ouvi dizer
que ela tivesse batido  porta
de outra cabana quando ia ter
com a av.
- Isso  uma ninharia,
Sofia.
S ento olhou Sofia para
o envelope. Nele estava escrito: "Para Hilde". Abriu
o envelope e leu alto:

Querida Hilde! Mesmo que
o crebro humano fosse to
simples que ns o pudssemos
compreender, seramos mesmo
assim to estpidos que no o
compreenderamos.

Um beijo do pai

295
Alberto acenou afirmativamente.
- Tem toda a razo. E eu
acho que Kant poderia ter
dito uma coisa semelhante.
No podemos esperar compreender o que somos. Talvez possamos compreender 
realmente
uma flor ou um insecto, mas
nunca ns mesmos. E muito menos podemos esperar compreender todo o 
universo.
Sofia teve de ler a estranha frase vrias vezes antes
de Alberto prosseguir:
- No nos podemos deixar
distrair por serpentes marinhas e artifcios semelhantes.
Antes de terminarmos por
hoje, ainda te vou falar da
tica de Kant.
- Ento despacha-te, tenho
de ir para casa.
- O cepticismo de Hume em
relao ao que a razo e os
sentidos nos podem transmitir
realmente obrigou Kant a reflectir mais uma vez sobre
muitas das mais importantes
questes da vida. Isso tambm
era vlido para o campo da moral.
- Hume no disse que no
podemos provar o que  justo e
o que  injusto, porque no
podemos concluir frases normativas de frases descritivas?
- Hume considerava que nem
a nossa razo nem as nossas
experincias estabelecem a diferena entre o justo e o injusto, s os 
nossos sentimentos. Este fundamento parece a
Kant demasiado fraco.
- Sim, eu compreendo bem
isso.
- Kant tinha desde o princpio a forte impresso de que
a diferena entre o justo e o
injusto tinha de ser mais do
que uma questo de sentimentos. Nesse aspecto ele estava
de acordo com os racionalistas, que tinham explicado que
era inerente  razo humana
distinguir o justo do injusto.
Todos os homens sabem o que 
justo e o que no , e ns sabemo-lo no apenas porque o
aprendemos mas tambm porque 
inerente  nossa razo. Kant
achava que todos os homens tinham uma razo prtica que
nos diz sempre o que  justo e
o que  injusto no domnio da
moral.
- Ento  inata?
- A capacidade de distinguir o justo do injusto  to
inata como todos os outros
atributos da razo. Todos os
homens vem os fenmenos como
determinados causalmente - e
tambm tm acesso  mesma lei
moral universal. Esta lei moral tem a mesma validade absoluta que as leis 
fsicas da
natureza. Isso  to fundamental para a nossa vida moral
como  fundamental para a nossa vida racional que tudo tenha uma causa, 
ou que sete
mais cinco sejam doze.
- E o que  que diz essa
lei moral?

296
- Uma vez que precede
qualquer experincia,  "formal". Significa que no est
relacionada com possibilidades
morais de escolha determinadas.  vlida para todos os
homens em todas as sociedades
e em todos os tempos. Logo,
no diz que tens de fazer isto
ou aquilo nesta ou naquela situao. Diz como te deves
comportar em todas as situaes.
- Mas que sentido tem uma
lei moral, se no nos diz como
nos devemos comportar numa situao determinada?
- Kant formula a lei moral
como imperativo categrico.
Por isto, ele entende que a
lei moral  "categrica", quer
dizer,  vlida em todas as
situaes. Alm disso,  um
"imperativo" e consequentemente uma "ordem" e absolutamente
inevitvel.
- Hm...
- Alis, Kant formula o
seu imperativo categrico de
diversas formas. Primeiro,
diz: devamos agir sempre de
tal forma que pudssemos desejar simultaneamente que a regra segundo a 
qual agimos fosse uma lei universal.
- Quando fao alguma coisa, tenho de ter a certeza de
que desejo que todos faam o
mesmo na mesma situao.
- Exacto. S nessa altura
ages de acordo com a tua lei
moral interior. Kant tambm
formulou o imperativo categrico da seguinte forma: devemos tratar os 
outros homens
sempre como um fim em si e no
como um meio para alguma outra
coisa.
- No podemos portanto
"explorar" os outros para obtermos benefcios.
- No, porque todos os homens so um fim em si. Mas
isso no  vlido apenas para
os outros, mas tambm para ns
mesmos. Tambm no nos devemos explorar como meio para
alcanar algo.
- Isso faz-me lembrar a
"regra dourada": no faas aos
outros o que no queres que te
faam a ti.
- Sim, e isso  uma norma
formal que abrange basicamente
todas as possibilidades ticas
de escolha. Podes afirmar que
essa regra dourada exprime
aproximadamente aquilo a que
Kant chamou lei moral.
- Mas isso  apenas conversa. Hume tinha razo ao
dizer que no podemos provar
com a razo o que  justo e o
que  injusto.
- Para Kant, a lei moral
era to absoluta e universalmente vlida como, por exemplo, a lei da 
causalidade.
Tambm no pode ser provada
pela razo, mas  incontornvel. Nenhum homem a contestaria.
- Comeo a ter a sensao
de que estamos realmente a falar da conscincia, porque todos os homens 
tm uma conscincia.
- Sim, quando Kant descreve a lei moral, descreve a
conscincia humana. No podemos provar o que a conscincia
diz, mas sabemo-lo.

297
- Por vezes, sou muito
simptico para com os outros
simplesmente porque  vantajoso para mim. Desse modo, posso ser popular.
- Mas quando s simptica
para com os outros apenas para
seres popular, no ests a
agir de acordo com a lei moral. Talvez no estejas a observar a lei 
moral. Talvez
estejas a agir numa espcie de
acordo superficial com a lei
moral - e isso j  alguma
coisa -, mas uma aco moral
tem de ser o resultado de uma
superao de ti mesma. S
quando fazes algo porque achas
ser teu dever seguir a lei
moral  que podes falar de uma
aco moral. Por isso, a tica de Kant  frequentemente
chamada tica do dever.
- Eu posso achar ser meu
dever juntar dinheiro para a
Cruz Vermelha ou a Caritas.
- Sim, e o importante  tu
fazeres uma coisa porque a
achas correcta. Mesmo quando
o dinheiro que tu juntaste se
extravia ou nunca alimente as
pessoas que devia alimentar,
tu cumpriste a lei moral.
Agiste com a atitude correcta
e, segundo Kant, a atitude 
decisiva para podermos dizer
que uma coisa  moralmente
correcta. No so as consequncias de uma aco que so
decisivas. Por isso, tambm
dizemos que a tica de Kant
 uma tica da boa vontade.
- Porque  que era to importante para ele saber quando
 que agimos por respeito 
lei moral? No  mais importante que aquilo que fazemos
ajude os outros?
- Sim, Kant concordaria,
mas s quando sabemos que agimos por respeito  lei moral 
que agimos em liberdade.
- S obedecendo a uma lei
 que agimos em liberdade?
Isso no  estranho?
- Segundo Kant, no.
Talvez ainda te lembres que
ele "postulou" o livre arbtrio do homem. Esse  um ponto importante, 
porque Kant
achava que todas as coisas seguem a lei da causalidade.
Como  que podemos ter livre
arbtrio assim?
- No me perguntes.
- Aqui, Kant divide o homem em duas partes, e nisso
faz lembrar Descartes, que
afirmava que o homem era um
ser duplo visto que tem corpo
e razo. Enquanto seres sensveis, estamos completamente
sujeitos s leis imutveis da
causalidade, segundo Kant.
No decidimos o que sentimos;
as sensaes surgem necessariamente e influenciam-nos,
quer queiramos quer no. Mas
o homem no  apenas um ser
sensvel. Somos tambm seres
racionais.
- Explica-me isso!
- Enquanto seres sensveis, pertencemos  ordem da
natureza. Por isso estamos
sujeitos  lei da causalidade.
Deste ponto de vista, no

298
temos livre arbtrio. Mas enquanto seres racionais, participamos no mundo 
"em si" - ou
seja, no mundo independente
das nossas sensaes. S
quando seguimos a nossa "razo
prtica" - que nos possibilita fazer uma escolha moral -,
temos livre arbtrio. Se obedecermos  lei moral, somos
ns que fazemos a lei pela
qual nos orientamos.
- Sim, isso est certo.
Eu digo - ou alguma coisa em
mim diz - que eu no devo ser
m para os outros.
- Se decides no ser m -
mesmo quando ages contra o teu
prprio interesse - ento ests a agir livremente.
- Pelo menos, no somos
livres e autnomos quando seguimos apenas os nossos instintos.
- Podemos fazer-nos escravos de tudo. Sim, podemos inclusivamente ser 
escravos do
nosso prprio egosmo. Para
nos elevarmos acima dos nossos
instintos e vcios  necessrio autonomia - e liberdade.
- E quanto aos animais?
Eles seguem s os seus instintos e necessidades. No
tm essa liberdade de seguir
uma lei moral?
- No,  justamente esta
liberdade que nos torna seres
humanos.
- Estou a ver.
- Para concluir, podemos
dizer que Kant conseguiu mostrar a sada para o impasse no
qual a filosofia cara com a
disputa entre racionalistas e
empiristas. Com Kant, termina tambm uma poca na histria da filosofia. 
Ele morreu
em 1804 - no comeo da poca
a que chamamos Romantismo.
No seu tmulo, em Knigsberg, est uma das suas frases
mais citadas: "duas coisas
preenchem o meu esprito com
uma admirao e respeito sempre novos e crescentes, quanto
mais o pensamento se ocupa delas: o cu estrelado acima de
mim e a lei moral dentro de
mim".
Alberto recostou-se na sua
poltrona.
- E isto - afirmou. -
Acho que era o mais importante sobre Kant.
- E j quatro e um quarto.
- Mas h mais. Por favor,
espera um momento!
- Eu nunca me vou embora
antes de o professor dar a
aula por terminada.
- Eu tambm disse que, segundo Kant, no temos liberdade se vivermos 
apenas como
seres sensveis.
- Sim, mais ou menos isso.
- Mas quando seguimos a
razo universal, somos livres
e autnomos. Eu tambm disse
isso?
- Sim, porque  que ests
a repetir?

299
Alberto inclinou-se para
Sofia e olhou-a profundamente
nos olhos e sussurrou:
- No te deixes enganar
por tudo o que vs, Sofia.
- O que  que queres dizer?
- Olha para o outro lado.
- No estou a perceber nada.
- Dizemos frequentemente:
"s acredito quando vir". Mas
tambm no podes acreditar no
que vs.
- J disseste uma vez uma
coisa semelhante.
- Sobre Parmnides, sim.
- Mas ainda no compreendo
o que queres dizer.
- Bom, ns sentmo-nos na
soleira da porta e conversmos. E, de repente, uma serpente marinha 
comeou a andar
s voltas na gua.
- No foi estranho?
- De modo algum. E depois, o Capuchinho Vermelho
bate  nossa porta. "Estou 
procura da casa da minha av".
Isto  embaraoso, Sofia.
Mas todas estas coisas so
apenas os truques do major.
Tal como a carta na banana e
a trovoada absurda.
- Achas que...
- Estou a dizer que tenho
um plano. Desde que sigamos a
razo, ele no nos pode pregar
partidas. Nisso, somos de
certo modo livres. Ele pode
fazer-nos "experienciar" todas
as coisas e nada disso me surpreenderia. Se ele em seguida
obscurecer o cu com elefantes
que voam, no mximo sorrio.
Mas sete mais cinco so doze.
Isso  um facto que sobrevive
a todos estes efeitos de banda
desenhada. A filosofia  o
contrrio da fbula.
Sofia olhou para ele admirada.
- Agora podes ir-te embora
- disse por fim. - Volto a
telefonar-te para um encontro
sobre o Romantismo. Ficas a
saber alguma coisa sobre Hegel e Kierkegaard. Mas j s
falta uma semana para o major
regressar  Noruega. At l,
temos de nos libertar das suas
fantasias de mau gosto.  tudo por hoje, Sofia. Mas quero que saibas que 
estou a trabalhar num plano fantstico
para ns.
- Ento vou-me embora.
- Espera - se calhar, esquecemo-nos do mais importante.
- O qu?
- A cano dos parabns,
Sofia. Hilde faz hoje quinze
anos.
- Eu tambm.
- Tu tambm, sim. Cantemos.
Ambos se levantaram e cantaram:

300
- Parabns a voc, nesta
data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. Hoje  dia de 
festa, cantam as
nossas almas, para a menina
Hilde, uma salva de palmas.

Eram quatro e meia. Sofia
desceu em direco ao lago e
remou para a outra margem.
Empurrou o barco para o canavial e correu pelo bosque.
Quando chegou ao carreiro,
viu subitamente uma coisa que
se movia entre os troncos.
Sofia pensou no Capuchinho
Vermelho, que tinha ido sozinho pelo bosque para a casa da
av, mas este vulto entre as
rvores era muito mais pequeno.
Aproximou-se. O vulto no
era maior do que uma boneca;
era castanho, mas trazia uma
camisola vermelha.
Sofia ficou petrificada
quando se apercebeu que era um
urso de peluche. Que algum
tivesse esquecido um urso de
peluche no bosque no era estranho, mas este urso de peluche estava vivo 
e parecia muito preocupado com alguma coisa.
- Ol - disse Sofia.
A pequena figura voltou-se.
- Eu sou Winnie the Pooh
- disse - e infelizmente
perdi-me no bosque, seno seria um bom dia. Mas nunca te
vi.
- Talvez eu nunca tenha
estado aqui - disse Sofia.
- Estamos perto de tua casa,
no Bosque de Cem Acres?
- Essa pergunta  demasiado difcil. No te esqueas
que eu sou um urso pouco inteligente.
- J ouvi falar de ti.
- Ento chamas-te Alice.
Christopher Robin falou uma
vez sobre ti, deve ter sido
assim que nos conhecemos. Bebeste tanto de uma garrafa
que ficaste cada vez mais pequena. Mas depois bebeste uma
outra garrafa e voltaste a
crescer. Temos de ter muito
cuidado com aquilo que levamos
 boca. Eu prprio comi tanto
uma vez que fiquei preso na
toca de um coelho.
- Eu no sou Alice.
- No  importante quem
ns somos. O mais importante
 o que ns somos. E o que
diz a coruja e ela  muito inteligente. "Sete mais quatro
so doze", disse num dia de
sol. O burro e eu estvamos
muito embaraados;  to difcil calcular os nmeros.
Calcular o tempo  muito mais
fcil.
- Eu chamo-me Sofia.
-  um prazer conhecer-te,
Sofia. Acho, como disse, que
s nova por aqui. Mas agora o
pequeno urso tem de se ir embora. Tenho de tentar

301
encontrar o leito. Fomos
convidados para uma grande
festa ao ar livre com Bugs
Bunny e os seus amigos.
Acenou com uma pata. S
ento Sofia descobriu que ele
segurava uma folha na outra
pata.
- O que tens a? - perguntou.
Winnie the Pooh levantou a
folha e disse:
- Foi por causa disto que
me enganei no caminho.
- Mas  apenas uma folha.
- No, isto no  "apenas
uma folha".  uma carta para
Hilde - por-trs-do-espelho.
- Oh, ento eu posso lev-la.
- Mas tu no s a rapariga
do espelho, pois no?
- No, mas...
- Uma carta deve sempre
ser entregue pessoalmente.
Foi Christopher Robin que
me explicou isso ontem.
- Mas eu conheo Hilde.
- Isso no tem importncia. Mesmo quando conhecemos
algum muito bem, nunca devemos ler as suas cartas.
- Eu estou apenas a dizer
que lha posso entregar.
- Isso  completamente diferente. Faz o favor, Sofia.
S quando me livrar desta
carta encontrarei o caminho
para ir ter com o leito.
Para encontrar Hilde do espelho, precisas primeiro de
ter um grande espelho, mas
isso no  fcil aqui.
O pequeno urso deu a Sofia
a folha que segurara na pata e
deitou a correr com os seus
pequenos ps. Quando ele desapareceu, Sofia desdobrou a
folha e leu:
Querida Hilde!  uma
vergonha que Alberto no tenha falado a Sofia sobre o
facto de Kant se ter pronunciado a favor da fundao de
uma sociedade das naes". Na
obra "A paz perptua", de
1795, ele escreveu que todos
os pases deviam unir-se numa
sociedade das naes, que asseguraria a coexistncia pacfica das 
diversas naes.
Aproximadamente cento e vinte
e cinco anos aps a publicao
desta obra - imediatamente a
seguir  Primeira Guerra
Mundial - esta Sociedade
das Naes foi realmente fundada. Aps a Segunda Guerra
Mundial, foi substituda pela
ONU. Podes dizer que Kant
foi uma espcie de padrinho da
ideia da ONU. A ideia de
Kant era que a "razo prtica" dos homens obrigasse os
Estados a abandonar um estado
de natureza" que causa sempre
novas guerras, e criasse um
sistema jurdico internacional
que evitasse as guerras. Apesar de ser longo o percurso
at  fundao de uma sociedade das naes que

302
funcione verdadeiramente, 
nosso dever tratar de assegurar a paz universal. Para
Kant, o estabelecimento de
uma sociedade como esta era um
objectivo distante, quase o
objectivo ltimo da filosofia.
Eu mesmo me encontro de momento no Lbano.

Beijos do pai

Sofia ps a carta no bolso
e prosseguiu o seu caminho
para casa. Alberto prevenira-a de encontros no bosque.
Mas ela no podia deixar o
pequeno urso s voltas numa
busca interminvel de Hilde
do espelho.

303
O Romantismo

... o caminho misterioso
conduz ao interior...

Hilde deixou cair o grande
dossier nos joelhos. Depois, deixou-o escorregar para
o cho.
No quarto, j havia mais
claridade do que quando fora
para a cama. Olhou para o relgio. Eram quase trs. Voltou-se e fechou os 
olhos. Ao
adormecer, questionou-se por
que razo o seu pai fizera
aparecer subitamente o Capuchinho Vermelho e Winnie the
Pooh.
Dormiu at s onze da manh. Em seguida, teve a sensao de que sonhara 
intensamente durante toda a noite,
mas no se conseguia lembrar
do que sonhara.
Desceu as escadas e fez o
pequeno-almoo. A me vestira
o fato-macaco. Queria ir para
o barraco dos barcos e reparar o barco. Mesmo que no
fosse para a gua, tinha de
estar pronto para navegar
quando o pai voltasse do Lbano.
- Vens ajudar-me?
- Primeiro tenho de ler um
pouco. Queres que te leve ch
e alguma coisa para comer a
meio da manh?
- Qual meio da manh?
Depois de ter comido,
Hilde voltou para o seu quarto, puxou a coberta da cama e
sentou-se com o grande
dossier sobre os joelhos.

Sofia passou atravs da sebe e viu-se no grande jardim
que comparara outrora com o
jardim do den...
Via que havia ramos e folhas por toda a parte devido
ao temporal do dia anterior.
Entre o temporal e os ramos
soltos, por um lado, e os seus
encontros com o Capuchinho
Vermelho e Winnie the Pooh,
por outro, parecia haver uma
relao.
Sofia afastou as agulhas de
pinheiro e os ramos do baloio. Era bom o facto de o baloio ter 
almofadas de plstico que no era preciso levar
para casa cada vez que chovia.
Sofia entrou em casa. A me
acabara
:,

304
de chegar. Arrumava garrafas
de limonada no frigorfico.
Na mesa da cozinha havia um
bolo de chocolate com um aspecto delicioso.
- Ests  espera de visitas? - perguntou Sofia, que
quase se esquecera do seu aniversrio.
- Eu pensei que apesar da
festa ao ar livre no sbado
devamos festejar hoje.
- Como assim?
- Convidei Jorunn e os
pais.
Sofia encolheu os ombros.
- Por mim est bem.
Os convidados chegaram pouco antes das sete e meia. A
atmosfera estava um pouco formal porque a me de Sofia no
se encontrava frequentemente
com os pais de Jorunn.
Sofia e Jorunn subiram
logo para o quarto de Sofia
para escreverem os convites
para a festa ao ar livre.
Visto que queria convidar
tambm Alberto Knox, Sofia
teve a ideia de convidar as
pessoas para uma "festa de
jardim filosfica". Jorunn
concordou. Afinal era a festa
de Sofia e nessa altura essas
"festas com temas" eram muito
populares.
At terem escrito o texto,
passaram mais de duas horas e
as duas raparigas no conseguiam parar de rir.

Caro...
Convidamos-te para uma festa de jardim filosfica no sbado, dia 23 de 
Junho (noite de S. Joo) s 19 horas
em Klverveien 3. No decurso da noite esperamos resolver
o mistrio da vida. Traz um
casaco quente e ideias inteligentes que possam contribuir
para uma resoluo dos enigmas
da filosofia. Devido ao grande perigo de incndio florestal, infelizmente 
no podemos
fazer fogueiras, mas as chamas
da fantasia podem arder livremente. Entre os convidados
encontra-se pelo menos um verdadeiro filsofo. Por isso, o
convvio vai ser privado nesta
festa. Membros da imprensa
no sero admitidos!
Com os nossos melhores cumprimentos,

Jorunn Ingebrigtsen (comisso organizadora)
e Sofia Amundsen (anfitri)

Depois foram ter com os
adultos que j estavam a falar
mais  vontade. Sofia deu 
me o convite que escrevera
com uma caneta caligrfica.
- Dezoito fotocpias, por
favor - disse. J tinha pedido outras vezes  me para
lhe fazer fotocpias no escritrio.

305
A me leu rapidamente o
convite e passou-o depois ao
pai de Jorunn.
- Esto a ver? Ela perdeu
completamente a cabea.
- Mas isto parece mesmo
interessante - disse o pai de
Jorunn enquanto passava a folha  esposa.
- Estou pasmada! - disse
esta. - Tambm podemos vir,
Sofia?
- Ento vinte cpias -
disse Sofia.
- Deves estar maluca -
disse Jorunn.
Antes de ir para a cama
nessa noite, Sofia ficou muito tempo a olhar pela janela.
Lembrou-se como uma vez vira
a sombra de Alberto na escurido. J passara mais de um
ms. Nesse momento tambm era
de noite, mas era uma noite
clara de Vero.
Alberto s voltou a dar notcias suas na manh de tera-feira. Telefonou 
logo depois
de a me de Sofia ter ido
trabalhar.
- Sofia Amundsen.
- Alberto Knox.
- Era o que eu estava a
pensar.
- Peo desculpa por telefonar s agora, mas estive a
trabalhar intensivamente no
nosso plano. S quando o major se concentra completamente
em ti  que tenho descanso e
posso trabalhar sem ser perturbado.
- Estranho.
- Posso esconder-me, percebes? Mesmo o melhor servio
secreto do mundo tem as suas
limitaes, se tem apenas um
agente... Recebi um postal
teu.
- Um convite, queres dizer.
- Arriscas mesmo?
- Porque no?
- Nunca se sabe o que pode
suceder numa festa destas.
- Vens?
- Claro que vou. Mas h
mais uma coisa. J pensaste
que o pai de Hilde regressa
do Lbano nesse mesmo dia?
- No, no tinha pensado
nisso.
-  impossvel ser obra do
acaso que ele te faa organizar uma festa filosfica justamente no dia em 
que regressa
a Bjerkely.
- Como disse, no tinha
pensado nisso.
- Mas ele pensou. Bom,
ainda vamos falar sobre isso.
Podes ir hoje de manh  cabana do major?
- Eu tenho que tirar a erva daninha de alguns canteiros.
- Ento s duas. Pode
ser?
- L estarei.

306
Desta vez, Alberto Knox
tambm estava sentado na soleira da porta quando Sofia
chegou.
- Senta-te aqui - disse
- e foi directo ao assunto.
- At agora falmos sobre o
Renascimento, o Barroco e o
Iluminismo. Hoje vamos falar
sobre o Romantismo, ao qual
podemos chamar a ltima grande
poca cultural da Europa.
Estamos a aproximar-nos do
fim de uma longa histria, minha filha.
- O Romantismo durou tanto tempo?
- Comeou em finais do sculo Xviii e durou at meados
do sculo passado. Mas a partir de 1850 j no faz sentido falar de 
pocas completas
que abranjam do mesmo modo
poesia e filosofia, arte,
cincia e msica.
- Mas o Romantismo foi
ainda uma dessas pocas?
- Sim, e como disse, a ltima na Europa. Teve incio
na Alemanha, como reaco ao
culto da razo no Iluminismo.
Aps Kant e a sua fria filosofia racional, os jovens na
Alemanha pareciam respirar
fundo.
- E o que  que colocaram
no lugar da razo?
- Os novos slogans eram
"sentimento", "fantasia", "vivncia" e "nostalgia". Alguns
pensadores do Iluminismo tambm tinham apontado para a importncia dos 
sentimentos -
por exemplo, Rousseau - e
criticado a insistncia exclusiva na razo. Esta corrente
secundria tornou-se a corrente principal da vida cultural
alem.
- Ento Kant no foi popular por muito tempo?
- Sim e no. Muitos romnticos viam-se como herdeiros de Kant. Kant 
afirmara
que havia limites para aquilo
que podemos conhecer. Por outro lado, mostrara como era
importante o contributo do eu
para o conhecimento. E agora,
no Romantismo, o indivduo
tinha, por assim dizer, livre
curso para a sua interpretao
pessoal da existncia. Os romnticos professavam um culto
quase desenfreado do eu. Por
isso, a essncia da personalidade romntica  tambm o gnio artstico.
- Havia muitos gnios naquela poca?
- Alguns. Beethoven,
por exemplo. Na sua msica,
encontramos uma pessoa que exprime os seus prprios sentimentos e 
nostalgias. Deste
modo, Beethoven era um artista "livre" - ao contrrio dos
mestres do Barroco como Bach
e Haendel que compunham as
suas obras para glria de
Deus e geralmente segundo regras rigorosas.
- Eu conheo apenas a sonata Ao luar e a Quinta
sinfonia.
- Mas vs como  romntica
a sonata Ao luar e como
Beethoven se exprime de forma
dramtica na Quinta sinfonia.
- Disseste que os humanistas do Renascimento tambm
eram individualistas.

307
- Sim, h muitos paralelismos entre o Renascimento e
o Romantismo. Um desses paralelismos , por exemplo, o
grande valor dado  importncia da arte para o conhecimento humano. 
Tambm neste aspecto, Kant tinha aberto caminho para o Romantismo. Na
sua esttica ele investigara o
que sucede quando somos dominados por uma coisa bela, uma
obra de arte, por exemplo.
Quando vemos uma obra de arte
sem outro interesse que o de
"viv-la" to intensamente
quanto possvel, ultrapassamos
o limite daquilo que podemos
conhecer, ou seja, o limite da
nossa razo.
- Isso quer dizer que o
artista nos proporciona algo
que o filsofo no pode proporcionar-nos?
- Era assim que Kant pensava, e juntamente com ele os
romnticos. Segundo Kant, o
artista joga livremente com a
sua faculdade de conhecer. O
poeta Friedrich Schiller
desenvolveu a ideia de Kant.
Ele achava que a actividade
do artista era como um jogo e
s quando o homem jogava era
livre, porque fazia as suas
prprias leis. Os romnticos
acreditavam que apenas a arte
nos podia aproximar do "indizvel". Alguns foram at s
ltimas consequncias e compararam o artista com Deus.
- Porque o artista cria a
sua prpria realidade, tal
como Deus criou o mundo.
- Dizia-se que o artista
tinha uma espcie de imaginao criadora de universos. No
seu arrebatamento artstico,
conseguia experimentar o desaparecimento da fronteira entre
sonho e realidade. O poeta
Novalis, um dos jovens gnios da Alemanha, afirmou:
"O mundo torna-se sonho, o
sonho mundo". Ele escreveu um
romance medieval com o ttulo
Heinrich von Ofterdingen,
que ainda estava incompleto
quando o autor morreu em
1801, mas que teve grande importncia para o Romantismo.
Nele lemos que o jovem Heinrich procurava a "flor azul",
que vira uma vez em sonhos e
da qual se finava de saudades
desde ento. O poeta romntico ingls Coleridge exprimiu
a mesma ideia do seguinte
modo:

What if you slept? And
what if, in your sleep, you
dreamed? And what if, in your
dream, you went to heaven and
there plucked a strange and
beautiful flower? And what
if, when you awoke, you had
the flower in your hand? Ah,
what then?
(E se adormecesses? E se,
no teu sono, sonhasses? E se,
no teu sonho, subisses aos
cus e ali colhesses uma estranha e bela flor? E ainda
se, ao acordares, tivesses a
flor na tua mo. Ah, como seria, ento?)
:,

308
- Que bonito!
- Este desejo de algo longnquo e inatingvel era tpico dos romnticos. 
Eles tambm podiam ter a nostalgia de
um mundo desaparecido - por
exemplo, a Idade Mdia, que
no Iluminismo fora tida pela
idade das trevas e era agora
revalorizada. Ou tinham nostalgia de culturas distantes,
por exemplo, o "Oriente" com
a sua mstica. E sentiam-se
atrados pela noite, por runas antigas e pelo sobrenatural. Preocupavam-
se com aquilo a que chamamos o lado nocturno da vida, ou seja, o obscuro, 
o lgubre e mstico.
- Acho que parece uma poca excitante. Mas quem eram
ento esses romnticos?
- O romantismo foi sobretudo um fenmeno urbano. Na
primeira metade do sculo passado, a cultura urbana viveu
uma poca urea em muitas regies da Europa, em especial
na Alemanha. Os "romnticos"
tpicos eram jovens, frequentemente estudantes - apesar
de nem sempre serem muito dedicados ao estudo. Tinham uma
atitude declaradamente anti-burguesa e chamavam a mortais
vulgares como policias, por
exemplo, ou s senhorias, "filisteus", ou simplesmente
"inimigos".
- Ento eu nunca alugaria
um quarto a um romntico.
- A primeira gerao de
romnticos era ainda muito jovem por volta do ano 1800.
Deste ponto de vista, podemos
dizer que o movimento romntico foi a primeira revolta juvenil da Europa. 
H um claro
paralelismo com a cultura
hippie cento e cinquenta
anos depois.
- Flores e cabelos compridos, tocar a guitarra e no
fazer nada?
- Sim, dizia-se que o cio
era o ideal do gnio e a inrcia a primeira virtude romntica. Era dever 
do romntico
viver a vida - ou afastar-se
dela, sonhando. Os filisteus
 que deviam preocupar-se com
os assuntos do dia-a-dia.
- Houve romnticos na
Noruega?
- Wergeland e Welhaven foram dois deles. Wergeland defendeu tambm 
muitos
ideais do Iluminismo, mas a
sua vida foi tpica de um romntico. Ele entusiasmava-se,
estava apaixonado, mas - e
este tambm era um trao romntico tpico - Stella, a
quem ele dedicou os seus poemas de amor, estava to distante e to 
inacessvel como a
"flor azul" de Novalis. O
prprio Novalis ficou noivo
de uma rapariga que tinha apenas catorze anos. Ela morreu
quatro dias aps ter feito
quinze anos, mas Novalis
amou-a durante toda a vida.
- Ela morreu mesmo quatro
dias aps ter feito quinze
anos?
- Sim...
- Eu tenho hoje quinze
anos e dez dias.
-Tens razo...

309
- Como  que se chamava?
- Chamava-se Sophie.
- O que ests a dizer?
- Sim, chamava-se Sophie...
- Ests a assustar-me!
Ser um acaso?
- No fao ideia, Sofia.
Mas ela chamava-se Sophie.
- Continua!
- O prprio Novalis morreu com apenas vinte e nove
anos. Muitos romnticos morreram jovens, geralmente de
tuberculose. Alguns suicidaram-se...
- Meu Deus!
- E aqueles que chegaram a
velhos, normalmente deixavam
de ser romnticos quando atingiam os trinta anos. Alguns
tornavam-se mais tarde burgueses e conservadores.
- Ento passaram-se para o
campo do inimigo.
- Sim, talvez. Mas estvamos a falar sobre a paixo
romntica: a grande obra sobre
o amor inacessvel  o romance
epistolar de amor, de Goethe, "Die Leiden des jungen
Werthers" (As mgoas do
Jovem Werther), que foi publicado em 1774. Termina com
o suicdio do jovem Werther
por no poder ter aquela que
ama...
- Ele no ter ido demasiado longe nisso?
- Os seus contemporneos
podiam compreender muito bem
estes sentimentos. Pelo menos, por toda a parte em que o
romance foi publicado, o suicdio aumentou rapidamente.
Por isso, o livro foi proibido durante algum tempo na Dinamarca e na 
Noruega. No
era totalmente inofensivo
ser-se romntico, estavam em
jogo sentimentos muito fortes.
- Quando dizes "romntico", eu penso em grandes pinturas de paisagens. 
Vejo florestas misteriosas e a natureza selvagem... envolvidas em
nvoa.
- Aos traos mais caractersticos do Romantismo pertenciam efectivamente 
a nostalgia pela natureza e uma
verdadeira mstica natural.
Era um fenmeno urbano, como
disse - uma coisa deste gnero no surge no campo. Sabes
que o estribilho "Regresso 
natureza!" provm de Rousseau. S ento, no Romantismo,  que este mote 
recebeu
um verdadeiro impulso. O romantismo era tambm uma reaco  concepo 
mecanicista do
mundo do Iluminismo. Com razo se afirmou que o Romantismo trouxe consigo 
um Renascimento do antigo pensamento da totalidade.
- Explica-me isso!
- Significa que a natureza
foi vista novamente como unidade. Os romnticos recorreram a Espinosa, 
mas tambm
a Plotino e a filsofos do

310
Renascimento como Jakob
Boehme e Giordano Bruno.
Todos eles tinham visto na
natureza um "Eu" divino.
- Eram pantestas...
- Descartes e Hume tinham
traado uma fronteira ntida
entre o eu e a realidade "extensa". Tambm Kant tinha
colocado uma separao clara
entre o eu como sujeito e a
natureza "em si". Agora, a
natureza era tida como nico
grande "eu". Os romnticos
usavam tambm expresses como
"alma do mundo", ou "esprito
do mundo".
- Compreendo.
- O filsofo mais influente do Romantismo foi Friedrich Wilhelm 
Schelling, que
viveu entre 1775 e 1854.
Ele procurou eliminar a separao entre "esprito" e "matria". Toda a 
natureza -
tanto a alma do homem como a
realidade fsica - era expresso de um Deus ou do "esprito do mundo", 
segundo ele.
- Sim, isso faz lembrar
Espinosa.
A natureza era o esprito
visvel, o esprito a natureza
invisvel, segundo Schelling.
Pois em toda a natureza pressentimos um esprito ordenador, estruturante. 
Via a matria como uma espcie de inteligncia adormecida.
- Tens de explicar isso
melhor.
- Schelling via na natureza um esprito do mundo, mas
tambm via este esprito do
mundo na conscincia do homem.
Deste ponto de vista, a natureza e a conscincia humana
so na verdade expresso da
mesma coisa.
- Sim, porque no?
- Podemos procurar o esprito do mundo tanto na natureza como no nosso 
prprio esprito. Deste modo, Novalis
podia dizer que o "caminho
misterioso" conduzia ao interior. Ele achava que o homem
trazia em si todo o universo e
que por isso podia experienciar melhor o mistrio do mundo se penetrasse 
dentro de si.
-  uma ideia bonita.
- Para muitos romnticos,
a filosofia, a investigao
natural e a poesia formavam
uma unidade. Quer se estivesse no quarto de estudo e escrevesse poemas 
inspirados,
quer se investigasse a vida
das plantas ou a composio
das pedras - tratava-se apenas de duas faces da mesma moeda, porque a 
natureza no era
um mecanismo morto, mas um esprito vivo.
- Se contares mais coisas,
eu torno-me imediatamente romntica.
- O naturalista noruegus
Henrik Steffens - a quem
Wergeland chamava "desaparecida folha de louro norueguesa", por ele ter 
ido viver
para a Alemanha - foi em
1801 para Copenhaga, para
dar aulas

311
sobre o Romantismo alemo.
Ele caracterizou o movimento
romntico com as seguintes palavras: "cansados das tentativas eternas 
para forarmos o
caminho pela matria rude, escolhemos um outro caminho e
procurvamos atingir o infinito. Entrmos em ns mesmos e
crimos um novo mundo".
- Como  que sabes tudo
isso de memria?
- Uma ninharia, Sofia.
- Continua!
- Schelling via tambm um
desenvolvimento na natureza,
desde as pedras at  conscincia humana, referindo-se a
transies progressivas desde
a natureza inanimada at formas de vida mais complexas. A
viso romntica da natureza
estava marcada pela concepo
da natureza como um organismo,
ou seja, como unidade, que
atravs dos tempos desenvolve
as suas potencialidades inerentes. A natureza  como uma
flor, que desenvolve as suas
folhas e ptalas. Ou como um
poeta, que cria os seus poemas.
- Isso no faz lembrar um
pouco Aristteles?
- Sim, claro. A filosofia
romntica apresenta tanto traos aristotlicos como traos
neoplatnicos. Aristteles
tinha uma concepo mais orgnica dos processos naturais do
que os materialistas mecanicistas.
- Estou a ver.
- Tambm encontramos
ideias semelhantes numa nova
viso da histria. O filsofo
da histria Johann Gottfried Herder que viveu entre
1744 e 1803 teve uma grande
importncia para os romnticos. Segundo ele, o curso da
histria era o resultado de um
processo teleolgico. Justamente por isso designamos a
sua viso da histria como
"dinmica". Os iluministas
tinham uma viso "esttica" da
histria. Para eles, havia
apenas uma razo universal, e
que podia estar ora mais ora
menos presente, consoante as
diferentes pocas. Herder
mostrou, pelo contrrio, que
cada poca da histria tinha o
seu prprio valor, e cada povo
tinha o seu carcter especial,
a sua prpria "alma do povo".
A questo era apenas se e
como nos podamos identificar
com outros tempos e culturas.
- Da mesma maneira que nos
temos de identificar com a situao de outra pessoa para a
entendermos melhor, tambm temos de nos identificar com outras culturas 
para as conhecermos.
- Hoje, isso tornou-se
quase evidente. Mas, durante
o Romantismo, era um conhecimento novo. O Romantismo
contribuiu para fortalecer o
sentimento da identidade prpria de cada nao. No  por
acaso que tambm aqui na Noruega a luta pela independncia nacional se 
tenha desenvolvido justamente em 1814.

312
- Compreendo.
- Uma vez que o Romantismo trazia consigo uma nova
orientao em tantos domnios,
 frequente distinguir duas
formas de Romantismo. Por
Romantismo entendemos, por um
lado, aquilo a que podemos
chamar Romantismo universal. Estamos a pensar nos
romnticos que se preocupavam
com a natureza, a alma universal e o gnio artstico. Esta
forma de Romantismo foi a
primeira e floresceu sobretudo
na cidade alem de Jena por
volta do ano 1800.
- E a outra forma de Romantismo?
- Era o chamado Romantismo nacional. Surgiu um
pouco mais tarde e o seu centro era em Heidelberg. Os
romnticos nacionais interessavam-se sobretudo pela histria do povo, a 
sua lngua e
por toda a cultura "popular".
O povo tambm era visto como
um organismo que desenvolve as
capacidades que lhe so inerentes - exactamente como a
natureza e a histria.
- Diz-me com quem andas e
dir-te-ei quem s.
- Aquilo que ligava as
duas formas de romantismo era
sobretudo a palavra-chave
"organismo". Todos os romnticos viam tanto uma planta
como um povo, inclusivamente
uma obra de poesia, como um
organismo vivo. Por isso, no
h uma fronteira ntida entre
as duas formas. O esprito do
mundo estava to presente no
povo e na cultura popular como
na natureza e na arte.
- Compreendo.
- J Herder reunira canes populares de muitos pases e deu  sua 
coleco o expressivo ttulo "Vozes do povo". Ele dizia que a poesia
popular era a "lngua materna
dos povos". Em Heidelberg,
comeou-se a reunir canes
populares e contos populares.
J ouviste falar dos contos
dos Irmos Grimm?
- Claro que sim - a
"Branca de Neve", o "Capuchinho Vermelho", a "Gata
Borralheira" e "Haensel e
Gretel"...
- E muitos, muitos outros.
Na Noruega tivemos Asbjrnsen e Moe, que viajavam pelo pas, para 
recolherem
a "Poesia do povo". Era a
colheita de um fruto suculento, que se reconheceu subitamente ser 
saboroso e nutritivo. E era urgente - o fruto
j caa das rvores. Landstad recolheu canes populares e Ivar Aasen 
recolheu
por assim dizer a prpria lngua norueguesa. Tambm os mitos e as sagas 
da poca pag
foram redescobertos em meados
do sculo xix. Em toda a Europa, os compositores utilizavam canes 
populares nas suas
composies. Procuravam assim
fazer uma ponte entre a msica
erudita e a msica popular.
- Msica erudita?

313
- A msica erudita  composta por uma pessoa determinada - por exemplo, 
Beethoven. A msica popular no foi
criada por uma pessoa especfica, mas pelo prprio povo.
Por isso, tambm no sabemos
exactamente de quando  cada
cano. Do mesmo modo distinguimos contos populares e contos eruditos.
- O que significa um conto
erudito?
-  um conto que um escritor imaginou, por exemplo,
Hans Christian Andersen.
O gnero do conto foi cultivado com grande ardor pelos
romnticos. Um dos mestres
alemes foi E. T. A.
Hoffmann.
- Acho que j ouvi falar
dos "Contos de Hoffmann".
- O conto era o ideal literrio dos romnticos - mais
ou menos como o teatro era a
forma artstica do Barroco.
Dava ao escritor a possibilidade de jogar com o seu prprio poder 
criativo.
- Ele podia representar o
papel de Deus para um mundo
imaginado.
- Exacto. E agora,  necessrio uma espcie de resumo.
- Faz favor.
- Os filsofos do Romantismo compreendiam aquilo a
que chamavam "alma do mundo"
como um "eu", que cria as coisas no mundo num estado mais
ou menos de sonho. O filsofo
Johann Gottlieb Fichte
afirmou que a natureza provinha de uma actividade imaginativa elevada, 
inconsciente.
Schelling afirmava explicitamente que o mundo estava "em
Deus". Deus estaria consciente de alguma coisa, segundo ele, mas havia 
tambm aspectos da natureza que representavam o inconsciente de
Deus. Pois Deus tinha tambm uma "face obscura".
- Essa ideia  simultaneamente assustadora e fascinante. Faz-me lembrar 
Berkeley.
- A relao entre o escritor e a sua obra era vista
aproximadamente desse modo. O
conto dava ao escritor a possibilidade de jogar com a sua
imaginao criativa. E o acto
criador nem sempre era muito
consciente. O escritor podia
ter a sensao de que a histria que ele escrevia surgia de
uma fora interior. Ele quase
podia escrever como que hipnotizado.
- Sim?
- Mas em seguida tambm
podia romper a iluso de repente. Podia intervir na histria atravs de 
pequenos comentrios irnicos para o leitor, e este lembrar-se-ia de
que o conto era apenas um conto.
- Compreendo.
- Deste modo, o escritor
podia tambm fazer recordar o
leitor que a sua existncia
era fictcia. Esta forma de
destruir a iluso  designada
por ironia romntica. O dramaturgo noruegus Henrik Ibsen pe uma das 
personagens da
sua pea Peer Gynt a dizer:
"No se pode morrer no meio
do quinto acto."

314
- Compreendo que essa fala
 um pouco estranha. Com isso, ele est simultaneamente a
dizer que  apenas um personagem de fantasia.
- Esta fala  to paradoxal que devamos terminar com
ela um pargrafo.
- O que queres dizer com
isso?
- Ah, nada, Sofia. Lembras-te de que a noiva de
Novalis se chamava Sofia
como tu, e alm disso morreu
com quinze anos e quatro
dias...
- Ainda no percebeste que
eu fiquei assustada?
O olhar de Alberto endureceu. Prosseguiu:
- Tu no tens que ter medo
de vir a sofrer o mesmo destino da amada de Novalis.
- Porque no?
- Porque ainda faltam muitos captulos.
- O que ests a dizer?
- Digo que todos os que
lem a histria de Sofia e
Alberto, sentem nas pontas
dos dedos que ainda faltam
muitas pginas da histria.
Ainda s chegmos ao Romantismo.
- Estou a ficar mesmo confusa com a tua conversa.
- Na realidade, o major
tenta pr Hilde confusa. No
achas isso maldoso, Sofia?
Novo pargrafo!
Alberto no terminara ainda
a sua frase quando um rapaz
veio a correr do bosque. Trazia vestes rabes e um turbante. Tinha uma 
lamparina na
mo.
Sofia agarrou no brao de
Alberto.
- Quem  este? - perguntou.
Mas o jovem respondeu por
si mesmo.
- Eu chamo-me Aladino e
venho do Lbano.
Alberto examinou-o severamente.
- O que tens na tua lamparina, rapaz?
O rapaz esfregou a lamparina - e dela subiu um fumo espesso. Do fumo 
formou-se a
figura de um homem. Tinha uma
barba negra como a de Alberto
e trazia uma bina azul. Flutuava no ar sobre a lamparina
e disse:
- Ests a ouvir-me, Hilde? Venho certamente demasiado tarde para novas 
felicitaes. E agora quero apenas
dizer que Bjerkely e o sul da
Noruega me parecem quase um
sonho. L nos veremos dentro
de poucos dias.
A figura masculina voltou a
desaparecer em fumo - e toda
a nuvem foi sugada para dentro
da lamparina. O rapaz com o
turbante ps a lamparina debaixo do brao, correu para o
bosque e desapareceu.

315
- Isto... isto  inacreditvel. - afirmou Sofia.
- Uma bagatela, minha filha.
- O gnio falou exactamente como o pai de Hilde.
- Era o seu gnio...
- Mas...
- Eu e tu, e tudo o que
sucede  nossa volta - tudo
isso se passa no fundo da mente do major.  noite avanada
no sbado, dia 28 de Abril;
 volta do major desperto dormem todos os soldados da
ONU, e ele tambm j est
muito sonolento. Mas tem de
terminar o livro que quer oferecer a Hilde pelo seu aniversrio. Por isso 
tem de
trabalhar, Sofia, por isso o
pobre homem no tem descanso.
- Acho que desisto!
- Novo pargrafo!
Sofia e Alberto olhavam
fixamente para o pequeno lago.
Alberto estava como que petrificado. Passado um pouco,
Sofia atreveu-se a dar-lhe um
toque no ombro.
- Perdeste a fala?
- Ele interveio directamente, sim. Os ltimos captulos foram inspirados 
por ele
at s mais pequenas letras.
Devia ter vergonha. Mas assim tambm se traiu, deu-se a
conhecer completamente. Agora
sabemos que vivemos a nossa
vida num livro que o pai de
Hilde lhe envia pelos anos.
Tu ouviste o que eu disse,
no ouviste? - Apesar de na
realidade no ter sido "eu"
quem disse isso.
- Se isso  verdade, vou
tentar fugir do livro e seguir
o meu prprio caminho.
-  exactamente esse o meu
plano secreto. Mas primeiro,
temos que tentar falar com
Hilde. Ela l todas as palavras que estamos a dizer. E
quando tivermos fugido daqui
tornar-se- muito mais difcil
retomar o contacto com ela.
- O que havemos de dizer?
- Acho que o major adormece sobre a sua mquina de escrever. Os seus 
dedos percorrem ainda o teclado com uma
pressa febril.
- Um pensamento estranho.
- Mas, justamente agora,
ele pode escrever coisas de
que se venha a arrepender. E
no tem corrector, Sofia.
Este  um elemento importante
do meu plano. Ai daquele que
der ao major Albert Knag um
corrector!
- De mim ele no leva sequer papel nem corrector!
- Exorto neste momento a
pobre rapariga a rebelar-se
contra o seu pai. Ela devia
ter vergonha por se divertir
com o seu jogo ridculo de

316
sombras. Se ele estivesse
aqui, o senhor major sentiria
a nossa irritao no corpo.
- Mas ele no est aqui.
- O seu esprito e a sua
alma esto aqui, mas ele est
no Lbano. Tudo o que vemos
 nossa volta  o "eu" do major.
- Mas ele  mais do que
isso.
- Ns somos apenas sombras
na sua alma. No  fcil para
uma sombra atacar o seu mestre, Sofia. Para isso,  necessrio coragem e 
uma reflexo madura. Mas ns temos a
possibilidade de influenciar
Hilde. S um anjo se pode
insurgir contra um deus.
- Ns podemos incitar
Hilde a dizer-lhe das boas
logo que ele chegue a casa.
Ela pode dizer-lhe que acha
que ele  um trapaceiro. Pode
estragar-lhe o barco - ou
pelo menos destruir as luzes
de bordo.
Alberto acenou afirmativamente. Em seguida, disse:
- E ela pode fugir dele.
 mais fcil para ela do que
para ns. Pode deixar a casa
do major e no pr l mais os
ps. Isso seria justo para o
major, que brinca  nossa custa com a sua imaginao.
- J estou a imaginar: o
major viaja pelo mundo  procura de Hilde, mas Hilde desapareceu sem 
deixar rasto
porque no quer viver com um
pai que faz troa de Sofia e
Alberto.
- Ele faz troa, sim. Era
o que eu queria dizer com o
facto de nos utilizar como entretenimento de aniversrio.
Mas ele devia ter cuidado,
Sofia. E Hilde tambm.
- O que queres dizer?
- Ests bem sentada?
- Desde que no venham
mais gnios, sim.
- Tenta imaginar que tudo
o que vivemos se passa na
conscincia de uma outra pessoa. Ns somos essa conscincia. No temos 
uma alma prpria, somos a alma de um outro. At agora encontramo-nos
em solo filosfico familiar
Berkeley e Schelling arrebitariam as orelhas.
- Sim?
- E podemos imaginar que
esta alma  o pai de Hilde
Mller Knag. Ele est no
Lbano e escreve  filha um
livro de filosofia para o seu
aniversrio. Quando Hilde
acordar no dia 15 de Junho,
encontrar o livro na mesa de
cabeceira e ento ela e outras
pessoas podem ler sobre ns.
Ele j disse h muito tempo
que o "presente" pode ser partilhado com outros.
- Eu sei.
- E Hilde l aquilo que
te estou a dizer depois de o
pai ter estado em dada altura
no Lbano e ter imaginado que
eu te conto que ele est no
Lbano... imaginando que eu
te conto que ele est no Lbano...

317
De repente, tudo se voltou
na cabea de Sofia. Tentou
lembrar-se do que ouvira sobre
Berkeley e os romnticos. E
Alberto prosseguiu:
- Mas por isso eles no
deviam estar to convencidos.
E sobretudo no se deviam
rir, porque podem engasgar-se
com esse riso.
- Quem?
- Hilde e o pai. No 
deles que estamos a falar?
- Mas porque  que eles
no deviam estar convencidos?
- Porque no  um pensamento totalmente impossvel
eles serem tambm apenas conscincia.
- Como  que isso  possvel?
- Se era possvel para
Berkeley e para os romnticos, tambm tem de ser possvel para eles. 
Talvez o major
seja um fantasma num livro que
trata dele e de Hilde, mas
tambm de ns, que somos uma
pequena parte da sua vida.
- Isso seria ainda mais
grave. Assim, seramos apenas
sombras de sombras.
- Mas podemos pensar que
um outro autor est em algum
lado e escreve um livro que
trata deste major da ONU,
Albert Knag que escreve um
livro para a sua filha Hilde.
Este livro trata de um certo
Alberto Knox que comea subitamente a enviar modestas
lies de filosofia a Sofia
Amundsen, em Klverveien 3.
- Acreditas nisso?
- Apenas estou a dizer que
 possvel. Para ns, este
autor seria um Deus oculto,
Sofia. Apesar de tudo o que
dizemos e fazemos vir dele,
porque ns somos ele, nunca
poderemos saber algo sobre
ele. Estamos arrumados na
caixa mais interior.
Sofia e Alberto ficaram
calados muito tempo. Sofia
quebrou por fim o silncio:
- Mas se existe realmente
um escritor que imagina a histria sobre o pai de Hilde no
Lbano exactamente como imaginou a histria sobre ns...
- Sim?
- ... nesse caso podemos
pensar que ele tambm no se
devia gabar demasiado.
- O que queres dizer com
isso?
- Ele est l, e algures
no fundo da sua mente esto
Hilde e eu. Mas no se pode
imaginar que ele tambm viva
numa conscincia ainda mais
elevada?
Alberto acenou afirmativamente com a cabea.
-  evidente, Sofia.
Tambm isso  possvel. E se
 assim, ele fez-nos ter esta
conversa filosfica para indicar essa possibilidade. Assim, quer

318
sublinhar que tambm  uma
sombra indefesa e que este livro, em que Hilde e Sofia
vivem,  na realidade um manual de filosofia.
- Um manual?
- Porque todas as conversas que tivemos, todos os dilogos, Sofia.
- Sim?
- So na realidade um monlogo.
- Agora, tenho a sensao
de que tudo se dissolve em
conscincia e em esprito.
Estou contente por ainda haver alguns filsofos. A filosofia, que comeou 
to bem com
Tales, Empdocles e
Demcrito, no pode encalhar
aqui?
- Claro que no. Eu vou
falar-te de Hegel. Foi o
primeiro filsofo que tentou
salvar a filosofia depois de o
Romantismo ter dissolvido
tudo em esprito.
- Estou ansiosa.
- Para no sermos interrompidos por outros gnios ou
sombras, vamos para dentro,
est bem?
- Est um pouco frio, de
qualquer modo.
- Prximo captulo!

319

Hegel

... o que  racional 
real...

Hilde deixou cair o grande
dossier no cho com um estampido. Ficou deitada na
cama e a olhar fixamente para
o tecto. Tudo parecia andar 
roda. O seu pai tinha conseguido efectivamente que ela
ficasse tonta. Que pirata!
Como  que ele podia fazer
isto?
Sofia tinha tentado falar
directamente com ela. Exortara Hilde a rebelar-se contra
o pai. E tinha realmente conseguido inculcar uma ideia em
Hilde. Um plano...
Sofia e Alberto no podiam
tocar num cabelo do seu pai,
isso era claro. Mas Hilde
podia! E atravs de Hilde,
Sofia tambm.
Hilde estava de acordo com
Sofia e Alberto no facto de
o seu pai ter ido longe demais
com o jogo das sombras. Apesar de ter concebido Sofia e
Alberto, havia limites para a
demonstrao do seu poder.
Pobre Sofia, pobre Alberto! Estavam to indefesos em
relao  fantasia do pai de
Hilde como uma tela est indefesa em relao ao projec-
cionista.
Hilde queria dar-lhe um
raspanete quando ele chegasse
a casa. Em contornos ntidos,
ela via nesse mesmo instante o
esboo de um golpe astuto.
Foi para a janela e olhou
para a enseada. Eram quase
duas horas. Abriu a janela e
gritou em direco ao barraco
dos barcos:
- Me!
Pouco depois, a me apareceu.
- Daqui a uma hora levo-te
umas sanduches. Est tudo
bem?
- Sim.
- Ainda tenho que ler um
pouco sobre Hegel.

Sofia e Alberto sentaram-
-se na poltrona em frente 
janela que dava para o pequeno
lago.

320
- Georg Wilhelm Friedrich Hegel era um verdadeiro
filho do Romantismo - comeou Alberto. - Quase podes
dizer que ele seguiu fielmente
o desenvolvimento do esprito
alemo. Nasceu em Estugarda
em 1770 e iniciou um curso de
teologia em Tubinga com dezoito anos. A partir de 1799
trabalhou com Schelling em
Iena, onde o movimento romntico estava no apogeu. Depois
de ter sido docente em Iena,
recebeu uma ctedra em Heidelberg - o centro do Romantismo nacional 
alemo. Finalmente, tornou-se professor em
Berlim em 1818 - exactamente na poca em que esta cidade
comeava a tornar-se um centro
espiritual da Europa. Em
Novembro de 1831, morreu de
clera, mas nessa altura o
"hegelianismo" j tinha grupos
de discpulos em quase todas
as universidades alems.
- Ento ele apanhou o
principal.
- Sim, e isso tambm  vlido para a sua filosofia.
Hegel uniu nela quase todas
as ideias que se tinham desenvolvido com os romnticos e
sintetizou-as. Mas ele era
tambm um forte crtico da filosofia de Schelling, por
exemplo.
- O que  que criticou nela?
- Schelling e os outros
romnticos tinham visto o mais
profundo fundamento da realidade no chamado esprito do
mundo. Hegel tambm emprega o
conceito "Weltgeist", mas
d-lhe outro significado.
Quando Hegel fala de esprito do mundo ou de "razo do
mundo", quer dizer a soma de
todas as manifestaes humanas, pois s o homem tem esprito. Nesta 
acepo, ele tambm fala do percurso do esprito do mundo atravs da 
histria. No podemos esquecer
que ele fala da vida, dos pensamentos e da cultura dos homens.
- Ento este esprito 
menos assustador. J no est
 espreita como uma inteligncia adormecida em pedras e rvores.
- E tu sabes ainda que
Kant tinha falado da "coisa
em si". Apesar de negar que
os homens pudessem ter um conhecimento claro dos segredos
mais ntimos da natureza, ele
apontou para uma espcie de
verdade inatingvel. Segundo
Hegel, esta verdade era fundamentalmente subjectiva - e
negou que pudesse haver uma
verdade acima ou alm da razo
humana. Todo o conhecimento 
conhecimento humano.
- Ele queria trazer a filosofia de volta  terra?
- Sim, talvez possas dizer
isso. Mas a filosofia de Hegel  to abrangente e diversificada que temos 
de nos contentar por agora com a clarificao de alguns dos pontos
mais importantes.  difcil
dizermos que Hegel tinha uma
filosofia prpria. Aquilo a
que chamamos a filosofia de
Hegel  sobretudo um mtodo
para compreender a evoluo da
histria. Por isso, quase no
podemos falar sobre Hegel sem
mencionarmos

321
a evoluo da histria. A filosofia de Hegel no nos ensina realmente 
nada sobre a
"natureza profunda da vida",
mas pode ensinar-nos a pensar
de um modo frutfero.
- E isso tambm  muito
importante.
- Todos os sistemas filosficos anteriores a Hegel
tinham tentado estabelecer
critrios eternos para aquilo
que o homem pode saber acerca
do mundo. Isso sucede em
Descartes e Espinosa, Hume
e Kant. Qualquer deles queria investigar qual era o fundamento de todo o 
conhecimento
humano. Mas todos tinham falado sobre os pressupostos intemporais para o 
conhecimento
do mundo.
- No  esse o dever do
filsofo?
- Hegel achava impossvel
encontrar esses pressupostos
intemporais. Segundo ele, as
bases do conhecimento humano
mudam de gerao para gerao.
Por isso, tambm no h para
ele "verdades eternas". No
h razo intemporal. O nico
ponto fixo em que o filsofo
se pode basear  a prpria
histria.
- No, tens de me explicar
isso. A histria altera-se
constantemente, como  que pode ser um ponto fixo?
- Um rio tambm se altera
constantemente. Mas isso no
significa que no possas falar
sobre esse rio. Mas no podes
perguntar em que parte do vale
o rio  mais verdadeiro.
- No, porque o rio  em
toda a parte igualmente rio.
- Para Hegel, a histria
era como o curso de um rio. O
mais pequeno movimento na gua
num ponto determinado do rio 
na realidade determinado pela
queda da gua e pela agitao
da gua mais acima. Mas tambm  importante que pedras e
curvas h no rio no ponto em
que tu ests e o observas.
- Acho que estou a perceber.
- A histria do pensamento
- ou da razo -  como o
curso desse rio. Contm todas
as ideias que geraes de pessoas pensaram antes de ti e
que determinam o teu pensamento do mesmo modo que as condies de vida da 
tua poca.
Por isso, no podes afirmar
que uma determinada ideia 
eternamente verdadeira. Mas
essa ideia pode ser verdadeira
onde tu ests.
- Mas isso no significa
que tudo  falso - ou que tudo  verdadeiro, pois no?
- No, uma coisa s pode
ser verdadeira ou falsa em relao a um contexto histrico.
Se argumentas a favor da escravatura no ano de 1990 tornas-te ridcula, 
na melhor das
hipteses. H dois mil e quinhentos anos no era to ridculo, apesar de 
j nessa poca
haver vozes progressistas que
defendiam a abolio da escravatura. Mas podemos

322
tomar um exemplo mais prximo.
H apenas cem anos ainda no
era irracional queimar extensas reas de floresta para se
obter terreno arvel. Mas hoje  extremamente irracional.
Ns temos condies completamente diferentes - e melhores
- para julgarmos.
- Agora compreendi.
- Tambm a razo, diz
Hegel,  algo dinmico,  um
processo. E a "verdade" 
apenas este processo. No h
critrios exteriores ao processo histrico que possam decidir o que  
mais verdadeiro
ou racional.
- Exemplos, por favor.
- No podes examinar diversas ideias da Antiguidade
ou da Idade Mdia, do Renascimento ou do Iluminismo e
dizer que isto estava certo e
aquilo errado. Por isso, tambm no podes dizer que Plato estava errado 
ou que
Aristteles tinha razo.
Tambm no podes dizer que
Hume estava errado enquanto
Kant ou Schelling tinham razo. Isso  um modo de pensar
anti-histrico.
- Pois, no me parece bem.
- No podes arrancar nenhuma filosofia nem nenhuma
ideia do seu contexto histrico. Mas, e agora estou a falar de um aspecto 
novo, uma
vez que os homens compreendem
sempre coisas novas, a razo 
"progressiva". Significa que
o conhecimento humano est
constantemente em expanso e
em progresso.
- Assim, a filosofia de
Kant seria um pouco mais correcta do que a de Plato?
- Sim. O "esprito do
mundo" desenvolveu-se no tempo
que medeia entre Plato e
Kant. Se regressarmos  nossa imagem do rio podes dizer
que agora leva mais gua. Entre as duas pocas passaram
mais de dois mil anos. Kant
no pode pretender que as suas
"verdades" fiquem na margem
como pedras imveis. As suas
ideias tambm no so a ltima
concluso da sabedoria e a gerao seguinte critic-las-ia
seriamente. Foi exactamente o
que se passou.
- Mas este rio do qual ests a falar...
- Sim?
- Para onde corre?
- Hegel explicou que o esprito tem cada vez mais conscincia de si 
mesmo. Os rios
so cada vez mais largos quanto mais se aproximam do mar.
Segundo Hegel, na histria,
o esprito do mundo desperta
lentamente para a conscincia
de si mesmo. O mundo existiu
sempre, mas, atravs da cultura e do desenvolvimento do homem, o esprito 
fica cada vez
mais consciente do seu valor
intrnseco.
- Como  que ele podia ter
tanta certeza disso?

323
- Para ele era uma realidade histrica, no era de
modo algum uma mera profecia.
Para quem estuda a histria,
segundo ele, torna-se claro
que a humanidade caminha em
direco a um autoconhecimento
e a um autodesenvolvimento cada vez maiores. A histria
mostra um inequvoco desenvolvimento no sentido de uma racionalidade e 
liberdade progressivamente maiores. Naturalmente, tem todo o tipo de
hesitaes, mas em geral avana de modo imparvel. Para
Hegel, a histria dirige-se a
um fim.
- Ento estamos sempre a
desenvolver-nos. Que bom,
nesse caso ainda h esperana.
- A histria  para Hegel
uma longa cadeia de pensamentos, cujos elos no se ajustam
ao acaso, mas segundo leis determinadas. Quem estuda a
histria pormenorizadamente
h-de reparar que geralmente
uma nova ideia  exposta com
base noutra anteriormente expressa. Mas se uma nova ideia
 apresentada, ser forosamente contestada por outra
nova ideia. Deste modo, surgem duas formas de pensar
opostas e entre elas uma tenso. Esta tenso  superada
quando uma terceira ideia que
preserva o melhor dos dois
pontos de vista precedentes 
apresentada. Hegel chama a
isto o processo dialctico.
- Tens um exemplo?
- Talvez ainda te lembres
que os pre-socrticos tinham
discutido a questo do elemento primordial e do devir.
- Sim.
- E os eleatas declararam
que qualquer transformao era
impossvel. Por isso, tinham
de negar todas as alteraes,
mesmo que as sentissem com os
sentidos. Os eleatas tinham
exposto uma perspectiva, e
Hegel chama a essa perspectiva uma tese.
- Sim?
- Mas cada vez que uma
perspectiva  apresentada,
surge uma perspectiva contrria. Hegel chama-lhe negao. A negao da 
filosofia
dos eleatas era a filosofia de
Heraclito, que afirmava que
"tudo flui". Surgiu ento uma
tenso entre duas formas de
pensar diametralmente opostas.
Mas esta tenso foi "suprimida" quando Empdocles afirmou
que ambos estavam parcialmente
certos e parcialmente errados.
- Sim, comeo a compreender...
- Os eleatas tinham razo
em dizer que por princpio nada se altera; mas no era verdade que no 
podemos confiar
nos nossos sentidos. Heraclito tinha razo ao dizer que
podemos confiar nos nossos
sentidos; mas no tinha razo
ao dizer que tudo flui.
- Porque existe mais do
que um elemento primordial. A
composio altera-se, mas os
elementos no.

324
- Exacto. O ponto de vista de Empdocles, que medeia
entre os pontos de vista opostos,  designado por Hegel a
negao da negao.
- Meu Deus!
- Ele tambm chamava aos
trs estdios do conhecimento
tese, anttese e sntese.
Podes dizer que o racionalismo de Descartes  a tese - o
qual foi depois criticado pela
anttese emprica de Hume.
Mas esta oposio, a tenso
entre duas formas de pensamento opostas foi superada pela
sntese de Kant. Kant deu
razo por um lado aos racionalistas, por outro aos empiristas. Ele 
mostrou tambm que
ambos estavam errados em pontos importantes. Mas a histria no termina 
com Kant. A
sntese de Kant tornou-se o
ponto de partida para uma nova
cadeia de pensamentos tripartida ou "trade". Porque a
sntese tambm se torno tese e
segue-se uma nova anttese.
- Mas isso  extremamente
terico.
- Sim,  terico. Mesmo
que isto parea verdade, Hegel no queria de modo algum
espartilhar a histria num esquema. Ele achava poder retirar este modelo 
dialctico da
prpria histria. Estava fortemente convicto de ter encontrado leis para 
o desenvolvimento da razo - ou para a
evoluo do esprito atravs
da histria.
- Compreendo.
- Mas a dialctica de Hegel no se aplica apenas 
histria. Mesmo quando discutimos - ou debatemos - pensamos 
dialecticamente. Tentamos detectar os erros de uma
forma de pensar. Hegel chamou-lhe "pensamento negativo".
Mas quando tivermos descoberto os erros de uma forma de
pensar conservamos ainda o que
estava correcto nela.
- Exemplos, por favor!
- Quando um socialista e
um conservador se renem para
resolver um problema social,
ser logo patente uma tenso
entre ambas as maneiras de
pensar. Mas isso no quer dizer que um tem toda a razo e
o outro est completamente errado.  perfeitamente pensvel que ambos 
estejam parcialmente certos e parcialmente
errados. No decurso da discusso conservar-se-o, se
eles so inteligentes, os melhores argumentos de ambos os
lados.
- Esperemos que sim.
- Se estamos no meio de
uma discusso destas, infelizmente nem sempre  fcil verificar o que  
mais racional.
No fundo,  a histria que
tem de mostrar o que  verdadeiro e o que  falso. O que
 racional  real, segundo
Hegel.
- Isso quer dizer que o
que sobrevive est certo?
- Ou ao contrrio: o que
est certo sobrevive.

325
- No tens um pequeno
exemplo? Isso parece tudo to
abstracto.
- H cento e cinquenta
anos muitos lutavam pela
igualdade de direitos para as
mulheres. E muitos lutavam
encarniadamente contra a
igualdade. Se hoje examinarmos os argumentos de ambos os
lados, no  difcil reconhecer quais eram os mais racionais. Mas no 
podemos esquecer que posteriormente sabemos
sempre mais. Provou-se que
aqueles que lutaram pela
igualdade de direitos tinham
razo. Muitas pessoas teriam
certamente vergonha se tivessem de ler o que o seu av
disse acerca deste tema.
- Sim, percebo. O que 
que Hegel achava?
- Sobre a igualdade?
- Sim, no  disso que estamos a falar?
- Queres ouvir uma citao?
- Sim.
- "A diferena entre homem
e mulher  a mesma que entre o
animal e a planta" - escreveu
ele. "O animal corresponde
mais ao carcter do homem, a
planta mais ao da mulher, pois
o seu desenvolvimento  mais
tranquilo, e o princpio que
lhe est subjacente  sobretudo a unidade indeterminada do
sentimento. Se as mulheres
esto no topo do poder, o governo est em perigo, porque
elas no agem de acordo com as
exigncias da universalidade,
mas de acordo com uma inclinao e opinio arbitrrias. A
formao das mulheres d-se,
por assim dizer, na atmosfera
da imaginao, mais atravs da
vida do que da aquisio de
conhecimentos. Enquanto o homem atinge o seu lugar apenas
atravs da aquisio das
ideias e de muito empenho tcnico."
- Obrigada, j chega.
Prefiro no ouvir mais citaes dessas.
- Mas a citao  um exemplo brilhante de que a nossa
noo do que  "racional" se
altera constantemente. Mostra
tambm que Hegel era um filho
do seu tempo - tal como ns.
Muito do que nos parece hoje
"evidente" no passar o teste
da histria.
- Tens um exemplo?
- No, no tenho.
- Porque no?
- Porque eu apenas poderia
falar do que j est em vias
de transformao. Eu no poderia, por exemplo, dizer que
andar de carro ser tido um
dia como algo terrivelmente
estpido porque destri a natureza. Hoje, j muita gente
pensa assim. Por isso, seria
um mau exemplo. Mas a histria vai mostrar que muito do
que todos ns temos por evidente no passar o teste da
histria.
- Compreendo.

326
- E podemos reparar ainda
noutra coisa: o facto de os
homens no tempo de Hegel fazerem estas afirmaes extremas sobre a 
inferioridade da
mulher apenas acelerou o desenvolvimento do feminismo.
- Como assim?
- Os homens apresentaram
- como teria dito Hegel -
uma tese. A razo pela qual
eles achavam isso importante
era obviamente o facto de as
mulheres j terem comeado a
insurgir-se. No  preciso
ter uma opinio to decidida
sobre uma coisa com a qual todos esto de acordo. Quanto
mais eles discriminavam as mulheres, mais forte se tornava
a anttese ou negao.
- Acho que estou a compreender.
- Podes dizer que adversrios enrgicos so o melhor
que pode acontecer a uma
ideia. Quanto mais extremistas melhor, porque mais forte
ser a reaco a que tero de
fazer face. Sob o ponto de
vista puramente lgico ou filosfico existe tambm uma
tenso dialctica entre dois
conceitos.
- Exemplos, por favor!
- Quando reflicto sobre o
conceito "ser", tenho tambm
que introduzir o conceito
oposto "no-ser".  impossvel pensarmos que existimos
sem nos lembrarmos em seguida
que no existiremos sempre. A
tenso entre "ser" e "no-ser"
 resolvida no conceito "devir". O processo do devir
significa de certo modo que
uma coisa  e no .
- Compreendo.
- A razo de Hegel  uma
razo dinmica. Uma vez que a
realidade  caracterizada por
antteses, uma descrio da
realidade tambm tem que ser
contraditria. Vou dar-te um
exemplo: diz-se que o fsico
dinamarqus Niels Bohr
pendurou uma ferradura sobre a
porta da sua casa.
- Diz-se que traz sorte.
- Mas isso  apenas superstio, e Niels Bohr era
de facto tudo menos supersticioso. Quando, certa vez, um
amigo o visitou, perguntou-
-lhe: - "No acreditas numa
coisa dessas, pois no?".
"No", respondeu Niels
Bohr, "mas disseram-me que
resulta".
- No tenho palavras.
- A resposta foi bastante
dialctica; alguns diriam que
 contraditria. Niels Bobr
era conhecido, bem como o poeta noruegus Vinje, por uma
viso dialctica do mundo.
Ele afirmou certa vez que
existem dois tipos de verdade,
as superficiais, cuja anttese
era incontestavelmente falsa,
mas tambm as profundas, cuja
anttese era to verdadeira
como elas prprias.
- Que tipo de verdades
eram essas?

327
- Se, por exemplo, digo
que a vida  curta...
- Eu estou de acordo.
- Numa outra ocasio posso
abrir os braos e dizer que a
vida  longa.
- Tens razo. De certo
modo, tambm  verdade.
- Para terminar vou dar-te
ainda um exemplo de como uma
tenso dialctica pode provocar uma aco espontnea que
leva a uma mudana sbita.
- Diz!
- Imagina uma rapariga que
diz sempre: "Sim, mam",
"Claro, mam", "Como queiras, mam", "Sim, vou j fazer isso, mam!".
- Sinto um calafrio nas
costas.
- Certo dia, a me irrita-se por a filha ser sempre
to obediente e grita enervada: "No sejas to obediente!", e a filha 
responde:
"Sim, mam!"
- Nesse caso, eu dava-lhe
uma bofetada.
- , no ? Mas o que farias se ela tivesse respondido: "No, eu quero 
ser obediente".
- Seria uma resposta estranha. Talvez lhe desse 
mesma uma bofetada.
- Por outras palavras, estamos num impasse. A tenso
dialctica agravou-se tanto
que tem de haver uma mudana.
- Referes-te  bofetada?
- Temos de mencionar ainda
um ltimo aspecto da filosofia
de Hegel.
- Sou toda ouvidos.
- Lembras-te que caracterizmos os romnticos como individualistas?
- O caminho misterioso
conduz ao interior.
- Justamente este individualismo encontrava na filosofia de Hegel a sua 
"negao".
Hegel dava um grande peso
quilo a que chamava "poderes
objectivos", isto , a famlia
e o Estado. Podes dizer que
Hegel no perdeu o indivduo
de vista; apenas o via sobretudo como um elemento orgnico
da comunidade. A razo, ou o
esprito, so visveis sobretudo na colaborao entre homens, segundo 
Hegel.
- Explica-te!
- A razo manifesta-se sobretudo na lngua. E a lngua
 algo no qual nascemos. A
lngua norueguesa passa bem
sem o senhor Hansen, mas o
senhor Hansen no pode viver
sem a lngua norueguesa. No
 o indivduo que forma a lngua, mas a lngua que forma o
indivduo.
- Sim, podes dizer isso.

328
- Assim como o indivduo
nasce numa lngua, tambm nasce no seu contexto histrico.
E ningum tem uma relao
"livre" com esse contexto.
Quem no encontra o seu lugar
no Estado  uma pessoa anti-histrica. Talvez te lembres ainda que esta 
ideia tambm era importante para os
grandes filsofos de Atenas.
O Estado  to inconcebvel
sem cidados como os cidados
sem o Estado.
- Compreendo.
- Para Hegel, o Estado 
"mais" do que o cidado individual. E  mais do que a soma de todos os 
cidados. Hegel acha impossvel que algum
se despea, por assim dizer,
da sociedade. Quem encolhe os
ombros em relao  sociedade
em que vive e prefere "encontrar-se a si mesmo" , segundo
ele, um louco.
- No sei se estou de
acordo, mas est bem.
- Para Hegel, no  o indivduo que se encontra a si
mesmo, mas o esprito.
- O esprito encontra-se a
si mesmo?
- Hegel tentou mostrar que
o esprito regressa a si em
trs estdios, ou seja, torna-se consciente de si mesmo
em trs estdios.
- Continua!
- Em primeiro lugar, o esprito toma conscincia de si
no indivduo, o que Hegel designa esprito subjectivo.
O esprito atinge uma conscincia mais elevada de si na
famlia, na sociedade, e no
Estado, que Hegel designa
por esprito objectivo, porque  uma razo que se manifesta na 
interaco entre os
homens. Mas h ainda um terceiro estdio...
- Estou ansiosa.
- A forma mais elevada de
autoconhecimento  atingida
pelo esprito no esprito absoluto. E este esprito absoluto  a arte, 
a religio e
a filosofia. Dentre estas, a
filosofia  a forma mais elevada da razo, pois na filosofia o esprito 
reflecte sobre
o seu papel na histria. S
na filosofia  que o esprito
se encontra a si mesmo. Deste
ponto de vista, poderamos dizer que a filosofia  o espelho do esprito.
- Isso parece to misterioso que tenho que assimil-
-lo com calma. Mas a ltima
coisa que disseste agradou-me.
- Eu disse que a filosofia
 o espelho do esprito.
- Isso  bonito. Achas
que isso tem alguma coisa a
ver com o espelho de lato?
- Sim, j que perguntas.
- O que queres dizer com
isso?
- Eu penso que este espelho de lato tem uma importncia especial, uma 
vez que est
sempre a vir  baila.
- Ento tambm tens uma
ideia de qual  a importncia
dele?

329
- No, no. Eu apenas
disse que o espelho no seria
mencionado tantas vezes se no
tivesse uma importncia especial para Hilde e o seu pai.
Mas s Hilde pode revelar
qual  a sua importncia.
- Isto foi ironia romntica?
-  uma pergunta sem esperana, Sofia.
- Porqu?
- Ns no podemos ser irnicos. Somos vtimas indefesas dessa ironia. 
Quando uma
criana desenha alguma coisa
numa folha de papel, no podes
perguntar ao papel o que representa o desenho.
- Deixas-me arrepiada.

330
KIERKEGAARD

... a Europa est a caminho
da bancarrota...

Hilde olhou para o relgio.
J passava das quatro. Ps o
dossier na escrivaninha e
desceu a correr para a cozinha. Tinha de ir para o barraco dos barcos 
com as sanduches antes que a me desistisse de esperar. Ao sair,
lanou um olhar ao espelho de
lato.
Com toda a pressa, ps ao
lume a gua para o ch e barrou alguns pes.
Sim, havia de pregar uma
partida ao pai. Hilde via-se
cada vez mais como aliada de
Sofia e Alberto. Ele j devia estar a partir de
Copenhaga...
Desceu para o barraco com
um grande tabuleiro nas mos.
- Faa favor, a refeio!
A me tinha um grande pedao de lixa na mo. Limpou da
fronte os cabelos, cinzentos
devido ao p de esmeril.
- Mas assim, saltamos o
almoo.
Sentaram-se na doca e comeram.
- Quando  que chega o
pai? - perguntou Hilde passado um pouco.
- No sbado. Mas tu sabes
isso.
- Mas quando? No disseste que ele tem de fazer transbordo em Copenhaga?
- Sim...
A me mastigava uma sanduche com chourio e pepino.
- ... ele chega a
Copenhaga por volta das cinco. O avio parte em seguida
s oito e um quarto para
Kristiansand. Acho que ele
chega s nove e meia.
- Ento fica algumas horas
em Copenhaga.
- Sim. Porqu?
- Ah... eu s queria saber
qual era o percurso.
Continuaram a comer.
Quando Hilde achou que j
tinha passado tempo suficiente, perguntou:
- Tens ouvido falar de
Anne e Ole ultimamente?

331
- Sim, s vezes telefonam.
Vm c em Julho, de frias.
- No vm antes disso?
- No, acho que no.
- Ento esto em
Copenhaga esta semana...
- Hilde, o que  que se
passa?
- Nada. Sobre alguma coisa temos que falar.
- Mas j falaste duas vezes sobre Copenhaga.
- A srio?
- Falmos sobre o facto de
o pai passar por l...
- E depois lembrei-me de
Anne e Ole de repente.
Depois de terem comido,
Hilde colocou os pratos e as
chvenas no tabuleiro.
- Tenho de continuar a
ler, mam...
- Suponho que sim...
Haveria nesta resposta uma
ligeira censura? Tinham dito
que queriam ter o barco preparado at ao regresso do pai.
- O pai quase me fez prometer que eu teria o livro
terminado quando ele chegasse.
- No sei se acho isso
bem. Uma coisa  ele estar
fora tantas vezes, mas dirigir
ao longe tudo o que se passa
aqui em casa...
- Se tu soubesses tudo o
que ele dirige - disse Hilde
misteriosamente. - E nem podes calcular como ele gosta
disso.
Foi para o quarto e continuou a ler.

Sofia ouviu algum bater 
porta. Alberto lanou-lhe um
olhar severo. - No queremos
ser incomodados.
Bateram com mais fora.
- Vou falar-te sobre um
filsofo dinamarqus que se
irritou muito com a filosofia
de Hegel - disse Alberto.
Mas estavam a bater com
tanta fora que a porta tremia.
-  bvio que o major nos
enviou de novo alguma personagem fantstica para ver se
camos na armadilha - explicou Alberto. - No lhe custa nada.
- Mas se no abrirmos e
virmos quem , tambm no lhe
custa nada deitar a casa abaixo.
- Talvez tenhas razo.
Vamos abrir.
Foram  porta. Uma vez que
tinham batido com tanta fora,
Sofia esperava uma pessoa
grande. Mas l fora estava
uma rapariga novita com um
vestido florido e cabelos loiros compridos. Tinha duas pequenas garrafas 
nas mos. Uma
era vermelha, a outra azul.

332
- Ol - disse Sofia -
quem s tu?
- Eu chamo-me Alice -
disse a rapariga, e fez uma
mesura acanhada.
- J estava  espera -
afirmou Alberto. -  a
Alice no Pas das
Maravilhas.
- Mas como  que ela encontrou o caminho?
Alice respondeu por Sofia:
- O Pas das Maravilhas
 um pas totalmente ilimitado. Significa que est em
toda a parte - mais ou menos
como a ONU. O Pas das
Maravilhas devia por isso
tornar-se scio honorrio da
ONU. Devamos ter representantes prprios em todas as
comisses.
- Ah, aquele major! -
disse Alberto, sorridente.
- O que te traz aqui? -
perguntou Sofia.
- Tenho de entregar estas
garrafas de filosofia.
E entregou a Sofia as pequenas garrafas. Ambas eram
de vidro brilhante, mas numa
encontrava-se um lquido vermelho, na outra um lquido
azul. Na garrafa vermelha estava escrito: BEBE-ME!, na
azul: BEBE-ME TAMBM!
Em seguida, passou um coelho branco a correr pela cabana. Andava direito 
sobre as
patas traseiras e trazia colete e casaco. Em frente da cabana, tirou um 
relgio do bolso do colete e disse:
- No, agora estou demasiado atrasado.
Depois, desatou a correr.
Alice correu atrs dele. Ao
afastar-se, fez mais uma vnia
e disse:
- L comea tudo de novo!
- Tens de cumprimentar
Dina e a rainha! - gritou-lhe Sofia.
E Alice desapareceu.
Alberto e Sofia ficaram parados na escada e observaram
as garrafas.
- BEBE-ME! E BEBE-ME
TAMBM! - leu Sofia alto.
- No sei se me atrevo. Se
calhar  veneno.
Alberto encolheu os ombros.
- As garrafas vm do major, e tudo o que vem do major
 apenas conscincia.  apenas sumo imaginrio.
Sofia tirou a rolha da garrafa vermelha e levou-a  boca
com cuidado. O sumo tinha um
sabor doce e estranho.
Imediatamente, aconteceu algo
com o mundo  sua volta: primeiro, as imagens do lago, do
bosque e da cabana pareciam
convergir. Em seguida, Sofia
julgou estar a ver apenas uma
pessoa e esta pessoa era ela
prpria. Quando finalmente
olhou para Alberto, este tambm parecia ter-se tornado uma
parte de si mesma.
- Que estranho - afirmou.
- De repente, tudo o que eu
vejo parece estar relacionado.

333
Tenho a sensao de que tudo
 apenas uma conscincia.
Alberto acenou afirmativamente - mas Sofia teve a
sensao de estar a acenar
para si mesma.
- Isso  o pantesmo ou a
filosofia da unidade - disse
Alberto. -  o esprito dos
romnticos. Eles viram tudo
como um nico grande "eu".
Tambm  Hegel - que por um
lado no descurou o indivduo,
e por outro lado entendia tudo
como expresso de uma razo
universal.
- Ser que devo beber da
outra garrafa?
-  o que est escrito.
Sofia tirou a rolha da garrafa azul e bebeu um grande
gole. Este sumo tinha um sabor mais fresco e amargo do
que o vermelho, mas tambm se
deu uma mudana sbita com
tudo  sua volta: num segundo
desapareceu o efeito da bebida
vermelha; e tudo voltou ao lugar. Alberto era de novo
Alberto, as rvores eram de
novo rvores e a gua parecia
de novo um lago. Isso durou
apenas um segundo, e em seguida tudo o que Sofia via deslizou afastando-
se. O bosque
j no era um bosque, a mais
pequena rvore parecia-lhe um
mundo  parte, o mais pequeno
ramo um conto sobre o qual se
podiam contar mil histrias.
O pequeno lago parecia-lhe um
mar infinito - no por ser
muito fundo ou extenso, mas
devido aos seus milhares de
pontos cintilantes e formas
variadas de ondas. Sofia compreendeu que podia observar
este mar at ao resto da sua
vida - e contudo ele havia de
lhe parecer sempre um mistrio
insondvel.
Sofia elevou o olhar em direco  copa de uma rvore.
A, trs pequenos pardais faziam um jogo divertido. J
estavam na rvore quando
Sofia bebera da garrafa vermelha, mas Sofia no os tinha
visto bem. A garrafa vermelha
tinha apagado todos os contrastes e todas as diferenas
individuais.
Sofia desceu da laje sobre
a qual estava e ajoelhou-se na
relva. E a encontrou um novo
mundo - mais ou menos como se
tivesse mergulhado e abrisse
os olhos no fundo do mar pela
primeira vez. Entre tufos de
relva e caules de plantas formigavam seres vivos. Sofia
viu uma aranha que se arrastava pelo musgo com energia e
segurana, um pulgo vermelho
que corria para cima e para
baixo numa haste, e todo um
exrcito de formigas trabalhando em conjunto. Mas cada
formiga movia as pernas  sua
maneira.
O mais estranho sucedeu
quando Sofia se levantou e
olhou para Alberto, que ainda
estava  soleira da porta. De
repente, viu nele um ser completamente estranho, qualquer
coisa como um homem de um outro planeta - ou como uma figura encantada de 
um conto de
fadas. E viu-se tambm como

334
um indivduo nico: no era
apenas uma pessoa, no era
apenas uma rapariga de quinze
anos - era Sofia Amundsen,
e s ela o era!
- O que ests a ver? -
perguntou Alberto.
- Vejo que s um pssaro
estranho.
- A srio?
- Acho que nunca vou compreender como  ser uma outra
pessoa. No h duas pessoas
iguais em todo o mundo.
- E o bosque?
- J no parece o mesmo.
 todo um universo de contos
fantsticos.
- Era o que eu suspeitava.
A garrafa azul  o individualismo. Foi a reaco de
Sren Kierkegaard ao idealismo dos romnticos. O contista Hans Christian
Andersen no foi contemporneo de Kierkegaard por acaso.
Ele tinha o mesmo olho apurado para a infinita riqueza de
pormenores da natureza.
Leibniz j o possura cem
anos antes e reagiu  filosofia da unidade de Espinosa
tal como Kierkegaard a
Hegel.
- Estou a ouvir o que dizes, mas soa to estranho que
tenho vontade de rir.
- Compreendo. Nesse caso
bebe um gole da garrafa vermelha. E depois sentamo-nos
aqui na escada. Temos de dizer alguma coisa sobre
Kierkegaard antes de terminarmos por hoje.
Sentaram-se e Sofia bebeu
um gole da garrafa vermelha.
As coisas confluram de novo,
inclusivamente um pouco demais, pois Sofia tinha novamente a sensao de 
que nenhuma diferena tinha qualquer
importncia. Tocou no gargalo
da garrafa azul com a lngua e
o mundo ficou mais ou menos
como estava antes de Alice
ter trazido as garrafas.
- Mas isto  verdadeiro?
- perguntou ento Sofia. -
 a garrafa vermelha ou a
azul que nos proporciona a
verdadeira experincia do que
o mundo  na realidade?
- Ambas, Sofia. No podemos dizer que os romnticos
estavam errados. Mas talvez
fossem um pouco parciais.
- E a garrafa azul?
- Acho que Kierkegaard
deve ter bebido alguns fortes
goles dessa. Ele tinha um
olho extremamente apurado para
o significado do indivduo.
Mas ns tambm no somos apenas "filhos do nosso tempo".
Cada um de ns  igualmente
um indivduo nico que apenas
vive uma vez.
- Aparentemente, Hegel
no estava particularmente interessado nisso?
- No, ele preocupava-se
sobretudo com as grandes linhas da histria. E foi justamente isso que 
irritou
Kierkegaard. Ele achou que a
filosofia da unidade dos romnticos e o historicismo de
Hegel tinham retirado ao

335
indivduo a responsabilidade
pela sua prpria vida. Para
Kierkegaard, Hegel e os romnticos eram talhados exactamente na mesma 
pedra.
- Consigo compreender que
ele se tenha irritado.
- Sren Kierkegaard nasceu em 1813 em Copenhaga e
foi educado pelo pai de uma
forma muito severa. Dele herdou tambm a melancolia religiosa.
- Isso no  bom.
- No. Devido a melancolias, sentiu-se forado a romper um noivado quando 
era jovem, o que no foi nada bem
aceite pela burguesia de
Copenhaga. Ele tornou-se
muito cedo uma pessoa excluda
e escarnecida. Bom, com o
tempo, aprendeu a reagir. Com
o tempo, tornou-se aquilo que
Ibsen descreveu mais tarde
como "inimigo do povo".
- Tudo isso por causa de
um noivado desfeito?
- No, no apenas por
isso. Sobretudo por volta do
final da sua vida, tornou-se
um crtico cada vez mais acrrimo de toda a cultura europeia. Ele achava 
que a
Europa estava a caminho da
bancarrota. Julgava viver
numa poca sem paixo nem empenho, e vociferava contra a
atitude tbia e desleixada da
Igreja. A sua crtica ao
chamado "Cristianismo de domingo" era tudo menos delicada.
- Hoje devamos falar antes de "Cristianismo do crisma". A maior parte 
das crianas s so crismadas por causa
dos presentes.
- Sim, tens razo. Para
Kierkegaard, o Cristianismo
era ao mesmo tempo to grandioso e to irracional que s
podia haver um ou/ou. Era
impossvel, segundo ele,
ser-se "um pouco" cristo ou
cristo "at um certo grau".
Ou Jesus ressuscitou no
Domingo de Pscoa - ou no.
E se Ele ressuscitou verdadeiramente dos mortos, se Ele
morreu verdadeiramente por
ns, isso  to grandioso que
tem de determinar toda a
nossa vida.
- Compreendo.
- Kierkegaard sentia que a
Igreja e a maior parte dos
cristos do seu tempo tinham
uma posio francamente pedante em relao s questes religiosas. Para 
ele, isso era
impensvel. Religio e razo
eram para ele como fogo e
gua. No era suficiente ter
o cristianismo por
verdadeiro, segundo ele. F
crist significava seguir o
exemplo de Jesus.
- E o que  que isso tinha
a ver com Hegel?
- Oh! Se calhar comemos
pela ponta errada.
- Ento proponho que metas
a marcha atrs e comeces do
princpio.
- Kierkegaard iniciou os
estudos de teologia com dezassete anos, mas comeou a interessar-se cada 
vez mais por
questes filosficas. Com
vinte e oito anos fez o seu
doutoramento com a dissertao
O conceito de ironia, sobre

336
tudo em Scrates. Nela fez
contas com a ironia romntica
e o jogo descomprometido dos
romnticos com a iluso.
Confrontou a ironia romntica
com a "ironia socrtica".
Scrates tambm se tinha servido do efeito da ironia, mas
apenas para ensinar aos seus
interlocutores as verdades
fundamentais sobre a vida.
Scrates era para Kierkegaard, ao contrrio dos romnticos, um pensador 
existencial,
ou seja, um pensador que tem
totalmente em conta a sua
existncia na sua reflexo filosfica. Ele acusou os romnticos de no o 
fazerem.
- Ah!
- Depois de ter desfeito o
seu noivado, Kierkegaard foi
para Berlim em 1841, onde
assistiu s lies de
Schelling.
- Encontrou-se com Hegel
l?
- No, Hegel morrera dez
anos antes, mas as ideias de
Hegel predominavam ainda em
Berlim e muitas partes da
Europa. O seu "sistema" era
usado como uma espcie de explicao multi-usos para todas
as questes filosficas possveis. Kierkegaard tomou a posio 
radicalmente oposta e
explicou que as "verdades objectivas" com as quais a filosofia hegeliana 
se ocupava
eram completamente irrelevantes para a existncia do indivduo.
- Quais so ento as verdades relevantes?
- Mais importante do que a
busca da Verdade com letra
maiscula era, para
Kierkegaard, a busca das verdades importantes para a vida
do indivduo. Importante era,
segundo ele, encontrar a
"verdade para mim". Ele confrontava o "sistema" com o indivduo. Segundo
Kierkegaard, Hegel esquecera-se de que ele prprio era
apenas um homem. Ele fazia
troa do tipo de professor hegeliano que vive num castelo
de nuvens e, enquanto explica
toda a realidade, se esquece,
na sua distraco, do prprio
nome e de que  um homem, simplesmente um homem, no um pargrafo subtil.
- E o que  um homem para
Kierkgaard?
- No se pode responder a
isso de uma forma to geral.
Uma descrio universalmente
vlida da natureza humana ou
do "ser" humano  totalmente
desinteressante para
Kierkegaard. Importante  a
existncia do indivduo. E
o homem no vive atrs de uma
escrivaninha. S quando agimos - e sobretudo quando fazemos uma escolha 
importante
-, agimos em relao  nossa
existncia. Uma histria sobre Buda pode ilustrar o que
Kierkegaard tinha em mente.
- Sobre Buda?
- Sim, porque a filosofia
de Buda tambm tem como ponto
de partida a existncia humana. Era uma vez um monge que
achava que Buda dava respostas pouco claras sobre questes importantes, 
por exemplo,

337
o que  o mundo ou o que  um
homem. Buda respondeu contando a histria de uma pessoa
que tinha sido ferida por uma
flecha envenenada. Este homem
nunca perguntaria por puro interesse terico de que material  feita a 
flecha, em que
veneno foi embebida ou a partir de que ponto ele fora
atingido.
- Ele havia de querer que
algum lhe tirasse a flecha e
tratasse a ferida.
- , no ? Isso seria
existencialmente importante.
Buda e Kierkgaard sentiam
que existiam por um curto espao de tempo. E como eu disse: nesse caso, 
no nos sentamos a uma escrivaninha a especularmos sobre o esprito.
- Compreendo.
- Kierkegaard disse tambm
que a verdade  "subjectiva".
No queria afirmar que  indiferente o que pensamos ou
aquilo em que acreditamos.
Queria dizer que as verdades
realmente importantes so
pessoais. S essas verdades
so "verdades para mim".
- Podes dar-me um exemplo
de uma verdade subjectiva desse tipo?
- Uma questo importante
, por exemplo, se o Cristianismo  a verdade. Segundo
Kierkegaard, no podemos ter
uma posio terica ou acadmica em relao a essa questo. Para algum 
que se v
como ser existente,  uma
questo de vida ou de morte.
No se discute sobre isso
apenas por amor da discusso.
 uma coisa com que nos preocupamos muito.
- Compreendo.
- Se cais  gua, no tens
uma atitude terica em relao
 questo se te vais afogar ou
no. Nesse caso, no  interessante nem desinteressante
saber se h crocodilos na
gua.  uma questo de vida
ou de morte.
- Sim, sem dvida!
- Por isso temos de fazer
a distino entre a questo
filosfica sobre a existncia
de Deus e a relao do indivduo com a mesma questo.
Qualquer indivduo est completamente s perante essas
questes. Alm disso, s podemos aceder a elas pela f.
As coisas que podemos compreender com a nossa razo no
so importantes para
Kierkegaard.
- Tens de explicar isso.
- Oito mais quatro so
doze, Sofia. Podemos ter a
certeza disso.  um exemplo
de verdades da razo, de que
todos os filsofos desde
Descartes falaram. Mas vamos
inclu-las na nossa orao da
noite? E vamos quebrar a cabea com elas no leito de morte? No, essas 
verdades podem
ser "objectivas" e
"universais", mas justamente
por isso so indiferentes para
a existncia do indivduo.

338
- E quanto  f?
- No podes saber se uma
pessoa te perdoou por lhe teres feito algo de mal. Mas
justamente por isso  importante para ti existencialmente.  uma questo 
com a qual
tens uma relao viva. Tambm
no podes saber se algum gosta de ti. S podes acreditar
ou esperar que goste. No entanto, isso  mais importante
para ti do que o facto indiscutvel de a soma dos ngulos
de um tringulo perfazer cento
e oitenta graus. Enfim, tambm no se pensa na lei da
causalidade ou nas formas kantianas da intuio quando se
d o primeiro beijo.
- No, isso seria estranho.
- A f  o mais importante
quando se trata de questes
religiosas. Kierkegaard pensa
que se posso compreender Deus
objectivamente, no acredito,
mas justamente porque no posso compreender, tenho de acreditar. E se 
quero conservar a
minha f, tenho de ter em
ateno no esquecer que estou
na incerteza, e no entanto
acredito.
- Isso  um pouco complicado.
- Antigamente, muitos tentaram provar a existncia de
Deus - ou pelo menos compreend-la com a razo. Mas se
nos contentamos com essas provas da existncia, ou argumentos racionais, 
perdemos a f
- e consequentemente tambm o
sentimento religioso. Porque
o essencial no  o cristianismo ser verdadeiro, mas ser
verdadeiro para mim. Na
Idade Mdia a mesma ideia
foi expressa atravs da frmula "credo quia absurdum".
- O qu?
- Significa: "creio porque
 absurdo". Se o cristianismo
tivesse apelado  razo - e
no a outros aspectos nossos,
no seria uma questo de f.
- Compreendi isso agora.
- Vimos ento o que
Kierkegaard entendia por
"existncia", "verdade subjectiva" e "f". Estes trs conceitos foram 
formulados como
uma crtica  tradio filosfica e sobretudo a Hegel.
Mas havia neles toda uma
crtica da civilizao.
Segundo Kierkegaard, na sociedade urbana moderna, o homem tornara-se 
"pblico", e a
primeira caracterstica da
multido era a "tagarelice"
irrelevante. Hoje usaramos
talvez o termo "conformismo",
ou seja, todos "pensam" e
"defendem" as mesmas coisas,
sem que ningum tenha uma relao apaixonada com isso.
- Eu pergunto-me o que 
que Kierkegaard teria dito
dos pais de Jorunn.
- De qualquer modo, no
era muito tolerante com os
seus prximos. Ele tinha uma
pena afiada e podia ser irnico de uma forma mordaz.
Escreveu, por exemplo: "a
multido  a falsidade".
Explicou tambm que a maior

339
parte das pessoas tinham uma
atitude demasiado superficial
em relao  existncia.
- Uma coisa  coleccionar
Barbies. Ser uma Barbie 
mais grave ainda...
- Isso leva-nos  teoria
de Kierkegaard dos trs estdios da vida.
- O que disseste?
- Segundo Kierkegaard,
existiam trs possibilidades
de existncia. Ele prprio
usa o termo "plano". Chama a
estas possibilidades o "plano
esttico", o "plano tico" e o
"plano religioso". Ao escolher o termo "plano" quer
mostrar que podemos viver num
dos dois inferiores e fazer
subitamente o "salto" para um
mais elevado. Mas muitos homens passam toda a sua vida no
mesmo plano.
- Aposto que vem a uma
explicao. E alm disso estou curiosa para saber em que
plano me encontro.
Quem vive no plano esttico, vive no momento e procura
sempre o prazer. O que  bom
 o que  belo, interessante
ou agradvel. Assim, essa
pessoa vive completamente no
mundo dos sentidos. O esteta
torna-se joguete dos seus prprios prazeres e disposies.
Tudo o que  montono  negativo, como se diz hoje.
- Eu conheo essa atitude.
- O tpico romntico  esteta, porque no se trata apenas de prazer 
sensual. Uma
pessoa com uma atitude contemplativa em relao  realidade
- ou por exemplo em relao 
arte ou  filosofia, com que
se preocupa - vive no estdio
esttico. Mesmo em relao 
aflio e ao sofrimento nos
podemos comportar de um modo
esttico ou "contemplativo".
 a frivolidade que reina.
Ibsen descreveu o retrato de
um esteta tpico em Peer
Gynt.
- Acho que percebo o que
Kierkegaard queria dizer.
- Conheces algum assim?
- No totalmente assim.
Mas acho que faz lembrar um
pouco o major.
- Sim, talvez, Sofia -
apesar de isso ser novamente
um exemplo da sua ironia romntica de mau gosto. Devias
levar pimenta na lngua!
- O que disseste?
- Bom, no  culpa tua.
- Continua.
- Quem vive no plano esttico est exposto aos sentimentos de angstia e 
de vazio.
Se sente estes sentimentos,
ainda h esperana. Para
Kierkegaard, a angstia 
algo quase positivo.  um sinal de que algum se encontra
numa "situao existencial".
O esteta pode decidir
que quer fazer o salto para
um estdio mais elevado. Ou
consegue, ou no consegue.
No serve de nada ter quase
saltado, quando no salta

340
de facto. Ou/ou. E ningum pode fazer o salto por
ns. Temos de decidir e saltar por ns prprios.
-  o mesmo quando algum
quer deixar a bebida ou as
drogas.
- Sim, talvez. Quando
Kierkegaard fala sobre esta
deciso, faz lembrar um pouco
Scrates, que explicara que
qualquer conhecimento verdadeiro vem de dentro. A escolha que leva um 
homem a saltar
de uma viso da vida esttica
para uma viso tica ou religiosa tambm tem que vir de
cada um.  exactamente isso
que Ibsen descreve em "peer
Gynt". Uma outra descrio
magistral de uma escolha existencial que surge da necessidade e desespero 
interiores
encontramo-la num romance do
escritor russo Dostoievski.
Chama-se Crime e Castigo
e, quando tivermos terminado o
curso, tens de l-lo sem falta.
- Vamos ver. Ento
Kierkgaard pensa que quando
algum  srio deve escolher
uma outra forma de vida?
- E comea a viver no
plano tico. Este caracteriza-se pela seriedade e decises coerentes 
com critrios
morais. Faz lembrar a tica
do dever de Kant, que tambm
exige que procuremos viver de
acordo com a lei moral. Tal
como Kant, tambm
Kierkegaard dirige a sua
ateno em primeiro lugar para
a sensibilidade humana. No 
importante o que algum considera verdadeiro ou falso. O
importante  que algum se decida a ter uma opinio em relao ao que  
correcto ou
falso. O esteta interessa-se
apenas pelo que  divertido ou
aborrecido.
- Mas no nos podemos tornar demasiado srios se vivermos assim?
- Sim, claro. Mas o plano
tico no satisfaz
Kierkegaard. O homem tico
tambm se cansa de ser apenas
consciente do dever. Muitas
pessoas vivem essa fase de enfado e cansao quando so
adultos. E alguns recaem ento na vida leviana do plano
esttico. Mas outros fazem um
novo salto para o novo plano,
o plano religioso. Ousam
fazer o verdadeiro grande salto na profundidade da f.
Preferem a f ao gozo esttico e s leis da razo. E apesar de poder ser 
assustador
"cair nas mos do Deus vivo",
como Kierkegaard afirmou, s
ento o homem se pode reconciliar com a sua vida.
- Pelo Cristianismo, portanto.
- Para Kierkegaard o estdio religioso era o
Cristianismo. Mas, a sua filosofia influenciou pensadores
no-cristos. No nosso sculo
nasceu mesmo uma filosofia
existencial fortemente inspirada por ele.
Sofia olhou para o relgio.
- So quase sete. Tenho
de ir para casa, seno a minha
me endoidece.
Acenou com a mo ao seu
professor de filosofia e desceu a correr para o lago e
para o barco.

341

MARX

... um fantasma assombra a
Europa ...

Hilde levantara-se da cama
e assomou  janela que dava
para a enseada. Tinha comeado o sbado a ler sobre o aniversrio de 
Sofia. No dia
anterior fora o seu prprio
aniversrio. Se o pai calculara que ela j tivesse chegado at a no 
aniversrio de
Sofia, sobrestimara-a. No
dia anterior, ela de facto
s tinha lido! Por outro
lado, recebera s mais uma felicitao: quando Alberto e
Sofia tinham cantado os parabns. Isso fora embaraoso
para Hilde.
Sofia tinha convidado amigos para uma "festa filosfica
ao ar livre" no dia em que o
seu pai voltava do Lbano.
Hilde estava convencida de
que nesse dia sucederia qualquer coisa de que nem ela nem
o pai tinham uma ideia clara.
Uma coisa era certa: antes
de o pai voltar para Bjerkely, devia receber um pequeno
raspanete. Era o mnimo que
ela podia fazer por Alberto e
Sofia, pensou Hilde. Eles
tinham-lhe pedido ajuda...
A me ainda estava no barraco. Hilde desceu silenciosamente para o piso 
de baixo e
dirigiu-se ao telefone.
Procurou o nmero de Anne e
Ole em Copenhaga e marcou.
- Anne Kvamdal.
- Ol,  a Hilde.
- Que simptica! Como vo
as coisas em Lillesand?
- Muito bem, estou de frias. E agora falta apenas
uma semana para o pai voltar
do Lbano.
- Vai ser bom, no achas,
Hilde?
- Claro, estou ansiosa. E
sabes,  justamente por isso
que te estou a telefonar...
- Ah, sim?
- Acho que ele chega no
dia 23 a Kastrup, por volta
das cinco da tarde. Vocs vo
estar em Copenhaga?
- Acho que sim.
- Queria saber se me podiam fazer um favor.

342
-  claro que podemos.
- Mas  um favor um pouco
especial. No sei sequer se 
possvel.
- Estou a ficar curiosa.
Hilde contou. Falou sobre
o dossier, sobre Alberto e
Sofia e tudo o resto. Teve
de recomear vrias vezes porque ela e a tia desatavam a
rir. Mas, quando desligaram,
o plano de Hilde estava decidido.
Em casa tambm tinha de fazer certos preparativos. Bom
- no havia pressa.
Hilde passou o resto da
tarde e a noite com a me.
Acabaram por ir de carro a
Kristiansand e foram ao cinema, como uma espcie de substituio de festa 
de anos,
visto que no dia anterior no
tinham festejado verdadeiramente. Quando passaram pelo
desvio para o aeroporto, Hilde juntou mais algumas peas
ao grande puzzle em que pensara ininterruptamente desde
manh.
S quando foi para a cama
nessa noite continuou a ler o
grande dossier.

Quando Sofia entrou pelo
carreiro, eram quase oito. A
me estava a trabalhar nos
canteiros  entrada, quando
ela apareceu.
- Donde  que vens?
- Da sebe.
- Da sebe?
- No sabes que h um caminho do outro lado?
- Onde  que estiveste,
Sofia? No vieste para o
jantar, sem me informares.
- Desculpa. O tempo estava to bom. Dei um grande
passeio.
A me levantou-se e olhou
para ela.
- Por acaso no te encontraste de novo com esse filsofo?
- Sim, encontrei-me. Eu
contei-te que ele gosta de
passear.
- Mas ele vem  festa?
- Sim, claro, est ansioso.
- Eu tambm, Sofia.
Conto os dias.
No havia um tom severo na
sua voz? Por precauo, Sofia disse:
- Estou contente por ter
convidado tambm os pais de
Jorunn. De outro modo, seria
um pouco embaraoso.
- Bom... pelo menos, vou
falar com esse Alberto de
adulto para adulto.
- Vocs podem ir para o
meu quarto. Tenho a certeza
de que vais gostar dele.
- Espera. Chegou uma carta para ti.

343
- Ah...
- No carimbo est escrito:
"Contingente da ONU"
- Ento  do irmo do Alberto.
- Acho que j  de mais,
Sofia.
Sofia reflectiu febrilmente
e, passado alguns segundos,
lembrou-se de uma resposta
adequada. Um esprito solcito parecia t-la inspirado.
- Eu disse a Alberto que
colecciono selos raros. Podes
ver para que servem os irmos.
Com esta resposta, conseguiu acalmar a me.
- O jantar est no frigorfico - disse ela, num tom
um pouco mais amigvel.
- Onde est a carta?
- Em cima do frigorfico.
Sofia correu para a cozinha. A carta tinha o carimbo
de 15-6-1992. Abriu o envelope e retirou uma folha
bastante pequena:
Ento que vale a eterna
criao?
Coisas criadas ao nada reduzir!

No, para esta pergunta,
Sofia no tinha resposta.
Antes de comer, juntou a folha a todas as outras coisas
que reunira no armrio nas semanas anteriores. Haveria de
saber na altura devida por que
motivo esta pergunta lhe fora
feita.
Na manh seguinte, Jorunn
visitou-a. Primeiro, jogaram
badminton, depois ocuparam-se novamente com a planificao da festa 
filosfica.
Precisavam de algumas surpresas para o caso de no haver a
atmosfera desejada.
Quando a me de Sofia veio
do trabalho, ainda estavam a
falar sobre a festa. A me
estava sempre a repetir uma
frase: "No, no vamos poupar
em nada." No o dizia ironicamente.
Ela parecia estar fortemente convencida de que uma festa
filosfica era exactamente o
que Sofia precisava para pr
novamente os ps na terra,
aps tantas semanas de lies
intensivas de filosofia.
Por fim, chegaram a acordo
sobre tudo - desde as tortas
e lampies nas rvores at ao
questionrio filosfico com um
livro de filosofia para jovens
como prmio. Caso houvesse um
livro desse tipo. Sofia no
tinha a certeza.
Na quinta-feira, dia 21 de
Junho - apenas dois dias antes da noite de So Joo,
Alberto voltou a telefonar.
- Sofia.

344
- Alberto.
- Como ests?
- Muito bem. Acho que encontrei a soluo.
- Soluo para qu?
- Tu sabes. Para a priso
espiritual em que vivemos h
demasiado tempo.
- Ah, isso...
- Mas eu s posso falar
sobre o plano quando tudo estiver em curso.
- No  muito tarde? Tenho que saber no que me estou
a envolver.
- Ests a ser ingnua.
Sabes bem que somos espiados
sempre e em toda a parte. O
mais sensato seria guardarmos
silncio...
-  assim to grave?
- Claro. O mais importante sucede quando no falamos
um com o outro.
- Oh...
- Vivemos a nossa vida
numa realidade fictcia, por
detrs das palavras de uma
longa histria. Cada letra 
batida pelo major numa mquina
de escrever porttil barata.
Nada do que  escrito pode
escapar  sua ateno.
- No, eu compreendo. Mas
como nos podemos esconder
dele?
- Chiu!
- O qu?
- Nas entrelinhas tambm
acontecem coisas.  justamente a que procuro agir com
toda a minha astcia.
- Ah...
- Temos de nos encontrar
hoje e tambm amanh. No sbado acontece tudo. Podes vir
imediatamente?
- Vou j.
Sofia ps comida aos pssaros e aos peixes, deu a Govinda uma folha de 
alface e
abriu uma lata de comida para
Sherekan. Ao sair colocou o
prato com a comida na escada.
Depois, enfiou-se pela sebe e
saiu para o caminho do outro
lado. Aps ter andado um bocado descobriu no meio da urze
uma grande escrivaninha.
Atrs da escrivaninha estava
sentado um homem velho.
Parecia concentrado a fazer
contas. Sofia foi ter com ele
e perguntou-lhe o nome.
- Scrooge - disse e voltou a debruar-se sobre os
seus papis.
- Eu chamo-me Sofia. s
um homem de negcios?
Ele acenou afirmativamente.
- E podre de rico. No se
pode desperdiar nem um centavo. Por isso, tenho de me
concentrar na minha contabilidade.

345
- Como  que aguentas?
Sofia acenou-lhe com a mo
e prosseguiu. Mas no andara
muito quando viu uma rapariga
sentada sozinha debaixo de uma
rvore grande. A pequena estava vestida com andrajos e
parecia plida e doente.
Quando Sofia passou, enfiou
a mo num pequeno saco e tirou
uma caixa de fsforos.
- Queres comprar fsforos?
- perguntou.
Sofia procurou no seu bolso. Ainda tinha uma coroa.
- Quanto custam?
- Uma coroa.
Sofia deu a coroa  pequena
e ficou imvel com a caixa de
fsforos nas mos.
- s a primeira pessoa que
me compra alguma coisa h mais
de cem anos. s vezes, passo
fome, s vezes, fico com frio.
Sofia pensou que no era de
admirar que a pequena no conseguisse vender fsforos no
meio do bosque. Mas lembrou-se do homem de negcios
rico. A rapariga no tinha
necessidade de passar fome, se
ele tinha tanto dinheiro.
- Vem comigo - disse
Sofia.
Pegou na mo da pequena e
levou-a consigo para junto do
homem rico.
- Tens de fazer com que
esta rapariga tenha uma vida
melhor - afirmou.
O homem levantou os olhos
dos seus papis e declarou:
- Isso custa dinheiro, e
eu j te disse que no se pode
desperdiar um centavo sequer.
- Mas  injusto que tu sejas to rico e ela to pobre
- insistiu Sofia.
- Que disparate! S h justia entre iguais.
- O que queres dizer com
isso?
- Eu venci pelo trabalho e
o trabalho deu os seus frutos.
Chama-se a isso progresso.
- Vejam s!
- Se no me ajudas, eu
morro - disse a rapariga pobre.
O homem de negcios voltou
a levantar os olhos dos papis. Depois, atirou com a
pena para a mesa num gesto impaciente.
- Tu no fazes parte da
minha contabilidade. Por
isso, vai para o asilo.
- Se no me ajudas, incendeio o bosque - disse a rapariga pobre.
O homem s ento se levantou da sua escrivaninha, mas a
rapariga j tinha acendido um
fsforo. Levou-o a alguns tufos de erva seca que se incendiaram 
imediatamente.

346
O homem rico agitava freneticamente os braos.
- Socorro - gritou. - Fogo!
A rapariga olhou para ele com um sorriso malicioso.
- Certamente no sabias
que eu era comunista.
No momento seguinte, a rapariga, o homem de negcios e
a escrivaninha tinham desaparecido. Sofia estava ali sozinha, enquanto a 
erva ardia
cada vez mais. Tentou apagar
as chamas com o p e, passado
pouco tempo, conseguiu.
Graas a Deus! Sofia
olhou para os tufos de erva
negros. Segurava na mo uma
caixa de fsforos. No teria
sido ela a deitar o fogo?

Quando encontrou Alberto
em frente  cabana, contou-lhe
o que tinha sucedido.
- Scrooge  um capitalista
avarento em Um Conto de
Natal de Charles Dickens.
A rapariga com os fsforos
conhece-la certamente do conto
de Hans Christian Andersen.
- Mas no  estranho que
eu os tenha encontrado aqui no
bosque?
- No, de modo algum.
Este no  um bosque normal.
E uma vez que vamos falar de
Karl Marx  bom que tenhas
visto um exemplo das enormes
lutas de classes em meados do
sculo passado. Mas vamos l
para dentro. Apesar de tudo,
estamos um pouco mais protegidos do major.
Sentaram-se  mesa junto da
janela que dava para o lago.
Sofia ainda se lembrava bem
como vira o pequeno lago depois de ter bebido da garrafa
azul. Nesse momento, a garrafa vermelha e a garrafa azul
estavam sobre a consola da lareira. Na mesa havia uma reproduo em 
miniatura de um
templo grego.
- O que  isto? - perguntou Sofia.
- Cada coisa de sua vez,
minha filha.
E Alberto comeou a falar
sobre Marx:
- Quando Kierkegaard foi
para Berlim em 1841, talvez
tenha estado sentado ao lado
de Marx nas lies de Schelling. Kierkegaard escreveu
uma tese sobre Scrates e
Karl Marx escreveu na mesma
altura uma tese sobre Demcrito e Epicuro - ou seja,
sobre o materialismo na Antiguidade. Assim, j tinham
definido o curso futuro da sua
filosofia.
- Porque Kierkegaard se
tornou um existencialista e
Marx materialista?
- Marx  definido como um
materialista histrico. Mas
ainda vamos voltar a esse ponto.
- Continua!
- Seja Marx, seja Kierkegaard, tiveram como ponto de
partida a filosofia de Hegel.
Ambos foram influenciados
pelo seu modo de pensar,

347
mas tambm ambos se distanciaram da ideia de Hegel de um
esprito do mundo - ou daquilo a que chamamos o
idealismo de Hegel.
Isso era um pouco vago.
Exacto. De um modo geral,
dizemos que a poca dos grandes sistemas filosficos terminou com Hegel. 
Depois
dele, a filosofia segue uma
orientao completamente nova.
Em lugar de grandes sistemas
especulativos surgem as chamadas "filosofias da existncia", ou tambm 
"filosofias da
aco". Em relao a isto,
Marx dizia que at ento os
filsofos apenas tinham interpretado o mundo, em vez de o
transformar. Estas palavras
caracterizam um ponto de viragem importante na histria da
filosofia.
- Depois de ter encontrado
Scrooge e a rapariguinha dos
fsforos, no tenho dificuldade em compreender o que Marx
tinha em mente.
- O pensamento de Marx
tinha uma finalidade prtica
- e poltica. Devemos tambm
reparar que ele no era apenas
filsofo. Era tambm historiador, socilogo e economista.
- E foi inovador em todos
esses domnios?
- Pelo menos, nenhum outro
filsofo teve tanta importncia para a poltica prtica.
Por outro lado, temos que nos
precaver de identificar com o
seu pensamento tudo o que foi
designado por "marxista".
Diz-se que Marx se tornou
"marxista" por volta de 1845;
mas ele no gostou da designao durante toda a vida.
- Jesus era cristo?
- Isso tambm  discutvel.
- Continua.
- Desde o incio, o seu
amigo e colega Friedrich
Engels contribuiu para aquilo que mais tarde foi designado por marxismo. 
No nosso sculo, Lenine, Estaline e
Mao desenvolveram o marxismo. Nos pases de Leste falava-se de 
"marxismo-leninismo", a partir de Lenine.
- Ento eu proponho que
nos limitemos a Marx.
Disseste que era um "materialista histrico"?
- No era um materialista
filosfico como os atomistas
da Antiguidade e os materialistas mecanicistas do sculo
XVII e XVIII. Segundo
ele, so antes de mais as condies materiais de vida numa
sociedade que determinam o
nosso pensamento e a nossa
conscincia. Estas relaes
materiais so tambm determinantes para o desenvolvimento
histrico.
- Isso parece totalmente
diferente do "esprito" de
Hegel.
- Hegel defendera que o
desenvolvimento histrico derivava da tenso entre os
opostos, que desapareciam por
meio de mudana sbita - e
com eles a tenso. Marx achou
correcta esta ideia. Mas considerava que Hegel tinha colocado tudo de 
pernas para o
ar.

348
- No para todo o sempre,
espero?
- Hegel chamava  fora
que faz avanar a histria
"esprito do mundo" ou "razo
do mundo". Segundo Marx,
esta perspectiva invertia a
verdade. Ele queria provar
que as transformaes das condies materiais so determinantes para a 
histria. No
so as condies espirituais
numa sociedade que levam a alteraes materiais, mas o inverso: as 
relaes materiais
determinam em ltima anlise
as espirituais. So sobretudo
as foras econmicas numa sociedade que provocam as transformaes em 
todos os outros
domnios e dirigem a histria.
- Podes dar-me um exemplo?
- A filosofia e a cincia
da Antiguidade tinham um fim
puramente terico. No interessava aos filsofos da Antiguidade que o seu 
saber terico implicasse quaisquer vantagens prticas.
- Ah, sim?
- Isso tinha a ver com o
modo como as sociedades em que
viviam estavam organizadas. A
vida e a produo de bens nas
sociedades antigas eram baseadas sobretudo na mo-de-obra
escrava. Por isso, os cidados no achavam necessrio
melhorar a produo por meio
de inventos prticos. Isso 
um exemplo do modo como as relaes materiais numa sociedade podem nela 
influenciar o
pensamento filosfico.
- Compreendo.
- Marx designava estas relaes materiais, econmicas e
sociais como a base da sociedade. O modo como se pensa
numa sociedade as suas instituies polticas, as suas
leis, e tambm a sua religio,
a moral, a arte, a filosofia e
a cincia eram designados por
Marx a sua superestrutura.
- Base e superestrutura,
portanto.
- E agora, podes-me passar
o templo grego?
- Faz favor.
-  uma cpia em miniatura
do antigo Partnon na Acrpole. Na realidade j o viste.
- Em vdeo, queres tu dizer.
- Vs que o templo tem um
telhado elegante e com muitos
ornamentos. Talvez seja o telhado e o fronto que atraem
primeiro a ateno.  isto
que poderamos designar por
superestrutura. Mas o telhado
no fica suspenso no ar.
-  sustentado por colunas.
- Todo o edifcio precisa
de um fundamento slido, uma
base que sustente toda a construo. Segundo Marx, as relaes materiais 
sustentam de
certo modo todos os pensamentos e ideias que h na sociedade. Significa 
que a superestrutura de uma sociedade 
um reflexo da sua base material.

349
- Queres dizer com isso
que a teoria das ideias de
Plato  apenas um reflexo da
olaria daquela poca e da viticultura ateniense?
- No, tambm no  assim
to simples, e Marx chamou a
ateno para isso. Naturalmente, a estrutura e superestrutura de uma 
sociedade influenciam-se reciprocamente.
Se Marx tivesse negado isso,
teria sido um "materialista
mecanicista", mas uma vez que
admitiu que entre a estrutura
e a superestrutura existia
tambm uma relao recproca,
uma tenso, dizemos que Marx
 um materialista dialctico. Ainda te lembras do que
Hegel entendia por desenvolvimento dialctico. E alm
disso podes reparar que Plato no era nem oleiro nem viticultor.
- Compreendo. Queres dizer mais alguma coisa sobre o
templo?
- Sim. Observando bem a
base, podes fazer-me uma descrio dela?
- As colunas esto sobre
um fundamento constitudo por
trs nveis ou degraus.
- Analogamente, podemos
distinguir trs nveis na base
da sociedade. Em baixo est
aquilo que Marx designa por
condies de produo de uma
sociedade. Por isto, entende
as condies e recursos naturais de uma sociedade, ou seja, o tipo de 
vegetao, o
clima, as matrias primas, as
riquezas do solo, entre outras
coisas. Constituem os verdadeiros alicerces de uma sociedade, e estes 
alicerces estabelecem limites claros para o
tipo de produo possvel na
sociedade. Desse modo, estabelecem tambm claros limites
para o tipo de sociedade e
cultura que podem existir num
local.
- No Sara  impossvel a
pesca do arenque. E na
Lapnia  impossvel o cultivo de tmaras.
- Entendeste perfeitamente. Mas numa cultura nmada,
os homens pensam de um modo
completamente diferente do de
uma aldeia de pescadores no
norte da Noruega. O nvel
seguinte  constitudo pelas
foras produtivas de uma sociedade. Marx refere-se 
mo-de-obra humana, mas tambm
aos seus utenslios, aos seus
instrumentos e s suas mquinas, os chamados meios de produo.
- Antigamente pescava-se
em barcos a remos, hoje o peixe  apanhado por arrastes
enormes.
- E, desse modo, chegas ao
terceiro nvel da base de uma
sociedade. Torna-se mais complicado, porque diz respeito a
quem possui os meios de produo numa sociedade e ao modo
como o trabalho  nela organizado, ou seja, diz respeito s
relaes de propriedade e 
diviso do trabalho. Marx
chama-lhes as relaes de produo numa sociedade.
Constituem o terceiro nvel.
- Compreendo.

350
- At agora, podemos pois
verificar que, segundo Marx,
o modo de produo numa sociedade determina as relaes polticas e 
ideolgicas que encontramos nela. No  um acaso o facto de pensarmos 
hoje
de um modo diferente - e termos uma moral um pouco diferente - da dos 
membros de uma
sociedade feudal.
- Ento Marx no acreditava num direito natural vlido eternamente?
- No, a resposta  pergunta do que  moralmente correcto era para Marx 
um produto da base social. De facto
no  por acaso que numa antiga sociedade camponesa os pais
decidiam com quem os filhos
iriam casar. Era um problema
ligado  herana da terra.
Numa grande cidade moderna,
as relaes sociais so diferentes e por isso as pessoas
tambm escolhem os seus companheiros de um modo diferente.
Podemos conhecer os nossos
futuros companheiros numa festa ou na discoteca, se estamos
bastante apaixonados vamos morar juntos.
- Eu no aceitaria que os
meus pais me escolhessem o marido.
- No, porque tu s filha
do teu tempo. Marx acentua
ainda que geralmente  a classe dominante numa sociedade
que determina o que  falso e
o que  correcto, porque toda
a histria, segundo ele,  a
histria da luta de classes,
ou seja, de lutas para decidir
quem possuir os meios de produo.
- Ento os pensamentos e
as ideias dos homens no contribuem para mudar a histria?
- Sim e no. Marx sabia
que as relaes na superestrutura de uma sociedade influenciam a sua 
base; mas negava
que a superestrutura tivesse
uma histria independente.
Aquilo que faz a histria
progredir desde a sociedade da
Antiguidade baseada na escravido at  sociedade industrial foi acima 
de tudo,
segundo ele, transformaes na
estrutura.
- Sim, j disseste isso.
- Em todas as fases da
histria existia, segundo
Marx, uma oposio entre duas
classes sociais dominantes.
Na sociedade esclavagista
da Antiguidade, havia a oposio entre os cidados livres
e os escravos, na sociedade
feudal da Idade Mdia entre
os senhores feudais e os servos e, mais tarde, entre nobres e burgueses. 
Mas mesmo
no tempo de Marx, numa sociedade burguesa ou capitalista,
a oposio existia sobretudo
entre capitalistas e trabalhadores ou proletrios - ou
seja, entre aqueles que detinham os meios de produo e
aqueles que no os possuam.
E visto que a classe dirigente nunca cederia o seu poder
voluntariamente, s por meio
de uma revoluo poderia haver
mudana.
- E quanto  sociedade comunista?

351
- Marx preocupava-se sobretudo com a questo da passagem de uma sociedade 
capitalista para uma sociedade
comunista. Ele faz uma anlise detalhada do modo de produo 
capitalista. Mas, antes
de tratarmos disso, temos de
falar um pouco sobre a sua
concepo do trabalho humano.
- Diz.
- Antes de se tornar comunista, o jovem Marx tinha-se
interessado pelo que sucede
verdadeiramente com os homens
quando trabalham. Hegel tambm o tinha analisado e vira
um efeito recproco ou "dialctico" entre o homem e a natureza. O jovem 
Marx defendeu a mesma tese: quando o homem modifica a natureza, o
prprio homem  modificado.
Ou, dito de outra forma:
quando o homem trabalha, intervm na natureza e influencia-a; mas neste 
processo de
trabalho a natureza tambm intervm no homem e influencia o
seu modo de pensar.
- Diz-me que trabalho fazes e dir-te-ei quem s.
- Exacto. Marx achava que
o modo como trabalhamos influencia a nossa conscincia, e
que a nossa conscincia tambm
influencia o modo como trabalhamos. Podes dizer que existe uma relao 
recproca entre
"mo" e "cabea". Deste modo,
o conhecimento do homem est
estreitamente relacionado com
o seu trabalho.
- Ento deve ser terrvel
ser-se desempregado.
- Sim, quem no tem trabalho sente-se de certo modo vazio. J Hegel 
falara neste
aspecto. Para Hegel e Marx,
o trabalho  uma coisa positiva, que diz respeito  natureza, que tem a 
ver com o ser
humano.
- Ento  positivo ser-se
trabalhador?
- Sim. Mas, justamente
nesse ponto, Marx faz uma
crtica demolidora ao modo de
produo capitalista.
- Diz!
- No sistema capitalista,
o trabalhador trabalha para
outra pessoa. E assim, o trabalho torna-se exterior a ele
- ou uma coisa que no lhe
pertence. O trabalhador torna-se estranho ao seu prprio
trabalho - e consequentemente, a si mesmo. Ele perde a
sua dignidade humana. Marx,
usando uma expresso hegeliana, fala de alienao.
- Eu tenho uma tia que embrulha bombons numa fbrica h
mais de vinte anos, e por isso
percebo perfeitamente o que
queres dizer. Ela diz que
odeia quase todos os dias ir
para o trabalho.
- E se ela odeia o trabalho, Sofia, tem de se odiar a
si mesma.
- Pelo menos odeia bombons.
- Na sociedade capitalista, o trabalho est organizado
de tal forma que um trabalhador executa na realidade um
trabalho de escravo para

352
uma outra classe social.
Deste modo, o trabalhador no
"aliena" apenas a sua
mo-de-obra, mas toda a sua
natureza humana.
-  assim to grave?
- Estamos a falar do modo
como Marx via as coisas. Por
isso, temos de ter como ponto
de partida as relaes nas sociedades europeias em meados
de 1850. E a, a resposta
tem de ser um sim. Os trabalhadores tinham um dia de catorze horas em 
recintos gelados. O salrio era to baixo
que at crianas e parturientes tinham de trabalhar, o que
deu origem a condies sociais
indescritveis. Muitas vezes,
uma parte do salrio era paga
em aguardente barata e muitas
mulheres tinham de se prostituir, e os seus clientes eram
os melhores senhores da cidade: exactamente aquilo que devia dignificar o 
homem, o trabalho, fazia do trabalhador um
animal de carga.
- Isso pe-me furiosa.
- Tambm Marx se enfureceu. Ao mesmo tempo, os filhos da burguesia podiam 
tocar
violino em salas grandes e
quentes aps terem tomado um
banho refrescante.
- Que injustia!
- Marx tambm pensava assim. No ano de 1848, publicou juntamente com 
Friedrich
Engels o famoso Manifesto
do Partido Comunista. A
primeira frase neste manifesto
diz: "Um espectro assombra a
Europa - o espectro do comunismo."
- Estou a ficar assustada.
- Foi o que se passou com
os burgueses, porque os proletrios comearam a sublevar-se. Queres ouvir 
como o
"manifesto" termina?
- Sim.
- "Os comunistas rejeitam
ocultar as suas opinies e intenes. Declaram publicamente que os seus 
objectivos apenas podem ser alcanados pelo
derrube violento de toda a organizao social existente.
As classes dominantes que
tremam perante uma revoluo
comunista. Os proletrios no
tm nada a perder seno as
suas correntes. Tm um mundo
a ganhar. Proletrios de todos os pases, uni-vos!".
- Se as relaes eram de
facto to ms como disseste,
eu tambm subscreveria isso.
Mas hoje so diferentes, no
so?
- Na Noruega, sim, mas
no em toda a parte. Ainda
hoje muitos homens vivem em
condies desumanas. Ao mesmo
tempo, produzem mercadorias
que tornam os capitalistas
cada vez mais ricos. A isso
chama Marx explorao.
- Podes explicar um pouco
melhor essa palavra?
- Quando o trabalhador
produz uma mercadoria, esta
mercadoria tem um certo valor
de venda.

353
- Sim.
- Se tu retirares ao preo
de venda do produto o salrio
do trabalhador e outros custos
de produo, sobra uma quantia. A esta soma chama Marx
mais-valia ou lucro. Significa que o capitalista se apodera de um valor 
que na verdade
foi o trabalhador a produzir.
E a isso chama Marx explorao.
- Compreendo.
- Nesse caso, o capitalista pode investir uma parte do
lucro em novo capital - por
exemplo, na modernizao das
instalaes de produo, na
expectativa de poder produzir
artigos ainda mais baratos e,
consequentemente, aumentar
ainda mais o seu lucro no futuro.
- Sim,  lgico.
- Pois, pode parecer lgico, mas sob este aspecto e
ainda sob outros, Marx previa
que, a longo prazo, as coisas
no se passam como o capitalista imagina.
- O que  que isso significa?
- Segundo Marx, o modo de
produo capitalista era contraditrio em si. O capitalismo era um 
sistema econmico
autodestrutivo, porque lhe
faltava um governo racional.
- De certo modo,  um bem
para os oprimidos.
- Pode-se dizer isso.
Marx estava certo de que o
sistema capitalista caminhava
para a runa devido s suas
contradies. O capitalismo
era "progressivo" - ou seja,
orientado para o futuro -,
mas apenas porque era um estdio necessrio a caminho do
comunismo.
- Podes dar-me um exemplo
do facto de o capitalismo ser
autodestrutivo?
- Sim. Falmos do capitalista que tem muito dinheiro
de sobra e moderniza a sua empresa com uma parte deste excesso; Ao mesmo 
tempo, tem de
pagar as lies de violino dos
filhos e alm disso a esposa
adquiriu certos hbitos caros.
- Sim?
- Mas isso no  to importante neste contexto. Ele
moderniza, ou seja, compra novas mquinas e por isso no
precisa de tantos empregados.
F-lo para aumentar o poder
concorrencial.
- Compreendo.
- Mas no  o nico a pensar assim. Significa que o
conjunto da produo num ramo
 constantemente racionalizado. As fbricas so cada vez
maiores e pertencem a menos
pessoas. E o que acontece ento, Sofia?
- Hm...

354
-  preciso menos mo-de-obra. E cada vez mais trabalhadores ficam 
desempregados.
Por isso, h problemas sociais cada vez maiores e essas
crises, segundo Marx, so um
indcio de que o capitalismo
se aproxima do declnio. Mas
o capitalismo tem ainda mais
caractersticas autodestruidoras. Se h cada vez mais lucro com os meios 
de produo
sem se criar simultaneamente
mais-valia suficiente para
manter a produo a preos
concorrenciais... Sim? O que
faz o capitalista nessa altura? Sabes-me dizer?
- No, no sei mesmo.
- Mas imagina que tinhas
uma fbrica, e no consegues
atingir os teus objectivos.
Temes a falncia. E agora
pergunto-te: de que modo podes
poupar dinheiro?
- Talvez baixando os salrios.
- Esperta! Sim, isso  o
mais inteligente que podes fazer. Mas se todos os capitalistas so to 
inteligentes
como tu - e so-no - os trabalhadores ficam to pobres
que j no te podem comprar
nada. Dizemos ento que o poder de compra numa sociedade
diminui. E camos num crculo
vicioso. Para a propriedade
particular capitalista  a
hora fatal, porque nos encontramos numa situao que se
torna revolucionria.
- Compreendo.
- Para resumir: Marx
acreditava que, por fim, os
proletrios se sublevariam e
se apoderariam dos meios de
produo.
- E depois?
- Segundo Marx, h por
algum tempo uma nova sociedade
de classes, na qual os proletrios submetem a burguesia
pela fora. A esta fase de
transio chamava Marx ditadura do proletariado. Em
seguida a ditadura do proletariado era substituda por uma
sociedade sem classes, o comunismo. E seria uma sociedade em que os 
meios de produo pertencem "a todos" - ou
seja, ao povo. Nessa sociedade cada um trabalharia "segundo a sua 
capacidade" e "receberia de acordo com as suas
necessidades". O trabalho
pertenceria ao povo e por isso
deixaria de haver alienao.
- Isso soa muito bem, mas
o que se passou de facto?
Deu-se a revoluo?
- Sim e no. Hoje, os
economistas podem provar que
Marx errou em vrios pontos
importantes, inclusivamente na
sua anlise das crises do capitalismo. Marx tambm no
teve em conta a explorao da
natureza que hoje  cada vez
mais perigosa. Mas - porque
h um grande mas...
- Sim?

355
- O marxismo levou a grandes transformaes. No h
dvida de que o socialismo,
que se baseia em Marx na sua
luta por justia social, mesmo
que no o siga em tudo e recuse por exemplo a ditadura do
proletariado, conseguiu vencer
na luta por uma sociedade mais
humana. Sem dvida vivemos
hoje na Europa numa sociedade
mais justa e solidria do que
no tempo de Marx. E devemo-lo tambm a todo o movimento
socialista.
- Podias explicar mais
exactamente o que  o movimento socialista?
- Depois de Marx, esse
movimento dividiu-se em duas
correntes principais: de um
lado a social-democracia, de
outro o leninismo. A social-democracia, que queria
seguir uma via progressiva e
pacfica para uma organizao
mais justa, tornou-se dominante na Europa ocidental. Podemos dizer que 
esta via consiste numa revoluo lenta. O
leninismo, que continuava a
acreditar que apenas a revoluo podia combater a antiga
sociedade de classes, foi importante para a Europa de
Leste, sia e frica. Cada
um destes movimentos,  sua
maneira, lutou contra a misria e a opresso.
- Mas no se criou uma
nova forma de opresso? Por
exemplo, na Unio Sovitica
e na Europa de Leste?
- Sem dvida. E aqui vemos novamente que tudo aquilo
em que o homem toca se torna
uma mistura de bem e de mal.
Seria errado responsabilizar
Marx pelos erros e pelos aspectos negativos dos pases
socialistas cento e cinquenta
anos aps a sua morte. O que
se pode dizer  que ele reflectiu pouco sobre o facto de
que mesmo o comunismo, se viesse a existir, no seria levado a cabo sem 
os homens - e
os homens cometem erros. Por
isso, acho difcil imaginar um
paraso na terra. Os homens
arranjaro sempre novos problemas.
- Claro.
- E com isto, terminamos
com Marx.
- Um momento! No disseste que apenas h justia entre
iguais?
- No, foi Scrooge que
disse isso.
- Como  que sabes que ele
disse isso?
- Bom, ns dois temos o
mesmo escritor. Deste modo,
estamos muito mais estreitamente ligados do que possa parecer a uma 
observao superficial.
- Maldita ironia!
- Dupla, Sofia, foi uma
ironia dupla.
- Mas voltemos a essa
questo da injustia. Disseste que, para Marx, o capitalismo era uma 
sociedade injusta. Como definirias uma sociedade justa?

356
- Um filsofo moral de
inspirao marxista, John
Rawls, tentou dar uma definio, servindo-se deste exemplo: imagina que 
eras membro
de um conselho supremo que tem
de fazer todas as leis de uma
sociedade futura.
- Consigo muito bem imaginar-me num conselho desses.
- Eles tm de pensar em
tudo, porque mal estiverem de
acordo e tiverem subscrito todas as leis, morrem.
- Que horror!
- E segundos mais tarde
acordaro na sociedade cujas
leis fizeram. O truque  o
facto de no fazerem ideia de
onde acordaro nessa sociedade, ou seja, qual ser a sua
posio nela.
- Compreendo.
- Uma sociedade destas seria uma sociedade justa. Cada
um estaria entre iguais.
- E cada uma entre
iguais.
-  evidente. Porque no
jogo de Rawls tambm no saberamos se amos acordar como
homem ou como mulher. E uma
vez que a probabilidade  de
cinquenta para cinquenta, a
sociedade seria organizada de
forma igual para mulheres e
homens.
- Isso parece fascinante.
- Diz-me ento. A Europa
no tempo de Marx era uma sociedade assim?
- No!
- Ento talvez me possas
indicar uma sociedade semelhante no mundo de hoje.
- Bem...
- Reflecte sobre isso.
Terminmos com Marx.
- O que  que disseste?
- Fim de captulo!

357

Darwin

... um barco que atravessa
a vida com uma carga de genes...

Na manh de domingo, Hilde
acordou com um estrondo. O
dossier cara ao cho. Tinha lido at tarde sobre Sofia e Alberto, que 
falavam
sobre Marx. Depois adormecera meio sentada, com o dossier sobre a 
coberta. A lmpada tinha ficado acesa toda a
noite.
O despertador na mesa de
cabeceira indicava em nmeros
verdes as 8.59.
Hilde sonhara com fbricas
gigantescas e cidades enegrecidas pela fuligem. A um canto de uma rua uma 
miudita vendia fsforos. Pessoas bem
vestidas, com casacos compridos, passavam sem prestar
ateno.
Quando Hilde se levantou,
lembrou-se dos legisladores
que haviam de acordar numa sociedade organizada por eles
mesmos. Hilde estava contente
por acordar em Bjerkely.
Gostaria de acordar na Noruega sem saber exactamente
onde e quando? Na Idade Mdia, por exemplo - ou numa
sociedade da Idade da Pedra
h dez mil anos? Hilde procurou imaginar como seria estar
sentada  entrada duma caverna. Talvez estivesse a raspar
uma pele. Como teria vivido
uma rapariga de quinze anos
antes de ter existido qualquer
coisa como a civilizao? Como pensaria, se fosse essa rapariga de quinze 
anos?
Hilde vestiu um pulver,
levantou o dossier do cho e
sentou-se na cama com ele para
continuar a ler o que o pai
escrevera.

Mal Alberto dissera "Fim
de captulo!", algum bateu 
porta da cabana do major.
- No temos outra escolha,
pois no? - perguntou Sofia.
- No - resmungou Alberto.
L fora estava um homem
muito velho com cabelos compridos e barba. Na mo direita trazia um 
bordo de viandante, na esquerda um
:,

358
grande cartaz que mostrava um
barco. No barco havia animais
de todo o gnero.
- E quem  este senhor? -
perguntou Alberto.
- O meu nome  No.
- J imaginava.
- Teu antepassado, meu rapaz. Mas j no est na moda
lembrarmo-nos dos antepassados, pois no?
- O que tens a na mo?
- Uma imagem de todos os
animais que foram salvos do
Dilvio Universal. Toma,
minha filha, isto  para ti.
Sofia pegou no grande cartaz e o velho disse:
- E agora tenho que ir
para casa, regar as videiras.
Deu um pequeno salto, bateu
os calcanhares no ar e foi a
saltitar em direco ao bosque, como s os homens muitos
velhos e com bom humor sabem
fazer.
Sofia e Alberto voltaram
para dentro e sentaram-se.
Sofia olhou para o grande
cartaz, mas ainda no vira
muito quando Alberto lho arrancou das mos.
- Primeiro, temos de nos
concentrar nas grandes linhas.
- Ento comea.
- Esquecemo-nos de referir
que Marx passou os ltimos
trinta e quatro anos da sua
vida em Londres. Mudou-se em
1849 para Londres e l morreu em 1883. Durante todo
este tempo, Charles Darwin
tambm viveu nos arredores de
Londres. Morreu em 1882 e
foi sepultado com todas as
honras na abadia de Westminster como um dos grandes
filhos da Inglaterra. Mas
no foi apenas no tempo e no
espao que os caminhos de
Marx e Darwin se cruzaram.
Marx quis dedicar a edio
inglesa da sua grande obra,
O Capital, a Darwin, mas
este recusou. Quando Marx
morreu, um ano aps Darwin, o
seu amigo Friedrich Engels
disse: "Tal como Darwin descobriu a lei da evoluo da
natureza orgnica, tambm
Marx descobriu a lei da evoluo da histria humana."
- Compreendo.
- Um outro pensador importante que tambm pode ser relacionado com Darwin 
 o psiclogo Sigmund Freud.
Tambm ele passou, mais de
meio sculo mais tarde, os
seus ltimos anos de vida em
Londres. Freud apontou para
o facto de a teoria da evoluo, tal como a sua psicanlise terem 
ofendido os homens no
seu "ingnuo amor prprio".
- So nomes a mais. Vamos
falar de Marx, Darwin ou
Freud?
- Num sentido lato, podemos falar tambm de uma corrente naturalista 
que se estendeu de meados do sculo
XIX at ao nosso. Por
"naturalismo" entendemos uma
concepo da realidade que no
aceita nenhuma

359
outra realidade alm da natureza e do mundo sensvel. Um
naturalista, consequentemente,
v tambm o homem como uma
parte da natureza. Primeiro
que tudo, um investigador naturalista parte apenas dos
factos dados pela natureza -
logo, no parte nem de especulaes racionalistas nem de
qualquer forma de revelao
divina.
- E isso  vlido tanto
para Marx como para Darwin e
para Freud?
- Exacto. Em meados do
sculo XIX, as palavras-chave eram "natureza", "ambiente", "histria", 
"evoluo" e
"crescimento". Marx tinha referido que a conscincia humana era um 
produto da base material de uma sociedade. Darwin provou que o homem  o 
resultado de uma longa evoluo
biolgica, e o estudo de
Freud do inconsciente revelou
que as aces do homem se devem frequentemente a certos
impulsos ou instintos "animais" que residem na sua natureza.
- Acho que compreendo mais
ou menos o que queres dizer
com naturalismo. Mas no devamos falar de um de cada
vez?
- De Marx j falmos.
Falemos ento sobre Darwin.
Talvez ainda te lembres de
que os pre-socrticos queriam
encontrar explicaes naturais para os processos da natureza. Do mesmo 
modo, para
isso tinham de se libertar de
antigas explicaes mitolgicas, Darwin teve de se libertar da doutrina 
crist vigente
sobre a criao do homem e dos
animais.
- Mas ele era um filsofo?
- Darwin era bilogo e naturalista. Foi o cientista
que nos ltimos tempos fez vacilar a viso bblica do lugar
do homem na Criao, mais do
que qualquer outro.
- Ento vais falar sobre a
teoria da evoluo de Darwin.
- Vamos comear pelo prprio Darwin. Nasceu em
Shrewsbury em 1809. O seu
pai, o doutor Robert Darwin,
era um mdico conhecido e foi
muito severo na educao do
filho. Quando Charles frequentava a escola superior de
Shrewsbury, o reitor descreveu-o como um rapaz que vadiava e dizia 
disparates, sem fazer nada de til. Por til,
entendia ele o estudo dos verbos gregos e latinos. E quando falava de 
vadiar pensava no
facto de Charles coleccionar
todo o tipo de colepteros.
- Deve ter-se arrependido
dessas palavras.
- Ainda durante o seu curso de teologia, Darwin j se
interessava mais por aves e
insectos que pelos estudos.
Por isso, no fez nenhum exame em teologia com boa nota.
Mas, paralelamente ao curso
de teologia, conseguiu obter
uma certa fama como naturalista. Interessava-se tambm por
geologia, que era naquela poca a cincia mais em expanso.
Depois de ter feito o seu
exame final de teologia em
Cambridge, em Abril de
1813, viajou pelo Norte do
Pas de Gales, para estudar
formaes rochosas e procurar
fsseis. Em Agosto do mesmo

360
ano, com apenas vinte e dois
anos, recebeu uma carta que
havia de ser determinante para
toda a sua vida...
- O que estava escrito
nessa carta?
- A carta era do seu amigo
e professor John Steven
Henslow. Escreveu que lhe
tinham pedido para dar o nome
de um naturalista que pudesse
viajar com o capito Fitzroy,
o qual recebera da parte do
governo o encargo de desenhar
uma carta geogrfica da ponta
meridional da Amrica do
Sul, e que achava Darwin a
pessoa mais qualificada para
essa tarefa. No sabia nada
sobre o salrio para o investigador procurado, mas a viagem duraria dois 
anos...
- Como consegues fixar
tudo de memria?
- Nada mais fcil, Sofia.
- E ele aceitou?
- Ele tinha uma grande
vontade de aproveitar a oportunidade, mas naqueles tempos
os jovens no faziam nada sem
o consentimento dos pais.
Darwin perguntou ao pai, que
concordou depois de muita hesitao - e ainda pagou a
viagem do filho. No que diz
respeito ao salrio, viu-se
logo que no estava previsto...
- Ah...
- O navio pertencia  Marinha Inglesa e chamava-se
H. M. S. Beagle. Largou
de Plymouth a 27 de Dezembro de 1831 em direco 
Amrica do Sul e s regressou a Inglaterra em Outubro
de 1836. Os dois anos passaram a cinco e a viagem  Amrica do Sul 
tornou-se uma
volta ao mundo. E estamos a
falar da viagem de investigao mais importante da poca
moderna.
- Eles viajaram mesmo 
volta do mundo?
- No verdadeiro sentido da
palavra, sim. A partir da
Amrica do Sul, a viagem
prosseguiu pelo Pacfico em
direco  Nova Zelndia,
Austrlia e frica do Sul.
Daqui, navegaram novamente
para a Amrica do Sul para
regressarem finalmente a Inglaterra. O prprio Darwin
afirmou que a viagem com o
Beagle fora o acontecimento
mais importante de toda a sua
vida.
- No devia ser fcil ser
naturalista no mar, pois no?
- Durante o primeiro ano,
o Beagle navegou de um lado
para o outro ao longo costa
sul-americana. Isso deu a
Darwin a oportunidade de se
familiarizar em terra com o
continente. De importncia
decisiva foram tambm os numerosos desembarques nas ilhas
Galpagos no oceano Pacfico, a oeste da Amrica do
Sul. Deste modo, ele recolheu material precioso que era
progressivamente enviado para
o seu pas. Guardou para si
as numerosas reflexes que fez
sobre a natureza e a evoluo
da vida. Quando regressou a
casa. com apenas vinte e sete
anos, era j um famoso natura

361
lista. E secretamente tinha
j uma ideia clara daquilo que
seria a sua teoria da evoluo. No entanto, passaram
muitos anos at ele publicar a
sua obra principal. Porque
Darwin era um homem cauteloso, Sofia, e assim deve ser
sempre um naturalista.
- Como se chama essa obra
principal?
- Bom, houve vrias. Mas
o livro que desencadeou em
Inglaterra os debates mais
acesos foi A Origem das
Espcies, publicado em
1859. O seu ttulo completo
era On the Origin of Species by Means of Natural
Selection or the Preservation of Favoured Races in
the Struggle for Life. Este ttulo comprido  basicamente um resumo da 
teoria de
Darwin.
- Ento devias traduzi-lo
para mim.
- Isso no  fcil, porque
os conceitos que aparecem nele
foram traduzidos de diversos
modos desde ento. Uma traduo actual poderia ser: Sobre a Origem das 
Espcies
por Meio de Seleco Natural ou a Preservao das Raas Favorecidas na 
Luta pela
Vida.
-  um ttulo muito rico
em contedo.
- Vamos analis-lo parte
por parte. Na Origem das
Espcies, Darwin apresentou
duas teorias ou teses principais: primeiro, partiu do
princpio de que todas as
plantas e animais existentes
hoje descendem de formas anteriores primitivas. Pressups
tambm uma evoluo biolgica.
Em segundo lugar, afirmou que
esta evoluo se devia  "seleco natural".
- Por que motivo so os
mais fortes que sobrevivem?
- Vamos concentrar-nos
primeiro na ideia de evoluo.
Isso por si s no era particularmente original. Em certos meios, a 
aceitao de uma
evoluo biolgica j estava
muito difundida cerca do ano
1800. O zologo francs
Jean de Lamarck j dera o
tom. Ainda antes dele, o av
de Darwin, Erasmus Darwin, apresentara a teoria segundo a qual plantas 
e animais
tinham evoludo a partir de
algumas espcies primitivas.
Mas ningum tinha fornecido
uma explicao aceitvel para
o modo como essa evoluo se
tinha dado. E, por isso, tambm no eram adversrios muito
perigosos para a Igreja.
- Ao contrrio de Darwin?
- Sim, e havia um motivo
para isso. Tanto os religiosos como muitos cientistas seguiam a doutrina 
bblica segundo a qual as diversas espcies vegetais e animais so
imutveis. Partiam do princpio de que cada espcie animal
tinha nascido de uma vez para
sempre atravs de um nico
acto criador. E, alm disso,
esta concepo crist estava
de acordo com a de Plato e
Aristteles.
- Como assim?

362
- A teoria das ideias de
Plato pressupunha que todas
as espcies animais eram imutveis, uma vez que eram criadas segundo o 
arqutipo da
respectiva ideia ou forma. O
facto de as espcies animais
serem imutveis era tambm um
ponto assente na filosofia de
Aristteles. Mas justamente
no tempo de Darwin, fizeram-se algumas observaes e descobertas que 
punham em risco
esta concepo tradicional.
- Que tipo de observaes
e descobertas foram?
- Em primeiro lugar, descobriram-se cada vez mais fsseis e em segundo 
lugar descobriram-se grandes fsseis dos
ossos de animais extintos. O
prprio Darwin se admirou
ainda com o facto de se terem
encontrado fsseis de animais
marinhos em montanhas. Ele
mesmo fizera essas descobertas
nos Andes, na Amrica do
Sul. Mas o que faziam animais marinhos nos Andes,
Sofia? Sabes responder-me?
- No.
- Havia quem achasse que
homens ou animais os tinham
deixado a. Outros achavam
que Deus tinha criado esses
fsseis de animais marinhos
para induzir em erro os incrdulos.
- E o que pensava a cincia?
- A maioria dos gelogos
seguia uma "teoria da catstrofe", segundo a qual a Terra fora assolada 
vrias vezes
por grandes cheias, terramotos
e outras catstrofes que tinham destrudo todas as formas
de vida. Uma catstrofe desse
gnero  descrita na Bblia:
o Dilvio Universal, devido
ao qual No construiu a sua
arca. Aps cada catstrofe,
Deus teria renovado a vida na
Terra criando plantas e animais novos - e mais perfeitos.
- Nesse caso, os fsseis
seriam as marcas de todas as
formas de vida anteriores que
tinham sido exterminadas por
essas catstrofes gigantescas?
- Exacto. Dizia-se, por
exemplo, que os fsseis eram
as marcas de animais que no
tiveram lugar na arca. Mas
quando Darwin partiu com o
Beagle, levou consigo o primeiro volume da obra Principles of Geology 
do gelogo
ingls Charles Lyell. Ele
achava que a geografia actual
da Terra - com montanhas altas e vales profundos - era o
resultado de uma evoluo muito longa e lenta e afirmava
que alteraes muito pequenas
podiam provocar grandes alteraes geogrficas se se tivesse em 
considerao grandes
espaos de tempo.
- Em que tipo de mudanas
estava ele a pensar?
- Nas mesmas foras que
ainda hoje actuam: o tempo e o
vento, degelos, terramotos e
desabamentos. Diz-se que o
gotejar constante fura a pedra, no pela sua fora mas
pela sua aco contnua.
Lyell defendia que essas
transformaes pequenas e progressivas podiam alterar

363
completamente a natureza num
grande espao de tempo. Darwin compreendeu que esta ideia
no podia explicar s por si o
motivo pelo qual encontrara
nos Andes fsseis de animais
marinhos. Mas nunca se esqueceu, durante toda a sua vida
de investigador, que mudanas
pequenas e progressivas podem
levar a alteraes dramticas
se pensarmos no factor tempo.
- Ele pensava que uma explicao semelhante podia ser
aplicada  evoluo dos animais?
- Sim, e fez a si mesmo
essa pergunta. Mas, como eu
disse, Darwin era um homem
prudente. Ponderava longamente as questes antes de ousar
dar as respostas. Deste modo,
usava o mtodo de todos os
verdadeiros filsofos, que
afirma:  importante perguntar
mas no  preciso pressa para
responder.
- Compreendo.
- Um factor decisivo na
teoria de Lyell era a idade
da terra. No tempo de Darwin
estava muito difundida a opinio de que Deus tinha criado
a Terra h cerca de seis mil
anos. Tinha-se calculado este
nmero contando todas as geraes desde Ado e Eva at ao
presente.
- Que ingenuidade!
- Sabemos sempre mais posteriormente. Darwin estimou a
idade da Terra em trezentos
milhes de anos. Uma coisa
era clara: nem a teoria de
Lyell da evoluo biolgica
progressiva nem a prpria teoria da evoluo de Darwin faziam sentido se 
no se tinha
em conta perodos muito extensos.
- Qual  a idade da Terra?
- Hoje sabemos que a Terra tem alguns milhares de milhes de anos.
- J  suficiente...
- At agora, concentrmo-nos num dos argumentos de
Darwin a favor de uma evoluo biolgica, o da presena
estratificada de fsseis nas
vrias formaes rochosas. Um
outro argumento era a distribuio geogrfica das espcies vivas. A 
viagem de pesquisa de Darwin forneceu material novo e extremamente
rico. Ele vira com os prprios olhos que as diversas
espcies animais de uma regio
se podiam distinguir entre si
graas a diferenas mnimas.
Fez algumas observaes interessantes sobretudo nas ilhas
Galpagos, a oeste do Equador.
- Conta!
- Trata-se de um grupo de
ilhas vulcnicas muito prximas entre si. Por isso no
havia grandes diferenas na
flora e fauna. Mas Darwin
estava interessado justamente
nas pequenas diferenas. Em
todas as ilhas encontrou grandes tartarugas gigantes, que
diferiam sempre um

364
pouco de ilha para ilha. Teria Deus realmente criado uma
raa especfica de tartarugas
gigantes para cada ilha?
-  pouco provvel.
- Mais importante ainda
foi o que Darwin observou na
vida das aves das ilhas Galpagos. De ilha para ilha variavam as espcies 
de tentilhes - sobretudo na forma do
bico. Darwin demonstrou que
estas variaes estavam intimamente relacionadas com o
modo como os tentilhes se
alimentavam nas diversas
ilhas. O tentilho de bico
afiado vivia de pinhes, o
tentilho pequeno vivia de insectos, o tentilho de bico
mais grosso alimentava-se de
insectos que viviam nos troncos e nos ramos. Cada uma
destas espcies tinha um bico
que se ajustava perfeitamente
ao modo de se alimentar. Poderiam todos estes tentilhes
descender de uma mesma espcie
de tentilho? Essa espcie
tinha-se adaptado de tal forma
ao seu ambiente nas diversas
ilhas, com o decurso dos anos,
que tivessem surgido finalmente novas espcies de tentilhes?
- Foi essa a concluso a
que ele chegou?
- Foi. E provavelmente
Darwin s se tornou um "darwinista" nas ilhas Galpagos.
Ocorreu-lhe tambm que a fauna nesse pequeno arquiplago
apresentava grandes semelhanas com muitas espcies que
ele vira na Amrica do Sul.
Tinha Deus criado de uma vez
por todas estes animais ligeiramente diferentes uns dos outros - ou teria 
havido uma
evoluo? Teve cada vez mais
dvidas de que as espcies
fossem imutveis. Mas faltava-lhe ainda uma boa explicao para o modo 
como poderia
suceder uma evoluo ou uma
adaptao ao mundo. O que ele
possua era um argumento a favor do parentesco entre todos
os animais na Terra.
- Qual era?
- Era o desenvolvimento
dos fetos nos mamferos. Se
comparares os fetos do co,
morcego, coelho e homem no
mesmo estdio primitivo, quase
no vs diferenas. S num
estdio muito mais tardio do
desenvolvimento dos fetos podes distinguir fetos de homens
e de coelhos. Seria isso um
indcio de que somos parentes
afastados?
- Mas ele ainda no tinha
encontrado uma explicao para
o modo como a evoluo para
espcies diferentes se tinha
dado?
- Ele continuava a reflectir sobre a teoria de Lyell
acerca das pequenas transformaes que tinham grandes
efeitos com o decorrer do tempo. Mas no encontrou uma explicao que 
pudesse servir
como princpio universal. Conhecia a teoria de Lamarck,
que reconhecera que as diversas espcies animais tinham
desenvolvido exactamente aquilo de que precisavam. E considerara que as 
girafas tinham
um pescoo muito comprido por
se terem esticado durante muitas geraes para chegar s

365
folhas das rvores. Lamarck
achava portanto que as caractersticas que um indivduo
adquire atravs do prprio esforo so legadas  descendncia. Mas a 
teoria de que as
"caractersticas adquiridas"
eram hereditrias foi recusada
por Darwin - precisamente
porque Lamarck no podia provar as suas teses ousadas.
Porm havia outra coisa - e
muito mais prxima - na qual
Darwin pensava cada vez mais.
Podes dizer que o verdadeiro
mecanismo da evoluo das espcies estava  frente do seu
nariz.
- Estou muito curiosa.
- Preferia que descobrisses esse mecanismo por ti.
Por isso, pergunto: Se tens
trs vacas, mas apenas comida
suficiente para duas, o que
fazes?
- Tenho de abater uma
vaca.
- Exacto... e que vaca havias de abater?
- Aquela que d menos leite.
- Ests a falar a srio?
- Sim,  lgico.
-  exactamente isso que
os homens fazem desde h milnios. Mas ainda sobram duas
vacas. Partindo do princpio
que queres fazer reproduo
com uma, qual  que escolhes?
- A que d mais leite.
Nesse caso, a vitela ser
tambm uma boa vaca leiteira.
- Preferes boas vacas leiteiras s ms? Ento, s nos
falta uma tarefa. Se gostas
de caar e tens dois ces de
caa, mas tens de dar um deles, que co conservarias para
ti?
- Ficaria com aquele que
tivesse melhor faro para a
caa.
- Preferirias portanto o
melhor co de caa, sim. E 
assim, Sofia, que os homens
criam os animais h mais de
dez mil anos. As galinhas nem
sempre puseram cinco ovos por
semana, as ovelhas no tiveram
sempre tanta l e os cavalos
no foram sempre to fortes e
rpidos como so hoje. Os homens fizeram uma seleco artificial. Isso 
tambm  vlido para o reino vegetal.
No plantamos batatas ms se
queremos ter renovos melhores.
No nos damos ao trabalho de
ceifar espigas sem gros. Segundo Darwin, no h duas vacas, duas 
espigas, dois ces e
dois tentilhes iguais. A natureza apresenta uma enorme
variedade. Nem na mesma espcie h dois indivduos totalmente iguais. Tu 
mesma te
apercebeste disso quando bebeste o lquido azul.
- Podes ter a certeza!
- Darwin tinha que pr a
questo: poderia haver tambm
na natureza um mecanismo anlogo? Seria possvel que a
natureza tambm fizesse uma
"seleco natural" dos indivduos que devem sobreviver?

366
E poderia esse mecanismo a
longo prazo provocar o aparecimento de espcies vegetais e
animais completamente novas?
- Aposto que a resposta 
sim.
- Darwin ainda no conseguia imaginar exactamente como
essa seleco natural podia
dar-se. Mas em Outubro de
1838 - passados exactamente
dois anos depois do seu regresso com o Beagle - veio-lhe s mos por 
acaso um pequeno livro do economista
Thomas Malthus. O livro
tinha o ttulo An Essay on
the Principle of Population. O americano Benjamin
Franklin, que tinha inventado entre outras coisas o pra-raios, dera a 
Malthus a
ideia de escrever esse livro.
Franklin referira que na natureza tambm tem de haver
factores limitantes, porque,
de outro modo, uma nica espcie vegetal ou animal ter-se-ia difundido em 
todo o planeta. S por existirem muitas
espcies diversas  que elas
se equilibram umas s outras.
- Compreendo.
- Malthus desenvolveu esta
ideia e aplicou-a  situao
demogrfica da Terra. Explicou que a capacidade de procriao do homem  
to grande
que nasciam sempre mais crianas do que as que podiam sobreviver. E uma 
vez que a
produo de alimento nunca
pode andar a passo com o crescimento populacional, um grande nmero de 
pessoas est condenado a sucumbir na luta pela
existncia. Conseguiro sobreviver - e consequentemente
assegurar a subsistncia da
sua famlia - s aqueles que
melhor se impuserem na luta
pela sobrevivncia.
- Parece lgico.
- E era justamente esse o
mecanismo universal de que
Darwin estivera  procura.
De repente, tinha uma explicao para o modo como decorria a evoluo: a 
seleco
natural na luta pela sobrevivncia, graas  qual quem
est melhor adaptado ao ambiente continuar a viver e a
reproduzir-se. Era a segunda
teoria por ele proposta no seu
livro A Origem das Espcies. Ele escreveu: "O elefante reproduz-se mais 
lentamente do que todos os outros
animais, e eu tive o cuidado
de calcular o mnimo provvel
da sua reproduo natural.
Podemos ter como bastante seguro que ele inicia a reproduo aos trinta 
anos e a mantm
at ao nonagsimo ano de vida,
e que durante este perodo
gera seis crias e vive at aos
cem anos. Neste caso, ao cabo
de 740 a 750 anos haveria
cerca de 19 milhes de elefantes descendentes de um primeiro casal."
- Para no falar dos milhares de ovos de um nico bacalhau.
- Darwin explicou ainda
que a luta pela sobrevivncia
entre as espcies mais semelhantes  frequentemente mais
dura, porque lutam pelo mesmo
tipo de alimento. E, nessa
altura, so as pequenas diferenas

367
- as pequenas vantagens em
relao  mdia - que so determinantes. Quanto mais dura
 a luta pela sobrevivncia
mais rapidamente se d o desenvolvimento de novas espcies. S os 
indivduos mais
bem adaptados ao ambiente sobrevivem: todos os outros se
extinguem.
- Ento, quanto menos alimento e quanto mais descendncia h, mais rpida 
 a evoluo?
- No se trata apenas de
alimento. Tambm pode ser importante no se ser devorado
por outros animais. Pode ser
uma vantagem ter uma certa cor
de camuflagem, poder correr
rapidamente, aperceber-se da
presena de animais inimigos
- ou pelo menos ter mau sabor. Um veneno que mate um
predador  tambm importante.
No  por acaso que muitos
cactos so venenosos, Sofia.
No deserto, quase s crescem
cactos. E por isso esto particularmente expostos aos ataques dos animais 
herbvoros.
- Alm disso, a maior parte dos cactos tm picos.
- A capacidade de reproduo tem tambm uma importncia
fundamental. Darwin estudou
bem a polinizao. As plantas, com os seus perfumes e as
suas cores, atraem os insectos
que contribuem para a difuso
do plen. O canto dos pssaros tambm  importante para a
reproduo. Um touro lento e
melanclico, que no se interessa por vacas, no  importante para a 
histria da sua
espcie. A nica tarefa do
indivduo  atingir a maturidade sexual e reproduzir-se,
para conservar a espcie. 
como uma longa estafeta, em
que aqueles que, por algum motivo, no conseguem transmitir
os genes so sempre excludos.
Deste modo, a raa melhora
progressivamente. A resistncia s doenas tambm  uma
caracterstica que se conserva
nas variantes que sobrevivem.
- Ento tudo melhora progressivamente?
- A seleco contnua faz
com que aqueles que esto
adaptados a um determinado ambiente - ou a um determinado
nicho ecolgico - sobrevivam
nesse ambiente. Mas aquilo
que  uma vantagem num ambiente pode no s-lo noutro. Para alguns dos 
tentilhes das
ilhas Galpagos, a capacidade
de voar era muito importante,
mas no se o alimento tem que
ser escavado do solo e no
existem animais predadores.
Justamente porque na natureza
h tantos nichos  que se desenvolveram tantos animais com
o decurso do tempo.
- Mas h apenas uma espcie humana.
- Sim, porque os homens
possuem uma capacidade fantstica de se adaptar s mais diversas 
condies de vida.
Darwin ficou impressionado
quando viu como os ndios da
Terra do Fogo conseguiam sobreviver num clima to frio.
Se os homens junto ao equador
tm uma pele mais escura

368
do que os habitantes das regies setentrionais  porque a
pele escura protege da luz solar. Homens de pele branca
que se expem demasiado ao sol
esto mais sujeitos ao cancro
de pele.
- A pele branca tambm 
uma vantagem quando se vive
num pas a norte?
- Claro, seno os homens
teriam por toda a parte a pele
escura. Mas a pele branca tem
mais facilidade em produzir um
certo tipo de vitaminas - do
grupo D -, e isso  muito
importante nas regies que tm
pouco sol. Hoje, isso tem
pouca importncia porque tomamos vitaminas atravs da alimentao, mas 
nada  casual na
natureza: tudo se deve quelas
pequenas variaes que actuaram por um nmero infinito de
geraes.
- Isso  uma ideia fantstica.
- , no ? Podemos agora
resumir a teoria de Darwin
deste modo...
- Despacha-te!
- ... dizendo que: a matria-prima responsvel pela
evoluo da vida na Terra so
as contnuas variaes entre
indivduos dentro de uma mesma
espcie. E  a alta taxa de
natalidade que permite que
uma pequena percentagem deles
consiga sobreviver. O mecanismo na base da evoluo  a
seleco natural na luta
pela sobrevivncia. Esta seleco faz com que apenas os
mais fortes ou os que se adaptam melhor consigam sobreviver.
- Parece lgico. Como foi
recebido o livro sobre a origem das espcies?
- Desencadeou uma grande
celeuma. A Igreja protestou
fortemente e o meio cientfico
ingls dividiu-se. No fundo,
estas reaces no eram estranhas, uma vez que Darwin eliminara em parte 
Deus do acto
criador. Mas algumas pessoas,
mais iluminadas, disseram que
era obra muito maior criar alguma coisa que contivesse em
si as possibilidades de desenvolvimento do que criar todas
as coisas de uma vez por todas, determinadas nos mnimos
detalhes.
De repente, Sofia levantou-se de um pulo do seu sof.
- Olha, ali! - exclamou.
Apontava para a janela.
Junto ao lago, um homem e uma
mulher passeavam de mo dada.
Estavam completamente nus.
- So Ado e Eva -
afirmou Alberto. - Mais
tarde ou mais cedo, tinham de
compartilhar a mesma irrealidade do Capuchinho Vermelho
e da Alice. Por isso apareceram aqui.
Sofia foi  janela para ver
melhor, mas o par desapareceu
rapidamente entre as rvores.
- Porque, segundo Darwin,
o homem evoluiu dos animais?

369
- Em 1871, publicou The
Descent of Man, A Descendncia do Homem, no qual
evidencia as semelhanas existentes entre os homens e os
animais, e defende que os seres humanos e os smios antropides devem 
ter-se desenvolvido a partir de um antepassado comum. Entretanto, tinham-
se encontrado os primeiros
fsseis de crnios de um tipo
humano extinto, primeiro numa
pedreira no Rochedo de Gibraltar e alguns anos mais
tarde em Neandertal, na Rennia. Por estranho que parea, houve menos 
reaco em
1871 do que em 1859, o ano
em que Darwin publicara A
Origem das Espcies, se bem
que, de facto, a tese de que o
homem descendia de animais j
estava implcita no primeiro
livro. E como eu j disse,
quando morreu em 1882, Darwin foi sepultado com muitas
honras como um pioneiro da
cincia.
- E obteve no fim fama e
glria?
- No fim, sim. Mas antes
disso chamaram-lhe o homem
mais perigoso de Inglaterra.
- Meu Deus!
- "Esperemos que no seja
verdade, mas se  esperemos
que no se venha a saber",
disse uma senhora da alta sociedade. Um cientista conhecido disse uma 
coisa semelhante: "uma descoberta humilhante, e quanto menos se falar
dela, melhor."
- Desse modo, quase demonstraram que o homem  aparentado com a avestruz!
- Sim, bem podes dizer
isso. Mas  fcil para ns
criticar. Muitas pessoas se
sentiram foradas a rever a
sua opinio sobre a narrao
bblica da Criao. O jovem
autor John Ruskin exprimiu-o do seguinte modo: "Se
os gelogos pudessem deixar-me
em paz! No fim de cada versculo da Bblia ouo as suas
marteladas."
- E as marteladas eram as
dvidas quanto  palavra de
Deus?
- Era isso que ele queria
dizer, porque no foi apenas a
interpretao literal da descrio bblica a ser abalada.
A teoria de Darwin afirmava
tambm que variaes totalmente casuais tinham criado o
homem. E mais, Darwin reduziu o ser humano a um produto
de uma coisa to "desprezvel"
como a luta pela existncia.
- Darwin explicou o modo
como nascem essas "variaes
casuais"?
- Ests a tocar no ponto
mais frgil da sua teoria.
Darwin tinha apenas ideias
muito vagas sobre a hereditariedade. Alguma coisa desaparece no 
cruzamento. Um casal
nunca tem dois filhos exactamente iguais e isso j representa uma certa 
variao. Por
outro lado, dificilmente surge
alguma coisa verdadeiramente
nova. Alm disso, h plantas
e animais que se reproduzem
atravs de germinao ou simples diviso

370
celular, logo sem cruzamentos.
Para explicar como se criam
estas variaes viria depois o
chamado neodarwinismo, que
completou a teoria de Darwin.
- Conta!
- Toda a vida e toda a reproduo andam  volta da diviso celular. 
Quando uma clula se divide em dois, formam-se duas clulas exactamente 
iguais com o mesmo material
gentico. Por diviso celular
entendemos portanto que uma
clula se copia a si mesma.
- Sim?
- Mas, por vezes, h erros
minsculos neste processo - e
por isso a clula copiada no
 totalmente igual  clula
me. Este fenmeno  chamado
mutao na biologia moderna.
As mutaes podem ser insignificantes ou, pelo contrrio,
levar a transformaes evidentes nas caractersticas do indivduo. Podem 
ser directamente prejudiciais e, neste
caso, os "mutantes" so constantemente eliminados. Muitas
doenas tambm se devem a mutaes. Mas, por vezes, uma
mutao pode fornecer ao indivduo precisamente aquela caracterstica 
positiva da qual
precisa para se poder impor na
luta pela sobrevivncia.
- Um pescoo mais comprido, por exemplo?
- A explicao de Lamarck
para o longo pescoo das girafas era que as girafas tinham
esticado constantemente o pescoo para comerem as folhas
das rvores. Mas, segundo
Darwin, as caractersticas
adquiridas pelo hbito no podiam ser transmitidas. Para
Darwin, o pescoo comprido
das girafas era uma variao
natural dos pescoos dos seus
antepassados. O neodarwinismo
completa esta tese indicando a
causa de tais variaes.
- As mutaes.
- Sim. Algumas mutaes
casuais no material gentico
deram a alguns antepassados
das girafas um pescoo ligeiramente mais longo do que a
mdia. Variao que se pode
ter tornado positiva e importante num perodo de escassez
de alimento: quem chegava aos
ramos mais altos das rvores
conseguia sobreviver melhor.
Podemos ainda imaginar que
algumas destas "primeiras girafas" desenvolveram a capacidade de 
esgravatar alimento do
solo. Passado muito tempo,
uma espcie animal pode ter-se
dividido em duas novas espcies animais.
- Compreendo.
- Vou dar exemplos mais
recentes do mecanismo da seleco natural. O princpio 
muito simples.
- Diz.
- Em Inglaterra h uma
espcie de borboleta que vive
nos troncos claros das btulas. Se recuarmos ao sculo
XIII, podemos verificar que

371
a maior parte destas borboletas eram de um tom cinzento-claro. Porqu, 
Sofia?
- Para no serem vistas
pelos pssaros.
- De quando em quando,
nasciam exemplares mais escuros e isso devia-se a mutaes
casuais. O que te parece que
aconteceu s variantes escuras?
- Eram mais visveis, e
por isso presa fcil dos pssaros.
- De facto, nesse ambiente, ou seja, nos troncos claros das btulas, a 
cor escura
no era uma caracterstica favorvel, razo pela qual as
borboletas de cor clara se
multiplicaram muito. Mas, em
seguida, aconteceu uma coisa
no ambiente: com a industrializao, em muitas localidades, os troncos 
brancos tornaram-se mais escuros por causa
da fuligem. O que aconteceu
ento a estas borboletas?
- Foi a vez de os exemplares escuros se desenvencilharem melhor.
- Precisamente, e no foi
necessrio muito tempo para o
seu nmero aumentar. De 1848
a 1948 a quantidade dos exemplares escuros passou, em algumas zonas, de 
um a noventa e
nove por cento. O ambiente
tinha mudado, e no era uma
vantagem ter-se cor clara, pelo contrrio! Os exemplares
brancos eram imediatamente
eliminados pelos pssaros mal
pousavam nos troncos. Mas
houve uma nova transformao
do ambiente: um uso mais limitado do carbono e melhores
instalaes de filtragem tornaram nos ltimos anos o ambiente mais limpo.
- Ento agora os troncos
das btulas so novamente
brancos?
- Por esse motivo as borboletas esto a voltar  cor
branca.  o que chamamos
adaptao e estamos a falar
de uma lei da natureza. H
tambm outros exemplos que
mostram como os seres humanos
intervieram no ambiente.
- A que  que te referes?
- Tentou-se eliminar animais nocivos recorrendo a vrias substncias 
venenosas.
De incio, o resultado foi
positivo, mas quando pulverizamos um campo ou um pomar com
insecticidas, provocamos na
realidade uma pequena catstrofe ecolgica para os elementos nocivos que 
queremos
exterminar. E devido a mutaes contnuas, pode desenvolver-se um grupo 
de factores
nocivos mais resistentes contra o veneno usado. Estes
"vencedores" tm mais possibilidades de sobreviver e tornam-se cada vez 
mais difceis
de eliminar justamente porque
o ser humano tentou destru-los. So as variantes mais
resistentes que sobrevivem.
- Terrvel!
- Mesmo no nosso corpo
tentamos eliminar parasitas
nocivos: refiro-me s bactrias.
- Usamos a penicilina ou
antibiticos.

372
- Uma cura  base de penicilina representa realmente
uma "cats trofe ecolgica"
para estes hspedes indesejados, mas, pouco a pouco, algumas bactrias 
resistem inclusivamente  penicilina. Temos
de recorrer a doses cada vez
maiores, e no fim...
- No fim saem-nos pela boca, talvez tenhamos de comear
a disparar contra elas.
- Isso seria talvez um
pouco exagerado. Mas  evidente que a medicina moderna
criou um srio dilema. No se
trata apenas do facto de as
bactrias se terem tornado
mais resistentes do que eram.
Antigamente, muitos bebs
morriam destas doenas, e sobreviviam muito poucos. Num
certo sentido, a medicina moderna eliminou a seleco natural. Mas aquilo 
que ajuda o
indivduo pode a longo prazo
enfraquecer a capacidade de
resistncia da humanidade s
doenas. Quer dizer que, a
longo prazo, a capacidade hereditria dos homens de resistir a doenas 
srias torna-se
mais fraca.
-  uma perspectiva terrvel.
- Mas um filsofo tem de
referir isso. Uma questo
completamente diferente  a de
saber quais so as suas consequncias. Tentemos fazer um
pequeno resumo.
- Faz favor!
- Podemos dizer que a vida
 uma grande lotaria onde apenas vemos os bilhetes vencedores.
- O que queres dizer?
- Aqueles que perderam na
luta pela existncia, desapareceram. Por detrs de cada
espcie animal e vegetal sobre
a face da Terra, h milhes
de anos de extraces de "bilhetes perdedores". Todas as
espcies animais e vegetais
presentes hoje no mundo devem
ser consideradas, pelo menos
por enquanto, "vencedoras" na
grande lotaria da vida.
- Porque apenas os melhores sobrevivem.
- Podemos dizer isso. E
agora vamos ver o cartaz que
No te deu.
Sofia passou-lhe o cartaz.
De um lado, havia a imagem da
arca de No, noutro estava
desenhada a rvore genealgica
de todas as diferentes espcies animais. Era esse o lado
que Alberto lhe queria mostrar.
- O esquema mostra a subdiviso das diferentes espcies animais e 
vegetais: podes
ver como cada espcie pertence
a diversos grupos e classes.
- Sim, estou a ver.
- O homem pertence, juntamente com os smios, aos chamados primatas. 
Todos os primatas so mamferos e todos os
mamferos pertencem ao grupo
dos vertebrados, que por sua
vez pertence ao grupo dos animais pluricelulares.

373
- Faz lembrar Aristteles.
-  verdade. Mas o esquema no mostra apenas qual  a
subdiviso das espcies modernas. Tambm diz algo sobre a
histria da evoluo. Podes
ver, por exemplo, que os pssaros se separaram dos rpteis, que por sua 
vez se separaram dos anfbios, que por
sua vez se separaram dos peixes.
- Sim,  muito claro.
- Cada vez que uma destas
linhas se divide,  porque
houve mutaes que levaram 
formao de novas espcies.
Deste modo, no decurso de milhes de anos formaram-se os
diversos grupos e classes de
animais. Mas este esquema 
muito simplificado: na realidade hoje existe mais de um
milho de espcies animais, e
este milho  apenas uma pequena parte de todas as espcies animais que 
viveram na
Terra. Como vs, um grupo
animal como o dos trilobites
extinguiu-se completamente.
- E em baixo temos os animais unicelulares.
- Alguns desses no mudaram provavelmente desde h alguns milhes de 
anos. Vs
tambm uma linha que vai desde
estes organismos unicelulares
at ao reino vegetal porque,
muito provavelmente, as plantas provm da mesma clula
primordial que os animais.
- Estou a ver, mas agora
tenho uma pergunta.
- Sim?
- Donde vem essa clula
primordial? Darwin deu uma
resposta?
- Eu disse-te que era um
homem prudente, mas neste aspecto especulou um pouco. Ele
escreveu: "Se (e que se!)
pudssemos imaginar uma pequena poa de gua quente, onde
todo o tipo de sais de amnio
e fsforo, a luz, o calor, a
electricidade estivessem presentes, e onde se tivesse
criado um composto proteico,
apto a sofrer mutaes ainda
mais complexas..."
- Sim, e ento?
- Darwin estava a imaginar
de que modo a primeira clula
viva se podia ter formado da
matria inorgnica. E mais
uma vez acertou no alvo. A
cincia de hoje pensa que a
primeira forma de vida nasceu
numa "pequena poa de gua
quente" tal como Darwin a
imaginara.
- Continua!
- Um esboo sumrio deve
ser o suficiente. Lembra-te
de que estamos a deixar Darwin e a dar um salto para as
mais recentes investigaes
sobre a origem da vida na terra.
- Isso pe-me um pouco
nervosa. Ningum sabe como a
vida surgiu?
- Talvez no, mas cada vez
mais peas do quadro se ajustam para formar a imagem de
como a vida pode ter surgido.

374
- Continua!
- Devemos primeiro que
tudo ter presente que toda a
forma de vida na terra, vegetal ou animal,  constituda
pelas mesmas substncias. A
definio mais simples da vida
: cada ser vivo possui um metabolismo e reproduz-se autonomamente. Este 
processo 
dirigido por uma substncia a
que chamamos ADN. Desta
substncia so feitos os cromossomas, ou seja, o material
gentico que se encontra em
qualquer clula viva. O
ADN  uma molcula, ou melhor, uma macromolcula, muito
complexa. A pergunta : como
nasceu a primeira molcula de
ADN?
- Como?
- A Terra foi criada
quando se formou o sistema solar h cerca de 4'500 milhes
de anos. Inicialmente era uma
massa incandescente, mas pouco
a pouco, a crusta terrestre
arrefeceu. E, segundo a cincia moderna, a vida surgiu h
cerca de trs a quatro mil milhes de anos.
- Parece inacreditvel.
- S podes dizer isso depois de teres ouvido o resto.
Antes de mais, deves reparar
que a Terra era muito diferente do que  hoje. Visto
que no havia nenhuma forma de
vida, nem sequer havia oxignio na atmosfera. O oxignio
livre s foi criado com a fotossntese das plantas. O
facto de no existir oxignio
era importante:  impossvel
que os fundamentos da vida,
que podem dar origem ao
ADN, tivessem nascido numa
atmosfera rica em oxignio.
- Porqu?
- Porque o oxignio  uma
substncia muito reactiva: antes de poderem formar complicadas molculas 
de ADN, estes tijolos da molcula de
ADN ter-se-iam oxidado.
- Est bem.
- Por isso sabemos com segurana que hoje no pode nascer nenhuma forma 
nova de vida, nem uma bactria ou vrus.
Por isso, toda a vida na
Terra deve ter a mesma idade.
Um elefante tem uma rvore
genealgica to longa como a
da mais simples bactria. Podemos dizer que um elefante,
ou um homem,  na realidade
uma colnia de animais unicelulares porque em cada clula
do nosso corpo temos exactamente o mesmo material gentico. A receita 
pela qual somos
o que somos est em cada clula do nosso corpo.
-  estranho.
- Um dos grandes mistrios
da vida  que todavia as clulas dos animais pluricelulares
tm a capacidade de se especializarem numa funo particular, porque as 
diversas caractersticas hereditrias no
esto activas em todas as clulas. Algumas destas caractersticas, ou 
genes, esto
"activadas", outras "desactivadas". Uma clula heptica

375
produz protenas diferentes
das de uma clula nervosa ou
de uma clula da pele. Mas em
todas encontramos a mesma molcula de ADN que contm
toda a receita do organismo de
que estamos a falar.
- Continua!
- Quando no havia oxignio na atmosfera, no havia
sequer,  volta do globo terrestre, uma camada protectora
de ozono. Isso significa que
no havia nada a deter as radiaes provenientes do espao. Isto tambm  
importante
porque, muito provavelmente,
estas ltimas tiveram um papel
decisivo na formao das primeiras molculas complexas.
Uma radiao csmica foi a
energia que uniu as diversas
substncias qumicas presentes
na Terra para formar macromolculas complexas.
- Est bem.
- Vou recapitular: para
que se possam constituir as
molculas complexas de que se
forma a vida, pelo menos duas
condies tm de ser satisfeitas: no pode existir oxignio na atmosfera 
e no deve
haver obstculo s radiaes
provenientes do espao.
- Compreendo.
- Na pequena "poa de gua
quente" - ou "sopa primordial", como lhe chama a cincia moderna, formou-
se a dada
altura uma macromolcula muito
complexa, que tinha a estranha
capacidade de se poder dividir. E com isto se iniciou a
longa evoluo, Sofia. Se
quisermos simplificar um pouco, diremos que j podemos falar do primeiro 
material gentico, do primeiro ADN ou da
primeira clula viva. Ela
continuou a dividir-se; desde
o primeiro momento sucederam
mutaes constantes. Depois
de um espao de tempo muito
longo, sucedeu que os organismos unicelulares se uniram
para constituir organismos
pluricelulares mais complexos.
Do mesmo modo, teve incio a
fotossntese das plantas, e
assim se formou uma atmosfera
rica em oxignio. Este acontecimento teve um efeito duplo: antes de mais, 
a atmosfera permitiu que se pudessem
desenvolver animais aptos a
respirar com os pulmes. Alm
disso, a atmosfera protegeu a
vida das radiaes nocivas
provenientes do espao. Na
realidade, estas radiaes,
importantes "centelhas" para a
criao da primeira clula,
so tambm prejudiciais para
toda a vida animada.
- Mas a atmosfera no se
formou da noite para o dia.
Como conseguiram sobreviver
as primeiras formas de vida?
- A vida nasceu primeiro
no oceano, aquilo a que chamamos a "sopa primordial". A,
as primeiras formas de vida
puderam desenvolver-se protegidas das radiaes perigosas.
S muito mais tarde, quando a
vida no oceano criou a atmosfera,  que os primeiros anfbios subiram 
para terra. J
falmos do resto. Estamos
aqui sentados numa cabana de
um bosque e olhamos em retrospectiva para um processo que
durou

376
trs ou quatro mil milhes de
anos. E foi justamente em ns
que este processo teve conscincia de si mesmo.
- Mas achas que foi tudo
mero acaso?
- No disse isso. O cartaz de No mostra-nos que a
evoluo tinha uma direco.
Durante milhes de anos desenvolveram-se animais dotados
de um sistema nervoso cada vez
mais complexo e com um crebro
cada vez maior. Pessoalmente
no acho que tenha sido um
acaso. O que  que tu pensas?
- O olho humano no pode
ter surgido por mero acaso.
No achas que haja um significado por detrs do facto de
podermos ver o mundo que nos
rodeia?
- A evoluo do olho tambm surpreendeu Darwin. No
conseguia imaginar que uma
coisa to bela e delicada pudesse ter nascido devido  seleco natural.
Sofia olhou para Alberto.
Pensou como era estranho ela
estar a viver naquele momento,
o facto de viver apenas aquela
vez e de no tornar a viver.
De repente, exclamou:
- "Ento que vale a eterna
criao? Coisas criadas ao
nada reduzir!"
Alberto fixou-a severamente:
- No podes falar assim,
minha filha. Essas so as palavras do diabo.
- Do diabo?
- Ou de Mefistfeles -
no Fausto de Goethe.
- O que querem dizer exactamente estas palavras?
- Enquanto Fausto morre,
e olha retrospectivamente para
a sua longa vida - diz num
tom triunfante:

"s to belo, demora-te! Por

sculos
E sculos de meus terrenos

dias
No se apaga o vestgio Agora mesmo,
Somente em pressentir tanta

delcia,
Gozo ditoso o mais celeste

instante."

- Que bonito!
- Mas agora  a vez do
diabo. Mal Fausto morre exclama:

377
"Acabou-se! Palavra sem sen tido!
Acabou-se porqu? Acabou e

nada,
 tudo a mesma coisa! Ento

que vale
A eterna criao? Coisas

criadas
Ao nada reduzir! "Est aca bado!..."
Que quer isto dizer?  exac tamente
Como se nunca fosse, e toda via
Circula, como tendo inda

existncia!
Preferira ao que acaba o v cuo eterno." ()
...................
() J. W. Goethe,
Fausto. Traduo de Agos tinho de Ornellas - nova
edio ao cuidado de Paulo
Quintela. Por ordem da
Universidade de Coimbra,
1953.
- Que pessimismo. Gostei
mais da primeira citao.
Apesar de a sua vida ter terminado, Fausto viu um significado nos 
vestgios que deixou atrs de si.
- No  uma consequncia
da teoria da evoluo de Darwin sentirmo-nos parte de alguma coisa de 
grande onde a
mais pequena forma de vida tem
um significado na totalidade?
Ns somos o planeta vivo,
Sofia! Somos a grande embarcao que navega  volta de
um sol ardente no universo.
Mas cada um de ns  tambm
um barco que atravessa a vida
com uma carga de genes. Quando a tivermos transportado
at ao porto seguinte, no
teremos vivido em vo. Bjornstjerne Bjornson exprimiu a
mesma ideia no poema "Salmo
II":
"Louva o eterno na nossa vida
que criou todas as coisas!
Na manh da ressurreio o

mnimo  dado,
apenas as formas se perdem.
A estirpe gera a estirpe,
e alcana poderes crescentes;
a espcie gera a espcie
em milhes de anos
Mundos morrem e nascem.
Na alegria de viver, tu, a

quem foi concedido
ser uma flor desta primavera,
goza um dia em honra do eterno
na condio de homem;
oferece o teu bolo
at ao surgir do eterno,
respira num nico e
imperceptvel flego
o dia eterno!"

378
- Que bonito!
- Mas agora vamos terminar. Digo apenas: fim de captulo!
- Pra com essa tua ironia!
- Fim de captulo, disse
eu. Presta ateno ao que eu
te digo!

379

FREUD
...um desejo horrvel, egosta, emergira nela...

Hilde Mller Knag saltou
da cama com o grande dossier
nos braos. Deixou-o na mesinha de cabeceira, correu com a
roupa para a casa de banho,
tomou duche em dois minutos e
vestiu-se a toda a pressa. Em
seguida, desceu as escadas a
correr.
- Pequeno-almoo, Hilde?
- Antes tenho de remar um
pouco.
- Mas, Hilde!
Hilde saiu a correr da casa
para o jardim. Desamarrou o
barco da doca e saltou para
dentro dele. Depois, comeou
a remar. Remou sem direco
pela enseada, primeiro com
golpes enfurecidos, depois comeou a acalmar-se. "Ns somos o planeta 
vivo, Sofia!
Somos a grande embarcao que
navega  volta de um sol ardente no universo. Mas cada
um de ns  tambm um barco
que atravessa a vida com uma
carga de genes. Quando a tivermos transportado at ao
porto seguinte, no teremos
vivido em vo..."
Hilde sabia-o de cor: afinal tinha sido escrito para
si. No para Sofia, mas para
si. Tudo o que estava escrito
no dossier era uma carta do
pai para ela.
Retirou os remos dos toletes e p-los dentro do barco,
que comeou a balouar para
cima e para baixo. As ondas
batiam levemente no fundo.
Tal como o pequeno barco se
movia na gua de uma pequena
enseada em Lillesand, tambm
ela era uma casca de noz na
superfcie da vida.
Onde estavam Sofia e
Alberto neste quadro? Sim,
onde estavam Sofia e Alberto?
No conseguia aceitar a
ideia de que fossem apenas
"impulsos electromagnticos"
no crebro do pai. No fazia
sentido que fossem apenas papel e tinta de uma fita da mquina de 
escrever do pai.
Nesse caso poderia dizer que
ela prpria era uma aglomerao de ligaes

380
proteicas que se tinham reunido outrora "numa pequena poa
quente". Mas ela era mais do
que isso. Ela era Hilde
Mller Knag!
O dossier era, de facto,
um presente de aniversrio
fantstico. E o pai soubera
fazer ressoar nela uma corda
nova. Mas o tom impertinente
com o qual escrevia sobre Sofia e Alberto no lhe agradava.
O major havia de levar um
raspanete no regresso a casa.
Ela devia-o queles sobre os
quais estava a ler. Hilde j
estava a ver o pai a andar de
um lado para o outro como um
garoto no aeroporto de Copenhaga.
Hilde tinha-se acalmado.
Remou novamente at  doca e
amarrou o barco. Depois tomou
o pequeno-almoo com a me.
Gostaria de poder dizer que o
ovo estava muito bom, mas na
realidade estava um pouco
mole.
 noite, voltou a pegar no
dossier. J no faltavam
muitas pginas.

Voltaram a bater  porta.
- Tapamos as orelhas? -
perguntou Alberto. - Talvez
parem.
- No, eu quero ver quem
.
Quando foi  porta,
Alberto foi atrs dela.
L fora estava um homem nu.
Pusera-se numa postura muito
solene, mas a nica coisa que
trazia vestida era uma coroa
na cabea.
- Ento? - perguntou. -
O que pensam os senhores das
novas vestes do rei?
Alberto e Sofia ficaram
mudos de perplexidade, mas
isso no fez diferena para o
homem nu.
- Vs nem vos inclinais!
- exclamou.
Alberto ganhou coragem:
-  verdade, mas o rei
est completamente nu.
O homem manteve a mesma posio solene. Alberto inclinou-se para Sofia e 
sussurou-lhe ao ouvido:
- Julga ser uma pessoa
muito distinta.
O homem fez uma expresso
carrancuda.
- Esta casa exerce algum
tipo de censura? - perguntou.
- Infelizmente - respondeu Alberto. - Aqui estamos
completamente despertos e em
plena posse das nossas faculdades mentais. Na condio
vergonhosa em que se encontra
no lhe  permitido passar a
soleira desta pequena casa.
Sofia achou aquele homem,
pomposo mas nu, to cmico que
desatou a rir. Como se isso
fosse o sinal secreto, o homem
com a coroa na cabea deu-se
subitamente conta de no ter
nada vestido. Cobriu-se com
ambas as mos, correu para o
bosque e desapareceu. Talvez

381
se encontrasse com Ado e
Eva, No, Capuchinho Vermelho e Winnie the Pooh.
Alberto e Sofia ficaram 
porta. Finalmente, Alberto
disse:
- Talvez seja melhor voltarmos a entrar. Vou falar-te
de Freud e da sua teoria sobre o inconsciente.

Sentaram-se em frente  janela. Sofia olhou para o relgio e disse:
- J so duas e meia, e
ainda tenho que fazer muita
coisa para a festa do jardim.
- Eu tambm. Vamos falar
rapidamente sobre Sigmund
Freud.
- Era um filsofo?
- Podemos defini-lo como
um filsofo da cultura. Freud
nasceu em 1856 e estudou medicina na universidade de
Viena, cidade em que passou a
maior parte da sua vida, justamente no perodo em que a
vida cultural de Viena estava
no apogeu. Especializou-se no
ramo da medicina que se chama
neurologia. Em finais do sculo passado - e durante a
primeira metade deste sculo
- elaborou a sua psicologia
analtica ou psicanlise.
- Espero que expliques
isso melhor.
- Por psicanlise entendemos quer uma descrio da psicologia humana em 
geral quer
um mtodo para a cura das doenas nervosas e psquicas.
No tenho inteno de te fornecer um quadro completo nem
de Freud nem da sua actividade, mas a sua doutrina do inconsciente  
fundamental para
compreendermos o que  um ser
humano.
- J conseguiste despertar
o meu interesse. Fala!
- Segundo Freud, existe
sempre uma tenso entre um ser
humano e o ambiente que o rodeia. Mais precisamente, trata-se de uma 
tenso, ou de um
conflito, entre as pulses e
necessidades do homem e as
exigncias do mundo externo.
No  exagerado afirmar que
foi Freud a descobrir a vida
instintiva do homem, e isto
torna-o um expoente das correntes naturalistas, dominantes no final do 
sculo.
- O que queres dizer com
"vida instintiva" do homem?
- Nem sempre a razo domina as nossas aces: o homem
no  apenas um ser racional
como os racionalistas do sculo XVIII pensavam. Muitas
vezes, so os impulsos irracionais que determinam o que
pensamos, o que sonhamos e fazemos. Estes impulsos irracionais podem ser 
expresso de
pulses profundas ou de necessidades. To importante como
a necessidade de suco do recm-nascido  o impulso sexual
do homem.
- Compreendo.
- Em si, talvez no fosse
uma verdadeira descoberta, mas
Freud mostrou que as necessidades deste gnero podem ser
"camufladas" ou

382
"transformadas" e dominar assim as nossas aces sem que
tenhamos conscincia disso.
Mostrou ainda que mesmo as
crianas tm a sua forma de
sexualidade. Esta constatao
da sexualidade infantil provocou na burguesia culta vienense uma reaco 
de repulsa que
tornou Freud muito impopular.
- No  de admirar.
- Estamos a falar da chamada poca vitoriana, quando
tudo o que tinha a ver com a
sexualidade era considerado
tabu. Freud tinha chegado s
suas concluses sobre a sexualidade infantil atravs da sua
prtica como psicoterapeuta,
logo, as suas afirmaes tinham um fundamento emprico.
Ele tinha tambm verificado
que muitas formas de doenas
psquicas podiam ser reconduzidas a conflitos na instncia. Gradualmente, 
desenvolveu um mtodo de cura que podemos definir como uma espcie
de "arqueologia psquica".
- O que queres dizer com
isso?
- Um arquelogo procura
encontrar vestgios de um passado longnquo escavando os
diversos estratos culturais:
encontra uma faca do sculo
XVII, um pouco mais abaixo
descobre um pente do sculo
XIV e ainda mais abaixo um
vaso do sculo IV.
- E ento?
- Da mesma forma, um psiclogo pode "escavar" na conscincia do seu 
paciente com a
ajuda deste, para trazer  luz
as experincias que esto na
origem dos sofrimentos psquicos. Segundo Freud, conservamos dentro de 
ns todas as
recordaes do passado.
- Agora compreendo.
- E por vezes encontra uma
experincia dolorosa que o paciente tentou sempre esquecer,
mas que permaneceu no fundo e
destri a sua resistncia.
Quando essa "experincia
traumtica"  trazida  conscincia - e apresentada ao
paciente - ele pode "libertar-se" dela e curar-se.
- Parece lgico.
- Mas fui demasiado rpido. Vamos primeiro ver como
Freud descreve a mente humana. J alguma vez viste um
recm-nascido?
- Eu tenho um primo de
quatro anos.
- Quando vimos ao mundo,
vivemos de modo directo e sem
constrangimento as nossas necessidades fsicas e psquicas. Se no nos 
do leite,
choramos e gritamos. Fazemo-lo tambm quando as fraldas
esto molhadas. E exprimimos
directamente o nosso desejo de
contacto fsico e de calor humano. Freud chama a este
"princpio de prazer" id.
Quando somos bebs somos quase apenas id.
- Continua!

383
- O id est presente em
ns durante toda a vida, mas
pouco a pouco aprendemos a
controlar os nossos desejos e
a adequar-nos s circunstncias. Aprendemos a adaptar as
pulses instintivas ao "princpio de realidade". Freud
diz que construmos um eu (ou
ego) que tem esta funo reguladora. Mesmo se desejamos
algo, no podemos simplesmente
pr-nos a gritar at que os
nossos desejos ou necessidades
sejam satisfeitos.
- Claro que no.
- Pode acontecer desejarmos algo intensamente e simultaneamente o mundo 
no o aceitar. Nesse caso, temos de
reprimir os nossos desejos,
ou seja, tentamos afast-los
ou esquec-los.
- Compreendo.
- Freud tem ainda em conta
uma terceira instncia na mente humana: desde a infncia
confrontamo-nos constantemente
com as obrigaes morais impostas pelos pais e pelo mundo
exterior. Quando fazemos alguma coisa errada, os pais dizem: "Isso no!", 
ou "Que
vergonha!". Mesmo na idade
adulta trazemos connosco um
eco dessas obrigaes morais e
dessas condenaes. As convenes morais do mundo externo parecem ter 
penetrado em
ns e terem-se tornado parte
de ns. A isso chama Freud
super-ego.
- Queria dizer conscincia?
- Num passo, Freud diz
efectivamente que o Super-ego
se coloca perante o Eu como
conscincia moral. Mas aquilo
que importa a Freud  que em
primeiro lugar o super-ego nos
d sinal de si quando temos
desejos "indecorosos" ou "inconvenientes", sobretudo se se
trata de desejos erticos ou
sexuais. E, como dissemos,
Freud afirmou que esse tipo
de desejos j esto presentes
num estdio precoce da infncia.
- Explica-te!
- Hoje sabemos e vemos que
as crianas pequenas gostam de
tocar nos rgos genitais.
Podemos observar isso em
qualquer praia. No tempo de
Freud, crianas de dois ou
trs anos levavam uma palmada
nos dedos por isso. Nesse
tempo, as crianas ouviam
constantemente: "Que vergonha!", ou "Est quieto!", ou
"As mos quietas".
- Isso est mal.
- Deste modo, cria-se um
sentimento de culpa, e uma vez
que este sentimento de culpa
se conserva no Super-ego,
muitas pessoas, - segundo
Freud a maior parte - tm um
sentimento de culpa em relao
ao sexo. Mas os desejos e as
necessidades sexuais so uma
componente natural e fundamental do homem. E ento, minha
cara Sofia, surge um conflito
entre prazer e culpa que durar toda a vida.

384
- No achas que esse conflito se atenuou desde o tempo
de Freud?
- Certamente. Mas muitos
dos pacientes de Freud viviam-no to intensamente que
desenvolviam aquilo a que
Freud chamou neurose. Uma
das suas pacientes, por exemplo, estava apaixonada pelo
cunhado. Quando a irm morreu
devido a uma doena, ela pensou: "Agora ele est livre e
podemos casar!" Este pensamento entrou naturalmente em
contradio com o super-ego.
Era to monstruoso que ela o
recalcou, como diz Freud.
Quer dizer que ela o empurrou
para o inconsciente. Essa rapariga adoeceu e apresentou
graves sintomas histricos, e
quando Freud se encarregou da
cura, verificou-se que ela se
tinha esquecido completamente
da cena junto ao leito de morte da irm e do desejo horrvel, egosta, 
que emergira
nela. Mas durante o tratamento recordou-o, reproduziu
aquele momento patognico e
ficou curada.
- Agora compreendo melhor
o que queres dizer com
"arqueologia psquica".
- Ento vou tentar fazer
uma descrio geral de mente
humana. Aps uma longa experincia na cura dos doentes,
Freud chegou  concluso de
que a conscincia constitui
apenas uma pequena parte da
mente humana. A parte consciente  comparvel  ponta de
um iceberg que vemos sobressair da gua. Sob a superfcie da gua, - ou 
sob o limiar da conscincia - h o inconsciente.
- Ento o inconsciente 
tudo aquilo que est em ns
mas que esquecemos ou no recordamos?
- No temos sempre presentes na conscincia todas as
nossas experincias, mas tudo
o que pensmos ou vivemos e
que nos vem  mente se "pensarmos um pouco", foi designado por Freud 
"preconsciente".
O termo inconsciente foi usado por Freud apenas para
aquilo que recalcmos, ou
seja, as coisas que queremos
esquecer por serem desagradveis, indecentes ou repugnantes. Se temos 
desejos ou
vontades que so intolerveis
para a nossa conscincia - ou
para o super-ego, - empurramo-los para o rs-do-cho.
Fora com eles!
- Compreendo.
- Este mecanismo funciona
em todas as pessoas ss, mas
manter longe da conscincia os
pensamentos desagradveis ou
proibidos exige tal esforo
que provoca problemas nervosos. Aquilo que  recalcado
tenta reemergir por si na
conscincia, de forma que cada
vez mais energia tem de ser
usada para manter os impulsos
desse gnero longe da conscincia. Quando Freud deu
lies sobre a psicanlise em
1909 nos EUA, explicou com
um exemplo simples o funcionamento deste mecanismo de recalcamento.
- Conta!

385
- Ele disse aos ouvintes:
"Imaginemos que nesta sala se
encontra um indivduo que me
perturba e distrai rindo de um
modo insolente, falando e batendo com os ps. Declaro que
assim no posso continuar a
conferncia e, nessa altura,
alguns homens robustos levantam-se e depois de uma breve
luta lanam fora o importuno.
Ele  assim "removido" e eu
posso continuar. Para que no
haja mais distrbios, caso o
indivduo tente entrar novamente na sala, os homens que
executaram a minha vontade
pem as suas cadeiras  porta,
feita a remoo, e ficam l
como "resistncia". Se imaginarmos a sala como o consciente e o corredor 
como o inconsciente temos uma boa imagem do
processo de recalcamento."
- Eu tambm acho que  uma
boa imagem.
- Mas o indivduo quer
voltar a entrar, Sofia. Isto
 o que acontece, pelo menos
com os pensamentos e os impulsos recalcados: vivemos sob
uma "presso" constante devido
aos pensamentos recalcados que
tentam emergir do inconsciente. Por esse motivo, dizemos
ou fazemos frequentemente coisas sem querer e, deste modo,
as reaces inconscientes dominam os nossos sentimentos e
as nossas aces.
- Podes dar-me um exemplo?
- Freud descreve muitos
destes mecanismos. Por exemplo, aqueles a que chamou
"actos falhados", quando dizemos ou fazemos coisas que tentmos recalcar. 
Ele d o
exemplo de um empregado que ia
brindar ao seu chefe, que no
era muito popular. Ele era
aquilo a que se pode chamar
"um sacana".
- E o que aconteceu?
- O empregado levantou-se,
elevou o seu copo solenemente
e disse: "Convido-vos a arrotarem pelo nosso chefe."
- No tenho palavras.
- O empregado tambm no.
Na realidade tinha apenas
dito aquilo que pensava sem a
inteno de o dizer. Esta expresso involuntria de sinceridade era um 
lapso, ou seja,
uma troca de palavras devido 
semelhana. Em alemo - no
te esqueas de que Freud era
vienense - o verbo anstossen, "beber  sade",
 muito semelhante a aufstossen que significa entre outras coisas 
"arrotar". Queres ouvir outro exemplo?
- Sim.
- A famlia de um pastor,
que tinha muitas filhas boas e
amveis, esperava a visita de
um bispo. Acontece que este
bispo tinha um nariz extremamente grande e por isso foi
imposto s raparigas no fazerem comentrios sobre o seu
nariz. Porm, acontece muitas
vezes que as crianas deixem
escapar alguma coisa, porque o
seu mecanismo de recalcamento
ainda no est muito desenvolvido.

386
- E ento?
- O bispo chegou e as raparigas esforaram-se o mximo
para no dizerem nada sobre o
nariz. E mais ainda: tentaram
nem sequer olhar para o nariz;
tinham de tentar esquec-lo.
E pensavam nisso o tempo todo. Mas quando uma das filhas
mais pequenas serviu o acar
para o caf, ps-se em frente
do austero bispo e disse-lhe:
"Quer um pouco de acar no
nariz?"
- Embaraoso.
- Por vezes, tambm
racionalizamos, ou seja, damos a ns e aos outros, para
justificarmos aquilo que fazemos, motivos diferentes da
verdadeira causa, precisamente
porque a causa real  desagradvel.
- Um exemplo, por favor.
- Eu posso hipnotizar-te e
fazer com que abras a janela.
Ordeno-te portanto que te levantes e abras a janela quando
eu bater com os dedos na mesa.
Depois pergunto-te por que
razo abriste a janela. Talvez me respondas que abriste a
janela porque achaste que estava calor. Mas esse no  o
verdadeiro motivo: no queres
admitir para ti mesma que fizeste uma coisa por minha ordem, sob hipnose. 
Neste caso
ests a racionalizar, Sofia.
- Compreendo.
- Quase todos os dias
acontece comunicarmos, por assim dizer, com sentido duplo.
- Eu falei do meu primo de
quatro anos. No me parece
que tenha muitas crianas com
quem jogar, pelo menos fica
muito contente quando o vou
ver. Uma vez disse-lhe que
tinha de me apressar para voltar a casa e sabes o que me
respondeu?
- Diz!
- "Ela  estpida", disse
ele.
- Sim, isso  verdadeiramente um exemplo do que entendemos por 
racionalizao: o
rapaz queria dizer que segundo
ele era estpido que tivesses
que te ir embora, mas no queria admiti-lo. Por vezes,
acontece tambm que "projectamos".
- Traduz.
- Quando projectamos,
transferimos para outros caractersticas nossas que tentamos recalcar. 
Uma pessoa
muito avara, por exemplo, est
inclinada a dizer que os outros so avaros. Uma outra
pessoa que no quer admitir
para si mesma ter interesse
por sexo, ser talvez a primeira a irritar-se porque os
outros tm fixao pelo sexo.
- Compreendo.
- Segundo Freud, a nossa
vida quotidiana apresenta numerosos exemplos de aces inconscientes. 
Acontece frequentemente esquecermos o

387
nome de uma pessoa, remexermos
na roupa enquanto falamos ou
mudarmos o stio dos objectos,
aparentemente por acaso, na
sala. Alm disso, podemos
tropear nas palavras e enganarmo-nos a falar, aces que
poderiam parecer totalmente
incautas. Mas, para Freud,
os lapsos nem sempre so to
casuais nem to inocentes como
acreditamos, devem ser vistos
como sintomas. Actos falhados
deste tipo ou "aces casuais"
podem revelar os segredos mais
ntimos.
- A partir de agora vou
reflectir bem antes de dizer
uma palavra.
- Mas no conseguirs fugir aos teus impulsos inconscientes. A arte 
reside em no
nos esforarmos em empurrar
demasiadas coisas desagradveis para o inconsciente. 
o mesmo que querermos tapar o
buraco de uma toupeira.
Podemos consegui-lo, mas tambm podemos ter a certeza de
que a toupeira aparecer numa
outra parte do jardim. O mais
saudvel  deixar entreaberta
a porta entre consciente e inconsciente.
- Se fechamos a porta podemos ter distrbios psquicos?
- Sim, um neurtico  justamente uma pessoa que despende demasiada 
energia para
afastar da conscincia aquilo
que  desagradvel.
Frequentemente, so experincias particulares que esta
pessoa quer recalcar: Freud
chamou-lhes traumas. A palavra  grega e significa "ferida".
- Compreendi.
- Na cura do paciente, foi
importante para Freud tentar
abrir com cautela esta porta
fechada, ou talvez abrir uma
nova. Com a colaborao do
paciente tentava trazer  luz
as experincias recalcadas. O
paciente no tem conscincia
daquilo que recalca, mas pode
desejar que o mdico (ou
"analista" como se diz na psicanlise) o ajude a encontrar
os traumas escondidos.
- Como procede o psicanalista?
- Freud chamou-lhe a tcnica da associao livre.
Fazia o paciente deitar-se
descontrado e deixava-o falar
sobre o que lhe vinha  cabea
nesse momento, independentemente de poder parecer insignificante, casual, 
desagradvel ou embaraoso. O analista
parte do princpio de que, naquilo que o paciente associa
no div, esto sempre contidas
referncias aos seus traumas e
s resistncias que impedem
que eles se tornem conscientes.  que os pacientes preocupam-se com os 
seus traumas
sempre - mas no conscientemente.
- Quanto mais nos esforamos por esquecer alguma coisa,
mais pensamos inconscientemente nisso?
- Exacto. Por isso  importante tomar ateno aos sinais que provm do 
inconsciente. O caminho certo para penetrar no inconsciente reside,
segundo Freud, nos sonhos.
Um dos seus livros mais importantes foi de

388
facto A Interpretao dos
Sonhos, publicado em 1900.
Nessa obra ele afirmou que
aquilo que sonhamos no  casual: atravs dos sonhos os
pensamentos inconscientes tornam-se manifestos  conscincia.
- Continua!
- Depois de muitos anos de
experincia com os pacientes,
e depois de ter analisado os
seus prprios sonhos, Freud
afirmou que todos os sonhos
so a satisfao de um desejo. Podemos observar isto nas
crianas, afirmou. Sonham com
gelados e cerejas. Mas, nos
adultos, os desejos que o sonho quer realizar so frequentemente 
camuflados, porque,
mesmo quando dormimos, h uma
censura relativamente quilo
que podemos ou no podemos fazer. Mesmo se durante o sono
essa censura, ou mecanismo de
recalcamento, est enfraquecida em relao ao nosso estado
de viglia,  suficientemente
forte para deformar os desejos
que no queremos reconhecer.
-  por isso que os sonhos
tm de ser interpretados?
- Freud defende que devemos distinguir o sonho como o
recordamos de manh do seu
verdadeiro significado. Chamou s imagens onricas ou
seja, ao "filme" que sonhamos,
o contedo manifesto do sonho. Este contedo manifesto
tem por motivo acontecimentos
que se deram recentemente,
muitas vezes no dia anterior.
Todavia, o sonho tem tambm
um significado mais profundo e
oculto  conscincia. Freud
chamou-lhe contedo onrico
latente. Estes pensamentos
ocultos, de que o sonho trata,
podem dizer respeito a um tempo passado, por exemplo, a
primeira infncia.
- Ento temos de analisar
o sonho para compreendermos do
que se trata.
- Sim, e quando so pessoas doentes,  interpretado
com o terapeuta. Mas no  o
m-dico que interpreta sozinho
o sonho: s o pode fazer com a
ajuda do paciente. Nesta situao, o psicanalista desempenha a funo de 
uma parteira
socrtica que est presente e
ajuda durante a interpretao.
- Compreendo.
- A transformao que se
d na passagem dos pensamentos
onricos latentes ao contedo
manifesto  chamada por Freud
trabalho onrico. Podemos
falar de um camuflamento ou de
uma codificao do verdadeiro
significado do sonho; atravs
da sua interpretao, deve-se
percorrer um processo inverso
para desmascarar ou descodificar o motivo do sonho, para
descobrir o verdadeiro tema do
sonho.
- Podes dar-me um exemplo?
- Nos livros de Freud h
muitos desses exemplos. Mas
ns podemos imaginar um muito
freudiano e simples. Quando
um jovem sonha que a sua prima
lhe envia dois bales...

389
- Sim?
- No, tens que tentar interpret-lo sozinha.
- Hmm... o "contedo manifesto" do sonho  exactamente
aquilo que disseste: recebe
dois bales da sua prima.
- Continua!
- Disseste que o material
contido pode ter a ver com
algo recentemente vivido...
No dia anterior, ele estava
numa feira popular ou viu a
fotografia de dois bales no
jornal.
- Sim,  possvel, mas
bastava-lhe ter visto a palavra "balo" algures ou uma
coisa que lhe fizesse recordar
um balo.
- Mas quais so os pensamentos onricos latentes, ou
seja, o verdadeiro significado
do sonho?
- Tu s a analista.
- Talvez desejasse apenas
dois bales.
- No, isso  pouco provvel.  verdade que o sonho 
a realizao de um desejo, mas
um homem adulto no pode desejar ardentemente ter dois bales. E mesmo 
que isso fosse
um desejo seu, no teria necessidade de sonhar com isso.
- Ento, acho que na realidade ele desejava a sua prima, e os dois bales 
so os
seus seios.
- Sim,  uma explicao
provvel, sobretudo se esse
desejo  um pouco embaraoso
para ele, de tal forma que no
goste de o admitir no estado
de viglia.
- Ento os nossos sonhos
falam numa linguagem que 
preciso descodificar?
- Sim. Segundo Freud, o
sonho  uma realizao camuflada de desejos recalcados.
Aquilo que ns hoje camuflamos pode ter mudado muito desde que Freud era 
mdico em
Viena, mas o mecanismo de camuflagem do contedo onrico 
o mesmo.
- Compreendo.
- A psicanlise de Freud
teve uma grande importncia
nos anos 20, sobretudo na
cura de pacientes que sofriam
de distrbios psquicos. Mas
a teoria do inconsciente foi
tambm muito importante para a
arte e para a literatura.
- Queres dizer que os artistas comearam a interessar-se mais pela vida 
inconsciente da mente?
- Exacto. Se bem que esse
interesse j se tivesse manifestado na literatura nos ltimos dez anos do 
sculo passado, ou seja, antes de a psicanlise de Freud ser conhecida. 
Isso significa que no
foi por acaso que a psicanlise de Freud surgiu nessa poca.
- Queres dizer que fazia
parte do esprito do tempo?

390
- Freud foi o primeiro a
afirmar que no fora ele a inventar fenmenos como o recalcamento, os 
actos falhados e a
racionalizao, mas simplesmente o primeiro a levar essas
experincias humanas  psiquiatria. Freud foi muito hbil
a servir-se de exemplos literrios para ilustrar a sua
teoria. Mas, como dissemos, a
partir dos anos 20 a psicanlise influencia mais directamente a arte e a 
literatura.
- Como?
- Os poetas e os pintores
procuraram servir-se das foras inconscientes no seu trabalho de criao. 
Isto  vlido para os chamados surrealistas.
- E quem eram?
- "Surrealismo"  uma palavra de origem francesa e
significa literalmente "alm
da realidade". Em 1924,
Andr Breton publicou um
"manifesto surrealista" no
qual afirmou que a arte devia
provir do inconsciente, pois
s assim o artista podia obter
as suas imagens onricas com
inspirao livre e tender para
uma "suprarrealidade", na qual
as diferenas entre sonho e
realidade so suprimidas. De
facto, tambm pode ser importante para um artista destruir
a censura da conscincia, para
que as palavras e as imagens
possam fluir livremente.
- Compreendo.
- De certo modo, Freud
tinha mostrado que todos os
homens so artistas: um sonho
 uma pequena obra de arte e
todas as noites criamos sonhos. Para interpretar os sonhos dos seus 
pacientes,
Freud tinha de atravessar uma
floresta de smbolos, mais ou
menos como sucede quando interpretamos um quadro ou um
texto literrio.
- E sonhamos todas as noites?
- Investigaes recentes
mostram que sonhamos cerca de
vinte por cento do tempo em
que dormimos, ou seja, duas a
trs horas por noite. Se somos perturbados durante o
sono, tornamo-nos nervosos e
irritveis. Isto significa,
entre outras coisas, que todos
os homens tm uma necessidade
inata de dar expresso artstica  sua situao existencial, e o sonho 
trata de ns.
Somos os realizadores, somos
ns que imaginamos o enredo,
somos ns que desempenhamos
todos os papis. Uma pessoa
que afirma no entender nada
de arte conhece-se mal.
- Compreendo.
- Freud tambm mostrou que
a conscincia humana  fantstica. O seu trabalho com os
pacientes convenceu-o de que
conservamos em algum local
profundo da mente tudo aquilo
que vimos e que vivemos e todas estas impresses podem ser
trazidas  superfcie. Quando
temos um "vazio mental" e depois temos isso "na ponta da
lngua" e por fim "nos veio 
mente", estamos a falar de algo que estava no inconsciente
e que de repente

391
se torna manifesto passando
por uma porta entreaberta.
- Mas, por vezes, isso demora muito tempo.
- Todos os artistas tm
conscincia disso, mas, subitamente, todas as portas e gavetas dos 
arquivos parecem
abrir-se. Tudo flui por si, e
podemos escolher exactamente
as palavras e as imagens de
que precisamos. Isso sucede
quando abrimos um pouco mais a
porta para o inconsciente.
Tambm podemos chamar a isso
inspirao, Sofia. Temos
ento a sensao de que aquilo
que desenhamos ou escrevemos
no vem de ns mesmos.
- Deve ser uma sensao
maravilhosa.
- Certamente j a experimentaste. Podemos observar
esse estado em crianas muito
cansadas. Por vezes, as crianas esto to cansadas que
agem de forma totalmente desperta. De repente comeam a
falar, e  como se descobrissem palavras que ainda no
aprenderam. Mas apredram-nas.
Essas palavras e pensamentos
estavam latentes na conscincia, porm s naquele momento,
quando devido ao cansao o
cuidado diminui e j no h
censura,  que elas vm  luz.
Para um artista a situao 
diferente. Mas para ele tambm  importante que a razo e
a reflexo no controlem aquilo que se desenvolve melhor de
uma forma livre, espontnea e
inconsciente. Posso contar-te
uma pequena fbula que ilustra
o que eu disse?
- De bom grado.
-  uma fbula muito sria
e muito triste.
- Comea!
- Era uma vez uma centopeia que com as suas cem pernas era muito boa a 
danar.
Quando danava, os animais
reuniam-se no bosque para a
admirar e todos estavam muito
impressionados pela sua habilidade. S um animal no podia suportar que a 
centopeia
danasse, um sapo...
- Certamente tinha inveja.
- "Como  que posso impedi-la de danar", pensou o sapo. No podia dizer 
que no
gostava da dana nem que era
melhor a danar do que a centopeia, seria um absurdo. Por
fim, tramou um plano diablico.
- Fala!
- Escreveu uma carta 
centopeia: " incomparvel
centopeia! Sou um devoto admirador da tua requintada dana. Gostaria de 
saber como te
moves a danar. Levantas primeiro a perna esquerda nmero
22 e depois a perna direita
nmero 59? Ou comeas por
levantar a tua perna direita
nmero 26 antes de levantares
a tua perna esquerda nmero
44? Aguardo ansiosamente uma
resposta tua. Saudaes cordiais, o sapo."
- Que horror!

392
- Quando a centopeia recebeu esta carta, reflectiu pela
primeira vez na sua vida no
que fazia quando danava. Que
perna movia em primeiro lugar?
E que perna vinha a seguir?
O que te parece que aconteceu
depois?
- Acho que a centopeia no
voltou a danar.
- Sim, foi o fim.  justamente isso que pode suceder
quando a fantasia  sufocada
pela razo.
-  uma histria mesmo
triste.
- Para um artista pode ser
importante "deixar-se ir". Os
surrealistas tentaram atingir
um estado no qual tudo flusse
por si. Sentavam-se em frente
a uma folha em branco e comeavam a escrever sem pensarem
no que estavam a escrever.
Chamaram-lhe escrita automtica. A expresso provm do
espiritismo, onde um mdium
acreditava que a caneta era
guiada pelo esprito de um defunto. Mas voltaremos a falar
destas coisas amanh.
- Est bem.
- O artista surrealista
tambm  de certo modo um mdium, o mdium do seu inconsciente. Mas 
talvez esteja
presente um elemento inconsciente em qualquer processo
criativo. Porque, o que  na
realidade aquilo a que chamamos "criatividade"?
- No  o facto de se
criar uma coisa nova?
- Sim, e isso sucede quando existe uma colaborao entre fantasia e 
razo.
Demasiadas vezes, a razo sufoca a fantasia e isso  uma
coisa grave, porque sem fantasia nunca nasce algo verdadeiramente novo. 
Eu vejo a fantasia como um sistema darwiniano.
- Desculpa, mas no compreendi isso.
- O darwinismo mostra que
na natureza nascem mutantes
uns a seguir aos outros, mas a
natureza s precisa de alguns.
S alguns tm a possibilidade
de sobrevivncia.
- Sim?
- O mesmo sucede quando
pensamos, quando estamos inspirados e temos muitas ideias.
Um "pensamento mutante" surge
a seguir a outro na nossa
conscincia, se no nos submetemos a uma censura demasiado
severa. Mas s alguns destes
pensamentos podem ser utilizados. Neste ponto a razo ocupa o seu lugar, 
porque tambm
tem uma funo importante.
Quando a caa do dia est na
mesa, no podemos esquecer-nos
de ser selectivos.
-  uma boa comparao.
- Imagina que tudo aquilo
que nos impressionou, ou seja,
toda a nossa fonte de inspiraes, passasse pelos nossos
lbios! Ou abandonasse o bloco de notas ou a gaveta da escrivaninha. O 
mundo afogar-se-ia num mar de ideias
acidentais e no haveria qualquer escolha, Sofia.

393
- E  a razo que selecciona todas as ideias?
- Sim, ou achas que no?
Talvez seja a fantasia que
cria uma coisa nova, mas no 
responsvel pela escolha. No
 a fantasia que "compe": uma
composio, e qualquer obra de
arte  uma composio, surge
de uma colaborao admirvel
entre fantasia e razo, ou entre sensibilidade e pensamento. H sempre 
algo de casual
num processo criativo e, numa
certa fase,  importante no
fechar a porta a essas ideias
casuais.  preciso soltarmos
as ovelhas antes de comearem
a pastar.
Alberto ficou em silncio
algum tempo a olhar pela janela. Sofia seguiu o seu olhar
e viu uma grande multido de
personagens de Walt Disney
de todas as cores na margem do
pequeno lago.
- Olha o Pateta - disse.
- E o Pato Donald e os sobrinhos... e a Margarida... e
o Tio Patinhas. Vs o Tico
e o Teco? No ouves o que eu
digo, Alberto? L em baixo
esto tambm o Rato Mickey e
o Pardal!
Ele voltou-se para ela:
- Sim, isto  triste, minha filha.
- O que queres dizer com
isso?
- Estamos aqui sentados,
vtimas impotentes das ovelhas
postas em liberdade pelo major. Mas  culpa minha, fui
eu a falar do jogo livre da
fantasia.
- No tens nada a censurar-te.
- Queria dizer que a fantasia tambm  importante para
ns filsofos. Para pensarmos
uma coisa nova, temos de ter a
coragem de nos deixarmos ir.
Mas eu exprimi-me de um modo
um pouco vago.
- No te preocupes.
- Eu queria dizer alguma
coisa sobre a importncia da
reflexo silenciosa. E ele
vem-nos com estas doidices coloridas. Devia ter vergonha!
- Ests a ser irnico?
- Ele est a ser irnico, eu no. Mas tenho uma
consolao, a verdadeira pedra
angular do meu plano.
- J no estou a perceber
nada.
- Falmos sobre sonhos:
nisso h uma pequena ponta de
ironia! O que somos seno as
imagens onricas do major?
- Ah...
- Mas ele esqueceu-se de
uma coisa.
- O qu?
- Talvez tenha conscincia
do seu sonho, sabe tudo o que
fazemos e o que dizemos, tal
como o sonhador recorda o contedo onrico manifesto. 
ele que o escreve. Mas mesmo
que se lembre de tudo o que
dizemos um ao outro, no est
completamente desperto.

394
- O que queres dizer com
isso?
- No conhece os pensamentos onricos latentes, Sofia.
Esquece-se de que tambm este
 um sonho disfarado.
- Falas de um modo to estranho...
- O major tambm pensa assim. E  assim porque no
compreende a sua prpria linguagem onrica. Devamos alegrar-nos com 
isso, porque nos
d um mnimo de espao para
agirmos. Com esta liberdade
conseguiremos escapar  sua
conscincia lamacenta como um
arganaz que num dia quente de
sol sai da sua toca.
- Achas que conseguimos?
- Temos de conseguir.
Dentro de dois dias dar-te-ei
um novo horizonte, e nessa altura o major j no saber onde esto os 
arganazes e onde
vo aparecer.
- Mesmo que sejamos apenas
imagens onricas, eu sou 
mesma uma filha. So cinco
horas. Tenho que ir para casa
preparar a festa de jardim.
- Mmmm... podes fazer-me
um pequeno favor enquanto vais
para casa?
- O qu?
- Tenta atrair a ateno.
Tenta fazer com que o major
no te perca de vista durante
todo o caminho para casa.
Tenta pensar nele quando chegares a casa - assim, ele
tambm pensar em ti.
- Para qu?
- Desse modo, posso trabalhar no meu plano sem ser perturbado. 
Mergulharei nas profundezas do inconsciente do
major, Sofia, e ficarei l
at nos voltarmos a ver.

395
O NOSSO TEMPO
... o homem est condenado
 liberdade...

O despertador indicava
23.55. Hilde olhava para o
tecto. Tentava deixar fluir
as associaes livres que lhe
vinham  mente. Cada vez que
o curso dos pensamentos se interrompia, tentava compreender
por que motivo no conseguia
avanar.
Seria algo que tentava recalcar?
Se conseguisse eliminar
toda a censura, talvez comeasse a sonhar estando desperta, pensamento 
que a assustava
um pouco.
Quanto mais tentava descontrair-se e abrir-se aos seus
pensamentos e imagens, mais
tinha a sensao de estar na
cabana do major junto ao lago,
no bosque.
O que estaria Alberto a
maquinar? Bom, na verdade era
o pai dela que decidira que
Alberto maquinasse qualquer
coisa. Mas saberia exactamente o qu? Talvez estivesse a
tentar afrouxar tanto as rdeas que Alberto o surpreendesse por fim?
Faltavam poucas pginas:
deveria dar uma olhadela  ltima? No, isso no seria
correcto. Mas no era s
isso: Hilde no tinha a certeza de que j estivesse decidido o que 
sucederia na ltima
pgina.
No era uma ideia estranha?
O dossier estava ali, e o
pai no podia acrescentar mais
nada. No mximo Alberto, se
conseguisse. A surpresa...
Mas Hilde haveria de tratar de algumas surpresas por
si mesma. O major Knag no
tinha controlo sobre ela. Mas
teria ela controlo sobre si
mesma?
O que era a conscincia?
No seria um dos maiores mistrios do universo? O que era
a memria? O que  que faz
com que "recordemos" tudo o
que vimos e vivemos? Que tipo
de mecanismo nos faz criar sonhos fabulosos noite aps noite? Enquanto 
reflectia sobre
estas questes, Hilde fechava
por vezes os olhos. Depois
abria-os de novo e voltava a
fixar o tecto. Por fim esqueceu-se de os reabrir.
Dormia.

396
Quando acordou com os gritos das gaivotas, o despertador indicava as 
6.66. Era
um nmero estranho! Hilde
saltou da cama. Como sempre,
foi  janela e observou a enseada: tinha-se tornado um hbito, tanto no 
Vero como no
Inverno.
Enquanto estava ali, teve
subitamente a sensao de que
na sua cabea explodia um conjunto de cores: lembrou-se do
que sonhara. Mas fora mais do
que um sonho normal. Tivera
cores e contornos to vivos...
Sonhara que o pai regressara do Lbano, e todo o sonho
era como uma continuao do
sonho de Sofia quando esta
encontrara o seu crucifixo de
ouro.
Hilde estava sentada na
doca - exactamente como no
sonho de Sofia. Depois ouvira uma voz muito suave a sussurrar-lhe: "Eu 
chamo-me
Sofia!". Hilde tinha ficado
imvel, tentando compreender
de onde vinha aquela voz semelhante a um fraco crepitar,
como se um insecto lhe estivesse a falar: "Deves ser
cega e surda!". Em seguida, o
pai chegara ao jardim no seu
uniforme da ONU. "Hilde!",
gritara. Hilde correra em direco a ele e lanara-lhe os
braos  volta do pescoo. O
sonho terminara a.
Recordou alguns versos de
um poema de Arnulf \verland:

Acordei uma noite de um

estranho sonho,
era como se uma voz me
estivesse a falar,
longnqua como uma corrente

subterrnea...
e eu levantei-me: o que

queres de mim?

Enquanto estava  janela, a
me entrou no quarto.
- Bom dia! J ests acordada?
- No sei...
- Volto cerca das quatro,
como de costume.
- Est bem.
- Desejo-te um bom dia,
Hilde.
- Obrigada.
Mal ouviu a porta de entrada a fechar-se, voltou  cama
e abriu o dossier.
"Mergulharei nas profundezas do inconsciente do major,
Sofia, e ficarei l at nos
voltarmos a ver."
Sim, chegara at ali.
Hilde continuou a ler. Com o
indicador direito, sentiu que
faltavam poucas pginas para o
fim.

397
Quando Sofia deixou a cabana do major, viu que junto
ao lago ainda havia algumas
personagens de Walt Disney,
mas que se diluiam  medida
que se aproximava. Quando
chegou ao barco, tinham desaparecido todas.
Enquanto remava e depois de
ter puxado o barco para a margem, tentou fazer caretas e
agitar os braos: tinha de
chamar a ateno do major,
para que Alberto pudesse trabalhar sem ser incomodado.
Enquanto corria pelo bosque, ps-se a saltitar.
Depois, tentou caminhar como
uma boneca de corda e, por
fim, para evitar que o major
se aborrecesse, comeou a cantar.
Por um momento, parou para
reflectir procurando compreender em que  que consistiria o
plano de Alberto... Mas
quando se apercebeu do seu
erro, ficou to arrependida
que trepou a uma rvore.
Subiu to alto quanto pde.
Quando estava quase no topo,
percebeu que no conseguiria
descer imediatamente. Teria
de fazer uma nova tentativa
mais tarde, mas no podia ficar quieta ali em cima - o
major cansar-se-ia de ficar a
v-la e comearia  procura de
Alberto para descobrir o que
estava a fazer.
Sofia agitou os braos, por
duas vezes tentou cantar como
um galo, depois cantou  tirolesa. Era a primeira vez que
o fazia e estava muito contente com o resultado.
Tentou descer, mas estava
presa. De repente, um grande
ganso pousou sobre um dos ramos ao qual Sofia se segurava. Tendo visto 
recentemente
as personagens de Disney,
Sofia no se admirou pelo
facto de o ganso comear a falar:
- Chamo-me Morten - disse. - Na verdade sou um ganso domstico, mas 
excepcionalmemte venho hoje do Lbano
com gansos selvagens. Pareces
precisar de ajuda para descer.
- Mas tu s demasiado pequeno para me ajudares - respondeu Sofia.
- Uma concluso precipitada, minha jovem. Tu  que s
demasiado grande.
- Faz alguma diferena?
- Fica a saber que eu
transportei um campons por
toda a Sucia. Chamava-se
Nils Holgersson.
- Eu tenho quinze anos.
- E Nils tinha catorze.
Um ou dois anos de diferena
no tem importncia.
- Como conseguiste lev-lo?
- Dei-lhe uma bofetada ao
de leve e ele perdeu os sentidos. Quando voltou a acordar,
estava to pequeno como um polegar.

398
- Ento podes tentar
dar-me tambm uma leve bofetada. Eu no posso ficar aqui
sentada eternamente. No sbado dou uma festa filosfica.
- Isso  interessante.
Ento este  certamente um
livro de filosofia. Quando
voei pela Sucia com Nils
Holgersson, fiz escala em
Marbacka na regio de
Vrmland. Nils encontrou a
uma senhora de idade que tinha
a inteno de escrever um livro sobre a Sucia: seria um
livro para crianas, por isso
devia ser instrutivo e conter
toda a verdade, dizia sempre.
Quando ouviu o que acontecera
a Nils, decidiu escrever um
livro sobre aquilo que o rapaz
vira no dorso de um ganso.
- Que estranho.
- Para dizer a verdade foi
uma coisa um pouco irnica
porque ns j estvamos nesse
livro.
Sofia sentiu uma bofetada
na face e em seguida estava
muito pequena. A rvore parecia todo um bosque, e o ganso
era to grande como um cavalo.
- Sobe - disse o animal.
Sofia caminhou ao longo do
ramo e subiu para o dorso do
ganso. As penas eram macias,
mas estava to pequena que picavam em vez de fazerem ccegas.
Mal encontrou uma posio
cmoda, o ganso levantou voo.
Voaram alto sobre as rvores.
Sofia olhou para o lago e
para a cabana do major. L
estava Alberto a elaborar os
seus planos complicados.
- Deves contentar-te com
uma breve volta panormica -
afirmou o ganso batendo as
asas.
Depois aterrou ao p da rvore  qual Sofia subira h
pouco. Quando o ganso tocou o
solo, Sofia escorregou para o
cho. Depois de alguns trambolhes na urze, sentou-se e
verificou que tinha adquirido
as suas dimenses normais.
O ganso bamboleou-se  sua
volta algumas vezes.
- Muito obrigada pela ajuda - disse Sofia.
- De nada. No disseste
que este  um livro de filosofia?
- No, tu  que disseste
isso.
- Bom,  a mesma coisa.
Por mim, ter-te-ia levado a
voar atravs de toda a histria da filosofia, tal como levei Nils 
Holgersson a voar
atravs da Sucia. Poderamos ter dado uma volta por
Mileto e Atenas, Jerusalm
e Alexandria, Roma e Florena, Londres e Paris,
Jena e Heidelberg, Berlim
e Copenhaga...
- Obrigada, j chega.
- Mesmo para um ganso muito irnico seria muito difcil
voar atravs dos sculos: 
mais fcil sobrevoar as regies da Sucia.
Dito isto, o ganso tomou
balano e levantou voo.

399
Sofia estava exausta, mas,
quando entrou para o jardim
pelo carreiro, pensou que
Alberto teria certamente ficado muito satisfeito com a
sua manobra de distraco: era
impossvel que o major tivesse
conseguido pensar em Alberto
na ltima hora. Caso contrrio, sofria de um grave desdobramento de 
personalidade.
Sofia tinha acabado de entrar em casa quando a me chegou do trabalho. 
Evitara assim ter de justificar o facto
de um ganso domstico a ter
ajudado a descer de uma rvore.
Aps a refeio, comearam
os preparativos para a festa.
Subiram ao sto para irem
buscar um tampo de mesa de
quase quatro metros de comprimento e levaram-no para o jardim; depois foi 
a vez dos ps.
Queriam pr a mesa debaixo
das rvores de fruto. A ltima vez que tinham utilizado a
mesa fora por ocasio do dcimo aniversrio do casamento
dos seus pais. Sofia tinha
apenas oito anos, mas lembrava-se muito bem da grande festa ao ar livre, 
na qual tinham
participado todos os parentes
e amigos.
A previso do tempo era ptima. Desde o violento temporal na vspera do 
aniversrio
de Sofia no cara uma gota
de chuva. Decidiram deixar a
decorao e a toalha da mesa
para sbado de manh. A me
de Sofia j estava satisfeita
com o facto de a mesa estar no
jardim.
 tarde fizeram po usando
dois tipos diferentes de massa. Haveria frango assado e
salada. E bebidas. Sofia receava que alguns rapazes da
sua turma trouxessem cerveja.
No queria problemas.
Quando Sofia se foi deitar, a me quis assegurar-se
mais uma vez de que Alberto
viria realmente  festa.
-  claro que vem - exclamou Sofia. - Ele at
prometeu fazer um truque filosfico.
- Um truque filosfico...
Que tipo de truque?
- Bom... se ele fosse um
ilusionista, faria um nmero
de magia, tirar um coelho
branco de uma cartola, por
exemplo...
- Outra vez a mesma histria?
- ... mas uma vez que  filsofo, faz um truque de filosofia. Afinal  
uma festa filosfica. Ests a pensar em
fazer algum nmero?
- Sim, no te preocupes.
- Um discurso?
- No digo nada. Boa noite!
Na manh seguinte, Sofia
foi acordada pela me que se
queria despedir antes de ir
trabalhar. Deu a Sofia uma
pequena lista de coisas que
ela devia comprar na cidade
para a festa.

400
Mal sara, o telefone tocou: era Alberto. J sabia
quando Sofia estava sozinha
em casa.
- Como vai o teu plano secreto?
- Chiu! Nem uma palavra.
Ele no pode ter sequer a
possibilidade de pensar sobre
isso.
- Acho que o distra muito
bem ontem.
- Isso  bom.
- E a filosofia?
-  por isso que telefono.
J chegmos ao nosso sculo e
a partir de agora devias conseguir orientar-te sozinha. A
coisa mais importante eram as
bases. Todavia, temos de nos
encontrar para falarmos um
pouco sobre o nosso tempo.
- Mas tenho que ir  cidade...
- Perfeito. No te disse
que vamos falar sobre o nosso
tempo?
- E ento?
- Ser muito bom encontrarmo-nos l.
- Vou a tua casa?
- No, no. Aqui h muita
confuso! Ando  procura de
microfones escondidos por toda
a parte.
- Ah...
- Abriram um bar novo na
praa principal, o Caf
Pierre. Sabes onde ?
- Sim. A que hora nos encontramos?
- Pode ser ao meio-dia?
- Ao meio-dia no caf.
- Ficamos assim.
- Adeus.

Dois minutos aps o
meio-dia, Sofia entrou no
Caf Pierre. Era um dos novos cafs na moda com mesinhas
redondas e cadeiras negras e
garrafas voltadas e suspensas,
baguetes e sanduches.
O caf no era muito grande, e Sofia apercebeu-se logo
de que Alberto no estava l.
Havia muitas pessoas sentadas
nas mesinhas, mas nenhuma tinha o rosto de Alberto.
No estava habituada a ir
sozinha a cafs. Deveria sair
e voltar mais tarde para ver
se Alberto tinha chegado?
Dirigiu-se ao balco de
mrmore e pediu um ch de limo. Depois pegou na chvena
e foi sentar-se numa mesa livre. Fixou a porta de entrada. Muitas pessoas 
entravam e
saam, mas Alberto no chegava.
Se ao menos tivesse um jornal!

401
Passado um pouco, no resistiu  tentao de olhar em
seu redor e algum lhe devolveu o olhar: por um momento
sentiu-se uma mulher jovem.
Tinha apenas quinze anos, mas
podia aparentar dezassete -
ou pelo menos dezasseis e
meio.
O que pensariam todas aquelas pessoas sobre o facto de
existirem? Quase parecia que
estavam simplesmente ali, que
estavam sentadas por acaso.
Discutiam e gesticulavam, mas
no pareciam falar de algo importante.
De repente, veio-lhe  mente o que Kierkegaard dissera:
a caracterstica mais importante da multido era a tagarelice 
irrelevante. Todas
aquelas pessoas viviam ento
no estado esttico? Ou haveria algo realmente importante
existencialmente?
Numa das suas primeiras
cartas, Alberto escrevera que
havia uma ligao entre crianas e filsofos. Sofia pensou
novamente que tinha medo de se
tornar adulta. E se acabasse
por entrar no plo do coelho
branco que  retirado da cartola negra do universo?
Se bem que estivesse concentrada nos seus pensamentos,
Sofia no perdera de vista a
porta de entrada. Alberto entrou de repente. Apesar de
ser Vero, trazia uma bina
negra e um sobretudo cinzento
de meio comprimento com padro
espinhado. Ele viu-a imediatamente e foi ter com ela.
Sofia pensou que um encontro
com ele em pblico era algo
completamente novo.
-  meio-dia e um quarto!
Seu pateta!
- Chama-se o quarto de
hora acadmico. Posso oferecer algo de comer  jovem?
Sentou-se e fixou-a nos
olhos. Sofia encolheu os ombros.
- Est bem. Pode ser uma
sanduche.
Alberto foi ao balco.
Voltou com uma chvena de
caf e baguetes grandes com
queijo e fiambre.
- Foi caro?
- Uma ninharia, Sofia.
- No tens pelo menos uma
desculpa para justificares o
teu atraso?
- No, no tenho, porque
cheguei atrasado de propsito.
Vou-te j explicar porqu.
Deu algumas mordidelas na
sua sanduche e depois disse:
- Agora vamos falar do
nosso sculo.
- Houve alguma coisa importante na filosofia?
- Muitas coisas, tantas
que se estendem a todos os domnios. Para comear falaremos de uma 
corrente que se
chama existencialismo. Este
termo rene diversas correntes
filosficas que tm como ponto
de partida a situao existencial do homem. Falamos tambm
da filosofia existencial do

402
sculo XX. Muitos dos pensadores que se podem chamar
existencialistas basearam as
suas ideias no apenas em
Kierkegaard mas tambm em
Hegel e Marx.
- Ah...
- Um outro filsofo que
teve muita influncia no sculo xx foi o alemo
Friedrich Nietzsche que
viveu entre 1844 e 1900.
Nietzsche tambm reagiu  filosofia de Hegel e ao
"historicismo" alemo proveniente dela. A um interesse
anmico pela histria contraps a prpria vida. Exigia
uma "transformao de todos os
valores". Recusava sobretudo
a moral crist - a que chamou
"moral dos escravos" - para
que a fora vital dos fortes
no fosse reprimida pelos fracos. Segundo Nietzsche, tanto o cristianismo 
como a tradio filosfica se tinham
afastado do mundo verdadeiro e
dirigido para o "cu" ou o
"mundo das ideias". Eram considerados o "verdadeiro mundo"
mas eram na realidade um mundo
falso. "Sede fiis  terra",
disse. "No deis ouvidos
queles que vos oferecem esperanas sobrenaturais."
- Bem...
- Um filsofo existencialista que foi influenciado por
Kierkegaard e por Nietzsche
foi o alemo Martin
Heidegger. Mas vamos concentrar-nos no existencialista
francs Jean-Paul Sartre,
que viveu entre 1905 e 1980.
Foi o filsofo existencialista mais influente, pelo menos
para o grande pblico.
Elaborou o seu pensamento sobretudo nos anos 40, aps a
Ii Guerra Mundial. Em seguida aderiu ao movimento marxista francs, mas 
nunca foi
membro de nenhum partido.
-  por esse motivo que
nos encontrmos num caf francs?
- Digamos que no foi por
acaso. O prprio Sartre era
um frequentador assduo de cafs. Foi justamente num destes que encontrou 
a companheira da sua vida, Simone de
Beauvoir. Tambm ela foi
uma filsofa existencialista.
- Uma filsofa?
- Sim.
- J era tempo de a humanidade se tornar civilizada.
- Mas a nossa poca  tambm um perodo de grandes
preocupaes.
- Ias falar do existencialismo.
- Sartre afirmou:
"Existencialismo  humanismo." Significa que o existencialismo parte 
exclusivamente
do homem. Podemos acrescentar
que o humanismo de Satre v a
situao do homem de uma forma
diferente e mais sombria do
que o humanismo do Renascimento.
- E porqu?
- Kierkegaard e alguns
existencialistas do nosso sculo eram cristos, mas
Sartre defende o que chamamos
um existencialismo ateu.

403
A sua filosofia pode ser
considerada uma anlise impiedosa da situao humana desde
que "Deus morreu", uma expresso de Nietzsche.
- Continua!
- A palavra-chave da filosofia de Sartre, como para
Kierkegaard,  existncia,
um termo que no siifica o
mesmo que "existir". Tambm
as plantas e os animais existem, ou seja, vivem, mas no
sabem o que isso significa.
O homem  o nico ser vivo
consciente da sua existncia.
Sartre diz que as coisas fsicas so "em si", mas o ser
humano  tambm "para si".
Ser homem  portanto diferente de ser uma coisa.
- Estou de acordo.
- Sartre afirma tambm que
a existncia humana  anterior
ao seu significado: o facto de
eu existir  anterior ao que
eu sou. "A existncia precede
a essncia", afirmou.
- Que frase complicada.
- Com essncia entendemos
aquilo que uma coisa  realmente, a "natureza" de uma
coisa. Para Sartre, o homem
no tem nenhuma natureza deste
gnero, por isso deve criar-se
a si mesmo: deve criar a sua
natureza ou "essncia" porque
esta no est dada a priori.
- Acho que compreendo o
que queres dizer.
- Durante toda a histria
da filosofia, os filsofos
tentaram responder  questo
de o que  um homem - ou qual
 a natureza do homem.
Segundo Sartre, por seu
lado, o homem no possui nenhuma "natureza" eterna. Por
isso  intil procurar o significado da vida em geral.
Por outras palavras, estamos
condenados a improvisar.
Somos como actores que so
mandados para cena sem ter um
papel, um guio ou um ponto
que nos possa sussurrar aquilo
que devemos fazer. Ns prprios temos de escolher como
queremos viver.
- De certo modo  verdade.
Seria bom se bastasse consultarmos a Bblia ou um manual
de filosofia para sabermos
como devemos viver.
- Compreendeste. Mas
quando o homem sente que vive,
e que vai morrer um dia, e sobretudo quando no v sentido
em tudo isto, gera-se a
angstia, segundo Sartre.
Talvez te lembres de que a
angstia era tambm um elemento importante na descrio que
Kierkegaard fizera do homem
que se encontra numa situao
existencial.
- Sim, lembro-me.
- Sartre diz ainda que o
ser humano se sente estranho
num mundo privado de sentido.
Quando descreve a "alienao"
do homem, aceita ideias centrais de Hegel e de Marx. A
sensao humana de se ser um
estranho no mundo gera um sentimento de desespero, tdio,
nusea e absurdo.
-  normal sentir-se deprimido ou frustrado.

404
- Sim, Sartre descreve o
homem do sculo XX.
Recordas que os humanistas
renascentistas tinham afirmado
quase triunfalmente a liberdade e a independncia do homem?
Sartre sentia a liberdade humana como uma maldio. "O
homem est condenado a ser livre", afirmou. Condenado porque no se criou 
a si mesmo,
mas todavia  livre, porque
quando  posto no mundo  responsvel por tudo o que faz.
- No pedimos a ningum
que nos criasse como seres livres.
-  essa a questo, segundo Sartre. Porm, ns
somos indivduos livres e a
nossa liberdade faz com que
durante toda a vida estejamos
condenados a escolher. No
existem nem valores eternos
nem normas pelas quais nos
possamos orientar. Por isso 
ainda mais importante a
escolha que fazemos, porque
somos totalmente responsveis
pelas nossas aces. Sartre
pe em evidncia justamente o
facto de o homem no poder negar a sua responsabilidade
pelo que faz: deve tomar as
suas decises e no pode, para
se subtrair a essa responsabilidade, afirmar que "devemos"
trabalhar ou "devemos" orientar-nos por determinadas perspectivas 
burguesas acerca do
mundo no qual "devemos" viver.
Quem se envolve assim na massa annima  apenas um homem
massificado e impessoal: foge
de si mesmo e vive uma vida de
mentiras. A liberdade humana,
pelo contrrio, impe-nos que
faamos algo de ns mesmos,
que existamos "de um modo autntico".
- Compreendo.
- Isso  vlido sobretudo
para as nossas escolhas ticas. No podemos nunca atribuir a culpa  
"natureza humana",  "fraqueza humana", ou
coisa semelhante. Por vezes
sucede que certos homens se
comportam de modo ignbil e
empurram a sua responsabilidade para o "velho Ado", que
supostamente tm em si. Mas
esse "velho Ado" no existe,
 apenas uma personagem a que
recorremos para fugirmos 
nossa responsabilidade.
- Devia haver um limite
para aquilo de que o homem
pode ser acusado.
- Se bem que Sartre afirme que a vida no tem significado algum a 
priori, isso
no significa que queira que
seja assim: Sartre no era um
niilista.
- O que  isso?
- Um niilista  uma pessoa
para a qual nada tem significado e tudo  possvel. Para
Sartre, a vida deve ter um
significado, mas somos ns que
o devemos criar para a nossa
vida: existir  criar a nossa
prpria existncia.
- Podes explicar isso um
pouco melhor?

405
- Sartre tenta demonstrar
que a conscincia no  nada
antes de percepcionar alguma
coisa, porque conscincia 
sempre conscincia de alguma
coisa. E essa coisa depende
tanto de ns como do ambiente
que nos rodeia: ns prprios
temos um papel activo no que
percepcionamos, escolhendo o
que  importante para ns.
- Tens um exemplo?
- Duas pessoas podem estar
presentes no mesmo local e
senti-lo de um modo completamente diferente, porque, quando 
percepcionamos o mundo externo, fazemo-lo partindo do
nosso ponto de vista ou dos
nossos interesses. Por exemplo, uma mulher grvida pode
ter a sensao de ver grvidas
em todo o lado. Isso no significa que antes no houvesse, mas a gravidez 
fez com que
o mundo adquirisse para ela um
novo significado. Uma pessoa
doente pode ver ambulncias
por toda a parte...
- Acho que compreendo.
- A nossa existncia contribui portanto para determinar o modo como 
percepcionamos
as coisas: se uma coisa no 
importante para mim, no a
vejo. Agora posso explicar-te
o motivo do meu atraso.
- Disseste que foi de propsito, no  verdade?
- Quero saber o que viste
quando entraste aqui.
- A primeira coisa em que
reparei foi que tu no estavas.
- No  um pouco estranho
que a primeira coisa que tenhas visto fosse algo que no
estava aqui?
- Talvez, mas eu tinha um
encontro contigo.
- Sartre serve-se justamente de um encontro no caf
para explicar o modo como ns
"destrumos" o que no tem importncia para ns.
- Foi apenas para mostrar
isso que chegaste atrasado?
- Sim, eu queria que compreendesses esse ponto importante na filosofia de 
Sartre.
Podes v-lo como um pequeno
exerccio.
- Safa!
- Se ests apaixonada e
esperas uma chamada do teu namorado, "ouves" durante todo o
tempo que no te telefona.
Reparas justamente no facto
de ele no te telefonar. Se
tens de ir ter com ele  estao, e h um mar de gente nas
plataformas, tu no vs as
pessoas: apenas perturbam, so
insignificantes para ti. Se
calhar at as achas desagradveis e repugnantes. Ocupam
muito espao. A nica coisa
em que reparas  que ele no
est l.
- Compreendo.
- Simone de Beauvoir tentou aplicar o existencialismo
 anlise dos papis dos sexos. Sartre tinha afirmado
que o homem no tem uma natureza eterna a que se agarre.
Ns prprios criamos o que
somos.

406
- Sim?
- Isso tambm se aplica 
nossa concepo dos sexos.
Simone de Beauvoir defende
que no existe uma "natureza
feminina" e uma "natureza masculina". Mas esta  a opinio
tradicional. Por exemplo,
afirmou-se sempre que o homem
tem uma natureza
"transcendente", ou seja, que
supera o mundo sensvel, e por
isso procura sempre um significado e um objectivo fora do
domnio domstico. E que a
mulher, pelo contrrio, tem
uma orientao de vida oposta:
ela  "imanente", ou seja,
quer estar onde est. Por
isso se preocupa com a famlia, com a natureza e com as
coisas prximas. Hoje diz-se
que a mulher est mais interessada do que o homem nos aspectos mais 
suaves e doces da
vida.
- Mas Simone de Beauvoir
pensava desse modo?
- No, no me ouviste com
ateno. Segundo Simone de
Beauvoir no existe uma natureza feminina ou masculina
desse gnero. Pelo contrrio:
segundo ela, as mulheres e os
homens devem libertar-se desses preconceitos.
- Estou de acordo.
- O seu livro mais importante foi publicado em 1949 e
tinha o ttulo O Segundo
Sexo.
- O que  que queria dizer
com esse ttulo?
- Pensava na mulher, que
na nossa cultura foi sempre
considerada o "segundo sexo".
S um homem aparece como sujeito nesta cultura. A mulher
 tratada como o objecto do
homem e por isso  privada da
responsabilidade pela sua
vida.
- Continua.
- Para Simone de
Beauvoir, a mulher deve reconquistar esta responsabilidade. Deve 
recuperar-se
a si mesma e no ligar a sua
identidade ao homem. Com
efeito, no  apenas o homem
que oprime a mulher, a mulher
tambm se reprime a si mesma
no assumindo a responsabilidade pela sua vida.
- Somos ns que decidimos
de que modo queremos ser livres e independentes?
- Exacto. O existencialismo tambm influenciou a literatura desde os anos 
quarenta at hoje. Isso  vlido
sobretudo para o teatro. O
prprio Sartre escreveu romances e obras teatrais.
Outros autores importantes
so o francs Albert
Camus, o irlands Samuel
Beckett, o romeno Eugne
Ionesco e o polaco Witold
Gombrowicz. A caracterstica comum a estes e a muitos
outros escritores, foi a tendncia para enfatizar a presena do absurdo 
na vida, um
termo que  usado sobretudo
quando se fala de teatro.
- Bom.

407
- Compreendes o que se entende por "absurdo"?
- No significa uma coisa
que no tem sentido ou  irracional?
- Exacto. O "teatro do
absurdo" nasceu por contraposio ao "teatro realista" e
queria mostrar em cena a falta
de sentido da existncia.
Esperava-se que os espectadores no apenas vissem mas tambm reagissem. 
Mas no se
tratava de um culto do absurdo. Pelo contrrio, mostrando
e pondo a nu o absurdo, por
exemplo nos acontecimentos de
todos os dias, o pblico era
forado a reflectir na possibilidade de uma existncia
mais autntica e verdadeira.
- Continua.
- Muitas vezes, o teatro
do absurdo apresenta situaes
completamente banais: por isso
podemos falar de uma espcie
de "hiperrealismo". O homem 
representado exactamente como
. Mas se se mostra no palco
de um teatro aquilo que acontece numa casa de banho de um
dia qualquer numa casa qualquer, o pblico comea a rir.
Este riso pode ser interpretado como uma defesa por se
ser posto a nu em cena.
- Sim,  possvel.
- O teatro do absurdo tambm pode ter conotaes surrealistas: muitas 
vezes as
personagens encontram-se enredadas nas situaes mais improvveis e quase 
onricas.
Se aceitam tudo sem se espantarem, o pblico  obrigado
por seu lado a reagir com perplexidade. Isto tambm vale
para os filmes mudos de
Charles Chaplin: o aspecto
cmico das suas obras cinematogrficas consiste frequentemente na 
ausncia de espanto
do protagonista perante as situaes absurdas nas quais se
encontra. O pblico  levado
a entrar em si mesmo para procurar algo mais verdadeiro e
mais autntico.
-  incrvel ver como as
pessoas toleram certas situaes.
- Por vezes pode ser melhor fugir, mesmo que no se
saiba aonde ir.
- Se a casa arde, devo
deix-la mesmo que no tenha
outra onde ir morar.
- Sim,  mesmo assim.
Queres mais ch, ou preferes
uma coca-cola?
- Pode ser coca-cola. De
qualquer modo no devias ter
chegado atrasado.
Alberto voltou com um expresso e uma coca-cola.
Enquanto isso, Sofia tinha
chegado  concluso de que lhe
agradava a vida nos cafs. J
no estava to convencida de
que as conversas nas outras
mesas eram to insignificantes.
Alberto bateu com a garrafa
da coca-cola na mesa: o rudo fez alguns dos presentes
voltarem-se.
- E com isto chegmos ao
fim - disse.

408
- Queres dizer que a histria da filosofia termina com
Sartre e o existencialismo?
- No, seria um exagero
dizer isso. O existencialismo
teve uma grande importncia em
todo o mundo. Como vimos, tinha as suas razes na histria, e atravs de 
Kierkegaard
poder-se-ia voltar a
Scrates. Outras correntes
filosficas do passado tambm
tiveram seguimento no nosso
sculo.
- Podes dar-me exemplos?
- O neo-tomismo recupera
ideias que pertencem  tradio de S. Toms de Aquino.
A chamada filosofia analtica ou o empirismo lgico
parte de Hume e do empirismo
britnico e da lgica de
Aristteles. E alm disso,
no nosso sculo, o neo-marxismo, com todas as suas
diferentes ramificaes, teve
uma grande importncia. J
falmos sobre neo-darwinismo
e depois sobre a influncia da
psicanlise na cultura e na
filosofia do nosso sculo.
- Compreendo.
- Uma ltima corrente que
vale a pena citar  o materialismo, que tem razes profundas na histria. 
A cincia
moderna pode sugerir-nos um
paralelelismo com os esforos
dos pr-socrticos: por exemplo, continua  procura daquela "partcula 
elementar" indivisvel da qual  formada toda
a matria. Mas ningum nos
consegue ainda explicar com
exactido o que  a "matria".
As cincias modernas, por
exemplo a fsica nuclear ou a
bioqumica, so to fascinantes que se tornaram uma parte
importante na concepo de
vida de muitas pessoas.
- Um misto de velho e
novo, portanto.
- Podemos dizer isso porque as mesmas perguntas com
que inicimos o nosso curso
no tiveram ainda uma resposta. Sartre tocou um ponto importante ao dizer 
que as questes existenciais nunca tero
uma resposta definitiva: uma
questo filosfica  por definio uma coisa que cada gerao, sim, cada 
ser humano,
deve colocar a si mesmo novamente.
- Um pensamento um pouco
triste.
- No sei se estou de
acordo. No  justamente colocando-nos estas questes que
sentimos que estamos vivos?
Alm disso, no sucedeu sempre que quando o homem se esforou por 
encontrar uma resposta s grandes questes, encontrou respostas claras e 
definitivas a questes menores?
Cincia, investigao e tcnica nasceram, por assim dizer, da reflexo 
filosfica.
No fundo, no foi o espanto
do homem pela existncia que o
levou por fim  Lua?
-  verdade.
- Quando Neil Armstrong
ps o p na lua, comentou: "
um pequeno passo para o homem,
mas um grande salto para a humanidade". E inclua assim

409
todos os homens que viveram
antes dele na sensao que
sentia dando o primeiro passo
na Lua. No era apenas mrito seu.
- Claro que no.
- O nosso tempo tambm
teve de defrontar problemas
completamente novos, sobretudo
os ambientais. Uma nova corrente filosfica surgiu, a filosofia 
ecologista, ou
ecofilosofia. Muitos filsofos ecologistas mostraram
que toda a civilizao ocidental est na via errada, em
rota de coliso com aquilo que
o nosso planeta pode suportar.
Estes filsofos tentaram ir
mais fundo, para alm dos fenmenos concretos de poluio
e destruio ambiental, e concluram que h algo de errado
no prprio modo de pensar do
Ocidente.
- Acho que tm razo.
- Os filsofos ecologistas
debateram, por exemplo, o prprio conceito de desenvolvimento. Este 
conceito baseia-se na premissa de que o
homem  superior na natureza,
que  o seu dono.
Precisamente este modo de
pensar pode ser perigoso para
toda a vida do planeta.
- Irrito-me sempre que
penso nisso.
- Na sua crtica a este
modo de pensar, os ecofilsofos tiveram em conta as ideias
e reflexes de outras culturas, por exemplo, a indiana.
Estudaram tambm o modo de
pensar dos chamados "povos
primitivos", para retornar
quilo que perdemos.
- Compreendo.
- Nos prprios meios cientficos muitas vozes se levantaram nos ltimos 
anos para
explicar que o nosso modo cientfico de pensar se encontra
perante uma mudana paradigmtica, ou seja, uma transformao 
fundamental. Em alguns campos especficos vimos
j os primeiros frutos, por
exemplo, em "movimentos alternativos" que pem a tnica num
pensamento global e trabalham
para um novo estilo de vida.
- Isso  bom.
- Todavia, como sempre em
tudo o que os homens fazem,
temos de separar o trigo do
joio. Alguns anunciaram que
estamos a entrar numa nova
poca, ou New Age. Mas
nem tudo o que  novo  melhor, assim como nem tudo o
que  velho deve ser deitado
fora. Tambm por este motivo
te ofereci um curso de filosofia: agora tens uma bagagem
histrica tal que te permitir
orientares-te sozinha na vida.
- Obrigada pela ateno.
- Verificars, acho, que
muito do que  entendido por
New Age  apenas disparate.
"Neo-religiosidade",
"neo-ocultismo", "superstio
moderna" invadiram o mundo moderno nos ltimos decnios.
Tornaram-se uma grande indstria. Aproveitando a menor
influncia do

410
cristianismo, as novas ofertas
no mercado das concepes de
vida apareceram como cogumelos.
- Tens um exemplo?
- A lista  to extensa
que nem ouso comear. De resto, no  fcil descrever o
nosso prprio tempo. Mas agora proponho-te irmos dar uma
volta pela cidade, quero mostrar-te uma coisa.
Sofia encolheu os ombros.
- No tenho muito tempo.
No te esqueceste da festa de
amanh, pois no?
- Claro que no, porque
vai acontecer alguma coisa extraordinria. Temos apenas
que terminar o curso de filosofia de Hilde. O major no
pensou em mais nada e por isso
perder tambm uma parte da
sua vantagem.
Levantou a garrafa da
coca-cola, que j estava vazia, e bateu com ela na mesa.

Saram para a rua. Pessoas
muito apressadas corriam de um
lado para o outro ocupadas
como formigas num formigueiro.
Sofia perguntou a si mesma
que coisa lhe quereria
Alberto mostrar.
Passaram junto a uma loja
de electrodomsticos: vendiam
de tudo, desde televisores a
cmaras de vdeo, das antenas
parablicas aos telefones portteis, dos computadores ao
telefax.
Alberto apontou para a vitrina da loja e disse:
- Eis o sculo XX,
Sofia. A partir do
Renascimento podemos dizer
que o mundo explodiu: os europeus comearam ento a viajar
por todo o mundo. Hoje sucede
o contrrio: podemos chamar-lhe uma exploso ao contrrio, ou "imploso".
- O que queres dizer?
- Quero dizer que o mundo
est concentrado numa nica
rede de comunicao: no passou muito tempo desde que os
filsofos tinham de viajar de
cavalo e carroa para se encontrarem com outros pensadores ou conhecer o 
mundo. Hoje
podemos encontrar-nos em qualquer parte do mundo e recolhermos toda a 
informao humana num ecr de computador.
-  uma ideia fantstica,
mas simultaneamente um pouco
assustadora.
- O problema  se a histria se est a aproximar do fim
ou se pelo contrrio estamos
no limiar de uma nova era. J
no somos apenas cidados de
uma cidade ou de um nico
Estado, vivemos numa civilizao planetria.
-  verdade.

411
- O desenvolvimento tcnico, sobretudo no que diz respeito s 
comunicaes, foi
mais rpido nos ltimos trinta, quarenta anos, do que em
toda a histria. Talvez seja
apenas o incio...
- Era isto que me querias
mostrar?
- No,  do outro lado da
igreja, l em baixo.
Quando se preparavam para
prosseguir, no ecr de um televisor apareceu a imagem de
alguns soldados da ONU.
- Olha! - exclamou
Sofia.
Via-se um soldado em grande
plano. Tinha quase a mesma
barba negra de Alberto. De
repente, levantou um cartaz
onde estava escrito: "Chego
dentro em pouco, Hilde!".
Acenou e depois desapareceu.
-  louco! - exclamou
Alberto.
- Era o major?
- Nem quero responder.
Atravessaram o parque em
frente  igreja e chegaram 
rua principal. Alberto estava
ligeiramente nervoso e, naquele momento, apontou para uma
livraria. Chamava-se Libris
e era a maior da cidade.
- Queres mostrar-me alguma
coisa aqui?
- Vamos entrar.
Na livraria, Alberto apontou para a estante maior.
Tinha trs seces: NEW
AGE, ESTILOS DE VIDA
ALTERNATIVOS E MISTICISMO.
Nas estantes, havia livros
com ttulos muito empolgantes:
Haver Vida para Alm da
Morte?, Os Segredos do
Esprito, Tarot, O
Fenmeno OVNI, Healing, O
Regresso dos Deuses, A
Reencarnao, O Que  a
Astrologia?, e muitos outros. Havia mais de cem ttulos diferentes. 
Sobre um banco via-se uma pilha de livros
semelhantes.
- Isto tambm  o sculo
XX, Sofia. Este  o templo
do nosso tempo.
- No acreditas nestas
coisas?
- Muito disto  disparate,
mas vende to bem como pornografia. De facto, muito do
contedo destes livros pode
ser definido como uma espcie
de pornografia. Aqui, os jovens podem comprar exactamente
aquilo que mais lhes interessa. Todavia, a relao entre
a verdadeira filosofia e estes
livros  comparvel  relao
que existe entre o amor verdadeiro e a pornografia.
- No estars a exagerar?
- Vamos sentar-nos no parque.
Saram da livraria e encontraram um banco livre em frente  igreja. 
Debaixo das rvores, alguns pombos pavoneavam-se e havia um ou outro
pardal agitado.

412
-  a parapsicologia ou
PES - explicou Alberto. -
Ou "telepatia",
"clarividncia",
"psicocintica", ou
"espiritismo", "astrologia" e
"ovnilogia".
- Mas diz-me: achas que
isso  tudo uma fraude?
- No seria digno de um
filsofo tratar tudo da mesma
maneira. Mas no quero excluir a hiptese de que os
termos que referi possam formar um mapa bastante detalhado
de uma paisagem que no existe. E h muito daquilo a que
Hume chamava "iluso e engano" e queria lanar s chamas.
Em muitos destes livros no
se encontra uma nica experincia autntica.
- Mas ento porque so escritos tantos livros deste gnero?
-  um dos negcios mais
lucrativos do mundo e  isto
que muitas pessoas gostam de
ler.
- E porque  que achas que
gostam de ler estas coisas?
- Porque sentem um desejo
de algo "mstico", de algo
"diferente" que quebre a monotonia do quotidiano.  andar
 procura de uma coisa que
est  frente do nariz.
- O que queres dizer?
- Fazemos parte de uma
aventura maravilhosa. Em
frente a ns h uma obra, a
criao.  luz do dia,
Sofia! No  inacreditvel?
- Sim.
- Porque havamos de ir 
procura da cigana que l a
sina ou de sagues acadmicos
para experimentar algo de
"empolgante" ou "transcendente"?
- Achas que aqueles que
escrevem estes livros contam
apenas mentiras?
- No, no foi isso que eu
disse. Vou-te explicar de um
modo darwinista.
- Estou a ouvir!
- Pensa em tudo o que se
passa no decorrer de um nico
dia. Limita-te a um dia da
tua vida. Pensa em tudo o que
vs e experimentas.
- Sim?
- Por vezes, h coincidncias estranhas. Entras numa
loja, por exemplo, e gastas
vinte e oito coroas. Mais
tarde encontras Jorunn que te
restitui as vinte e oito coroas que lhe tinhas emprestado, finalmente vo 
ao cinema e
do-te o lugar nmero vinte e
oito.
- Sim, seria uma estranha
coincidncia.
- Mas seria uma coincidncia. A questo  que algumas
pessoas recolhem coincidncias deste tipo. Renem-se
experincias misteriosas ou
inexplicveis e quando elas,
fruto da vida de alguns milhares de pessoas, so reunidas
num livro, podem dar a impresso de ser um imponente

413
material de prova. E o material aumenta constantemente.
Mas neste caso, tambm estamos perante uma lotaria onde
apenas os bilhetes vencedores
so visveis.
- No h pessoas videntes
ou "mdiuns" que tm experincias destas constantemente?
- Sim, h. E se excluirmos os vigaristas, encontramos
tambm uma outra explicao
para essas experincias msticas".
- Diz!
- Recordas que falmos de
Freud e da sua teoria do inconsciente?
- Quantas vezes tenho de
te dizer que a minha memria 
boa?
- J Freud mostrara que
muitas vezes nos podemos comportar como se fssemos mdiuns do nosso 
inconsciente.
Podemos fazer ou dizer coisas
de repente sem conseguirmos
compreender porqu. O motivo
disso  o facto de ns termos
mais experincias, pensamentos
e recordaes do que aqueles
de que temos conscincia.
- E ento?
- Por vezes, as pessoas
falam ou andam enquanto dormem. Chamamos a este gnero
de fenmenos "automatismo psquico". Mesmo sob hipnose, os
homens podem dizer ou fazer
coisas que sucedem "por si".
E lembras-te dos surrealistas, que tentavam escrever
"automaticamente". Tentavam
tornar-se assim mdiuns da sua
prpria conscincia.
- Ainda me lembro disso.
- Com intervalos regulares, neste sculo, surgem notcias de homens, de 
mdiuns,
que conseguem entrar em contacto com defuntos. Falando
com a voz do morto, ou servindo-se da escrita automtica, o
mdium receberia uma mensagem
de um ser humano que tinha vivido h muitos sculos. Estes
factos so usados como prova
de que existe uma vida alm da
morte ou de que um homem vive
muitas vidas.
- Compreendo.
- No estou a dizer que
todos estes mdiuns sejam vigaristas: alguns agiram de boa
f. De facto, foram mdiuns,
mas do seu inconsciente.
Houve bastantes mdiuns que
em estado de transe mostraram
capacidades e conhecimentos
que nem eles prprios nem os
outros sabiam explicar. Por
exemplo, uma mulher que no
sabia hebraico, comeou a falar nessa lngua. Das duas
uma: ou tinha vivido uma vida
anterior ou estava em contacto
com o esprito de um morto.
- O que te parece?
- Soube-se depois que a mulher tinha tido uma baby-sitter judia quando 
era pequena...
- Ah...

414
- Ficaste desiludida? De
qualquer modo,  fantstico
ver at onde vai a capacidade
de algumas pessoas de acumularem no inconsciente experincias anteriores.
- Compreendo o que queres
dizer.
- Muitas coisas estranhas
quotidianas tambm podem ser
explicadas  luz da teoria do
inconsciente. Se recebo uma
chamada de um amigo que no
vejo h muitos anos, justamente quando estava  procura do
seu nmero de telefone...
- Sinto um arrepio...
- A explicao pode ser,
por exemplo, que ambos ouvimos
uma velha cano na rdio, uma
cano que ouvimos juntos na
ltima vez que nos vimos. O
ponto fundamental  o facto de
esta relao oculta no ser
consciente...
- Ento, ou  aldrabice...
ou o truque do bilhete vencedor na lotaria... ou o inconsciente?
- De qualquer modo,  melhor aproximarmo-nos com cepticismo destas 
estantes, sobretudo para um filsofo. Em
Inglaterra existe uma associao dos cpticos. H muitos anos, esta 
associao ofereceu uma grande soma de dinheiro  primeira pessoa que
conseguisse um nico exemplo
verificvel de uma coisa sobrenatural. No era necessrio ser um milagre, 
bastava um
pequeno exemplo de transmisso
de pensamento. At agora,
ningum se apresentou.
- Compreendo.
- Uma coisa completamente
diferente  admitirmos que h
muitas coisas que no compreendemos. Talvez no conheamos ainda todas as 
leis da natureza. No sculo passado,
muita gente considerava o magnetismo e a electricidade como
uma espcie de magia. Aposto
que a minha bisav abriria os
olhos de espanto se eu lhe falasse da televiso ou dos computadores.
- Ento no acreditas em
nada de sobrenatural?
- J falmos disso. A
prpria expresso
"sobrenatural"  um pouco bizarra. No, acho que existe
uma nica natureza, que em
compensao  espantosa.
- E todos aqueles fenmenos de que falam os livros que
me mostraste?
- Todos os verdadeiros filsofos devem manter os olhos
abertos. Mesmo que no tenhamos visto nenhum corvo branco,
no devemos deixar de o procurar. E um dia, mesmo um cptico como eu ser 
obrigado a
aceitar um fenmeno em que no
acreditara anteriormente. Se
no mantivesse aberta esta
possibilidade, seria um dogmtico, e no um verdadeiro filsofo.

415
Sofia e Alberto ficaram
sentados no banco em silncio.
Os pombos estendiam o pescoo
e arrulhavam, e de quando em
quando assustavam-se com uma
bicicleta ou com o movimento
brusco de um transeunte.
- Tenho de ir para casa
preparar a festa - disse por
fim Sofia.
- Mas antes de nos separarmos, quero mostrar-te um
corvo branco. Est mais prximo do que pensamos.
Levantou-se e fez sinal
para entrarem de novo na livraria.
Desta vez passou por todos
os livros sobre fenmenos sobrenaturais para parar em
frente de uma estante muito
pequena que se encontrava no
fundo da livraria. Sobre a
estante estava escrito
FILOSOFIA.
Alberto indicou um livro e
Sofia teve um sobressalto
quando leu o ttulo: O MUNDO DE SOFIA.
- Queres que eu to compre?
- No sei se tenho coragem
para o ler.
Um pouco mais tarde, voltava para casa com o livro numa
mo e um saco com o que tinha
comprado para a festa na outra.

416
A FESTA NO JARDIM
... um corvo branco...

Hilde estava sentada na
cama como que paralisada.
Sentia os braos rgidos e as
mos, que seguravam no dossier, tremiam.
Eram quase onze. Tinha
lido durante mais de duas horas. Por vezes, rira alto,
outras assustara-se. Felizmente no havia ningum em
casa.
E o que ela lera em duas
horas! Primeiro, Sofia tinha
tentado atrair a ateno do
major quando voltava a casa,
depois subira a uma rvore, o
ganso Morten viera do Lbano
como anjo salvador.
Mesmo tendo passado muito
tempo, Hilde nunca se esquecera de que o pai lhe tinha
lido A Viagem Maravilhosa
de Nils Holgersson Atravs
da Sucia. Durante muitos
anos tinham usado entre si uma
lngua secreta que estava relacionada com aquele livro. E
agora, o seu pai trazia de novo  baila o velho ganso.
Depois, Sofia estreara-se
como frequentadora de cafs.
Hilde lera com grande interesse as pginas nas quais
Alberto explicara Sartre e o
existencialismo. Quase conseguira convenc-la, como de
resto soubera fazer muitas outras vezes.
No ano anterior, Hilde
comprara um livro sobre astrologia, depois chegara a casa
com cartas do tarot e finalmente com um livro sobre o espiritismo. 
Todas as vezes o
pai a advertira a respeito da
superstio, fazendo apelo ao
seu "sentido crtico", mas
agora chegara a hora da vingana. O contra-ataque tinha
sido muito forte. Era evidente que a filha no tinha intenes de 
abandonar aquele
tipo de leituras. E ele, por
precauo, aparecera no ecr
de um televisor numa loja de
electrodomsticos e fizera-lhe
sinal. No era preciso aquilo...
O que a espantava mais era
a rapariga de cabelos escuros.
Sofia, Sofia, quem s? De
onde vens? Porque entraste na
minha vida?
Por fim, Sofia recebera um
livro sobre si mesma. Seria o
mesmo que Hilde tinha nas
mos naquele momento? Mas era
apenas um

417
dossier. Tanto fazia: como
era possvel encontrar num livro sobre si mesma? O que
aconteceria se Sofia tivesse
comeado a ler aquele livro?
O que sucederia agora? O que
poderia suceder?
Hilde sentiu com os dedos
que faltavam poucas pginas.

No autocarro que a levava a
casa, Sofia encontrou a me.
Que diabo! O que diria se
lhe visse o livro na mo?
Sofia tentou p-lo no saco
juntamente com as serpentinas
e os bales comprados para a
festa, mas no conseguiu.
- Ol, Sofia! As duas no
mesmo autocarro? Que bom!
- Ol...
- Compraste um livro?
- No.
- O Mundo de Sofia -
que estranho!
Sofia compreendeu que no
tinha hiptese de mentir 
me.
- Foi o Alberto que mo
deu.
- Ah! Como j te disse
vrias vezes, estou ansiosa
por conhec-lo. Posso ver o
livro?
- No podes esperar at
chegarmos a casa?  o meu livro, me.
- Est bem,  o teu livro.
Quero apenas dar uma vista de
olhos  primeira pgina...
Ento: "Sofia Amundsen regressava da escola. Percorrera com Jorunn o 
primeiro
troo do caminho. Tinham conversado sobre robs...
-  mesmo o que est a
escrito?
- Sim, est escrito assim
mesmo, Sofia. O autor  um
certo Albert Knag. Nunca
ouvi falar dele. Como se chama o teu Alberto?
- Knox.
- Vais ver que esse homem
estranho escreveu um livro inteiro sobre ti, Sofia, usando
um pseudnimo.
- No  ele, me. Porque
 que no desistes? De qualquer modo, no compreenderias.
- Est bem. Amanh  a
festa: nessa altura tudo voltar ao normal.
- Albert Knag vive noutra
realidade. Por isso, este livro  um corvo branco.
- No tinhas falado de um
coelho branco?
- Deixa estar!
A conversa entre a me e a
filha foi interrompida pela
chegada do autocarro  paragem
de Klverveien. A, Sofia e
a me depararam com uma manifestao.

418
- Meu Deus! - exclamou a
me de Sofia. - Julgava que
estvamos a salvo de manifestaes nesta zona da cidade.
No tinha mais do que dez
ou doze pessoas. Nos cartazes
estava escrito: "O MAJOR
CHEGA EM BREVE!", "VIVA A BOA
COMIDA PARA A NOITE DE S.
JOO" e "MAIS PODER PARA
A ONU!".
Sofia teve pena da me.
- No te preocupes com
eles - disse.
- Que manifestao to estranha, Sofia. Quase absurda.
- No  nada importante.
- O mundo est a mudar
cada vez mais depressa. Para
dizer a verdade, no me espanta.
- Devias espantar-te de
no te espantares.
- De modo algum. Estes
manifestantes no so violentos. Basta que no tenham pisado as nossas 
roseiras. De
resto, no sei para que serve
uma manifestao num jardim.
Vamos para casa para ver.
- Era uma manifestao filosfica, mam. Os verdadeiros filsofos no 
pisam as roseiras.
- Sabes o que te digo,
Sofia? No sei se acredito
na existncia de verdadeiros
filsofos: hoje em dia quase
tudo  artificial.

Passaram a tarde e a noite
ocupadas com os preparativos.
Na manh seguinte comearam a
decorar o jardim e a pr a mesa. Jorunn chegou e tambm
ajudou.
- Meu Deus! - disse. -
Os meus pais tambm vm 
festa. Tu  que s a culpada,
Sofia.
Meia hora antes da chegada
dos convidados estava tudo
pronto. As rvores no jardim
tinham sido decoradas com serpentinas e lampies de papel.
Longos cabos elctricos partiam da cave. O porto, as
rvores ao longo do carreiro
que levava ao jardim e a fachada da casa estavam decoradas com bales. 
Sofia e
Jorunn tinham passado duas
horas a ench-los.
Sobre a mesa estava j disposta a comida: frango assado,
salada e sanduches. Na cozinha havia um bolo com natas,
outro com chocolate, roscas,
mas no centro da mesa havia um
bolo gigantesco com vinte e
quatro andares sobrepostos.
Em cima do bolo via-se uma
pequena rapariga que ia ser
crismada. A me de Sofia assegurou que tambm podia ser
uma rapariga de quinze anos
no crismada, mas Sofia estava convencida de que a figura
estava no bolo porque Sofia
afirmara h pouco tempo que
ainda no sabia se queria ser
crismada.
- No, no poupmos nada
- repetia constantemente a
sua me.

419
Depois chegaram os convidados. As primeiras foram trs
colegas da escola. Traziam
camisas de vero e casacos de
malha leves, com saias compridas e uma sombra de maquilhagem nos olhos. 
Depois, foi a
vez de Jrgen e Lasse entrarem pelo porto passeando vagarosamente com um 
misto de
timidez e de arrogncia juvenil.
- Parabns!
- Agora, tambm s adulta!
Sofia reparou que Jorunn e
Jrgen deitavam olhares furtivos um ao outro. Havia algo
no ar: era a noite de S.
Joo.
Todos tinham trazido um
presente. Uma vez que se tratava de uma festa filosfica,
muitos convidados tinham tentado descobrir o que era a filosofia e 
encontrar um "presente filosfico"; nem todos
tinham conseguido, mas a maior
parte tinha-se esforado por
escrever alguma coisa filosfica nos cartes de parabns.
Sofia recebeu um dicionrio
filosfico e um dirio com cadeado que dizia: "Os meus
apontamentos filosficos".
 medida que os convidados
entravam, a me de Sofia servia sumo da ma em copos altos.
- Bem vindo! Como se chama o jovem?... No nos conhecemos... Que bom 
teres vindo,
Ceclia!
S depois de todos os jovens terem chegado e quando j
passeavam, com os copos na
mo, debaixo das rvores de
fruto,  que o Mercedes
branco dos pais de Jorunn estacionou em frente do porto
de entrada. O conselheiro financeiro trazia um belo fato
cinzento de corte elegante,
enquanto a sua mulher trazia
um fato completo - casaco e
calas vermelhas com lantejoulas vermelho-escuro. Sofia
calculou que tinha comprado
uma Barbie com este fato
numa loja de brinquedos, e ido
a um alfaiate para lhe fazer
um fato igual. Havia outra
possibilidade: talvez o conselheiro financeiro tivesse comprado a boneca, 
levando-a a um
feiticeiro, que a transformara
numa mulher de carne e osso.
Mas essa hiptese era to
pouco provvel que Sofia a
rejeitou.
Desceram do Mercedes e
entraram no jardim, enquanto
os jovens olhavam espantados
para eles. Foi o conselheiro
financeiro a entregar um embrulho comprido e estreito da
parte da famlia Ingebrigtsen. Sofia tentou manter a
calma quando viu que se tratava justamente de uma Barbie. Jorunn estava 
fora
de si:
- Vocs esto doidos? A
Sofia j no brinca com bonecas!
A senhora Ingebrigtsen interveio precipitadamente, e as
suas lantejoulas tiniram.
- Tambm pode estar exposta como adorno, Jorunn.
- Muito obrigada - disse
Sofia, para acalmar a tenso.
- Talvez comece uma coleco.

420
Entretanto, os convidados
j estavam  volta da mesa.
- S falta o Alberto -
disse a me de Sofia com um
tom de voz simultaneamente excitado e inquieto. Os convidados j lhe 
tinham perguntado
vrias vezes quando apareceria
o convidado especial, o "verdadeiro filsofo".
- Ele prometeu que vinha,
logo no tardar a chegar.
- Entretanto, porque no
nos sentamos?
- Sim, sentemo-nos.
A me de Sofia comeou a
sentar as pessoas  volta da
mesa. Deixou um lugar vago
entre ela e Sofia. Disse algumas coisas sobre a comida, o
bom tempo e sobre o facto de
Sofia ser quase uma mulher
adulta.
Estavam sentados h meia
hora quando um homem de meia-idade, com uma pra negra e
uma bina entrou pelo porto.
Trazia nas mos um grande
ramo com quinze rosas.
- Alberto!
Sofia levantou-se de um
pulo e correu para ele.
Lanou-lhe os braos ao pescoo e recebeu as rosas. Alberto reagiu a esta 
recepo
comeando a remexer nos bolsos do casaco. Tirou algumas
bombinhas de carnaval que
acendeu e atirou para o ar.
Enquanto se dirigia para a
mesa, acendeu uma vela mgica
e colocou-a em cima do bolo
antes de ocupar o lugar vago
entre Sofia e a me.
-  um grande prazer -
disse Alberto com um sorriso.
Os convidados estavam estupefactos. A senhora Ingebrigtsen lanou ao 
marido um
olhar eloquente. A me de
Sofia, pelo contrrio, estava
to aliviada pela sua chegada
que se sentia disposta a perdoar-lhe qualquer coisa. A
festejada s com todo o esforo conseguiu reprimir uma risada.
A me de Sofia tocou no
seu copo e disse:
- Vamos dar as boas-vindas
a Alberto Knox nesta festa
filosfica! No  o meu novo
namorado, porque se bem que o
meu marido esteja sempre no
mar, no tenho nenhum namorado. Este homem  o professor
de Filosofia de Sofia. Significa que sabe mais do que
acender bombinhas. Este homem
, por exemplo, capaz de retirar um coelho vivo de uma cartola. Ou era um 
corvo, Sofia?
- Obrigado, obrigado -
disse Alberto, e sentou-se.
- Tchin, tchin! - exclamou Sofia e os presentes elevaram os copos e 
beberam  sua
sade.
Ficaram sentados algum tempo a comer frango e salada.
Mas a certa altura, Jorunn
levantou-se e dirigiu-se a
Jrgen com um passo decidido
e beijou-o na boca. Jrgen
respondeu a esta tentativa de
aproximao tentando pux-la
para si para poder retribuir
melhor o beijo.

421
- Acho que vou desmaiar -
disse a senhora Ingebrigtsen.
-  mesa no, meninos -
foi o nico comentrio da senhora Amundsen.
- Porque no? - Alberto
voltou-se para ela.
- Que pergunta estranha.
- Para um verdadeiro filsofo no h perguntas estranhas.
Naquele momento, dois rapazes que no tinham sido beijados comearam a 
lanar os ossos do frango ao ar. Isso
provocou tambm um comentrio
da parte da me de Sofia.
- Parem com isso, por favor!  to chato ter ossos de
frango nas goteiras.
- Desculpe - disse um dos
jovens, e passaram a atirar os
ossos pela sebe.

- Acho que chegou a hora
de recolher os pratos e de
servir os doces - disse a senhora Amundsen. - Quem quer
caf?
O casal Ingebrigtsen,
Alberto e dois dos convidados
levantaram o brao.
- Sofia e Jorunn podiam-me ajudar...
Enquanto iam  cozinha, as
duas amigas conversaram.
- Porque  que o beijaste?
- Vi a boca dele, e tive
uma vontade terrvel. Ele 
to giro.
- Como foi?
- Foi diferente do que eu
tinha imaginado, mas...
- Ento foi a primeira
vez?
- Mas no ser a ltima.
Em seguida, havia caf e
bolo na mesa. Alberto distribuiu bombinhas pelos jovens,
mas naquele momento a me de
Sofia pediu novamente a palavra.
- No tenho inteno de
fazer um grande discurso, mas
tenho apenas uma filha e esta
 a primeira e a ltima vez
que ela faz quinze anos.
F-los h uma semana e um
dia, para ser exacta. Como
podem ver, no poupmos em
nada. O bolo tem vinte e quatro andares, ou seja, pelo menos um para 
cada. Quem se
servir primeiro pode tirar
dois, porque comearemos por
cima, e os andares so progressivamente maiores. O mesmo sucede com a 
nossa vida.
Quando Sofia era pequena,
movia-se timidamente em crculos pequenos, mas, com o passar dos anos, os 
crculos tornaram-se cada vez maiores.
Agora, chegam  cidade. Alm
disso, tendo um pai que viaja
muito, Sofia telefona para o
mundo inteiro. Parabns pelos
teus quinze anos, Sofia!
- Encantador! - exclamou
a senhora Ingebrigtsen.
Sofia no sabia se aludia 
sua me, ao discurso, ao bolo
ou a ela.

422
Os convidados aplaudiram e
um dos rapazes atirou uma bombinha para uma pereira. Naquele momento, 
Jorunn ps-se
de p e tentou fazer com que
Jrgen se levantasse da cadeira. Ele deixou-se levar e
ambos comearam a beijar-se
deitados na relva, depois rolaram para debaixo dos arbustos.
- Hoje em dia so as raparigas a tomarem a iniciativa
- afirmou o conselheiro financeiro.
Com estas palavras levantou-se e foi para junto dos
arbustos para ver de perto o
que se passava ali. Todos os
convidados seguiram o seu
exemplo. Apenas Alberto e
Sofia ficaram sentados. Em
seguida, os convidados estavam
em semicrculo  volta de
Jorunn e Jrgen, que tinham
abandonado os beijos inocentes
e tinham passado a beijos mais
audazes.
- Ningum os consegue deter! - disse a senhora
Ingebrigtsen com um certo orgulho.
- No, o bom sangue no
mente - disse o marido.
Olhou em redor com a esperana de obter uma espcie de
aprovao pelas suas palavras
bem escolhidas. Teve apenas
um sinal mudo de assentimento,
e acrescentou:
- No se pode fazer nada
contra.
Mesmo de longe, Sofia reparou que Jrgen tentava desabotoar a camisa 
branca de
Jorunn, que j estava suja de
erva. Ela tentava desapertar
o cinto dele.
- Cuidado para no apanharem uma constipao - aconselhou a senhora 
Ingebrigtsen.
Sofia olhou para Alberto
com um olhar desesperado.
- As coisas esto a precipitar-se - disse Alberto. -
Temos de nos afastar daqui o
mais rapidamente possvel.
Farei apenas um pequeno discurso.
Sofia bateu palmas.
- Podem sentar-se de novo?
Alberto quer fazer um discurso.
Com excepo de Jorunn e
Jrgen, todos voltaram ao seu
lugar.
- Quer realmente fazer um
discurso? - perguntou a me
de Sofia - Que amvel!
- Agradeo-lhe ateno.
- Soube que gosta de passear!  to importante mantermo-nos em forma. E 
sobretudo acho simptico levar consigo um co. Chama-se Hermes, no  
verdade?
Alberto levantou-se e bateu
com a colher na chvena.
- Querida Sofia - comeou. - Quero antes de mais
recordar que esta  uma festa
filosfica e por isso farei um
discurso filosfico.

423
Foi imediatamente interrompido por aplausos.
- Nesta festa animada pode
ser til uma dose de razo...
Mas, em primeiro lugar, no
nos esqueamos de dar os parabns  aniversariante pelos
seus quinze anos.
Ainda no terminara a frase
quando ouviram o rudo de um
avio: o aparelho passou pelo
jardim em voo rasante. Preso
 cauda havia uma longa faixa
onde estava escrito:
"Parabns pelos teus quinze
anos!"
O facto desencadeou aplausos mais ruidosos.
- Como podem ver - exclamou a senhora Amundsen -
este homem no sabe apenas
acender bombinhas.
- Obrigada, no foi nada.
Nestas ltimas semanas,
Sofia e eu levmos a cabo uma
grande investigao filosfica. Nesta ocasio, queremos
expor-vos as nossas concluses: vamos revelar o grande
segredo da nossa existncia.
Entre os convidados reinava
um tal silncio que era possvel ouvir os pssaros cantar e
os rudos vindos dos arbustos.
- Continua! - disse
Sofia.
- Aps minuciosas investigaes filosficas, que vo
desde os primeiros filsofos
gregos at hoje, descobrimos
que vivemos as nossas vidas na
conscincia de um major que se
encontra no Lbano como observador na ONU e que escreveu um livro sobre 
ns para a
sua filha que vive em Lillesand. Ela chama-se Hilde
Mller Knag e fez quinze
anos no mesmo dia que a Sofia. O livro que fala de todos ns encontrava-
se na sua
mesinha de cabeceira quando
acordou na manh do dia 15 de
Junho. Mais precisamente,
trata-se de um volumoso dossier. Neste momento, ela
sente as ltimas pginas passarem sob o seu indicador.
Um certo nervosismo comeara a espalhar-se  volta da
mesa.
- A nossa existncia 
apenas um presente de aniversrio para Hilde Mller
Knag, porque todos ns fomos
criados para servir de enquadramento ao ensinamento filosfico que o 
major quer dar 
filha. Isto significa, por
exemplo, que o Mercedes
branco estacionado  entrada
no vale um tosto furado.
No vale mais do que todos os
Mercedes brancos na cabea
do pobre major da ONU, que
acaba de se sentar  sombra
para evitar uma insolao. No
Lbano faz muito calor, meus
amigos.
- Que loucura! - exclamou
o conselheiro financeiro. -
Isso  um disparate.
- Cada um pode pensar o
que quiser, naturalmente -
continuou Alberto impassvel.
- Mas na verdade o absurdo 
toda esta festa. Aqui, a nica dose de razo  o discurso
que eu estou a fazer.
O conselheiro levantou-se e
disse:

424
- Estamos a fazer o possvel para cumprirmos o nosso
dever a fim de que as coisas
corram bem. Temos o cuidado
de fazer seguros em relao a
tudo. E de repente, vem um
relaxado imbecil que tenta
destruir tudo com base em certas afirmaes "filosficas".
Alberto acenou afirmativamente.
- Contra esta espcie de
conhecimento filosfico no h
seguro que sirva. Estamos a
falar de uma coisa pior do que
qualquer catstrofe natural,
senhor administrador do errio
e, como bem sabe, as seguradoras no cobrem este gnero de
coisas.
- Esta no  uma catstrofe natural.
- No,  uma catstrofe
existencial. Pode dar uma
olhadela aos arbustos e compreender o que quero dizer.
No podemos assegurar-nos
contra a destruio da nossa
existncia, como no o podemos
fazer contra o desaparecimento
do sol.
- E temos que nos conformar? - perguntou o pai de
Jorunn  esposa, que abanou a
cabea, como a me de Sofia.
- Que tristeza! - disse
esta. - E ns que no quisemos poupar nada.
Os jovens olhavam para
Alberto fixamente. Muitas
vezes, esto mais abertos em
relao a novas ideias e pensamentos do que aqueles que
viveram mais tempo.
- Gostaramos de ouvir
mais - disse um rapaz de caracis loiros e culos.
- Obrigado, mas no h
muito mais a acrescentar.
Visto que chegmos  concluso de que somos uma imagem
onrica da conscincia sonolenta de uma outra pessoa,
quanto a mim o mais inteligente  ficarmos calados. Mas
posso concluir aconselhando
aos jovens um pequeno curso de
histria da filosofia. Deste
modo, podem desenvolver uma
atitude crtica em relao ao
mundo em que vivem, sobretudo
em relao aos valores da gerao dos vossos pais. Aquilo
que tentei ensinar a Sofia
foi justamente como pensar de
modo crtico. Hegel chamou-lhe "pensar negativamente".
O conselheiro financeiro
ainda estava de p, tamborilando com os dedos na mesa.
- Este agitador tenta destruir todos os valores sensatos que a escola, a 
Igreja e
ns prprios tentamos inculcar
nas geraes jovens - a gerao que  o nosso futuro e
herdar um dia os nossos bens.
Se ele no for afastado imediatamente desta festa, telefono ao meu 
advogado. Ele saber o que h a fazer.
- No tem importncia nenhuma o que julga dever fazer,
porque o senhor  apenas uma
sombra. Alm disso, Sofia e
eu deixaremos esta

425
festa dentro em breve. Este
curso de filosofia no foi um
projecto puramente terico:
teve tambm um lado prtico.
Quando chegar a altura, faremos o truque da evaporao.
Deste modo, conseguiremos fugir da conscincia do major.
Helene Amundsen segurou
Sofia pelo brao.
- No me vais deixar, pois
no, Sofia?
Sofia ps-lhe um brao 
volta dos ombros e olhou para
Alberto.
- A me vai ficar to
triste...
- No, isso  ridculo.
No te podes esquecer do que
aprendeste:  justamente deste
absurdo que nos temos de libertar. A tua me  uma senhora muito 
simptica e carinhosa, tal como o cesto do
Capuchinho Vermelho estava
cheio de bolos para a av. E
ela est to triste como o
avio que passou h pouco precisava de gasolina para a sua
manobra.
- Acho que compreendo o
que queres dizer - disse
Sofia. Voltou-se de novo
para a me. - Por isso, tenho que fazer o que ele diz,
mam. De qualquer modo, eu
teria de te deixar um dia.
- Vou ter saudades tuas -
afirmou a me - mas se existe
um cu acima deste, tens mesmo
de voar. Eu prometo tomar
conta de Govinda. Costumas
dar-lhe uma ou duas folhas de
alface por dia?
Alberto colocou-lhe a mo
nos ombros:
- Nem a senhora nem nenhuma outra pessoa aqui sentir a
nossa falta pela simples razo
de que no existem, por isso
no tm meio de o fazer.
- Isto  o pior insulto
que j ouvi! - exclamou a senhora Ingebrigtsen.
O conselheiro financeiro
concordou.
- Podemos denunci-lo por
difamao. Vais ver que  comunista. Quer levar-nos tudo
o que nos  mais querido. 
um patife, um perfeito canalha...
Alberto e o conselheiro financeiro sentaram-se ao mesmo
tempo. Este tinha o rosto
vermelho de raiva. Naquele
momento, Jorunn e Jrgen reapareceram e sentaram-se nos
seus lugares. Tinham as roupas sujas e amarrotadas. Os
cabelos loiros de Jorunn estavam cheios de erva e terra.
- Mam, vou ter um beb -
anunciou.
- Est bem, mas tens de
esperar at chegarmos a casa.
Teve o apoio imediato do
seu marido.
- Sim, s tem de se esperar, e se quiser o baptismo
esta noite, tem de se arranjar
sozinha.
Alberto olhou para Sofia
com uma expresso sria.
- J  hora.

426
- Podes trazer-nos o caf
antes de partires? - perguntou a sua me.
- Claro, mam, vou j.
Sofia levou os termos da
mesa. Tinha de fazer mais
caf. Enquanto esperava que o
caf estivesse pronto, deu de
comer aos pssaros e aos peixes. Foi  casa de banho e
ps uma folha de alface na
caixa de Govinda. No viu
Sherekan, mas abriu uma lata
de comida para gatos e deitou
o contedo num prato que deixou na escada. Reparou que
tinha os olhos hmidos.
Quando voltou com o caf, a
festa mais parecia a de um
grupo de crianas pequenas do
que a festa de uma rapariga de
quinze anos. Havia muitas
garrafas deitadas pela mesa,
um pedao de bolo de chocolate
estava esborrachado na toalha,
o prato com as sanduches no
cho. Quando Sofia chegou,
um dos rapazes colocou uma
bombinha no bolo de nata que
explodiu, lanando creme e natas pela mesa e pelos convidados, atingindo 
sobretudo o fato vermelho da senhora Ingebrigtsen.
Curiosamente, ela e todos
os outros assistiam a tudo com
a mxima calma. Jorunn agarrou numa fatia de bolo de chocolate e 
espalhou-a no rosto
de Jrgen. Logo em seguida,
comeou a lamber-lhe a cara.
A me de Sofia e Alberto
tinham-se sentado a alguma
distncia no baloio. Fizeram
sinal a Sofia.
- Finalmente vocs podem
falar a ss - disse Sofia.
- E tu tinhas toda a razo
- disse a me num tom alegre.
- O Alberto  um grande homem. Confio-te aos seus fortes braos.
Sofia sentou-se entre os
dois.
Dois rapazes tinham conseguido trepar ao telhado. Uma
das raparigas furava os bales
com um gancho do cabelo. Naquele momento, chegou um intruso de mota. No 
porta-bagagens tinha uma caixa com
garrafas de cerveja e aguardente. Foi acolhido de braos
abertos por alguns rapazes.
Imediatamente a seguir, o
conselheiro financeiro levantou-se da mesa bateu as palmas
e disse:
- Vamos jogar, meninos?
Agarrou numa garrafa de
cerveja, bebeu-a de um trago e
p-la no meio da relva. Depois dirigiu-se  mesa e pegou
nos cinco ltimos anis do
bolo. Mostrou aos convidados
como deviam lanar os anis
para ficarem  volta do gargalo.
- As ltimas convulses -
disse Alberto. - Agora temos mesmo que desaparecer antes que o major 
escreva a palavra final e Hilde feche o
dossier.
- Tens de arrumar tudo sozinha, mam.

427
- No faz mal, minha filha. Acho que esta no era
vida para ti. Se Alberto
conseguir oferecer-te uma
existncia mais feliz, ningum
ficar mais contente do que
eu. Tem um cavalo branco, no
 verdade?
Sofia olhou ao seu redor.
O jardim estava irreconhecvel. Havia garrafas, ossos de
frango, sanduches e bales
pisados por toda a relva.
- Este j foi o meu pequeno paraso - disse.
- E agora s expulsa dele
- respondeu Alberto.
Um rapaz sentara-se no
Mercedes branco. P-lo em
marcha, entrou pelo porto,
fez a curva para o caminho de
saibro e continuou pelo jardim
dentro.
Sofia foi agarrada pelo
brao. Algum a levava para a
toca. Depois, ouviu a voz de
Alberto:
- Agora!
No mesmo instante, o Mercedes branco bateu contra uma
macieira. Choveram mas verdes sobre o capot.
- Isto  demais! - gritou
o conselheiro financeiro.
Exijo uma indemnizao!
A mulher apoiou-o completamente:
- A culpa  desse imbecil?
Onde  que ele se meteu?
- Parece que foram engolidos pela terra - disse a me
de Sofia com um certo orgulho.
Levantou-se, dirigiu-se
para a mesa que parecia um
campo de batalha e comeou a
levant-la, perguntando:
- Algum quer mais caf?

428

CONTRAPONTO

... duas ou mais melodias
soam simultaneamente...

Hilde sentou-se na cama.
Ali terminava a histria de
Sofia e Alberto. Mas o que
se passara realmente?
Por que motivo tinha o seu
pai escrito aquele ltimo captulo? Apenas para demonstrar o seu poder 
sobre o mundo
de Sofia?
Profundamente concentrada
nos seus pensamentos, Hilde
lavou-se e vestiu-se. Depois
de um rpido pequeno-almoo,
desceu para o jardim e sentou-
-se no baloio.
Estava de acordo com Alberto: a nica coisa sensata
naquela festa tinha sido o
discurso que ele fizera. O
seu pai pretenderia insinuar
que o mundo de Hilde era to
catico como a festa de jardim
de Sofia? Ou que por fim o
seu mundo tambm se dissolveria?
E Sofia e Alberto? O que
sucedera ao seu plano secreto?
Talvez ela mesma, Hilde,
devesse inventar a continuao? Ou tinham verdadeiramente conseguido 
fugir do romance? Mas ento, onde estavam?
Subitamente, ocorreu-lhe um
pensamento: se Alberto e Sofia tinham realmente sado da
histria, no poderia haver
mais nada sobre eles nas folhas do dossier. O pai conhecia muito bem o 
contedo
daquelas pginas.
Poderia haver qualquer coisa nas entrelinhas? Houvera
aluses nesse sentido. Hilde
reconheceu que teria de ler
toda a histria algumas vezes
mais.
Enquanto o Mercedes branco
entrava pelo jardim, Alberto
puxou Sofia para o carreiro.
Depois, correram pelo bosque
em direco  cabana do major.
- Depressa! - exclamou
Alberto. - Temos de conseguir antes que ele comece 
nossa procura.
- J estamos fora do seu
alcance?

429
- Encontramo-nos numa zona
de charneira.
Remaram pelo lago e precipitaram-se para a cabana. Alberto abriu a porta 
da cave e
empurrou Sofia para dentro.
Fez-se escuro.

Nos dias seguintes, Hilde
continuou a trabalhar no seu
plano: enviou vrias cartas a
Anna Kvamsdal, em Copenhaga
e telefonou-lhe algumas vezes.
Em Lillesand tambm recrutou
amigos e conhecidos como tropas auxiliares; quase metade
da turma foi mobilizada.
Entretanto, releu O Mundo de Sofia. No era uma
histria que se pudesse despachar com uma nica leitura.
Ocorriam-lhe constantemente
novos pensamentos sobre o que
poderia ter sucedido a Alberto e Sofia aps o seu desaparecimento na 
festa de jardim.
No sbado, dia 23 de Junho, Hilde acordou por volta
das nove horas. Sabia que o
pai tinha j deixado o acampamento no Lbano. Agora, tinha apenas que 
esperar. A ltima parte do dia do major fora planeada at ao mnimo 
detalhe.
De manh, ela comeou a
preparar a noite de S. Joo
com a me. Hilde no conseguia deixar de pensar no modo
como Sofia e a me tinham
preparado a sua festa.
Mas no o tinham j feito?
Estavam verdadeiramente a pr
a mesa naquele momento?

Sofia e Alberto sentaram-se num relvado em frente a
dois grandes edifcios que no
exterior tinham desagradveis
vlvulas e tubos de ventilao. Uma rapariga e um jovem
saram de uma das construes:
ele tinha uma pasta castanha,
ela uma mala vermelha ao ombro. Numa estrada lateral
passou um carro.
- O que aconteceu? - perguntou Sofia.
- Conseguimos!
- Mas onde estamos?
- Este local chama-se
Majorstua, ou seja, a "cabana do major".
- E da?
- Estamos em Oslo, e Ma-
jorstua  uma das zonas principais desta cidade.
- Tens a certeza?
- Absoluta. Aquele edifcio chama-se "Chteau Neuf",
que significa "castelo novo":
ali estuda-se msica. No outro edifcio estuda-se teologia. Naquela 
colina l em cima esto as faculdades de
cincias naturais, literatura
e filosofia.

430
- Estamos fora do livro de
Hilde e do controlo do major?
- Sim. Nunca nos encontrar, aqui.
- Mas onde estvamos quando atravessmos o bosque a
correr?
- Enquanto o major se
preocupava em fazer bater contra uma macieira o Mercedes
do conselheiro financeiro, escondemo-nos na toca. Foi a
primeira parte, Sofia: naquele momento pertencamos tanto
ao velho como ao novo mundo,
mas o major no deve ter pensado que nos esconderamos
justamente l dentro.
- Porque no?
- Nesse caso, no nos teria deixado ir embora to facilmente. Tudo se 
passou como
num sonho, e talvez ele tambm
tenha entrado no jogo...
- O que queres dizer?
- Foi ele a pr em marcha
o Mercedes. Talvez se tenha
esforado o mximo para no
nos controlar. Devia estar
exausto depois de tudo o que
aconteceu...
O jovem casal estava a poucos metros de distncia deles.
Sofia achou um pouco embaraoso estar ali sentada na relva com um homem 
muito mais velho que ela. E queria ter a
prova de que aquilo que Alberto lhe tinha dito era verdade.
Levantou-se e correu para
os dois.
- Podem dizer-me por favor
como se chama este local? -
perguntou.
Nenhum respondeu, e no lhe
deram ateno.
Sofia ficou to irritada,
que voltou a dirigir-lhes a
palavra.
-  exigir muito pedir que
respondam  minha pergunta?
Mas o jovem estava visivelmente ocupado a explicar uma
coisa  rapariga:
- A composio contrapontstica desenvolve-se em duas
dimenses: a horizontal, ou
meldica, e a vertical, ou
harmnica. Trata-se portanto
de duas ou mais melodias que
soam ao mesmo tempo...
- Peo desculpa se vos estou a interromper, mas... -
disse Sofia.
- As melodias combinam-se
de modo a desenvolverem-se da
forma mais independente possvel uma da outra. Mas deve
haver tambm uma harmonia.
Isto  chamado contraponto, o
que na realidade significa nota contra nota.
Que insolncia! No eram
cegos nem surdos. Sofia fez
uma ltima tentativa: ps-se
em frente deles, obstruindo-lhes o caminho.
Foi simplesmente empurrada
para o lado.
- Comea a levantar-se
vento - disse a rapariga.
Sofia voltou a correr para
Alberto.

431
- Eles no me ouvem! -
disse - e enquanto o dizia,
lembrou-se do sonho com Hilde
e o crucifixo de ouro.
- Temos de pagar o preo,
Sofia. Se conseguimos sair
de um livro, no podemos esperar obter o mesmo estatuto que
o seu autor. Mas estamos
aqui. E a partir de agora no
ficaremos nem um dia mais velhos do que quando deixmos a
festa filosfica no jardim.
- Mas nunca poderemos entrar em contacto com as pes-
soas  nossa volta?
- Um verdadeiro filsofo
nunca diz nunca. Tens horas?
- So oito.
- Como quando deixmos a
festa.
- Hoje o pai de Hilde
volta do Lbano.
- Por isso, temos de nos
apressar.
- O que queres dizer?
- No ests curiosa para
ver o que suceder quando o
major chegar a Bjerkely?
- Sim, mas...
- Ento, vem!
Caminharam para o centro.
Passaram por vrias pessoas
no caminho, mas Sofia e Alberto pareciam ser apenas ar
para todas elas.
Ao longo da rua havia carros estacionados. De repente,
Alberto parou em frente a um
carro vermelho de modelo desportivo, descapotvel.
- Acho que podemos usar
este. Temos de ter a certeza
de que este  o nosso carro.
- No percebo nada.
- Ento vou-te explicar.
No podemos levar um carro
normal, que pertena a uma
pessoa aqui da cidade. O que
 que achas que sucederia se
as pessoas vissem um carro que
anda sem condutor? Alm disso
nunca conseguiramos p-lo em
movimento.
- E o carro desportivo?
- Acho que o vi num filme
antigo.
- Desculpa, mas comeo a
irritar-me com todos estes
mistrios.
- Este  um carro de fantasia, Sofia.  igual a ns.
As pessoas nesta cidade vem
aqui apenas um lugar livre para estacionar e  justamente
disso que nos temos de assegurar antes de partirmos.
Ficaram  espera. Pouco
depois, viram um rapaz que estava a andar de bicicleta no
passeio, mas em seguida virou
para a estrada passando pelo
meio do carro vermelho.
- Como vs,  o nosso carro.
Alberto abriu a porta do
lugar ao lado do condutor.
- Faz favor! - disse, e
Sofia entrou.

432
Ele sentou-se ao volante,
girou a chave que j estava na
ignio e o carro arrancou.
Depois de ter deixado atrs
de si Kirkeveien, chegaram a
Drammensveien. Passaram Lysaker e Sandvika. Pouco a
pouco, comearam a ver as primeiras fogueiras de S. Joo,
sobretudo depois de deixarem
Drammen.
-  o solstcio de Vero,
Sofia! No  maravilhoso?
- E h ar fresco com o
carro aberto.  mesmo verdade
que ningum nos pode ver?
- S os que so como ns.
Talvez encontremos algum.
Que horas so?
- Oito e meia.
- Ento temos que ir por
atalhos, no podemos ficar todo o tempo atrs deste camio.
Alberto virou para um grande campo de trigo. Sofia voltou-se e viu que 
tinham deixado atrs de si a marca dos
pneus nas espigas pisadas.
- Amanh vo dizer que foi
culpa do vento - disse Alberto.
O major Albert Knag aterrou em Copenhaga. Era um sbado, dia 23 de Junho, 
quatro e meia da tarde. O dia
tinha sido comprido: o major
tinha feito a penltima escala
em Roma, de onde tinha apanhado um avio para Copenhaga.
Tinha passado o controlo de
passaportes vestido com o uniforme da ONU, que usava
sempre com grande orgulho.
Com efeito, Albert Knag
sentia que no representava
apenas o seu pas, mas tambm
uma organizao internacional
e consequentemente uma tradio secular que abrangia todo
o planeta.
Trazia apenas uma pequena
mala  tira-colo. O resto da
bagagem seria transferido do
avio proveniente de Roma para o avio que se dirigia a
Kristiansand. Apenas tinha
de mostrar o seu passaporte
vermelho.
- "Nada a declarar".
O major Albert Knag tinha
de esperar trs horas no aeroporto de Kastrup antes de
apanhar o avio para Kristiansand. Tinha tambm de
comprar alguns presentes para
a famlia. Enviara a Hilde o
presente maior quase duas semanas antes. Na noite anterior ao aniversrio 
de Hilde,
Marit tinha-o colocado na mesinha de cabeceira do quarto
da filha, de modo a que ela o
pudesse encontrar mal acordasse. Desde o seu telefonema
nesse dia no tinha falado com
Hilde.

433
Albert comprou alguns jornais noruegueses, sentou-se
num bar e pediu uma chvena de
caf. Ainda no lera os ttulos quando ouviu o altifalante:
- Uma notcia importante
para o senhor Albert Knag.
Pede-se ao senhor Albert
Knag que se dirija ao balco
da SAS.
O que era aquilo? Albert
Knag sentiu um calafrio na
espinha. Seria uma ordem para
voltar para o Lbano? No
estariam as coisas bem em
casa?
Pouco depois estava em
frente ao balco das informaes.
- Eu sou Albert Knag.
- Faa favor:  urgente.
Abriu imediatamente o envelope. Dentro dele havia um
envelope ainda mais pequeno.
Neste estava escrito: "Major
Albert Knag, a/c balco de
informaes, aeroporto de
Kastrup, Copenhaga.
Albert sentiu o corao bater com mais fora. Abriu o
segundo envelope e encontrou
uma folhinha.

Querido pap: dou-te as
boas vindas a casa. Fico contente por voltares do Lbano.
Como deves compreender, no
posso esperar at tu voltares
para casa. Desculpa ter-te
feito chamar pelo altifalante,
mas era o mais fcil.

PS. O conselheiro financeiro Ingebrigtsen exige infelizmente uma 
indemnizao
por um acidente com um "Mercedes" roubado.

PS 2. Talvez me encontres sentada no jardim quando
chegares, mas  possvel que
tenhas notcias minhas antes
disso.

PS 3. Tenho um certo receio de ficar muito tempo no
jardim: em lugares como este 
fcil ser-se engolido pela
terra.

Beijos da Hilde, que teve
muito tempo para preparar o
teu regresso.

O major Albert Knag sorriu, mas no lhe agradou nada
a ideia de ser manipulado daquele modo. Gostava de ter
sempre os cordelinhos na mo.
E aquela garota atrevida em
Lillesand estava a dirigir os
seus movimentos no aeroporto
de Kastrup! Como  que tinha
conseguido? Ps o envelope no
bolso interior e passou por
vrias lojas. Justamente
quando ia a entrar na loja de
especialidades dinamarquesas,
encontrou um pequeno envelope
colado na montra. "MAJOR
KNAG" estava escrito com uma

434
caneta de feltro grossa. Ele
arrancou o envelope e leu:

Importante mensagem para o
major Albert Knag, a/c
Dansk Mat, aeroporto de
Kastrup, Copenhaga. Querido
pap: por favor, compra-me um
grande salame dinamarqus, de
preferncia de dois quilos. A
me deve ficar contente com
uma salsicha de conhaque.

PS. Caviar Limfjord tambm no era m ideia.

Beijos da Hilde

Albert Knag olhou  sua
volta. Estaria Hilde ali
perto? Ter-lhe-ia Marit oferecido um voo para Copenhaga,
para que o fosse receber? Era
a letra de Hilde... De repente, o observador da ONU
sentiu-se observado. Parecia
que algum dirigia  distncia
tudo o que fazia. Sentiu-se
como um boneco nas mos de uma
criana.
Entrou na loja e comprou um
salame dinamarqus, uma salsicha de conhaque e trs latas
de caviar de Limfjord, depois
prosseguiu para as outras lojas. Queria comprar mais um
presente de anos para Hilde.
Talvez ela precisasse de uma
calculadora, ou de um pequeno
rdio porttil. Seria algo do
gnero.
Quando entrou na loja dos
electrodomsticos, reparou num
outro envelope na montra:
"Major Albert Knag, a/c da
loja mais interessante de todo
o aeroporto". Na folha dentro
estava escrito:

Querido pap: cumprimento-te e agradeo-te da parte da
Sofia pelo televisor porttil
com rdio incorporado que recebeu do pai generoso pelo seu
aniversrio. Foi muito bom,
se bem que tenha sido uma ninharia. No entanto, tenho de
admitir que tambm tenho o
mesmo interesse que Sofia por
esse gnero de coisas.

PS. Se ainda no estiveste no minimercado e na grande
Duty Free Shop, onde se
vende vinho e cigarros, encontrars l outras instrues.

PS 2. Recebi dinheiro no
meu aniversrio e posso contribuir para a compra de um
televisor porttil com a soma
de 350 coroas.

Beijos da Hilde que j recheou o peru e preparou a salada Waldorf

O televisor custava 985

334-335
coroas dinamarquesas. No era
nada em comparao com o que
Albert Knag sentia por ser
dirigido para um lado e para

435
o outro pelas ideias estranhas
da sua filha. Estaria ela ali
- ou no?
A partir de ento, olhava
em seu redor a cada passo.
Sentia-se simultaneamente um
espio e uma marioneta. No
estava a ser privado dos seus
direitos humanos bsicos?
Tinha de ir ainda  grande
Duty Free Shop. Encontrou
a um envelope branco no qual
estava escrito o seu nome.
Todo o aeroporto parecia
transformado numa espcie de
jogo de computador, no qual
ele servia de cursor. Na folha estava escrito:
Major Knag, a/c Duty
Free Shop no aeroporto. Tudo o que eu quero daqui  um
saco de caramelos e algumas
caixas de maapo de "Anton
Berg". No te esqueas de
que tudo isto  muito mais
caro na Noruega! Se bem me
lembro, a me gosta de "Campari".

PS. Tens de manter os
sentidos alerta durante toda a
viagem de regresso. No vais
querer perder nenhuma mensagem
importante, pois no?

Beijos da tua filha Hilde
que tem muita facilidade em
aprender.

Albert Knag suspirou resignado; depois entrou na loja
e comprou tudo o que estava escrito na folha. Com trs sacos de plstico 
e a mala a
tira-colo, dirigiu-se para a
sada 28 para esperar pela
hora da descolagem: se houvesse outras mensagens ficariam
onde estavam.
Numa coluna da sada 28,
encontrou um envelope branco:
"Para o major Albert Knag,
a/c sada 28, aeroporto de
Kastrup, Copenhaga". Tambm
era a letra de Hilde, mas o
nmero da sada no tinha sido
acrescentado com outra letra?
Infelizmente, no era fcil
distinguir, uma vez que no
podia comparar letras, apenas
nmeros.
Sentou-se numa poltrona que
estava encostada a uma parede.
Pousou os sacos nos joelhos.
O orgulhoso major estava para
ali olhando fixamente em frente como uma criana pequena
que viaja sozinha pela primeira vez. Se ela estivesse ali,
no teria a satisfao de o
descobrir primeiro.
Olhava ansiosamente para
todos os passageiros que iam
entrando. Viu-se como um espio perigoso constantemente
sob controlo dos servios secretos. Quando foi chamado
para embarcar suspirou de alvio. Foi o ltimo a entrar a
bordo.
Quando entregou o seu bilhete de embarque, arrancou
rapidamente um outro envelope
que estava colado ao balco.

436
Sofia e Alberto tinham
acabado de passar a ponte de
Brevik e a sada para Krager.
- Vais a cento e oitenta
 hora - comentou Sofia.
- So quase nove horas.
Daqui a pouco, ele aterrar
no aeroporto de Kjevik...
Felizmente, ningum nos pode
deter por excesso de velocidade.
- E se batermos?
- Desde que se trate de
um carro normal, no corremos
perigo. Mas se fosse um dos
nossos...
- Sim?
- Nesse caso, temos de
prestar ateno. No viste
que passmos por Herbie, o
carocha?
- No!
- Estava estacionada algures em Vestfold.
- No ser to fcil ultrapassar o autocarro  nossa
frente: h bosque cerrado de
todos os lados.
- Isso no tem importncia, Sofia. J vais ver.
Ele virou para o bosque e
guiou pelo meio das rvores
cerradas.
Sofia respirou de alvio.
- Assustaste-me.
- No sentiramos nada
mesmo que passssemos por uma
parede de ao.
- Significa que em relao ao que nos rodeia somos
apenas almas feitas de ar.
- No, ests a pr tudo
do avesso.  a realidade que
nos circunda que  apenas uma
iluso feita de ar.
- Tens de me explicar
isso melhor.
- Ento, ouve com ateno.  opinio difundida e
falsa que o esprito  algo
"mais etreo" do que o vapor,
mas  exactamente o contrrio:
o esprito  mais compacto do
que o gelo.
- Nunca tinha pensado
nisso.
- Vou-te contar uma histria. Era uma vez um homem
que no acreditava nos anjos.
Um dia, quando estava a trabalhar na floresta, recebeu a
visita de um anjo. Percorreram juntos um troo de estrada e, por fim, o 
homem voltou-se para o anjo e disse-lhe:
"Sim, tenho que admitir que
os anjos existem, mas no como
ns". "O que queres dizer?",
perguntou-lhe o anjo. O homem
respondeu: "Quando chegmos
em frente a um bloco de rocha,
eu tive que ir  volta, mas tu
passaste atravs dele. E
quando chegmos em frente a um
tronco que tinha cado atra

437
vessado no caminho, eu tive
que saltar por cima, e tu passaste pelo meio". Admirado
com esta resposta, o anjo disse: "No reparaste que tambm
atravessmos um pntano? A,
conseguimos ambos passar pela
bruma. Isso deve-se ao facto
de termos uma consistncia
mais compacta do que a bruma".
- Ah...
- O mesmo se passa connosco, Sofia. O esprito
pode atravessar portas de ao.
Nenhum tanque, nenhuma bomba
pode destruir o que  feito de
esprito.
- Parece to estranho!
- Vamos passar por Risr
dentro em pouco, e arrancmos
h menos de uma hora. Gostaria muito de tomar caf.
Quando chegaram a Fiane,
mesmo antes de S0ndeled, viram do lado esquerdo uma estao de servio 
que se chamava
"Cinderela". Alberto virou e
estacionou o carro na relva.
No caf, Sofia tentou tirar da arca frigorfica, uma
garrafa de coca-cola mas esta
no se moveu. Parecia estar
colada. Um pouco mais  frente, Alberto tentava deitar
caf num copo de papel que tinha encontrado no carro. Tinha apenas que 
premir um boto, mas, apesar de todos os
esforos, no conseguiu.
Ficou to furioso que se
voltou para os que estavam no
caf e pediu ajuda. Visto que
ningum reagia, ps-se a gritar to alto que Sofia teve
que tapar as orelhas.
- Quero um caf!
A sua clera evaporou-se
rapidamente e, pouco depois,
ele no parava de rir.
- No podem ouvir-nos, e
 bvio que no nos podemos
sequer servir do caf - explicou a Sofia.
Estavam para sair quando
uma mulher muito velha se levantou e foi ao seu encontro.
Trazia uma saia vermelha cor
de fogo, um casaco de malha
azul esverdeado e na cabea um
leno branco. Tanto as cores
como a sua figura eram muito
mais ntidas do que tudo o que
havia naquele caf.
Dirigiu-se a Alberto e disse:
- Como gritas, meu rapaz!
- Desculpe.
- Disseste que querias
caf?
- Sim, mas...
- Temos aqui perto um pequeno estabelecimento.
Saram do caf com a mulher
e foram por um caminho atrs
da estao de servio. Entretanto, ela perguntou:
- Vocs so novos aqui?
- Temos de o admitir -
respondeu Alberto.
- Sim, sim. Bem vindos 
eternidade, meus filhos!
- E tu?
- Eu venho de um conto
dos irmos Grimm. Foi escrito h mais de cento e cinquenta anos. E de 
onde vm vocs?
- Vimos de um livro de
filosofia. Eu sou professor
de filosofia e Sofia  a minha aluna.
- Hi... hihi... sim, isso
 novo.

438
Pouco depois chegaram a uma
clareira. A, havia vrias
casinhas castanhas acolhedoras. Uma grande fogueira de
S. Joo ardia num largo entre as casas e  volta da fogueira danavam 
figuras coloridas. Sofia reconheceu muitas delas. Viu Branca de
Neve e alguns dos anes,
Joo Rato e Sherlock Holmes. Viu tambm o Capuchinho
Vermelho e Cinderela. Em
redor da grande fogueira tinham-se reunido tambm muitas
figuras conhecidas que no tinham nome: duendes e slfides, faunos e 
bruxas, anjos e
diabinhos. Sofia encontrou
inclusivamente um gigante autntico.
- Que barulheira! - exclamou Alberto.
- Mas  a noite de S.
Joo - respondeu a velha. -
No temos um encontro assim
desde a noite de Valpurgis,
que festejmos na Alemanha.
Vou aqui fazer apenas uma pequena visita. Querias caf,
no era?
- Sim, por favor.
Sofia reparou ento que todas as casinhas eram feitas de
maapo, caramelo e calda de
acar. Algumas das figuras
roam as casinhas, mas uma padeira andava entre os edifcios reparando de 
quando em
quando os danos. Sofia retirou um pedao de um canto.
Era mais doce e melhor do que
tudo o que j tinha provado.
A velha voltou com a chvena de caf.
- Muito obrigado - disse
Alberto.
- E quanto pensam pagar
pelo caf?
- Pagar?
- Aqui paga-se geralmente
com uma histria. Pelo caf
basta uma pequena.
- Ns podamos contar a
incrvel histria da humanidade - disse Alberto. - Mas
o problema  que estamos com
muita pressa. No podemos
voltar uma outra vez e pagar?
- Naturalmente. E porque
 que tm to pouco tempo?
Alberto contou o que planeavam e a velha disse:
- De facto vocs so uma
coisa nova, mas tm de cortar
depressa o cordo umbilical
que ainda vos liga  vossa
origem corprea: ns j no
estamos dependentes da carne e
do sangue, pertencemos ao
"povo invisvel".

439
Pouco depois, Sofia e Alberto estavam novamente junto
ao caf Cinderela e ao carro
vermelho. Junto ao carro, uma
me atarefada ajudava o filho
a fazer chichi.
x Aps algumas corridas e
atalhos, chegaram rapidamente
a Lillesand.
O voo SX 876 proveniente
de Copenhaga aterrou no aeroporto de Kjevik s 21.35.
Enquanto o avio estava a
descolar de Copenhaga, o major abrira o envelope que encontrara no balco 
de embarque. Na folha estava escrito:

Major Knag enquanto entrega o carto de embarque em
Kastrup na noite de S.
Joo, 1990.
Querido pap: talvez tenhas
acreditado que eu estava em
Copenhaga, mas o meu controlo
sobre o que tu fazes  muito
mais refinado. Vejo-te por
toda a parte, pap. Com efeito, entrei em contacto com uma
antiga famlia de ciganos que
h muito tempo vendeu  bisav
um espelho mgico de lato. E
alm disso, adquiri um bola de
cristal. Neste preciso instante vejo que acabaste de te
sentar no avio. No te esqueas de apertar o cinto e
manter as costas do assento na
vertical at que o sinal de
Fasten Seat Belt se apague.
Enquanto o avio estiver no
ar, podes baixar as costas do
banco e descansar. Ser melhor estares repousado quando
chegares a casa. O tempo em
Lillesand est maravilhoso,
mas a temperatura anda alguns
graus abaixo da do Lbano.
Desejo-te uma boa viagem.

Beijos da tua pequena bruxa, a rainha do espelho e a
maior protectora da ironia.

Albert Knag no sabia bem
se estava irritado ou apenas
cansado e esgotado. Mas, de
repente, comeou a rir. Riu-se to alto que os outros
passageiros se voltaram para
ver. Em seguida, o avio descolou.
Era a sua vez de provar do
seu prprio remdio, mas havia
uma diferena importante...
As nicas vtimas do seu remdio tinham sido Sofia e
Alberto... E essas eram apenas fantasia.
Seguiu o conselho de Hilde: inclinou as costas do assento e adormeceu. S 
acordou verdadeiramente depois de
ter passado o controlo de passaportes e quando estava no
hall de chegadas do aeroporto de Kjevik. Ali, foi recebido com uma 
manifestao.
Havia oito a dez manifestantes, a maior parte da idade
de Hilde. Nos cartazes estava escrito: "BEM-VINDO A
CASA, PAP!", "HILDE
ESPERA NO JARDIM" E
"VIVA A IRONIA!".

440
O mais grave foi o facto de
o major no poder entrar imediatamente num txi. Tinha de
esperar pela sua bagagem. E
enquanto isso, as colegas de
Hilde formigavam  sua volta,
obrigando-o a ler vrias vezes
todos os cartazes. S quando
uma rapariga lhe levou um ramo
de rosas  que esboou um sorriso. Remexeu num dos seus
sacos e deu a todas as manifestantes doces. No final, s
sobravam dois para Hilde.
Depois de recolher a bagagem,
um jovem explicou-lhe que estava sob as ordens da rainha
do espelho e que fora encarregado de o levar de carro para
Bjerkely. As manifestantes
desapareceram na multido.
O carro foi pela E 18.
Em todas as pontes e tneis
estavam pendurados cartazes:
"Bem-vindo a casa!", "O peru
est  espera!", "Estou a
ver-te, pap!".
Albert Knag respirou de
alvio quando o deixaram em
frente do porto do jardim de
Bjerkely. Agradeceu ao condutor com uma nota de cem coroas e trs latas 
de cerveja.
A sua mulher Marit esperava por ele  entrada da casa.
Aps um longo abrao, perguntou:
- Onde est ela?
- Est sentada no cais,
Albert.

Alberto e Sofia deixaram o
seu carro desportivo vermelho
em frente do hotel Noruega na
praa principal de Lillesand.
Faltava um quarto para as
dez. Viram junto aos recifes
uma grande fogueira.
- Como havemos de encontrar Bjerkely? - perguntou
Sofia.
- Temos de procurar. Ainda te recordas do quadro na
cabana?
- Temos  de nos apressar. Eu quero estar l antes
dele.
Guiaram por caminhos estreitos, mas tambm por cima
de rochas e escolhos. Bjerkely ficava junto ao mar, disso
tinham a certeza.
De repente, Sofia gritou:
- Ali! Encontrmos!
- Acho que tens razo, mas
no devias fazer tanto alarido.
- Ah, aqui ningum nos pode ouvir.
- Querida Sofia - depois do extenso curso de filosofia,  uma desiluso 
que tu
tires ainda concluses precipitadas.
- Mas...
- Parece-te que este local no tem duendes nem gigantes, nem espritos do 
bosque
nem fadas...
- Desculpa!

441
Naquele momento, entraram
atravs do porto e seguiram o
caminho em frente  casa. Alberto parou na relva, junto ao
baloio. Um pouco mais 
frente, estava uma mesa posta
para trs pessoas.
- Estou a v-la! - sussurrou Sofia. - Est sentada, no cais, exactamente 
como
no meu sonho.
- Ests a ver que o jardim se assemelha ao teu em
Klverveien?
- Sim, tens razo. Inclusivamente o baloio. Posso
sair para ir ter com ela?
- Claro. Eu fico no carro...
Sofia correu para o cais.
Quase tropeava e caa sobre
Hilde, mas sentou-se ao seu
lado calmamente.
Hilde estava a brincar com
a corda do barco a remos amarrado ao cais. Na mo esquerda
segurava uma pequena folha.
Via-se que estava  espera.
Olhava constantemente para o
relgio.
Sofia achou-a muito bonita.
Tinha caracis loiros-claros
- e olhos verde-esmeralda.
Trazia um vestido amarelo de
Vero. Era um pouco parecida
com Jorunn.
Sofia tentou falar com ela,
apesar de saber que no servia
de nada.
- Hilde!  a Sofia!
Hilde no reagiu.
Sofia ajoelhou-se ao seu
lado e tentou gritar-lhe ao
ouvido:
- Ests a ouvir-me, Hilde? Ou s cega e surda?
No abrira mais os olhos?
No era um pequeno sinal,
mesmo que muito fraco, de que
ouvia alguma coisa?
Hilde voltou-se. De repente, voltou a cabea para a direita e fixou os 
olhos de Sofia. Mas o seu olhar no estava completamente fixo, parecia 
atravessar Sofia.
- No grites tanto, Sofia
- era a voz de Alberto que
vinha do carro vermelho.
- Eu no quero ficar com
o jardim cheio de sereias!
Sofia permaneceu sentada em
silncio. Sentia-se bem por
estar to perto de Hilde.
Em seguida, ouviu uma voz
masculina: "Hilde!".
Era o major - com uniforme e boina azul. Estava em
cima, no jardim.
Hilde levantou-se de um
pulo e correu na sua direco.
Encontraram-se entre o assento suspenso e o carro desportivo vermelho. 
Ele elevou-a
no ar e f-la rodopiar.

Hilde sentara-se no cais
para esperar pelo pai. A cada
quarto de hora que passara
desde a sua chegada a Copenhaga, ela tentara imaginar

442
onde ele estava precisamente,
o que estava a fazer e como
se sentia. Tinha escrito todos os horrios numa folha de
papel que mantivera na mo durante todo o dia.
Estaria ele zangado? No
estava certamente  espera que
tudo fosse como anteriormente
depois de ter escrito para ela
um livro misterioso.
Voltou a olhar para o relgio: eram dez e um quarto.
Ele podia chegar a qualquer
momento.
Mas o que era aquilo? No
estava a ouvir uma respirao
fraca, tal como no seu sonho
com Sofia?
Voltou-se. Estava ali alguma coisa, tinha a certeza
disso. Mas o qu?
Seria apenas devido  noite
de Vero?
Durante alguns segundos,
receou estar a ouvir alguma
coisa.
- Hilde!
Olhou na outra direco.
Era o pai! Estava em cima,
no jardim!
Hilde levantou-se de um
pulo e correu na sua direco.
Encontraram-se junto ao baloio, ele elevou-a no ar e
f-la rodopiar.
Hilde comeou a chorar e o
major tambm teve de reprimir
algumas lgrimas.
- Ests quase uma mulher
adulta, Hilde.
- E tu um verdadeiro poeta!
Hilde enxugou as lgrimas
com as mangas do vestido amarelo.
- Ento, estamos quites?
- Estamos quites.
Sentaram-se  mesa. Em
primeiro lugar, Hilde quis
saber exactamente o que sucedera em Copenhaga e no regresso de l a 
Lillesand. As
gargalhadas sucediam-se.
- No viste o envelope no
bar?
- Eu nem sequer tive tempo suficiente para me sentar e
comer alguma coisa, minha malandra. Agora, tenho uma fome
de leo.
- Pobre pap.
- A histria do peru no
era s uma inveno, espero.
- No! Preparei tudo. A
mam vai trazer a comida.
Depois, falaram detalhadamente sobre o dossier e a histria de Sofia e 
Alberto.
Pouco depois, estavam na mesa
o peru e a salada Waldorf,
uma garrafa de vinho ros e o
po feito por Hilde.
Enquanto o pai estava a falar de Plato, Hilde interrompeu-o subitamente:
- Chiu!
- O que ?

443
- No ouviste nada? Um
rudo?
- No.
- Tenho a certeza que
ouvi alguma coisa. Deve ter
sido apenas um rato.
A ltima coisa que o pai
disse enquanto a me trazia o
vinho, foi:
- Mas o curso de filosofia ainda no terminou.
- O que queres dizer?
- Hoje  noite vou falar-te do universo.
Antes de comearem a comer,
ele disse:
- Hilde j  muito grande
para se sentar nos meus joelhos, mas tu no!
Puxou Marit para o seu
colo, e ela ficou sentada muito tempo antes de poder comer
alguma coisa.
- E pensar que tens quase
quarenta anos...
Quando Hilde correu para o
pai, os olhos de Sofia encheram-se de lgrimas.
No conseguia chegar a
Hilde!
Sofia sentiu uma grande inveja pelo facto de Hilde ser
uma pessoa verdadeira, de carne e osso.
Quando Hilde e o major se
sentaram  mesa, Alberto buzinou.
Sofia olhou para ele. Hilde no fizera o mesmo?
Sofia correu para Alberto
e sentou-se ao seu lado no
carro.
- Vamos ficar algum tempo
a ver o que sucede, est bem?
- disse.
Sofia acenou afirmativamente.
- Estiveste a chorar?
Sofia acenou novamente.
- O que se passa?
- Ela tem a sorte de ser
uma pessoa verdadeira... Vai
crescer e ser uma verdadeira
mulher. Tambm h-de ter filhos verdadeiros...
- E netos, Sofia. Mas
tudo tem duas faces.  o que
eu te queria ensinar no incio
do curso.
- O que queres dizer com
isso?
- Eu tambm acho que ela
tem sorte, mas quem ganha a
lotaria da vida, ganha tambm
a lotaria da morte, porque o
destino da vida  a morte.
- Mas no  melhor ter
vivido do que nunca se viver
verdadeiramente?
- No podemos ter uma vida
como a da Hilde... bom, ou
como a do major. Em compensao, nunca morreremos. J
no te lembras do que a

444
velha disse no bosque? Pertencemos ao "povo invisvel".
Ela disse tambm que tem mais
de cento e cinquenta anos. Na
festa de S. Joo eu vi inclusivamente personagens que
tm mais de trs mil anos.
- Talvez eu inveje sobretudo esta vida familiar.
- Mas tu tambm tens uma
famlia. Afinal tens um gato,
dois pssaros e uma tartaruga...
- Ns deixmos essa realidade.
- De modo algum. Foi o
major que a deixou. Foi ele
que ps o ponto final. Nunca
nos voltar a encontrar.
- Achas que podemos voltar?
- Sempre que quisermos.
Mas tambm vamos fazer novos
amigos nos bosques atrs da
cafetaria "Cinderela".
A famlia Mller Knag tinha comeado a comer. Por um
momento, Sofia temeu que essa
refeio tivesse o mesmo desfecho que a festa filosfica
no jardim em Klverveien. O
major parecia querer deitar
Marit sobre a mesa, mas limitou-se a pux-la para o colo.
O carro estava estacionado
a uma certa distncia da mesa,
e s podiam ouvir o que eles
diziam de vez em quando.
Olharam para o jardim, e tiveram tempo suficiente para
recordar tudo o que tinha sucedido durante a infeliz festa
de Sofia no jardim.
A famlia Knag s se levantou da mesa por volta da
meia-noite. Hilde e o major
sentaram-se no baloio e acenaram  me, que ia entrar em
casa.
- Vai dormir, mam.
Temos muito que conversar.

.. linha 6 - DESDE PAG 428 A 444 - 52 folhaS - ABEL -FOLHA 1426

445
O BIG BANG

...ns tambm somos poeira
de estrelas...

Hilde sentou-se confortavelmente no baloio, junto ao
pai. Era quase meia-noite.
Olharam para a enseada; no
cu, delineavam-se as primeiras estrelas plidas. Ondas
suaves embatiam contra as pedras, sob a doca.
O pai quebrou finalmente o
silncio:
-  uma ideia estranha, a
de vivermos num pequeno planeta, algures no universo.
- Sim...
- A Terra  um dos muitos
planetas que giram  volta do
Sol. Mas o nosso planeta  o
nico que tem vida.
- E ser o nico com vida
em todo o universo?
- Sim;  possvel. Mas
tambm  lcito pensarmos que
o universo fervilha de vida,
porque o cosmos  extremamente
grande. As distncias so to
grandes que as medimos em minutos-luz e em anos-luz.
- O que  que isso significa?
- Um minuto-luz  a distncia que a luz percorre num
minuto. E  uma grande distncia, porque a luz consegue
percorrer 300,000 quilmetros
no espao, em apenas um segundo. Um minuto-luz corresponde, por outras 
palavras, a
300,000 vezes 60, ou a 18
milhes de quilmetros. Um
ano luz corresponde a quase
9,5 mil milhes de quilmetros.
- A que distncia est o
Sol?
- A pouco mais de oito minutos-luz. Os raios solares,
que nos aquecem o rosto num
dia quente de Junho, viajaram
portanto oito minutos no espao antes de chegarem a ns.
- Continua!
- Pluto, o planeta mais
afastado no nosso sistema solar - est afastado de ns um
pouco mais do que cinco horas-luz. Quando um astrnomo observa Pluto com 
um telescpio, v na realidade

446
o planeta como era h cinco
horas atrs. Podemos tambm
dizer que a imagem de Pluto
leva cinco horas para chegar
at ns.
-  difcil imaginar, mas
acho que compreendi o que queres dizer.
- Bom, Hilde, mas s agora comemos a orientar-nos. O nosso sol  uma 
entre
quatrocentos mil milhes de
outras estrelas, numa galxia
a que chamamos Via Lctea.
Esta galxia assemelha-se a
um grande disco com muitos
braos em espiral, e o nosso
sol est situado num desses
braos. Se observarmos o cu
numa noite clara de Inverno,
podemos ver uma larga faixa
luminosa, porque olhamos para
o centro da Via Lctea.
-  por isso que, em sueco, Via Lctea se diz "via
do inverno".
- A distncia em relao 
primeira estrela mais prxima
de ns na Via Lctea perfaz
quatro anos-luz. Talvez seja
aquela estrela que vemos l em
cima, sobre aquela ilhota. Se
imaginares que neste preciso
momento um astrnomo est a
observar Bjerkely l de cima
com um telescpio potentssimo, veria Jerkely como era h
quatro anos. Talvez visse
uma rapariga de onze anos,
aqui sentada, e a baloiar os
ps.
- No tenho palavras.
- Mas isso  apenas a estrela que est mais prxima de
ns. Toda a galxia, ou "nebulosa", como tambm se chama,
tem a extenso de 90,000
anos-luz. Significa que a luz
de uma extremidade da galxia
at  outra extremidade, leva
todos esses anos a percorr-la. Quando observamos uma
estrela na Via Lctea, que
est afastada do nosso sol
50,000 anos-luz, vemos como
era h 50,000 anos.
- Esse pensamento  demasiado grande para uma cabea
to pequena como a minha.
- Quando observamos o espao, observamos o passado.
No temos outra escolha.
Nunca sabemos como o universo
 agora. Quando observamos
uma estrela, que dista milhares de anos-luz, estamos a regressar a 
milhares de anos
atrs na histria do espao.
-  inacreditvel.
- Mas tudo o que vemos,
atinge o nosso olho sob a forma de ondas luminosas, ondas
que precisam de tempo para a
sua viagem pelo espao. Podemos fazer uma comparao com o
trovo. Ouvimos sempre o trovo algum tempo aps termos
visto o relmpago. Deve-se ao
facto de as ondas sonoras se
moverem mais lentamente do que
as ondas luminosas. Quando
ouo um trovo, ouo o estrondo de uma coisa que se deu h
algum tempo. O mesmo se passa
com as estrelas. Quando vejo
uma estrela que est a milhares de anos-luz de distncia,

447
estou a ver o "trovo" de um
acontecimento que se deu h
milhares de anos no passado.
- Compreendo.
- Mas at agora falmos
apenas da nossa galxia. Segundo os astrnomos, existem
cerca de cem mil milhes no
universo, e cada uma destas
galxias  formada por cem mil
milhes de estrelas. A galxia mais prxima da Via Lctea  a nebulosa de 
Andrmeda: est a dois milhes de
anos-luz da nossa. Como vimos, isso significa que a luz
dessa galxia leva dois mil
milhes de anos a chegar at
ns, e que, quando observamos
no cu a nebulosa de Andrmeda, vemos como era na realidade h dois 
milhes de anos.
Se um astrnomo estivesse
nesta nebulosa - estou a imaginar um pobre diabo, que dirige o seu 
telescpio para a
Terra -, no nos consegue
ver. Na melhor das hipteses,
descobre alguns homens primitivos com crebro minsculo.
- Estou espantada.
- As galxias mais afastadas, de que temos conhecimento, encontram-se a 
cerca de
dez mil milhes de anos-luz de
ns. Quando recebemos sinais
destas galxias, recuamos portanto dez mil milhes de
anos na histria do universo.
Trata-se do dobro do tempo da
existncia do nosso sistema
solar.
- Estou a ficar tonta.
- Pode ser difcil compreender o que significa ver to
longe no passado. Mas os astrnomos descobriram uma coisa
ainda mais importante para a
nossa concepo do mundo.
- Diz-me!
- Nenhuma galxia est
imvel no espao, mas todas se
movem a uma velocidade enorme,
afastando-se umas das outras.
Quanto mais longe esto de
ns, mais velozmente parecem
mover-se. Isso significa que
a distncia entre as galxias
se torna cada vez maior.
- Estou a tentar imaginar
isso.
- Se tens um balo e desenhas nele alguns pontos pretos, estes afastar-
se-o cada
vez mais entre si, conforme
vais soprando. O mesmo fenmeno sucede com as galxias do
universo. Dizemos que o universo se expande.
- Qual  o motivo?
- A maior parte dos astrnomos concorda em que a expanso do universo s 
pode ter
uma explicao: h cerca de
dezoito mil milhes de anos,
toda a matria que constitui o
universo estava concentrada
num espao muito pequeno. A
matria era to densa que a
fora da gravidade a tornou
extremamente quente. Por fim,
a temperatura

448
atingiu nveis to elevados e
a matria era to densa e compacta que explodiu. Esta exploso  chamada 
o big bang.
- Fico arrepiada s de
pensar nisso.
- O big bang fez com que
toda a matria no universo
fosse lanada em todas as direces;  medida que arrefeceu, formaram-se 
as estrelas,
as galxias, as luas e os planetas...
- Mas estavas a dizer que
o universo continua em expanso?
- E isso deve-se justamente  exploso que se deu h
milhes de anos. O universo
no tem uma geografia intemporal. O universo  um acontecimento, uma 
exploso. As galxias continuam a mover-se no
espao a velocidades enormes.
- E vai ser sempre assim?
- H essa possibilidade,
mas existe tambm uma outra:
lembras-te que Alberto falou
a Sofia sobre as duas foras
que permitem aos planetas manterem constantemente as suas
rbitas  volta do Sol?
- Sim, no eram a fora da
gravidade e a da inrcia?
- A relao que existe entre as galxias  anloga,
porque apesar de o universo
continuar a expandir-se, a
gravitao actua numa direco
contrria. E um dia - daqui
a alguns mil milhes de anos
- talvez a gravitao faa
com que os corpos celestes se
contraiam novamente  medida
que as foras provocadas por
esta enorme exploso comecem a
diminuir. Teremos ento uma
exploso ao contrrio, ou seja, uma "imploso". As distncias so to 
grandes que
isto acontecer lentamente.
Podes compar-lo com o que
sucede se deixares sair o ar
de um balo.
- Isso significa que todas
a galxias sero comprimidas
at formarem novamente um centro compacto?
- Vejo que compreendeste.
Mas o que suceder em seguida?
- Haver provavelmente uma
outra exploso que provocar
uma nova expanso do universo,
porque as mesmas leis naturais
continuam a agir. Desse modo,
formar-se-o novas estrelas e
novas galxias.
- Um raciocnio correcto.
No que diz respeito ao futuro
do universo, os astrnomos
previram duas possibilidades:
ou o universo continua a expandir-se eternamente e as galxias afastar-
se-o entre si
cada vez mais, ou o universo
comear a contrair-se. O
factor decisivo para o que pode acontecer  a massa total
do universo; mas, at agora,
os astrnomos no tiraram concluses definitivas.
- Mas se o universo tiver tanta massa que se volte a
contrair, isso no quer dizer
que esses fenmenos de expanso e contraco j aconteceram mais vezes?

449
-  uma concluso aceitvel, mas tambm h a possibilidade de o universo 
se expandir apenas uma vez. Mas se
continuar eternamente em expanso, h uma questo mais
importante: de que modo ter
tudo comeado?
- Como  que surgiu aquilo
que explodiu de repente?
- Para um cristo,  natural considerar o big bang
como o momento da Criao: na
Bblia est escrito que Deus
disse: "Faa-se luz!". Talvez te lembres que Alberto
explicou que o cristianismo
tem uma viso "linear" da histria. A ideia de que o universo continuar 
em expanso
adequa-se mais  f crist.
- Ah!
- No Oriente, tem-se uma
viso "cclica" da histria,
ou seja, a histria repete-se
eternamente. Na ndia, por
exemplo, encontramos uma antiga doutrina, segundo a qual o
mundo continua a expandir-se e
a contrair-se. Deste modo, h
uma alternncia entre aquilo a
que os hindus chamam o "dia de
Brahma" e a "noite de Brahma". Este pensamento adequa-se mais  hiptese 
da expanso e contraco do universo,
segundo um processo cclico
eterno. Consigo ver  minha
frente um grande corao csmico que bate constantemente...
- Para mim, ambas as teorias so incrveis e fascinantes.
- E podem ser comparadas
aos pensamentos contraditrios
sobre a eternidade que Sofia
formulou no jardim: ou o universo existiu sempre ou foi
criado do nada, de repente...
- Au!
Hilde bateu na cabea.
- O que ?
- Acho que fui mordida por
um moscardo.
- Deve ter sido Scrates, que tenta arrancar-te 
inrcia...

Sofia e Alberto estavam
sentados no carro e ouviam o
que o major dizia a Hilde sobre o universo.
- J pensaste que os papis se inverteram complemente? - perguntou 
Alberto pouco depois.
- O que queres dizer?
- Antigamente, eram eles
que nos ouviam, e ns podamos
v-los. Agora, somos ns que
os ouvimos, e eles no nos podem ver.
- No  s isso.
- O que queres dizer?
- No incio, no sabamos
que havia outra realidade,
onde Hilde e o major viviam.
E agora, eles no sabem nada
sobre a nossa realidade.

450
- A vingana  suave.
- Mas o major podia intervir no nosso mundo...
- O nosso mundo era apenas
fruto da sua interveno.
- No quero perder a esperana de poder penetrar tambm
no deles.
- Mas sabes que  impossvel. No te lembras do que
aconteceu na estao de servio? Eu vi como tentavas retirar aquela 
garrafa de coca-cola.
Sofia ficou sentada a observar o jardim, enquanto o
major falava sobre o big
bang, a grande exploso. Foi
justamente aquela expresso
que a fez ter uma ideia.
Comeou a remexer dentro do
carro.
- O que ?
- Nada.
Abriu o porta-luvas, onde
estava uma chave-inglesa, depois saiu do carro. Foi para
junto do baloio e ps-se em
frente de Hilde e do pai.
Primeiro, tentou atrair o
olhar de Hilde, mas no conseguiu. Por fim, levantou a
chave-inglesa e bateu com ela
na testa de Hilde.
- Au! - exclamou Hilde.
Em seguida, Sofia bateu
com a chave-inglesa na cabea
do major, mas ele no reagiu.
- O que foi?
Hilde olhou para ele:
- Acho que fui mordida por
um moscardo.
- Deve ter sido Scrates,
que tenta arrancar-te  inrcia...
Sofia deitou-se na relva e
tentou empurrar o baloio, mas
ficou imvel. Ou teria conseguido mov-lo um milmetro?
- Est a levantar-se um
vento frio.
- No, est uma temperatura amena.
- No  s isso. H alguma coisa aqui.
- S ns dois e esta suave
noite de Vero.
- No, h alguma coisa no
ar.
- O qu?
- Lembras-te do plano secreto do Alberto?
- Sim, claro!
- Eles desapareceram da
festa de repente, como se tivessem sido engolidos pela
terra...
- Mais tarde ou mais cedo,
a histria tinha de acabar, de
resto foi uma coisa que eu escrevi.
- Sim, mas no escreveste
o que aconteceu depois. Imagina se estivessem aqui...

451
- Acreditas nisso?
- Eu sinto isso, pap.
Sofia voltou a correr para
Alberto.
- Impressionante - admitiu Alberto, quando ela voltou a entrar no carro 
com a
chave-inglesa na mo. - Esta
rapariga  dotada de poderes
raros!

O major ps um brao  volta de Hilde.
- Ests a ouvir o som maravilhoso das ondas?
- Sim.
- Amanh levamos o barco
para a gua.
- Mas ests a ouvir como 
estranho o sussurrar do vento?
Ests a ver como as folhas
dos choupos tremem?
- Este  o planeta vivo.
- Tu escreveste que havia
alguma coisa nas entrelinhas.
- Sim?
- Talvez tambm haja alguma coisa nas entrelinhas deste
jardim.
- Bom, a natureza est
cheia de mistrios. Vamos falar sobre as estrelas no cu.
- E em breve haver tambm
estrelas na gua.
- Sim, e quando eras pequena chamavas-lhes "fosforescncias" do mar, e de 
certo
modo tinhas razo, porque as
fosforescncias do mar e todos
os outros organismos so constitudas pela matria que anteriormente 
estava junta numa
estrela.
- Ns tambm?
- Sim, ns tambm somos
poeira de estrelas.
- Que palavras bonitas!
- Quando os radiotelescpios captam a luz proveniente
de galxias que esto a vrios
milhares de milhes de anos-luz de distncia, mostram-nos
o aspecto do universo como era
nos tempos primitivos. Vemos
as galxias mais longnquas,
por assim dizer, logo a seguir
ao big bang. Tudo o que um
homem pode ver no cu, so
fsseis csmicos que tm milhares e milhes de anos. A
nica coisa que um astrlogo
pode fazer  prever o passado.
- Porque as estrelas que
formam as constelaes se
afastaram umas das outras antes que a sua luz chegasse at
ns?
- H alguns milhares de
anos, as constelaes tinham
uma forma completamente diferente da que tm hoje.
- No sabia.

452
- Quando a noite  clara
vemos a histria do universo
h milhes, sim, h mil milhes de anos. De certo modo,
voltamos a casa.
- Explica isso melhor.
- Ns tambm nascemos com
o big bang, porque toda a
matria do universo forma uma
unidade orgnica. Nos tempos
primitivos, toda a matria estava concentrada numa massa
to pesada que uma cabea de
alfinete pesava muitos milhares de milhes de toneladas.
Essa "matria primordial" explodiu devido ao excesso de
gravidade, e desfez-se em muitos bocados. Mas quando olhamos para o cu, 
tentamos encontrar um caminho que nos
leve l acima.
-  uma maneira estranha
de pr as coisas.
- Todas as estrelas e galxias do espao so formadas
pela mesma matria. Parte
dessa matria comprimiu-se.
Uma galxia pode estar a mil
milhes de anos-luz de outras,
mas todas tm a mesma origem.
Todas as estrelas e planetas
so da mesma famlia...
- Estou a ver.
- E o que  essa matria?
O que  que explodiu h milhes de anos? De onde  que
veio?
- Esse  o grande mistrio?
- Mas  uma coisa que nos
diz respeito, porque ns tambm somos feitos dessa matria. Somos uma 
centelha da
grande fogueira que foi ateada
h milhes de anos.
- J tinhas dito isso.
- Mas no devemos exagerar
a importncia dos grandes nmeros. Basta agarrar numa pedra. Mesmo que 
fosse constitudo apenas por esta pedra,
das dimenses de uma laranja,
o universo seria igualmente
incompreensvel. A pergunta
continuaria a ser: de onde vem
esta pedra?

Sofia saiu do carro vermelho e apontou para a enseada.
- Apetece-me experimentar
o barco - exclamou.
- Est preso, e alm disso
no conseguiramos levantar os
remos.
- Vamos tentar.  o solstcio de Vero...
- Bom, podemos descer at
 gua.
Saram do carro e atravessaram o jardim.
No cais, tentaram soltar a
amarra que estava presa a uma
argola de ao. Mas no conseguiram sequer levant-la.
-  como se estivesse pregada - disse Alberto.
- Mas ns temos muito tempo!

453
- Um verdadeiro filsofo
nunca desiste. Se ns ao menos... consegussemos desfazer
este n...

- Agora h mais estrelas
no cu - disse Hilde.
- Sim,  o momento em que
a noite de Vero est mais
escura.
- Mas no Inverno so mais
brilhantes. Lembras-te da
noite anterior  tua ida para
o Lbano? Era o Ano Novo.
- Foi nessa altura que decidi escrever-te um livro de
filosofia. Tinha estado numa
grande livraria de Kristiansand, e tambm na biblioteca,
mas no encontrei nada que se
adequasse aos jovens.
-  como se estivssemos
no cimo de um dos plos da pelagem delicada do coelho branco.
- Ser que est algum l
fora, na noite dos anos-luz?
- O barco est a andar 
deriva! - exclamou Hilde.
- Sim,  verdade...
- No entendo. Ainda antes de tu chegares fui verificar se estava bem 
amarrado.
- A srio?
- Isso faz-me lembrar
quando a Sofia se serviu do
barco do Alberto. Lembras-te
que andou  deriva no lago?
- Vais ver que foi ela outra vez - disse o major.
- Brinca, brinca, mas durante toda a noite senti que
h alguma coisa aqui.
- Um de ns tem de se atirar  gua.
- Ento vamos os dois,
pap.

455
NDICE REMISSIVO

Aasen, Ivar ........ 312
Academo ............. 78
Alberto Magno ...... 167
Alexandre Magno
(356-323 a.C) 117,

120
Anaxgoras (500 -428 a.C)........ 41,

48
Anaximandro de
Mileto ............ 36
Anaxmenes de Mileto
(c. 570-526 a.C) 36,

40
Andersen, Hans
Christian ......... 313,

334,

346
Angelus Silesius
(1624-1677) .... 125
Antstenes .......... 120
Apolo ............... 30,

54,

56
Aristipo de Cirene, 121
Aristfanes ......... 71
Aristteles ......... 35,
61,87,97-111,117,119,
148,156,161-163,166,
180-181,186,199,208,
210,221, 232, 264, 281,
293, 311, 322, 361-362,
373, 408
Arquimedes ........... 276
Armstrong, Neil ..... 408
Asbjrnsen, Peter
Christian .......... 312
Asclpio ............. 30
Atena ................ 30,

72

Bach, Jobann
Sebastian .......... 306
Bacon, Francis ...... 181,

197
Balder ............... 30
Beauvoir, Simone de 402,

405-406
Beckett, Samuel ..... 406
Beethoven, Ludwig
van ................. 306,

313
Berkeley, George .... 90,
133,150,208,231,232,
237,250,251-254,270,
273, 283, 287, 316, 317
Bjrnson, Bjrnstjerne 377
Bhme, Jakob .......... 310
Bohr, Niels ........... 326
Breton, Andr ......... 390
Bruno, Giordano ....... 180

196

310
Buda ................... 242

336-337

Caldern, Pedro ....... 204
Camus, Albert ......... 406
Carlos Magno .......... 154
Chaplin, Charles ...... 407
Cristina da Sucia,
rainha ................ 208
Ccero, Marius Tullius 66,

121
Coleridge, Samuel
Taylor ............... 307
Condorcet, Marie Jean
A. N. ............... 282
Constantino, imperador 153
Coprnico, Nicolau 182-183

Dmaris ................ 145
Darwin, Charles ....... 188

276, 360-370, 373
Darwin, Erasmus ....... 361
Darwin, Robert ........ 359
Dass, Petter .......... 204
David, rei .........140-141
Demcrito de Abdera ... 42
44, 45-48, 61, 80, 104
122-123, 148, 205, 243,
260, 299
Descartes, Ren ....... 201
206-216, 221-224, 231
232, 234, 235, 240,
241, 251,279,281,287,
292-293, 321, 324, 346
Dickens, Charles ..... 346
Digenes de Snope ... 120
Dioniso ............... 30
Diotima ............... 87

456
Dostoievski ........... 340
Dyaus ................. 136

dipo, rei ............ 54,

71
Empdocles ........ 39-40,

42-43, 48, 79,

323-324
Engels, Friedrich 347, 352
Epicuro ..... 122-123, 346
Erasmo de Roterdo 189-190
Espinosa, Baruch ...... 201
206,208,219-226, 231
232, 251, 294, 309,
310, 321, 334
squilo ................ 71
Estaline ............... 347
Eurpides .............. 71

Fichte, Johann
Gottlieb ............. 313
Ficino, Marsilio 178, 190
Franklin, Benjamin .... 366
Freud, Sigmund ........ 276
381-384 386-390, 413
Freyja ........ 27-30, 136
Freyr ............. 30, 136

Galilei, Galileu ...... 181

183-188, 210
Gigantes ...... 27-29, 30
Goethe, Johann
Wolfgang von ......... 147

309, 376
Gombrowicz, Witold .... 406
Gouges, Olympe de 283-285
Grimm, Jacob e Wilhelm
(os Irmos Grimm) 312

438
Grundtvig, Nikolai
Frederik Severin .... 258
Gustavo III da
Sucia, rei ..... 202-203

Hamsun, Knut .......... 164
Haendel, Georg
Friedrich ............ 306
Hegel, Georg Whilhelm
Friedrich ............ 276
299, 320-329, 331, 333
334-336, 346-349, 351

402-403, 424
Heidegger, Martin ..... 402
Hefesto ............ 30, 72
Heimdall ................ 29
Henslow, John Steven 360
Hera ................... 30
Heraclito de feso 37-39

48, 120, 123, 323
Hrcules ................ 30
Herder, Johann
Gottfried ...... 311-312
Hermes ................ 60
Herdoto ............... 55
Hesodo ................ 30
Hildegard von
Bingen ......... 166-167

267
Hipcrates ............. 55
Hobbes, Thomas ....... 205
Hoder .................. 30
Hoffmann, E. T. A. 313
Hollerg, Ludvig ...... 204
Homero ................. 30
Hume, David .......... 208
232, 237, 238-248, 278
279, 287, 289-290
295-296, 310, 321

324, 408, 412

Ibsen, Henrik ........ 313

335, 340
Ionesco, Eugne ...... 406
Isaas ............... 141

Jesus Cristo .......... 33
64, 66,72, 108, 114
126, 135, 141-144, 146
152,160, 163, 219, 220

281, 336, 347
Jpiter ............... 136

Kant, Immanuel ....... 208
237, 276, 278, 286-291
293, 295-298, 301-302
303, 307, 310, 320

321, 323, 340
Kepler, Johannes 183, 186
Kierkegaard, Soren ... 276
299, 334-340, 346, 401

403, 408

Lamarck, Jean de ..... 361

364-365, 370

456-57
Lamettrie, Julien
Offray de ........... 205
Landstad, Magnus ..... 312
Laplace, Pierre Simon
de .................. 205
Leibniz, Gottfried
Wilhelm Freiherr von 206

208, 232, 334
Leonardo da Vinci .... 190
Lenine ................ 347
Loki ................28-29

457
Locke, John ........ 208
232, 233, 234, 235
236, 239, 251, 279, 287
Lus XIV de Frana,
rei ................ 200

203, 236
Lucas, apstolo ....... 64
Lutero, Martinho 189-190
Lyell, Charles 362-364

Malthus, Thomas .... 366
Maom ............... 155
Mao Tse-Tung ...... 347
Marco Aurlio ...... 121
Marx, Karl ......... 276
346-356, 357-359, 403
Mateus, apstolo .... 64
Mill, John Stuart 236
Mirandola, Giovanni
Pico della ........ 178
Moe, Jrgen ........ 312
Montesquieu, Charles 236

278-279

Newton, Isaac ...... 183

186-188, 196

205, 279, 281
Nietzsche, Friedrich 402

403
Njrd ............... 136
Novalis ........ 307-310

314
Odin ................ 28

30
Olaf da Noruega,
rei ................ 154
\verland, Arnulf ... 396

Parmnides ....... 37-39

42, 46
Paulo, apstolo ...... 72

144-146, 152

159, 221, 229
Pgaso .............. 240
Ptia ............... 54
Plato ............... 61
63, 75,76-87, 89
95, 98-100, 107-108
115, 117, 119, 124-126
135, 137, 143, 148, 153
155-156,158, 162-163
207,209-212, 229, 232
263, 264, 322, 349

361-362
Plotino ........ 123-126
135, 137, 265, 309
Protgoras de Abdera 62

Radhakrishnan ....... 12
Rawls, John ........ 356
Rousseau, Jean -Jacques .......... 237

278-280, 309
Ruskin, John ....... 369
Russell, Bertrand .. 246

Salomo, rei ........ 140
Santo Agostinho 157-162

207, 214
Sartre, Jean-Paul 276
402-404, 408, 416
Saul, rei ........... 140
Schelling, Friedrich
Wilhelm ........... 310
313, 316, 322, 336 346
Schiller, Friedrich 307
Sneca .............. 121
Shakespeare, William 203
Snorri, Sturlason .. 136

154
Scrates ............ 61
63-68, 75-79, 85, 87
115, 117, 119-121, 123
143, 148, 163, 207-208
212, 216, 221, 232, 261
279, 337, 340, 346

449-450
Sfocles ............ 71
Steffens, Henrik ... 310
S. Toms de
Aquino ....... 161-163
165-166, 175, 208, 214

293, 408

Tales de Mileto 35-36

40
Thor ............ 27-30
Trym ............ 28-29
Tucdides ......... 55
Tyr ............... 136
Vnus ............. 136
Vinje, Aasmud O. 326
Vivekananda, Swami 126
Voltaire ......... 237

278-279

Welhaven, Johann
Sebastian ......... 308
Wergeland, Henrik 222

308, 310
Xenfanes de Crpton 30
Xerxes .............. 71
Zeno de Crpton 120
Zeus ........... 30-136

459
NDICE GERAL

O JARDIM DO DEN
... algo teria de surgir
a certa altura do nada... 9

A CARTOLA
... para nos tornarmos
bons filsofos precisamos unicamente da capacidade
de nos surpreendermos... 16

OS MITOS
... um equilbrio precrio
de poderes entre as foras
do bem e as do mal... .... 26

OS FILSOFOS DA
NATUREZA
... do nada, nada pode
nascer... ............. 32

DEMCRITO
... o brinquedo mais
genial do mundo... ..... 44

O DESTINO
... o adivinho procura
interpretar algo que, na
realidade,  obscuro... 49

SCRATES
... a pessoa mais sbia 
aquela que sabe que no
sabe... ............. 57

ATENAS
... e das runas
elevaram-se edifcios imponentes... ............... 70

PLATO
... uma saudade de
regressar  verdadeira origem... .............. 75

A CABANA DO MAJOR
... a rapariga do espelho
piscou ambos os olhos... 89

459-60
ARISTTELES
... um homem meticuloso e metdico que queria pr em
ordem os conceitos dos homens... ............. 97

460
O HELENISMO
... uma centelha do
fogo... ............ 112

OS POSTAIS
... eu imponho a mim
mesmo uma severa
censura... ........... 128

DUAS CULTURAS
... s assim no
flutuars no vazio... 135

A IDADE MDIA
... percorrer apenas uma
parte do caminho no
significa enganar-se... 148

O RENASCIMENTO
...  estirpe divina em
vestes humanas... .... 168

O BARROCO
... da mesma matria de
que so feitos os
sonhos... .......... 193

DESCARTES
... ele queria remover
todos os velhos materiais
do terreno de
construo... ........ 207

ESPINOSA
... Deus no  um titereiro... .............. 219

LOCKE
... to vazia como um quadro
antes de o professor entrar na
sala de aula... .... 228

HUME
... ento lanai-o  fogueira... .............. 237

BERKELEY
... como um planeta que
gira vertiginosamente 
volta de um sol incandescente... ............ 250

Bjerkely
... um espelho mgico
antigo que a bisav
comprara a uma cigana... 255

O ILUMINISMO
... desde a produo de
agulhas at  fundio
de canhes... ...... 269

KANT
... o cu estrelado
acima de mim e a lei
moral dentro de mim... 285

O ROMANTISMO
... o caminho misterioso conduz ao interior... ..... 303

HEGEL
... o que  racional 
real... ............ 319

KIERKEGAARD
... a Europa est a
caminho da bancarrota... 330

MARX
... um fantasma assombra
a Europa... ....... 341

DARWIN
... um barco que
atravessa a vida com
uma carga de genes... 357

FREUD
... um desejo horrvel,
egosta, emergira
nela... ........... 379

O NOSSO TEMPO
... o homem est
condenado  liberdade... 395

A FESTA NO JARDIM
... um corvo branco... 416

CONTRAPONTO
... duas ou mais melodias
soam simultaneamente... 428

O BIG BANG
... ns tambm somos
poeira de estrelas... 445

NDICE REMISSIVO ... 455
